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Religião & Sociedade

Print version ISSN 0100-8587On-line version ISSN 1984-0438

Relig. soc. vol.37 no.2 Rio de Janeiro May./Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0100-85872017v37n2cap02 

Dossiê Religião na Paisagem

“O Papa é o melhor prefeito que a cidade já teve”: uma etnografia da paisagem urbana na capital da fé

Adriano Santos Godoy1 

1Universidade Estadual de Campinas - Campinas - São Paulo - Brasil

Resumo

Este artigo é baseado na etnografia da visita do Papa Francisco ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no ano de 2013, e tem por objetivo explorar a configuração da paisagem urbana da cidade-santuário de Aparecida, no interior paulista. Assim, pretende-se por um lado demonstrar como as relações entre os poderes religiosos e os poderes políticos manifestam-se naquele município, e por outro lado desvendar como a simultaneidade destes poderes coordena a paisagem urbana na Capital da Fé.

Palavras chave catolicismo; santuário; Nossa Senhora Aparecida; Papa

Abstract

This article is based on the ethnography of Pope Francis’ visit to the National Shrine of Our Lady Aparecida and it aims to explore the urban landscape configuration of the city of Aparecida/Brazil. Thus, on one hand, it intends to demonstrate how the relations between religious power and political power are manifested in that municipality and on the other hand, to unveil how the simultaneity of these distinct powers coordinates the urban landscape at the Brazilian Capital of the Faith.

Keywords Catholicism; shrine; Virgin Mary; Pope

Fotografia de Adriano Godoy. 2013.

Imagem 1 A cidade de Aparecida (SP) com a Rodovia Presidente Dutra e a Prefeitura Municipal à frente, assim como a Basílica e os hotéis ao fundo 

A fotografia do Papa Francisco dentro de um ônibus foi o assunto principal daquele dia1 e dos seguintes, em todos os espaços públicos da cidade de Aparecida, interior de São Paulo. Fosse nas praças, nas lojas, nas igrejas, na rodoviária ou na feira, as pessoas comentavam sobre a fotografia, amplamente divulgada pelos meios de comunicação, na qual o líder máximo da Igreja Católica usa o transporte coletivo para se dirigir a Capela Sistina e celebrar sua primeira missa como Sumo Pontífice.

Nesta primeira missa, assim como em diversos outros momentos, o pontífice optou pelo título de Bispo de Roma, salientando tanto o seu papel de pastor daquela diocese, como indicando horizontalidade com os demais bispados. Porém, desde a sua primeira aparição, ficou clara a sua capacidade de influência na distante Arquidiocese de Aparecida no Brasil.

A repercussão da fotografia foi grande na imprensa nacional e internacional, mas naquela cidade ela era potencializada porque, ao lado do Papa Francisco - devidamente paramentado e dividindo o mesmo assento do ônibus - estava o Cardeal Damasceno2. Além de ser brasileiro, era presidente3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Arcebispo da Arquidiocese de Aparecida.

Assim como os demais meios de comunicação locais, a Rede Aparecida de Televisão4 dedicava sua programação quase com exclusividade à cobertura jornalística Conclave5. A importância conferida ao evento é difícil de ser questionada, já que elege o líder da Igreja Católica Apostólica Romana, uma instituição religiosa com mais de um bilhão de seguidores, e que dispensa longas apresentações. Contudo, o Conclave ocorrido no ano de 2013 teve diferenças consideráveis em relação aos anteriores. A renúncia do Papa Bento XVI6, algo que não ocorria em 598 anos7, resultou na eleição do Papa Francisco8: o primeiro papa latino-americano, o primeiro papa jesuíta e o primeiro papa com esse nome.

Como foi confirmado pelo próprio bispo pelas redes de televisão, na viagem de ônibus, ele conversou com o novo Papa sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 9 daquele ano, que aconteceria no Rio de Janeiro, e fez o convite para que ele também visitasse o Santuário Nacional de Aparecida. E o Papa Francisco aceitou.

Papa Bento XVI havia excluído a possibilidade de visitar a cidade-santuário pela segunda vez, alegando restrições de saúde, e viajaria exclusivamente para a capital fluminense. Dessa forma, a JMJ não havia despertado o interesse dos aparecidenses já que a cidade só participaria de um dos pequenos pré-eventos.

A divulgação da fotografia do ônibus foi o evento que fez com que a visita papal pautasse a agenda do município. A imagem foi mostrada durante dias, em diversos programas, e deu origem a uma série de rumores que prevaleciam como assunto nos espaços públicos da cidade: as pessoas indagavam se o novo Papa realmente visitaria Aparecida e quais seriam as consequências disso.

Ocorrida poucos anos antes, as consequências da visita do Papa Bento XVI estavam presentes na memória de muitos aparecidenses que respondiam ora com entusiasmo, ora com ceticismo. Assim, os rumores de maneira alguma estavam pautados pela indefinição ou pela surpresa, mas justamente pela experiência nesse tipo de evento. Isso ficou evidente nas conversas que mantive com dona Ana, uma senhora aposentada que vivia no centro da cidade. Certa vez ela me afirmou que “na semana do Papa vai ter gente limpando as luminárias da rua com cotonete, você vai ver, mas depois vai voltar a ser essa porcaria aí” - concluindo - “o Papa é o melhor prefeito que a cidade já teve”.

Ela se referia às iluminarias padronizadas, assim como às lixeiras em forma de sinos e aos ladrilhos vermelhos e cinzas que foram instalados nas principais vias da cidade durante a preparação para visita papal de 2007, mas que não recebiam manutenção e limpeza adequadas desde então. Pude perceber reações parecidas entre lojistas, feirantes e ambulantes. Com o passar do tempo, e mesmo com o ânimo pela visita, era evidente que aquele evento operava mais no nível do ordinário do que do extraordinário para aquela cidade-santuário.

A Cidade-Santuário

Longe de ser dado por acaso, o título de Santuário é regulamentado pelo Código de Direito Canônico (Vaticano, 1991) que os normatiza segundo o seguinte cânone:

Cân. 1230 - Pelo nome de santuário entende-se a igreja ou outro lugar sagra do aonde os fiéis, por motivo de piedade, em grande número acorrem em peregri nação, com a aprovação do Ordinário do lugar.

Sendo um local no qual as pessoas “em grande número acorrem em peregrinação”, atualmente treze milhões anuais, inevitavelmente o fluxo continuo de pessoas que se direcionam ao santuário tem grande impacto na paisagem urbana da qual faz parte.

A relação entre um santuário e a cidade na qual está localizado se dá de diversas formas: usualmente a relação é tão intensa, ou mesmo orgânica, que é difícil definir uma separação clara entre esses dois espaços. O nome de cidade-santuário evoca a transformação da cidade, além do santuário, em um centro de peregrinações.

Uma das evidências dessa relação intrínseca pode ser constatada na história e em seu próprio nome. Usualmente os títulos conferidos à Virgem Maria advêm de uma qualidade10ou da sua localidade11. A devoção à Nossa Senhora Aparecida tem início no ano de 1717 com a aparição de uma imagem de barro de Nossa Senhora da Conceição em uma vila de pescadores no município de Guaratinguetá (SP). Sem incorporar o nome da cidade, a santa é identificada pela sua aparição nas águas do rio Paraíba do Sul e, com o passar do tempo, fez com que a vila se desenvolvesse quase exclusivamente em função dessa devoção, até a sua emancipação, em 1928, quando inversamente foi a nova cidade que assumiu o nome da santa: Aparecida.

Ao fazer o uso do termo cidade-santuário a intenção não é apenas a de explicar a influência de um espaço sobre o outro, mas salientar que são intrínsecos, dada a referência a esse duplo sentido do espaço. O Santuário Nacional e a cidade de Aparecida (SP) são administrados de maneira distinta, mas dividem o mesmo mito fundador que é materializado na imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Não se pode ignorar que o robusto sistema viário que dá acesso à cidade de Aparecida é um dos fatores que contribuem para o seu expressivo número de visitantes anuais. Se até meados do século passado esse fluxo advinha principalmente através da Estrada de Ferro Central do Brasil12, atualmente ela é feita pela Rodovia Presidente Dutra (BR-116). Além disso, considerável parte das ruas centrais, e que dão acesso ao santuário, integram uma rodovia estadual (SP-062) e outra federal (BR-488) 13. A depender do seu sistema viário, toda a região central da cidade se configura como um local de passagem. Situada no Vale do Paraíba, entre as duas maiores capitais do país e em uma região altamente populosa, o santuário de Aparecida consegue ser central sem deixar de ser periférico.

A localização geográfica tem destaque na análise que Turner (1973) faz ao tentar traçar as características comuns entre santuários católicos em diversos países. O autor afirma que os santuários católicos são invariavelmente periféricos, ou seja, suas localizações não coincidem com capitais políticas nem econômicas dos países. Seguindo este padrão identificado, a cidade de Aparecida não é nem uma capital política e nem econômica. Contudo, conforme Fernandes (1994), a sua localização é fundamental para entender o seu desenvolvimento.

Ainda segundo Turner (1973), a consolidação de um santuário é capaz de transformar completamente o seu entorno através do desenvolvimento econômico trazido pelo fluxo constante de pessoas. Aliás, afirmação essa já constatada anteriormente por Weber ao afirmar que “Templos e mosteiros, em toda parte, tornaram-se os próprios centros de economias racionais” (1997: 165). Como o santuário de Aparecida é o mais central entre os periféricos santuários brasileiros, consequentemente, o seu desenvolvimento urbano e econômico foram vantajosos.

No afastamento da tradição turneriana, a coletânea de Eade & Sallnow (1991) rejeita a uniformidade ou padronização dos centros de peregrinação. Chamando-os de centros sagrados, defendem que, pelo contrário, a abordagem deve se dar tanto pelas peculiaridades como pelas diferentes instâncias em que elas se manifestam. Assim, aproxima-se da presente proposta:

O centro sagrado, então, pode assumir muitas formas diferentes. O impulso do nosso esforço analítico não deve ser para formulação de generalizações, cada vez mais inclusivas e consequentemente mais vagas, mas sim para o exame das peculiaridades específicas, de sua construção em cada instância. 57

O exame das peculiaridades de Aparecida indica ser necessário mais um movimento: o termo centro sagrado é insuficiente, já que deixaria de lado a economia e a política locais, esferas fundamentais no contexto descrito. A cidade de Aparecida é conhecida por ser um grande centro comercial, justamente por ser um centro religioso. A grande quantidade de lojas, hotéis, restaurantes e pousadas é marcante. Essa característica geográfica implica em uma peculiaridade, de ordem espacial e temporal, que envolve multidões e vazios.

Com exceção do período da quaresma, o movimento costuma ser alto durante todo o ano, com maior concentração de outubro a dezembro. Os dias de folga e descanso são as segundas e terças-feiras. Nestes dias a maior parte dos prédios está com as portas fechadas e as ruas completamente vazias. Como a região central é majoritariamente voltada para os romeiros, numerosos nos finais de semana, os dias de movimento e trabalho são intensos nos feriados e de sexta-feira a domingo, dias em que é comum encontrar lojas funcionando das 6 horas até meia noite.

Com uma economia toda voltada para o comércio e o turismo religioso, o aparecidense tem no fluxo de romeiros a sua fonte de renda. Nesse sentido, não só os hotéis e restaurantes, mas, principalmente, a feira livre é aquela mais afetada pelas oscilações de público. Notadamente, durante as visitas papais.

As visitas do Papa João Paulo II e do Papa Bento XVI

Conhecido como o “Papa Peregrino”, João Paulo II14 teve um pontificado marcado pela sequência de viagens que fez ao redor do mundo e foi quem fez a primeira visita pontifícia ao Brasil. Arno Vogel (1997) fez uma análise profunda dos rituais e simbolismos produzidos no âmbito deste episódio histórico e que ainda hoje ecoa na memória religiosa no campo religioso brasileiro. O autor demonstra como o Papa João Paulo II, altamente popular, carregava simbolismos que incluíam e ultrapassavam os religiosos e políticos. Se essa visita ocasionou situações de drama social (Turner 2008) nacionalmente, na cidade elas foram ainda mais intensas.

A viagem pelo país, em 1980, se deu exclusivamente através das capitais, com uma única exceção: Aparecida. O motivo oficial da visita pontifícia foi o de inaugurar e consagrar a grandiosa igreja em honra a Nossa Senhora Aparecida, á época já portava os títulos de Rainha e Padroeira do Brasil. Ao analisar a devoção à santa, Fernandes (1994) narra os preparativos da cidade para o evento:

João Paulo II não poderia faltar a uma visita a Aparecida durante a sua peregrinação pelo país em 1980. Realizaria, então, um sonho antigo dos padres redentoristas, os responsáveis pela administração do santuário. O sumo pontífice, em pessoa, faria a consagração do fabuloso templo, construído com as ofertas dos peregrinos no decorrer das últimas décadas. As expectativas forçavam os limites da imaginação. Aparecida recebe centenas de milhares de romeiros nos períodos mais intensos do ano. Quantos viriam testemunhar o encontro único do monarca universal com a Rainha da Igreja? O governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf, homem com sensibilidade aguda para os números, fez uma contribuição especial: em tempo recorde, um monte vizinho ao templo foi aplanado para acomodar um imenso parque de estacionamento. (...) A excitação antecipada passou ao alarme. Estaria a cidade capacitada para acolher a multidão? Lugar para dormir, comida, água, banheiros, amparo médico, o espaço simplesmente, para dois milhões de pessoas, quem sabe mais - era excessivo e ameaçador. (Fernandes, 1994: 103-104)

Na ocasião, sem precedentes, as expectativas de êxito eram confrontadas com a falta de infraestrutura de uma cidade de pequeno porte. O estado de liminariedade (Turner 2008) proporcionado pelo anúncio da visita alimentou os rumores e direcionou a agenda pública do município. Como indicado, esse estado de indefinição implicou no envolvimento do governo estadual, que efetuou obras de grande porte em tempo reduzido. Porém, ao final, a chegada do pontífice não correspondeu às expectativas:

Na cidade da Padroeira do Brasil, consagrou a Basílica dedicada a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, recomendando a Mãe de Deus como modelo da Igreja. Mas a esperada apoteose, para qual a cidade tinha se preparado com afinco, investindo uma pequena fortuna, não aconteceu. Nada mais que o número usual de fieis. Na verdade, até um pouco menos do que nas festas anuais da padroeira, ou nos meses fortes de romaria. Diante das expectativas, um fracasso. Para os comerciantes de todos os ramos, cujos estoques de alimentos, souvenirs e serviços encalharam. E para o acontecimento, que despertou desapontamento e perplexidade. (Vogel, 1997:197)

O resultado, no entanto, surpreendeu a todos. João Paulo II, que reunia multidões nunca vistas por onde passava, foi de certo modo desapontado em Aparecida. Apenas umas 300 mil pessoas apareceram (segundo os dados oficiais, talvez inflacionados), número costumeiro para um bom domingo. As explicações evoluíram rapidamente para acusações aos organizadores, sendo o governador um dos principais acusados. (Fernandes, 1994:104)

Cumprindo o motivo oficial da visita, a consagração do novo templo, a frustração indica que não era apenas isso que se esperava do evento: o baixo número de pessoas não teve retorno econômico relevante para os moradores, assim como o que ocorreu com os uruguaios no filme O Banheiro do Papa15. Os aparecidenses, por sua vez, culparam justamente a administração pública, nas figuras do prefeito e do governador, tanto por serem incapazes de prever o fiasco como por não prover a infraestrutura necessária.

Mais de vinte anos depois, em maio de 2007, foi o Papa Bento XVI quem visitou a cidade para participar da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe 16 que aconteceu justamente em Aparecida. Em outro contexto sociopolítico, também foi diferente o caráter da visita que se restringiu ao estado de São Paulo. Entretanto, as comparações são inevitáveis não só por se tratar de uma visita pontifícia, mas também pelos seus desdobramentos na paisagem urbana:

A Prefeitura de Aparecida terá três semanas para realizar as últimas obras de adequação da cidade para a visita de Bento XVI ao interior paulista. A pavimentação de cerca de 20 ruas e a instalação de um reservatório de água só devem começar a exatos 19 dias da chegada do Papa (...). O prefeito, que se identifica pelo apelido “Zé Louquinho” (PFL) assinou na terça-feira dois decretos que declaram “emergência” para início das obras, dispensando a licitação para contratar empresas. (...) “Nós estávamos em processo eleitoral, eu não poderia pedir a liberação dos recursos antes”, justificou Zé Louquinho. Os recursos que somam R$ 2,27 milhões foram liberados pelo governador José Serra (PSDB) na segunda semana deste mês. De acordo com o prefeito, a pavimentação das ruas deve ser executada por empresas da região. (...) O novo reservatório será instalado ao lado de outros dois situados em um morro dentro do Santuário Nacional e deve aumentar a capacidade de armazenamento na cidade de 4 milhões de metros cúbicos de água para 5,5 milhões. A cidade tem cerca de 36 mil habitantes e recebe em fins de semana com festas religiosas cerca de 150 mil. Entre as obras que já estão em andamento na cidade, está a substituição da iluminação com lâmpadas de vapor de Mercúrio, para luminárias com lâmpadas de Sódio. Batizado de “Projeto Reluz”, o serviço foi financiado pela Eletrobrás e pela Bandeirantes Energia. A verba para substituição da iluminação em toda cidade será de R$ 1 milhão (...). Zé Louquinho garantiu que os focos do mosquito da dengue registrados neste mês na cidade não devem atrapalhar a visita dos romeiros. Ele afirma que nesta semana cerca de 200 homens da Polícia Militar visitaram os bairros de maior risco de proliferação do transmissor da doença. (Moreira, 2007)

Como se pode perceber nesse recorte, o cenário era bem parecido com aquele de duas décadas antes: confirmada a visita do pontífice, as obras de infraestrutura só foram realizadas, de fato, com poucos dias de antecedência. Com outro prefeito e outro governador, mais uma vez as verbas públicas foram aprovadas através de decretos e declaração de emergência. O que se nota, por outro lado, é que nessa segunda visita as obras foram mais amplas: além de recapeamento das ruas, serviços estruturais de iluminação, saneamento e ações públicas na área de saúde.

Com uma visita mais longa, incluindo a pernoite do Papa na cidade, as expectativas de comércio foram altas. Porém, o fiasco de público se repetiu. Um comerciante com quem mantive diálogo destacou que a quantidade de água e refrigerante que comprou para aquele dia acabou se tornando o estoque para os seis meses seguintes. Outro investiu em produtos com a estampa do rosto do pontífice e, com a baixa venda, precisou reciclar os materiais com estampas novas. Sobre o episódio afirmou: “aqui tá todo mundo vacinado com o Papa, agora a gente já sabe que é só um domingo a mais no mês”.

De todo modo, tendo em vista que a visita do Papa Bento XVI, em 2007, proporcionou um legado de investimento público na cidade, só comparável com o investimento recebido com a visita do Papa João Paulo II, em 1980, havia a esperança que isso se repetisse caso o Papa Francisco visitasse a cidade, em 2013.

A visita do Papa Francisco

A confirmação oficial da visita só aconteceu em maio daquele ano, e foi tema do programa diário “Especial JMJ 2013”17 que abordava os preparativos para o tão esperado evento. Nesta ocasião, o jornalista Eduardo Miranda (J) entrevistava, ao vivo, os dois bispos da Arquidiocese de Aparecida: Cardeal Damasceno (CD) e Dom Darci18 (DD):

(CD) Bom, é claro que é uma visita mais breve, né? Como já anunciamos aqui, apenas um dia. E, claro que o Papa vai vir ao Santuário, irá ao Seminário Bom Jesus, a Pousada do Bom Jesus, e fará esse percurso no papamóvel, portanto, vai percorrer o centro da cidade e não fará aquele percurso que o Papa Bento XVI fez. Ele fará o percurso pelo centro mesmo, tanto na ida como na volta, também para tomar novamente o helicóptero de regresso ao Rio de Janeiro. Então é claro que a cidade terá que fazer alguma coisa. É, costuma-se dizer, popularmente, que o Papa em suas visitas a algumas cidades é sempre o melhor prefeito daquela cidade [risos]. É porque em pouco tempo, e poucos dias de sua presença, muitas vezes a cidade se movimenta.

(J) Se faz o que não se faz em quatro anos, não é Dom Damasceno?

(CD) É... se movimenta na preparação. (...) na visita do Papa, embora seja de um dia só, então a cidade tem que se preparar: segurança, alimentação, saúde (...) os hotéis, é claro, temos que trabalhar agora pra dar uma acolhida melhor aos romeiros, é claro, em primeiro lugar que são os nossos fregueses é, vamos dizer assim, clientes permanentes aqui, que vêm sempre por causa de Nossa Senhora, mas agora vamos ter uma visita ilustre também que é do Papa Francisco. Então precisamos acolhê-lo também com dignidade, com simplicidade como é o estilo do Papa Francisco, mas com todo o respeito e com toda a dignidade também que ele merece.

(J) (...) O Santuário já demonstrou que é muito competente na organização de grandes eventos só que a cidade precisará receber em torno de 300 a 400 mil pessoas e esses peregrinos que virão até Aparecida querem estar tranquilos, né? Da sua estadia, da sua permanência na cidade de Aparecida. O que precisava ser feito urgentemente pra garantir essa tranquilidade ao peregrino?

(DD) Nós estaremos contando com certeza com as forças militares e todas as forças de ordem pública, mas a prefeitura de Aparecida vai ter que se esmerar também para apresentar não só ao santo padre, mas ao peregrinos, ao Brasil e ao mundo inteiro, porque será notícia no mundo inteiro, uma cidade mais bonita, esteticamente melhor organizada especialmente aquele centro da cidade (...) Nós temos ali, aquela, uma praça, uma praça tão bonitinha, tão carinhosa, mas tão atulhada! (...) Não bem cuidada! Agora temos, também, um esforço bastante grande do prefeito Márcio que, aliás, agora sofre uma intervenção, e assume o atual vice-prefeito, o Sargento Ernaldo, e temos uma relação muito boa com o poder público municipal. E nós estamos na expectativa, também daquelas barracas da feira, que contorna o Santuário Nacional, já está em processo de organização da grande avenida, onde ali serão colocadas as barracas, até porque a feira, que é uma instituição que devemos prezar, que devemos proteger, que devemos incentivar, esteja melhor postada naquele espaço, que tá ficando um espaço muito bonito, um espaço aberto. Então se melhor organizado, todos vão ganhar: tanto os feirantes, como aqueles que visitam e gostam de ir comprar na feira, como a própria cidade de Aparecida, e os transeuntes, os nossos queridos romeiros, que merecem uma cidade melhor organizada.

(J) Tempo há, não é Dom Damasceno? Pra se organizar no trabalho conjunto que evolve a Arquidiocese, o Santuário, a Prefeitura Municipal e todos os órgãos públicos envolvidos na preparação pra visita do Papa.

Neste longo recorte da entrevista é possível elencar alguns pontos fundamentais para a presente análise. O primeiro deles é a evocação de que “o papa é o melhor prefeito”: se, até então, tinha ouvido dos aparecidenses, dessa vez a afirmação vinha do próprio arcebispo da cidade. Ainda mais pertinente naquele contexto, a evocação era precisa, porque feita no momento delicado em que o prefeito municipal estava afastado da função19.

Em todos os casos, essa afirmação era feita com base em experiências anteriores, mas, como se pode observar no decorrer da entrevista, ela é usada em tom de exigência: os bispos cobravam que houvesse um comprometimento da Prefeitura Municipal para que ocorressem as mudanças estruturais necessárias para o evento.

Indo mais além, a cobrança específica à Prefeitura Municipal trazia consigo a garantia de que tanto o Santuário Nacional tinha capacidade de cumprir o seu papel, como já contava com o apoio de emissários do Vaticano, representantes do exército, das polícias e do governo estadual.

Imagem 2 Frente e verso do panfleto distribuído pela Prefeitura Municipal 

A entrevista teve ares de manifesto dos bispos em prol do “trabalho conjunto” para o evento que se aproximava. Contudo, no dia posterior, o que pude observar foi um descontentamento público com o discurso, principalmente no que dizia respeito à proposta de organização da feira. Os que trabalhavam naquele espaço não viam, nem acreditavam em uma relação horizontal com os poderes públicos nem com o clero. Pelo contrário, denunciavam uma relação verticalizada na qual consideravam serem sempre os mais prejudicados.

A Feira

Acontecendo há mais de quarenta anos aos finais de semana e feriados, a chamada feira aberta de Aparecida se localiza nas vias que dão acesso ao Santuário Nacional. Em 2013, eram mais de duas mil bancas montadas.

A visita papal coincidiu com um momento de tensão política na cidade: além do afastamento do prefeito, havia uma demanda por modificações na disposição da feira. Ao final de 2012, o Ministério Público exigiu que a Prefeitura Municipal reorganizasse a feira, com base em uma denúncia da administração do Santuário Nacional. Segundo consta na legislação, Rodovias Federais não podem ser obstaculizadas e a reclamação visava à desocupação da feira de parte da Rodovia BR-488. Alegando prazos curtos e tendo em vista a instabilidade na administração pública, a Prefeitura Municipal, com apoio da Câmara dos Vereadores, conseguia várias prorrogações do prazo final para a resolução do problema.

Ao mesmo tempo, os feirantes atônitos buscavam se organizar para ter voz frente à inevitável reorganização do seu espaço de trabalho. Longas assembleias e reuniões cheias aconteciam semanalmente, buscando traçar alguma estratégia.

Essas ações coincidiram com o momento de efervescência política por todo o país no ano de 2013. Inspirados pelas recorrentes manifestações pelo Brasil, os feirantes promoveram algumas passeatas pela cidade que, não por acaso, tiveram sempre três alvos: a câmara de vereadores, a prefeitura e o Santuário Nacional.

Sem consultar os feirantes, a Prefeitura divulgou um mapa que mudava os locais das bancas, o que faz toda a diferença naquela geografia do consumo. Com os protestos, e conseguindo uma audiência com os vereadores, aquele mapa foi vetado e reelaborado algumas vezes. Foi nesse contexto, e acompanhando as ações políticas desse grupo, que estabeleci contato com Rosângela, uma das lideranças locais. Rosângela fazia questão de destacar o caráter independente da organização dos feirantes e disse emocionada em uma das assembleias:

Porque hoje tudo o que eu tenho eu tirei aqui da Feira. Tenho criança pequena que eu quero na faculdade. E isso só vai vir da Feira. Essa comissão aqui não tem vereador, não é da prefeitura, não é do sindicato, não é da associação: somos nós. O que temos em comum? Somos ambulantes. É quem trabalha no solo. Nós não estamos como a prefeitura fazendo politicagem. O que a gente tá fazendo aqui é política. É bem diferente. O que a gente tá fazendo aqui tá de parabéns todo mundo. Nesse momento, quero agradecer todos vocês, todos vocês que vieram lutar pelo direito de vocês. Agora vamos fazer um minutinho de silêncio pra gente agradecer que nós conseguimos parar a marcação da feira, para que seja feito da melhor maneira possível, e transparente. Agora tem que ter sabedoria. Então vamos agradecer a Deus, gente? A gente tá todo mundo junto aqui, e com isso evitamos muitas brigas. Devemos juntos evitar no futuro injustiças, brigas e prejuízos. Tá? Não sei a religião aqui de cada um, mas vamos rezar um pai-nosso pra gente agradecer a Deus nesse momento, independente de religião. O pai-nosso é pra todos, gente. Senhor meu Deus, eu te agradeço senhor por estarmos juntos aqui. Eu agradeço pai, pedimos sabedoria senhor, pra estar junto aqui de todos vocês. Agradeço também Nossa Senhora. Olha gente, que lindo, aquilo ali é nossa casa [aponta para a Basílica, no final da avenida]. Dos católicos, tá? Mesmo as de outras religiões, Deus é pai de todos. De todos. Maria é a mãe de Jesus.

Esse trecho do discurso evidencia a aversão à política institucional, representada pela prefeitura, os sindicatos, as associações e os vereadores. Discurso que se repetia nas manifestações de junho de 2013. Considerando a Igreja como parte dessas instituições de poder na cidade, de todo modo, a fala de Rosângela também evidencia que isso não implica em aversão à religião. A identificação da Igreja como a “nossa casa”, acompanhada da oração, é ao mesmo tempo reafirmação do seu catolicismo, como um posicionamento de que a Igreja pertence a todos, e não ao grupo seleto que a administra.

Um dos rumores da cidade é que parte dos comerciantes não pagam impostos, já que têm seus pontos comerciais em propriedades da Igreja, que faz locação de alguns imóveis. Como me afirmou um feirante:

Dizem que a igreja não deve pagar imposto e eu concordo e defendo isso, religião é sagrado mesmo, mas aquilo lá não é nem religião nem igreja, é igualzinho isso aqui. Tudo que vende aqui vende lá! Mas não dá pra mexer nisso não, aqui na cidade, os padres são o quarto poder”.

Levando em consideração os produtos comercializados, que são praticamente os mesmos em ambos os espaços, ele não julgava justa a ausência de impostos20.

Ao mesmo tempo em que se ouvia “o Papa é o melhor prefeito que a cidade já teve”, uma crítica bem-humorada à prefeitura, tornou-se corrente à crítica aos padres da administração do santuário na forma da frase corrente “os padres são o quarto poder”. Na análise política dos meus interlocutores, a reorganização proposta vinha de “quatro poderes”: o Executivo implementando a reforma com apoio do Legislativo, por imposição do judiciário, graças à denúncia feita pelo clero.

Nesse contexto, a confirmação da visita do Papa Francisco surtiu grande efeito e os rumores se multiplicavam. Como me disseram:

“Esse papa tá mudando tudo, chegou a ver que ele dispensou a limusine e a corrente de ouro? Dá até esperança de ver gente boa e humilde assim, na Igreja, porque a gente tá acostumado com os padres daqui”.

Dizia-se que o Papa Francisco não respeitaria as normas estabelecidas e que fariao percurso a pé e descalço. Outros afirmavam que o Papa se surpreenderia com a quantidade de lojas ao redor da igreja e usaria seu poder para proibir esse tipo de comércio.

Mas o rumor de que Executivo, Legislativo, Judiciário e o Clero se aproveitariam da visita do Papa para fazer prevalecer os seus interesses foi o que mais se difundiu entre os feirantes. Considerando que a única solução possível passava pela redução de danos, os feirantes estavam dispostos a usar do mesmo evento religioso para seus fins econômicos e políticos.

Na semana anterior à visita papal, as previsões se concretizaram e um ofício da justiça dizia que a data limite para a organização da feira era o dia imediatamente anterior ao da visita. Caso não fosse respeitada a resolução, a feira não ocorreria naquele dia e a nova organização seria feita pela juíza responsável. Nessa mesma semana ocorreram calorosas assembleias de feirantes debatendo as diversas propostas do Executivo e do Legislativo.

Por fim, um acordo foi estabelecido: os feirantes que ocupavam as rodovias federais não montaram suas bancas naquele dia e uma comissão formada por vereadores e feirantes apresentaria uma nova proposta de organização para o final de semana imediatamente posterior ao da visita21.

A partir do dia da visita do Papa Francisco, as bancas que ocupavam as rodovias federais não foram mais montadas, solucionando o impasse de meses. Alegando surpresa diante de tal gesto, o prefeito publicou uma carta de agradecimento pela boa-vontade dos comerciantes. Na assembleia em que essa pauta foi discutida, porém, os argumentos estratégicos foram precisos: não haveria retorno econômico relevante na visita pontifícia e insistir nesse ponto poderia resultar em uma interferência direta do judiciário na feira, o que não era do interesse de ninguém.

Muitas das falas feitas durante a assembleia foram de feirantes que não ocupavam as vias federais. Eles argumentaram que não montariam suas bancas naquele dia porque o movimento seria baixo e porque queriam assistir à missa do Papa Francisco.

A partir daquele dia a feira passou a acontecer apenas na Avenida João Paulo II que foi reinaugurada com espaço mais amplo e com toda a infraestrutura de segurança, conforme demanda da administração do Santuário e imposição do Ministério Público. No período imediatamente anterior à visita papal, todas as obras de infraestrutura na cidade se concentram no recapeamento das vias, principalmente nas quais o papamóvel transitaria. Foram retiradas todas as lombadas e as luminárias foram devidamente limpas.

A Capital da Fé

Os relatos, trazidos até aqui, demonstram como as três visitas papais foram fundamentais para a configuração da paisagem urbana de Aparecida, corroborando a tese de que “o papa é o melhor prefeito que a cidade já teve”. Cada qual diretamente relacionada ao seu contexto político e econômico, as visitas papais são dotadas de profundo simbolismo (Vogel, 1997) conseguindo, assim, potencializar as tensões que estão postas e forjar soluções.

A Jornada Mundial da Juventude é considerada a primeira da série de megaeventos internacionais ocorridos no Brasil, a saber, que incluem a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, bem abordados no dossiê organizado por Damo e Oliven (2013). No que diz respeito ao planejamento urbano, o que se nota em comum a todos os eventos é a promessa e a disputa de autoria de legados de infraestrutura pública permanentes (Curi, 2013), acompanhados posteriormente da insatisfação popular dos seus resultados tendo em vista a maneira autoritária (Magalhães, 2013), como foram feitas as intervenções. Guardadas as devidas proporções, as consequências na cidade de Aparecida não foram tão diferentes.

Nesse contexto, a maior diferença que se pode ressaltar é que, enquanto a Copa e as Olimpíadas foram eventos esportivos, a JMJ tinha como principal característica ser um evento religioso. Não por acaso, promovido pela Igreja Católica, naquele que é considerado o país com a maior população católica do mundo, mas que tem visto o seu declínio constante. Esses fatores foram fundamentais, tanto na escolha do país para sediar o evento como por ser o primeiro destino do novo Papa (Almeida 2013). Mas sua escolha não foi uma unanimidade, pois foi registrada a resistência de movimentos feministas (Menezes 2017), por exemplo.

Dentre os vários compromissos do pontífice, a visita à cidade de Aparecida foi pontual, já que durou algumas horas e teve apenas uma missa como evento público. Contudo, mesmo que breve e periférica, a visita à cidade de Aparecida foi dotada de profundos significados. Ao demandar “um encontro íntimo com a virgem Aparecida”, Papa Francisco reconhecia, naquela pequena imagem, os títulos de rainha e padroeira do Brasil. Ao mesmo tempo, ao se direcionar até ela e não a direcionar até o evento, ratificava o título e a centralidade periférica do Santuário Nacional, como também reconheceram e estimularam os seus dois antecessores:

Uma política de valorização dos santuários estabelecida pela própria Igreja Católica, relacionada ao papado de João Paulo II, pois é nesse papado que são criados ou ganham força os organismos internacionais de articulação dos santuários. Além disso, muitos foram os pronunciamentos desse papa “sobre” santuários, mas mais ainda foram os pronunciamentos “em” santuários (...) O que os documentos demonstram é que é possível alargar essa compreensão, incorporando a ela uma análise da política eclesiástica católica e de suas estratégias de ocupação do espaço público (Menezes, 2012: 82)

Não por acaso, nessa política de valorização dos santuários é que acontece a primeira visita pontifícia à Aparecida. A pesquisa de Menezes (2012) - com os documentos oficiais da Igreja Católica - aponta nessa valorização uma política já consolidada de ocupação do espaço público.

De fato, foi no contexto de articulação dos santuários que em 1983 o Santuário de Aparecida se torna oficialmente um Santuário Nacional, sendo regulamentado pelo Código de Direito Canônico (Vaticano, 1991):

Cân. 1231 - Para que um santuário possa dizer-se nacional, deve ter a apro vação da Conferência episcopal; para que possa dizer-se internacional, requer-se a aprovação da Santa Sé.

Ou seja, o espaço que abriga a imagem de Nossa Senhora Aparecida, sua Basílica e arredores, porta o título de Santuário Nacional do Brasil conferido pela CNBB. O título22 indica que a devoção, assim como as peregrinações, se dão em nível nacional.

Fernandes (1994) questiona a existência de uma “devoção nacional”. Demonstra que no país uma rede de centros de peregrinações regionais e que, diferente de outros contextos, o Brasil não abre espaço para apenas uma centralidade. O autor defende que a escolha de Aparecida, como referência nacional, seria política: uma sede, escolhida pela hierarquia da Igreja e que não representa a pluralidade do território nacional. Hoje, pode-se afirmar que essa missão tem logrado êxito, já que “a função religiosa de Aparecida é tão sistêmica, permanente e explosiva quanto ao papel metropolitano desempenhado, no Brasil, pela Grande São Paulo” (Oliveira, 2000: 98). Em outras palavras, esse investimento da Igreja no Santuário Nacional tem conseguido ampliar a devoção à Nossa Senhora Aparecida.

Como fica bem explícito na coletânea de Eade e Sallnow (1991), a multiplicidade de discursos religiosos e políticos nos santuários é tão usual quanto a necessidade da administração em conseguir promover um discurso oficial e uniformizado.

What all this demonstrates is that it is the meanings and ideas which officials, pilgrims, and locals invest in the shrine - meanings and ideas which are determinately shaped by their political and religious, national and regional, ethnic and class backgrounds - which help to give the shrine its religious capital, thought this investment might weel be in a variety of theological currencies. The power of a shrine, therefore, derives in a large part from its character almost as a religious void, a ritual space capable of accomodating diverse meanings and practices - though of course the shrine staff might attempt, with varying degress of success, to impose a single, official discourse. (Eade and Sallnow, 1991: 15)

É grande o esforço da cúpula da Igreja Católica para transformar a cidade de Aparecida em “Capital da Fé”. Fé esta relativa a um tipo de catolicismo continuamente moldado nos discursos e práticas oficiais. A cidade de Aparecida é a capital brasileira da Igreja Católica Apostólica Romana, pois ali são recebidos os papas, ocorre anualmente a Assembleia Geral da CNBB, além de ser o local escolhido para sede de debates políticos promovidos pela IC, como no caso do debate presidencial em 2014.

O Santuário Nacional opera, em si, como uma cidade com uma grande infraestrutura. A cidade ao redor está intrinsecamente relacionada à vida do santuário sem ser a ele subserviente. Institucionalmente, essa distinção é clara, já que o espaço do Santuário Nacional é administrado pelo clero e a cidade, pelos poderes públicos. Porém, cotidianamente, essas fronteiras burocráticas se sobrepõem dado ao uso de ambos espaços pelos romeiros.

Ora, como uma capital, é possível constatar alguns indícios da influência da Igreja na paisagem urbana de Aparecida. Nesse cenário, a influência do Papa enquanto líder máximo da Igreja mais uma vez se mostra um bom caso analítico. Se a primeira visita pontifícia se deu no ano de 1980, como já foi desenvolvido, o diálogo entre os Papas e a cidade é muito anterior.

Na história de Nossa Senhora Aparecida, sempre encontramos predileção dos Santos Padres pela Imagem de nossa Padroeira. Essa predileção começou já em 1895, com o Papa Leão XIII, concedendo licença para que a Festa de Nossa Senhora Aparecida fosse celebrada no primeiro domingo de maio. Outros Papas mostraram essa predileção: Pio X, com o decreto da coroação em 1904 e o da dignidade de Basílica Menor para o Santuário de Aparecida (Basílica Velha), em 1908. O Papa Pio XI declara Nossa Senhora Aparecida a Padroeira do Brasil, em 1930. Em 1958, Pio XII eleva Aparecida a Arquidiocese. Em 1967, Paulo VI presenteia a Imagem com a Rosa de Ouro. (Ribeiro, 2004: 13)

A predileção da IC pela Imagem de Nossa Senhora Aparecida foi potencializada com o fim do padroado e o advento da República no país. Dessa maneira, “a elite eclesiástica” passava a ter poder de organizar os espaços religiosos, já que “o Brasil dava margem às veleidades expansionistas da Santa Sé e das novas congregações empreendedoras” (Miceli, 2009:20).

Vindos da Alemanha, os padres da Congregação do Santíssimo Redentor, conhecidos por serem especialistas na administração de Santuários, chegaram a Aparecida no movimento de “romanização” da Igreja Católica no Brasil. Assim, “A importação maciça de missionários europeus foi um passo decisivo para esse fim. Com a separação entre Igreja e Estado” (Fernandes, 1994:108).

Com o objetivo explícito de reconfigurar a dinâmica religiosa local, através dos preceitos canônicos oficiais e institucionalizados, a reestruturação espacial foi fundamental no processo. Brustoloni (1998) descreve como, desde a chegada, além de toda a liturgia, os espaços de devoção foram alterados: os seminários, os santuários, as igrejas. Tudo passava por uma profunda reorganização para entrar em maior consonância com a centralidade romana e o poder papal.

Um exemplo que materializa esse movimento é a estátua de Nossa Senhora da Conceição erguida em 1904 na praça em frente à Igreja Matriz. Feita na ocasião da esplendorosa festa de coroação de Nossa Senhora Aparecida, ocorrida naquele mesmo ano e naquela mesma praça, ela traz em sua base a carta e o rosto em bronze do Papa Pio X. Foi ele quem autorizou que a Nossa Senhora portasse o título de rainha do Brasil. Segundo o historiador oficial do Santuário: “A festa da Coroação projetou o Santuário de Aparecida para todo o Brasil. Aquele dia 8 de setembro de 1904 foi um marco na história do desenvolvimento do Santuário” (Brustoloni1998:336).

Dito de outro modo, os brasileiros passaram a conhecer mais Nossa Senhora Aparecida depois que foi coroada rainha, por intermédio do Papa, na recém-proclamada República brasileira. Esse ato evoca as cerimônias de coroação de reis e rainhas europeus, por muito tempo conduzidas pelos Papas, que além de ter essa autoridade portava também ele uma coroa23. A tríplice tiara, como é conhecida, tem múltiplas interpretações dos seus possíveis significados, mas todos deixam evidentes as evocações monárquicas tanto do poder temporal como divino.

É importante ressaltar que a história da Igreja Católica é longa e aberta a múltiplos recortes de acordo com o período e a localização analisada. Ao buscar localizar historicamente o “poder religioso” do catolicismo, em uma tentativa de demonstrar como a percepção e a atuação alteraram desde a idade média, Talal Asad alerta que:

Aquilo a que chamamos de poder religioso era distribuído de outra forma e tinha um ímpeto distinto. Eram diferentes as maneiras pelas quais esse poder criava e atravessava instituições jurídicas; eram diferentes as subjetividades [selves] que ele formava e às quais se reportava; eram diferentes as categorias de conhecimento que ele autorizava e tornava disponível. Contudo, uma consequência é que aquilo com que o antropólogo se confronta não é apenas uma coleção arbitrária de elementos e processos que por acaso chamamos de “religião”. Pois o fenômeno inteiro deve ser isto, em grande medida, no contexto das tentativas cristãs de alcançar uma coerência em doutrinas e práticas, regras e regulamentos, mesmo que esta situação nunca tenha sido plenamente alcançada. (Asad, 2010: 264)

O Papa é o grande mediador do céu na terra, seguindo a missão confiada ao apóstolo Pedro e, assim, tem o poder de ditar as normas dessa mediação. Porém, essa missão religiosa, em cada período histórico, coordena normas por mediações específicas.

Por exemplo, para o Papa Nicolau V24, o líder da Igreja Católica deveria acumular as funções de sacerdote, construtor e governador, o que resultou no primeiro programa de urbanização da cidade de Roma (Westfall, 1975). Essas funções, atribuídas ao Papa e aos Bispos, não se restringiram a esse pontificado, e foi se aperfeiçoando no passar do tempo. Aparecendo oras mais e oras menos nos pontificados seguintes, essa característica se consolida de fato com o Papa Sisto V25 que, em um pequeno período de tempo e no contexto da contrarreforma, realiza a grande reforma urbanística de Roma. Ao concretizar esse feito, prometido e iniciado por seus antecessores, lhes é conferida na história da arquitetura o título de “o primeiro planejador urbano moderno” (Giedion, 2004:126).

Hoje, esse duplo sentido do poder religioso e temporal continua na missão do cargo e o Papa, além de líder máximo da Igreja, também é soberano do Estado da Cidade do Vaticano. Ou seja, é um líder de um país, com o qual o Brasil, também enquanto país mantém relações diplomáticas.

Dessa maneira, nessa dupla função, pode-se afirmar que, idealmente, a embaixada do Vaticano na capital política em Brasília centraliza as relações diplomáticas entre os países através dos embaixadores. Já as relações religiosas se centralizam em Aparecida, a capital religiosa, através dos bispos. Não por acaso, os arcebispos de Aparecida usualmente são Cardeais.

Aliás, vale ressaltar que um dos objetivos da visita do Papa Bento XVI teria sido negociar os termos do chamado “Acordo entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil” que, como indica Giumbelli:

A Igreja Católica, a quem coube a iniciativa na proposição do Acordo, tendo se transformado na sua principal defensora, declara, através de seus porta-vozes, não reivindicar nenhum privilégio junto ao Estado e à sociedade. É interessante que haja esse dis curso de respeito à igualdade e à laicidade, embora os críticos argumentem o contrário. Seja como for, importa destacar que a Igreja Católica procure garantir sua posição e seus interesses por meio de um instrumento particula rista - ou seja, por meio de um Acordo que só lhe diz respeito. Na situação brasileira, isso representa uma mudança significativa, pois historicamente a Igreja Católica buscou se consolidar apoiando-se em regulações genéri cas, contando em seu favor com a associação dominante entre religião e catolicismo. (2011: 133)

Essa distinção entre Estado e instituição religiosa, no caso da Santa Sé, não é e nem se propõe a ser tão delineada: as ações políticas e diplomáticas são religiosas e vice-versa. Ora, em um estado que se autoproclama laico e secularizado, se essa indefinição não é incompatível, pelo menos causa incômodo e reações. Uma etnografia do que é esse secularismo na prática, como bem propõe a coletânea de Mapri et al (2017), é necessária para compreender suas especificidades.

O quarto poder

No nível municipal, a afirmação de que “os padres são o quarto poder” é uma vertente desse incômodo secular. As tensões que presenciei entre os comerciantes, feirantes e o clero eram massivamente direcionadas à concorrência desleal do último em relação aos primeiros. Os comerciantes aparecidenses, de maneira generalizada, se veem incapazes de concorrer com o comércio conduzido e abrigado pelo Santuário Nacional. Por outro lado, a interferência que ele causa na administração pública, ora fica em segundo plano e ora chega até mesmo a ser desejada por alguns munícipes.

Dom Darci Nicioli, que a época da pesquisa era bispo-auxiliar da Arquidiocese de Aparecida, é conhecido por ser um ótimo administrador desde que foi ecônomo, reitor do Santuário Nacional e executor da modernização daquele espaço. Seu sucesso na administração do Santuário provocou rumores quanto à possibilidade de candidatar-se a prefeito de Aparecida. Na entrevista26 por ele concedida a minha pesquisa, mencionou convites que havia recebido para se candidatar. Mas foram sempre recusados. Em suas palavras:

De jeito nenhum, não é nossa função fazer isso. Não é nossa questão. Se você entra no esquema deles, você se perde naquele esquema e não faz nada! Então contribuímos para a cidade de uma outra maneira. Agindo de uma forma que leve a cidade a progredir, a dar passos. Provocando a cidade e interagindo com a cidade. Daquilo que a cidade precisa, a gente colabora. Sem paternalismo porque a cidade espera muito da gente nesse sentido.

Nessa entrevista, o bispo confirma que não tem interesse em atuar como prefeito, mas como um colaborador pela melhoria das condições da cidade e do Santuário através do poder da Arquidiocese.

Você vê o poder legislativo, os vereadores, infelizmente na cultura que nós temos, não só em Aparecida, mas temos no Brasil. A gente vê que de alguma maneira quer levar vantagem em tudo. Nós não concordamos com uma postura como essa, não entramos nesse jogo, então há sempre uma rixa, há sempre uma dificuldade. O poder executivo, na figura do prefeito, depende muito de quem está à frente, se é simpático ou não é simpático, se é dialogável ou não é dialogável. Fica sempre dependendo dessa condição, do sujeito, se vai dar pra trabalhar com ele ou não vai dar pra trabalhar com ele, e assim vai. Então há mandatos que a gente consegue maior parceria, e mandatos que a gente simplesmente se distancia de uma vez. Mas nunca há de fato aquela parceria desejada, nunca houve em Aparecida aquela parceria desejada. Então há sempre uma dificuldade muito grande.

Um exemplo de mediação em prol da cidade e do Santuário foi seu clamor aos poderes públicos na televisão em prol de uma cidade “esteticamente melhor organizada” para a visita papal.:

Sem perder o foco nosso: nós não temos um shopping pra fazer comércio, nós temos um shopping para dar apoio ao romeiro, pra que ele venha. Como ele viria aqui se a cidade não tivesse nada pra ele? Não tem um banheiro público na cidade! Nenhum banheiro público na cidade! Quer dizer, não dá! Depois, o que é a benesse da cidade acaba sendo a sua desgraça, que é o número, o contingente expressivo de visitantes. Quer dizer, a cidade não se preocupa em melhorar porque se trata mal o visitante que vier, já tem outro na porta pra entrar no hotel. Então não tem jeito. A mesma coisa acontece com respeito à alimentação: a cidade é precária! Comer em Aparecida é perigoso! Bom, então nos tínhamos que criar um shopping e botar ordem, pra quê? Pra ajudar a cidade a se organizar. É bem esse o objetivo. Na mesma esteira nós criamos o Hotel Rainha do Brasil. Porque não adianta, a hotelaria em Aparecida é uma hotelaria de terceira categoria. Não é? Ora, então nós criamos uma hotelaria de primeira categoria, e o que está acontecendo? Está mudando a cultura de Aparecida.

O bispo destaca em sua entrevista que os empreendimentos do Santuário Nacional visam à transformação da “cultura da cidade” através de um investimento pedagógico para “provocar” mudanças na paisagem urbana. A provocação, evidentemente, gera tensões.

Sempre tem essa mesma questão. Toda cidade aonde tem um poder forte, centralizado da Igreja, suscita essa tensão. E não tem jeito. Nas cidades-santuário o protagonista é o Santuário, não tem jeito. E se não for o Santuário quem investe, infelizmente, o empresário de Aparecida investe olhando para o próprio umbigo. É natural que todo empresário queira isso, mas ele tem que entender que o seu lucro, parte dele, tem que ser reinvestido para o bem comum. Ora, quem investe no bem comum aqui é o Santuário Nacional. Todo empresário investe pra si mesmo. E tem a cultura também dos próprios políticos, em que o sujeito exerce a sua função, que foi conferida pelo povo, mas em benefício próprio. É público e notório isso. Ora, o fato da cidade não ter um banheiro público fala muito sobre isso. E o Santuário tem mil e quarenta e seis banheiros a disposição dos visitantes. É um número expressivo esse que diz de uma postura diferenciada. Ah se não fosse o Santuário! Não existiria a cidade de Aparecida, não há dúvida. Ah se não fossem os Missionários Redentoristas! A devoção a Nossa Senhora Aparecida não seria nacional. Ah se não fosse o olhar empreendedor, que foi impresso no Santuário Nacional, a partir dos anos dois mil! E isso aí são fatos tratados como argumento. Não há quem não reconheça isso. Então se é assim, porque então a assertiva de que o padre não deve ser empresário? Não o fato de eles serem empresários, mas o fato de se aquilo que ele realiza está em consonância com o seu objetivo. Não teria sentido o padre ser um empresário para acumular riquezas. Agora, tem sentido o padre ser empreendedor para realizar a sua missão. De forma que ele tenha as estruturas necessárias, para de forma elementar cumprir a sua missão que é evangelizar. Daí então o Hotel, daí então a Rádio, daí então a TV Aparecida, o portal A12, a própria estrutura do Santuário Nacional, e tudo aquilo que a gente vê em Aparecida que é em função da evangelização. Não há outro objetivo se não esse.

Nesse trecho ele é enfático ao afirmar que o santuário é o único a investir no bem comum e que, sem o santuário, a cidade não existiria. Do mesmo modo, confere à missão eclesiástica a devoção nacional à santa. A relação entre o poder eclesial do Santuário Nacional muitas vezes se dá em relação direta com o governo estadual e federal, sem ao menos passar pela instância municipal. A ampliação do efetivo da polícia militar e a reforma do hospital da cidade, também foram mediadas por Dom Darci diretamente com o governo estadual. Em outros contextos, e com outros bispos, para citar alguns exemplos, a mediação com o governo federal resultou na construção da Torre Brasília, anexa à Basílica, doada pelo Presidente Juscelino Kubitschek ou ainda a Passarela da Fé, que liga a antiga e a nova Basílica, doada pelos ditadores militares Arthur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici.

De fato, é nessa esteira de ordenamento dos espaços públicos que ocorreram as tensões mencionadas no reordenamento da feira aberta. Os feirantes acusavam o clero e os políticos de estarem interessados apenas no próprio lucro. O bispo faz a mesma afirmação, mas em relação ao empresário e ao político, clamando para o clero a necessária intervenção em nome do bem comum. O discurso do bispo dá a entender que os fins religiosos justificam os meios econômicos e políticos. As atividades empresariais diretas e a mediação com o poder estatal são as que garantem o pleno cumprimento da missão de evangelização do clero.

Assim, a atuação do poder religioso nos espaços públicos só entra em atrito com outro poder já posto quando há dissenso nas formas de ação. Sem nunca ter ouvido uma evocação direta à laicidade do estado, os discursos põem em relevo que esse incômodo é muito mais pragmático do que ideológico.

Levemos em conta a religião não é simplesmente um conjunto de crenças ou um conjunto de visões dogmáticas, mas uma matriz para a formação do sujeito cuja forma final não é determinada de antemão, uma matriz discursiva para a articulação e a confrontação de valores, e um campo de contestação (Butler 2015: 178)

Encontrando consonância com a análise acima, o presente artigo considera que o discurso religioso do clero parte de uma matriz discursiva distinta daquela dos comerciantes e do poder público, o que costuma gerar contestações sobre a margem de ação de cada uma das partes. Na disputa por espaço no comércio da cidade, os comerciantes buscam definir política e discursivamente os limites da religião para fora da economia. Já o clero contesta essa categorização de que a religião aconteceria exclusivamente no plano imaterial e do sagrado tendo como pressuposto uma ação direta nesses espaços:

Veja como não há consenso numa afirmação dessa, que o padre por ser religioso tinha que cuidar das coisas da religião. Ora, a religião está em relação ao mundo, ela está encarnada. Então, sem ter os meios necessários, por isso é necessário que tenha uma boa administração, nós não conseguimos mais evangelizar hoje.

O bispo, reagindo a essa definição, fez questão de realçar que “a religião está em relação ao mundo”. Ou seja, que a missão evangelizadora só se concretiza com ações propositivas e não meramente especulativas de um além-mundo. Dessa maneira, no caso analisado, o ordenamento moral propositivo da Igreja passa necessariamente pelo ordenamento dos espaços públicos, muito bem delimitados materialmente.

A manutenção religiosa na coordenação da paisagem urbana

Como enfatizado na proposta de Asad (2010), a separação da religião frente às questões de poder e conhecimento é um projeto liberal recente, que muitas vezes não coincide com uma análise empírica das suas manifestações contemporâneas. Assim, esse artigo partiu de uma análise que nega que “os discursos religiosos na arena política são vistos como um disfarce para o poder político” (Asad, 2010:264).

Essa negação se dá na medida em que admite a nebulosidade na fronteira entre as formas de poder e opta por abordá-las etnograficamente para que os casos descritos permitam pensar a religião nas suas práticas cotidianas e não tendo como pressuposto uma noção universalista dessas categorias. A etnografia da visita pontifícia parece profícua no sentido proposto por Asad (2010) visto que nos permitiu refletir sobre tensões entre formas de poder estabelecidas tais como o poder religioso e o poder estatal em um evento de grande porte.

A hipótese desse artigo é que a construção de Aparecida como cidade-santuário e Capital da Fé é um caso bom para pensar sobre a convergência entre projetos de poder. Como descrito anteriormente, as paisagens urbanas de Aparecida são histórica e continuamente coordenadas, criadas e transformadas por atores dotados de poder para fazer dela uma capital religiosa. Longe de ser incompatível, evoca propositalmente uma localização geográfica específica, com nominação política para uma sede religiosa.

Com base no material empírico levantado, observa-se que, para os poderes eclesiais, a ação no espaço público é percebida como uma de suas principais missões religiosas. Nas paisagens urbanas brasileiras essa intervenção pode ser facilmente identificada desde o processo de colonização com diferentes missões religiosas que deram origem a cidades. Em Aparecida, essa interferência do poder eclesiástico sobre a cidade destaca-se em relação a outras cidades de maior porte. Ali, este poder é ao mesmo tempo evidente e esperado.

A centralidade periférica de Aparecida como cidade-santuário na geografia nacional se assemelha à centralidade periférica do “quarto poder” no ordenamento do seu espaço público. Ou seja, a visita papal não proporciona uma maior interferência dos poderes religiosos na paisagem urbana e, sim, joga luz sobre as suas evidências que já estavam e continuam postas. A cidade-santuário é materializada em um local específico, mas coordenada simultaneamente por poderes distintos.

É nesse sentido que a percepção de que “o papa é o melhor prefeito que a cidade já teve” se torna mais dinâmica. Ao residir em uma capital religiosa, os aparecidenses têm consciência da importância pragmática do conclave para a escolha do novo papa, já que ela é fundamental para a coordenação da paisagem urbana tanto quanto a eleição para o novo prefeito.

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Notas

1Trago essas anotações do meu diário de campo no dia 14 de março de 2013. Esse artigo tem como referência a minha pesquisa de campo para a dissertação de mestrado (GODOY, 2015), financiada pela FAPESP, na qual tive a oportunidade de residir na cidade de fevereiro a agosto de 2013.

2Raymundo Damasceno Assis nasceu na cidade mineira de Capela Nova, no ano de 1937. Foi nomeado Cardeal em 2010 e foi Arcebispo de Aparecida de 2004 até 2016 quando se aposentou.

3Seu mandato como presidente da CNBB foi de 2011 até 2015. Anteriormente foi presidente da CELAM de 2007 até 2011.

4A Rede Aparecida de Televisão foi criada em 2005, e é mantida pelos Missionários Redentoristas nas dependências do Santuário Nacional em Aparecida (SP). É um canal aberto e com alcance em todo o território nacional.

5Conclave, nome que remete as chaves, é a reunião entre os Cardeais da Igreja Católica, feita em sigilo e portas fechadas, para a eleição de um novo Papa.

6Joseph Aloisius Ratzinger nasceu na Alemanha em 1927. Nomeado Cardeal em 1977, foi eleito Papa em 2005, cargo que ocupou até sua renúncia em 2013. Com o título de Papa Emérito passou a viver em um mosteiro no Vaticano.

7Papa Gregório XII foi o último a renunciar, no ano de 1415, no contexto do Grande Cisma do Ocidente.

8Jorge Mario Bergoglio nasceu na Argentina em 1936, e foi nomeado Cardeal em 2001.

9A Jornada Mundial da Juventude é um encontro mundial entre a juventude católica e o Papa, promovido pelo Vaticano desde 1985, e que acontece a cada dois ou três anos em um país diferente.

10Por exemplo, Nossa Senhora das Graças ou Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

11Por exemplo, Nossa Senhora de Lourdes (França), Nossa Senhora de Fátima (Portugal) ou Nossa Senhora de Czestochowa (Polônia).

12Algumas pessoas conhecem a cidade pelo nome de “Aparecida do Norte”, justamente porque grande parte dos romeiros chegava até a cidade através do trem que saía diariamente da “Estação Norte” em São Paulo.

13A BR-488 liga a Rodovia Presidente Dutra até o Santuário Nacional. Com apenas 5,9 km de extensão é conhecida como a menor rodovia federal do país.

14Karol Józef Wojtyla nasceu na Polônia em 1920. Foi nomeado Cardeal em 1967 e eleito Papa em 1978, cargo que ocupou até sua morte em 2005, com o terceiro pontificado mais longo da história. Foi canonizado como São João Paulo II no ano de 2014.

15El baño del Papa é um filme de 2007 dirigido por César Charlone e Enrique Fernández. A referência do roteiro gira em torno das expectativas a visita que o Papa João Paulo II fez ao Uruguai em 1988.

16A Conferência foi a quinta ser promovida pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), órgão criado em 1955 com sede na Colômbia, e que promove o diálogo entre as conferências episcopais da América Latina e do Caribe. O relatório final foi intitulado como “Documento de Aparecida”.

17O programa foi ao ar no dia 7 de maio de 2013 pela Rede Aparecida de Televisão.

18Darci José Nicioli nasceu em 1959 na cidade mineira de Jacutinga e faz parte da Congregação do Santíssimo Redentor. Foi Reitor do Santuário Nacional de Aparecida de 2008 até 2012, e Bispo-Auxiliar da Arquidiocese de Aparecida de 2012 até 2016.

19O prefeito Márcio Siqueira (PSDB) foi afastado do cargo, por determinação da Justiça, de 03 a 27 de maio de 2013 por suspeita de fraude em licitações. Até o final do mandato ele foi afastado do cargo outras quatro vezes, sendo a mais longa por nove meses. Quem assumiu o posto, em todos os afastamentos, foi o vice-prefeito Ernaldoxml:lang="ar-SA" Contudo, Márcio ocupava o cargo de prefeito no dia da visita do Papa, e assim o recebeu com as demais autoridades.

20Essa suposta ausência de imposto não se confirma, e alguns comerciantes acusados fazem questão de expor, com destaque na parede, seus alvarás de funcionamento e boletos de pagamento como prova.

21O acordo nunca foi cumprido pelo executivo nem pelo legislativo, que impuseram a organização a revelia da proposta dos feirantes auto organizados. Vale ressaltar que um ano depois, em junho de 2014, a Polícia Civil deflagrou a chamada Operação Leviatã na cidade. Nesse caso, foi descoberta uma máfia de comercialização, controle e monopólio dos pontos das bancas da feira. Dentre os presos, um vereador e um secretário municipal, além de diversos funcionários e fiscais da prefeitura, todos eles envolvidos na “organização” ocorrida para a visita papal, que como se descobriu foi leiloada.

22Além de Aparecida há apenas o Santuário Nacional de Anchieta, na Arquidiocese de Vitória (ES), que recebeu o título em 2015.

23O xml:lang="ar-SA" pontífice a ser coroado foi o Papa Paulo VI em 1963, já que seu sucessor Papa João Paulo I aboliu a prática, inspirado pelo Concílio Vaticano II.

24Tommaso Parentucelli era italiano e seu pontificado foi de 1447 até 1455.

25Felice Peretti era italiano e seu pontificado foi de 1585 até 1590.

26A entrevista aconteceu dia 25 de setembro de 2013, em seu escritório no Seminário Bom Jesus, e teve a transcrição completa publicada em GODOY (2015).

Recebido: 24 de Outubro de 2016; Aceito: 17 de Janeiro de 2018

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