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Religião & Sociedade

On-line version ISSN 1984-0438

Relig. soc. vol.29 no.2 Rio de Janeiro  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-85872009000200001 

Editorial

 

 

Cem anos de oração

Não deixa de ser surpreendente que em muitas culturas do mundo o conceito e a prática da 'oração' sejam uma metonímia para referir-se a instituição social que denominamos 'religião' (monoteísta). Assim, o título do livro de Adeline Masquelier Prayer has destroyer everything (2001), por exemplo, nos anuncia que foi a chegada do Islão (la priére, como se diz em Níger) o que tanto 'estragou' o país, conforme o relato de algumas informantes à autora. Na África rural, de fato, as pessoas usam dizer que 'vão orar' para dizer que vão ao culto da semana, seja isto a ida à mesquita na sexta-feira ou ao templo cristão no domingo. Também é usual entre estas populações que as pessoas digam que os povos não monoteístas ('animistas', na terminologia local) 'não rezam' e, portanto, que 'não têm religião' (Sarró 2009). Se na terminologia científica usa-se dizer que cristianismo e islamismo são duas religiões do livro, de fato, na fala vernácula das zonas que as duas religiões convivem o comum é que as pessoas reconheçam não tanto a referência a um texto comum como a referência a uma prática comum: ambas são 'religiões da Oração' mais que 'religiões do Livro'.

Junto a esta capacidade metonímica do próprio conceito 'oração' para encapsular a vida religiosa monoteísta global, e junto com a prática coletiva de 'rezar' para exteriorizar que uma comunidade é religiosa, encontramos freqüentemente registrado pelos interlocutores dos cientistas sociais que trabalham com a religião que a oração é vivida como a prática mais importante no seio da vida religiosa individual. "Não se pode ser cristão sem rezar, da mesma maneira que não se pode viver sem respirar" escreveu o teólogo católico Romano Guardini em uma obra dedicada à oração (Guardini 1951). Afirmações semelhantes são pronunciadas pela boca de membros de diversas comunidades monoteístas. O teólogo alemão Fridrich Heiler (1918) em um dos primeiros tratados da oração (escrita no intervalo entre teologia e o que pouco depois viria a ser denominado fenomenologia da religião), também viu na oração o núcleo central da vida religiosa. Palavras muito similares apareceram anteriormente no início do texto de Marcel Mauss que hoje homenageamos, e aonde, se bem que com uma linguagem muito menos essencialista que a dos teólogos citados, descrevia a oração como "um dos fenômenos centrais da vida religiosa".

A centralidade da oração como atividade individual e a relação com entidades espirituais e a centralidade da oração como elemento aglutinador na vida religiosa eram reconhecidas na história das religiões em tempos anteriores a Heiler, se bem que foi ele quem primeiro sistematizou este conhecimento com sua obra de 1918. Certamente que a escola durkheimiana em seu afã de explicar como representações coletivas fatos humanos até aquela altura estudados como pertencentes à consciência pura e individual (o suicídio, a memória, a morte, a devoção aos santos, as categorias do pensamento, o espaço, a temporalidade, etc.) não podia deixar desatendido um fait social tão paradigmático como a oração. Na oração, como na linguagem (da qual depende diretamente), se encontra de forma particularmente feliz o individual e o coletivo, porque se é certo que ninguém pode rezar no lugar de outra pessoa, também é certo que cada um reza segundo os moldes pelo qual foi criado na sua tradição religiosa particular. Coube a ninguém mais que Marcel Mauss a honra (ou a maldição?) de perseguir o fenômeno e escrever sua tese sobre o assunto.

O texto de Mauss apareceu cem anos atrás, em 1909, ano duplamente glorioso para a antropologia da religião, pois neste mesmo ano Van Gennep publicou seu famoso Os ritos de passagem. Este livro (de cariz mais folclórica e enciclopédica e de pretensões teóricas mais limitadas que a obra de Mauss) conheceu uma popularidade inegável e é recorrentemente invocado como o ancestral totêmico do clã dos estudos sobre sistemas iniciáticos. Clã que conta entre seus membros com antropólogos tão prestigiosos como Victor Turner, Maurice Bloch, Havey Whitehouse entre muitos outros. O de Mauss, por sua vez, teve um destino mais lúgubre. Com o tempo, o texto caiu em uma 'amnésia estrutural' que os antropólogos freqüentemente encontram em tradições orais (e na nossa própria academia), sendo raramente invocado como ancestral totêmico de qualquer clã particular, como demonstra o fato de nem sequer apareça citado em um recente livro que pretende traçar a história de como foi estudada a oração pela academia e em que consiste como fenômeno religioso (Zaleski & Zaleski 2005).

De fato, o clã dos interessados pela oração de um ponto de vista sociológico e antropológico, que Mauss poderia ter gerado com seu texto, é um clã bem minúsculo, e quando se invoca a oração em algum texto é, normalmente, de forma superficial e mal tratada - com, claro está, consideráveis e brilhantes exceções que serão invocadas nos diversos artigos que o leitor lerá neste número de Religião e Sociedade. Por exemplo, apesar da centralidade da oração em uma vida religiosa e social de muitas comunidades muçulmanas da África ocidental invocada no início desta apresentação, não deixa de ser frustrante que os livros que apareceram nesta última década sobre comunidades muçulmanas nesta parte do mundo tenham a oração no próprio título (Prayer has destroyed everything, de A. Masquelier e Islam and the Prayer Economy, de Benjamin Soares) e, entretanto, nenhum dos autores trate especificamente da oração em nenhum momento da obra. Talvez os autores (ambos grandes especialistas do Islão na África subsaariana) tenham se deixado levar pela prática comum neste continente de utilizar 'oração' de forma metonímica para referir-se ao Islão, o que é perfeitamente legítimo. Porém a ausência de um tratamento específico da oração contradizendo o anunciado no título de ambos os livros é significativo da forma como se faz antropologia da religião. Sem dúvida, não seríamos tão condescendentes diante da ausência se, em vez de 'oração' no título do livro, fosse anunciado que seu objeto era os 'ritos de passagem' ou as 'iniciações'.

Seria injusto dizer que a ausência de tratamento sistemático da oração é um indício do fracasso do texto de Mauss, como freqüentemente se tem insinuado. É certo que o texto de Mauss é difícil, contraditório e de certa forma frustrante, e o fato que o próprio Mauss o tenha deixado inacabado é significativo da dificuldade da empresa que enfrentou por desígnio de Durkheim1. Temos a impressão de que o autor não conseguiu encontrar o ângulo teórico a partir do qual pudesse enquadrar tanto o material etnográfico como as reflexões anteriores sobre a oração. Sem dúvida, a pouca atenção que a oração tem recebido em estudos posteriores não se deve às dificuldades do texto de Mauss, mas pelo contrário: Mauss sofreu as dificuldades que enfrenta qualquer um de nós quando procuramos abarcar o que, para os próprios sujeitos religiosos, é o coração mesmo da vida e da prática religiosa. Neste sentido, curiosamente, o texto não é tanto nosso ancestral como nosso irmão.

Neste número coletivo convidamos autores a refletir, com material de diversas origens etnográficas e diversidade teórica, sobre o fenômeno da oração, e dar centralidade social o fenômeno. Todos os artigos nos ajudam a refletir sobre a dificuldade epistemológica da empresa e levantam perguntas semelhantes as que fez Mauss. Podemos 'definir' a oração? É útil, a nível analítico, a distinção neo-testamentária entre 'juramento' e 'oração'? Ou a distinção que faziam autores do século XX, herdada por Mauss, entre 'encantamento mágico' e 'oração religiosa'? Em que caso seria conveniente ver a oração como um rito oral ou como uma arte verbal? Que faz, para que serve, o corpo da pessoa quando ora? Qual é a importância do suporte material utilizado? Qual é a relação entre interiorização e exteriorização do ato religioso na oração? Onde rezamos? Quando? Com quem? Em que língua? Em que posição? Como aprendemos a rezar?

Não se pretende demonstrar que a empresa iniciada por Mauss com tanta dificuldade era, de fato, muito mais fácil que ele pensou. Provavelmente o que explica que a oração tenha permanecido tão desatendida nas aproximações antropológicas e sociológicas seja precisamente a dificuldade da tarefa, dificuldade a-histórica que perturbou Mauss e também a cada um de nós. Precisamente selecionamos estes artigos porque nos ajudam a compreender não apenas o papel da oração na vida religiosa de diversas comunidades, como também porque nos parecem, a nível hermenêutico, uma ferramenta útil para examinar nossa própria história, já que nos ajudam - e nos obrigam - a reler Mauss e a compreender os filões encontrados ao longo de seu texto. Neste sentido, não apenas homenageamos seu labor pioneiro como também dialogamos com ele, em um esforço centenário para curar nossa amnésia totêmica e desenterrar nosso ancestral, nosso irmão.

 

Ramon Sarró e Clara Mafra

 

Referências Bibliográficas

HEILER, Friedrich. (1932 [1918]), Prayer: A Study in the History and Psychology of Religion. Nueva York: Oxford University Press.         [ Links ]

GUARDINI, Romano. (1951), Initiation à la Prière. Paris: Alsatia.         [ Links ]

MASQUELIER, Adeline. (2001), Prayer has destroyed Everything: Possession, Power and Identity in an Islamic Town of Niger. Durham e Londres: Duke University Press.         [ Links ]

MAUSS, Marcel. (2003 [1909]), On Prayer. W.S.F. Pickering (ed.). Oxford e Nova York: Berghahn Books.         [ Links ]

SALAZAR, Carles. (2008), "Prayer and Symbolisation in an Irish Catholic Community". Etnográfica, 12 (2): 387-402.         [ Links ]

SARRÓ, Ramón. (2009), "Cómo los pueblos sin religión aprenden que ya tenían religión: notas desde la costa occidental africana". Quaderns de l'Institut Català d'Antropologia, 23: 103-122.         [ Links ]

SOARES, Ben. (2005), Islam and the Prayer Economy: History and Authority in a Malian Town. Edimburgo: Edinburgh University Press for the International African Institute.         [ Links ]

VAN GENNEP, Arnold. (1978 [1909]), Os Ritos de Passagem. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

ZALESKI, Philip; ZALESKI, Carol. (2005), Prayer: A History. Boston e Nova: Houghton Mifflin Co.         [ Links ]

 

Notas

1 Os textos que o leitor lerá neste número oferecem uma boa introdução ao texto de Mauss e suas dificuldades, de forma especial o de João Pina Cabral que abre o dossiê. Convidamos o leitor a ler a introdução de William Pickering à recente tradução inglesa (Mauss 2003), assim como o aporte crítico da mesma elaborado por Pickering e por Robert Parkin e a nota de conclusão de Howard Morphy. Um artigo recente de Carles Salazar sobre a oração em uma comunidade católica na Irlanda constitui também uma boa introdução à problemática tal como foi encarada por M. Mauss (Salazar 2008).

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