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Food Science and Technology (Campinas)

versión On-line ISSN 1678-457X

Ciênc. Tecnol. Aliment. v. 18 n. 3 Campinas Ago./Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-20611998000300006 

CAROTENÓIDES DE PIMENTÕES AMARELOS (Capsicum annuum, L.). CARACTERIZAÇÃO E VERIFICAÇÃO DE MUDANÇAS COM O COZIMENTO1

 

Rute BIANCHINI2, Marilene de Vuono Camargo PENTEADO 2,*

 

 


RESUMO

Três cultivares de pimentões amarelos (Capsicum annuum, L.), Amador Híbrido F1, Zarco Híbrido F1 e Sunboy Híbrido F1, cultivados no Estado de São Paulo, foram analisados com o objetivo de se determinar os teores de carotenóides presentes, avaliar o valor de vitamina A e verificar a perda desta atividade após o cozimento. O procedimento analítico consistiu de saponificação com KOH aquoso 10%, antes da extração com solvente orgânico e separação por coluna cromatográfica. Os três cultivares apresentaram o mesmo perfil de carotenóides, sendo nove identificados: fitoflueno, alfa-caroteno, beta-caroteno, cis-zeta-caroteno, 5,6,5’,6’-diepóxi-beta-caroteno, 5,6,5’,6’-diepóxi-criptoxantina, beta-criptoxantina, luteína e violaxantina. O alfa e o beta-caroteno foram os principais carotenóides que contribuíram com a atividade pró-vitamínica A. Os teores de vitamina A, expressos em equivalentes de retinol/100g variaram entre 23,17 e 48,70 para as amostras cruas. Como os carotenóides são sensíveis ao calor, após o cozimento durante 10 minutos os valores de vitamina A foram menores, variando entre 18,22 e 36,27, com reduções entre 21,08 e 30,80%.

Palavras-chave: carotenóide, pró-vitamina A, pimentão amarelo (Capsicum sp), cozimento


SUMMARY

CAROTENOIDS OF YELLOW PEPPER (CAPSICUM ANNUUM, L.). CHARACTERIZATION AND VERIFICATION OF CHANGES AFTER COOKING. Three cultivars of yellow pepper (Capsicum annuum, L.), "Amador Híbrido F1", "Zarco Híbrido F1", "Sunboy Híbrido F1", grown in the State of Sao Paulo, were analyzed to quantify carotenoids content, to evaluate the provitamin A activity and to assess the loss of such activity after cooking.The analytical procedure consisted of saponification with 10% KOH aqueous, before organic solvent extration and column chromatography separation.The three cultivars presented similar profile of carotenoids among them, nine were identified: phytofluene, alpha-carotene, beta-carotene, cis-zeta-carotene, 5,6,5’,6’-diepoxide-beta-carotene, 5,6,5’,6’-diepoxide-cryptoxantin, beta-cryptoxantin, lutein and violaxantin. Alpha and beta-carotenes were the carotenoids which contributed to the provitamin A activity. The amount of vitamin A expressed in retinol equivalents/100g, ranged from 23.17 to 48.70 for fresh samples. As carotenoids are heat sensitive, the vitamin A values were smaller after cooking during 10 minutes, varying between 18.22 and 36.27, what represents a reduction between 21.08 to 30.80%.

Keywords: carotenoid, provitamin A, yellow pepper (Capsicum sp), cooking


 

 

1 - INTRODUÇÃO

Os carotenóides são pigmentos naturais que têm despertado o interesse de pesquisadores de diversas áreas há mais de um século [33]. Extensamente distribuídos na natureza, estão presentes em plantas, animais e microrganismos.

Segundo alguns autores, não podem ser considerados apenas como mais um grupo de pigmentos, mas, como substâncias com propriedades muito especiais. Dentre as funções conhecidas dos carotenóides estão a absorção de luz, atividade antioxidante, atividade anticancerígena, transporte de oxigênio, atividade pró-vitamínica A, sendo esta última apresentada por apenas alguns destes compostos [4, 20, 22, 26].

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 250 milhões de pré-escolares, particularmente em países em desenvolvimento, apresentam deficiência de vitamina A [11]. No Brasil, onde a hipovitaminose A é considerada uma das principais deficiências na área de Saúde Pública, a larga distribuição destes pigmentos em frutos e vegetais, aliada ao alto custo dos alimentos de origem animal que contêm vitamina A pré-formada, contribuem para que os carotenóides sejam uma importante fonte deste nutriente na dieta humana [32,34].

Durante o cozimento dos alimentos, os carotenóides podem sofrer modificações. Estas, são devidas ao alto grau de insaturação destes pigmentos, o que os torna susceptíveis às reações de degradação. Torna-se importante, portanto, avaliar as alterações causadas pelo tratamento térmico com relação aos carotenóides ativos dos alimentos. O pimentão pode ser consumido cru, como nas saladas, ou cozido, sendo comum o preparo do pimentão refogado ou ainda como parte integrante de diversos pratos quentes.

 

2 — MATERIAL E MÉTODO

2.1 – Material

Os frutos de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.) estudados foram provenientes de várias regiões do Interior do Estado de São Paulo. Foram analisados três cultivares, a saber, Sunboy Híbrido F1, Amador Híbrido F1 e Zarco Híbrido F1. Os frutos dos três cultivares eram provenientes da safra de 1992, sendo analisado para cada cultivar um lote contendo oito frutos.

2.2 Preparo das amostras

Para análise dos carotenóides, as sementes foram retiradas e os frutos picados em pedaços de aproximadamente 0,5 cm. Para as determinações tanto nas amostras cruas quanto nas cozidas, foram pesados cerca de 50 g do vegetal. Antes do cozimento, adicionou-se cerca de 30 mL de água destilada à amostra. O tempo de cozimento, 10 minutos, foi contado a partir do início da fervura da água. A temperatura de 100° C foi mantida constante ao longo do tempo. A água do cozimento foi utilizada na extração. As amostras cozidas foram pesadas antes do tratamento térmico e o procedimento de extração foi o mesmo da amostra crua.

2.2 - Método

O método utilizado foi baseado no procedimento descrito por RODRIGUEZ et al [27], com modificações.

Para a saponificação, a amostra picada foi triturada em homogeneizador tipo Turrax com 100 mL de KOH aquoso 10% (p/v), permanecendo em repouso por uma noite, sob nitrogênio e à temperatura ambiente.

Após a etapa anterior, a amostra foi filtrada a vácuo em funil de placa sinterizada. A extração dos pigmentos foi feita em homogeneizador tipo Turrax, com acetona resfriada. Os extratos acetônicos e aquoso foram combinados e os carotenóides extraídos foram transferidos para o éter de petróleo em funil de separação.

A separação dos pigmentos foi realizada através de cromatografia em coluna aberta, empacotada com MgO:Hyflosupercel (1:2) quando da separação de carotenóides menos polares ou (1:3) para carotenóides mais polares, e Ca(OH)2 : Hyflosupercel (1:1).

Os carotenóides foram identificados pela avaliação da ordem de eluição na coluna, espectro de absorção na região do visível, valores de Rf na cromatografia em camada delgada, utilizando-se placas de vidro de 20x20 cm com camada de 0,25 mm de sílica gel 60 G, previamente ativadas em estufa a 105° C por 1 hora. Como fase móvel foi utilizada solução de 3% de metanol em benzeno. Utilizou-se também reações químicas para verificação da presença ou não de grupos epóxido, hidroxilas primárias ou secundárias. O teste para epóxidos foi feito após a cromatografia dos pigmentos em camada delgada e posterior exposição a vapores de ácido clorídrico. A reação foi considerada positiva quando manchas amarelas mudaram para azuis ou verdes. A presença de grupo 5,6 epóxido foi evidenciada pela adição de uma gota de HCl 0,1N à solução etanólica do pigmento. O deslocamento hipsocrômico de 20 ou 40nm dos picos de absorção indicou a presença de um ou dois grupos epóxido, respectivamente. Para a verificação da presença de grupo hidroxila na posição alílica isolada ou conjugada, adicionou-se gotas de HCl 0,2N à solução metanólica do pigmento. Após três horas à temperatuta ambiente e ao abrigo da luz, o pigmento foi transferido para éter de petróleo e aplicado em placa para cromatografia em camada delgada ao lado do pigmento original para comparação. A reação foi considerada positiva quando ocorreu aumento do Rf. Para hidroxilas secundárias, alílicas ou não, usou-se teste de acetilação. O pigmento foi dissolvido em 2,0mL de piridina e adicionou-se 0,2mL de anidrido acético. Após 21 horas à temperatura ambiente e no escuro, o pigmento foi transferido para éter de petróleo e cromatografado em camada delgada ao lado do pigmento original para comparação. O Rf do carotenóide acetilado foi observado próximo à frente do solvente.

A quantificação de cada fração foi feita a partir da absorbância máxima de cada carotenóide, obtida através do espectro de absorção visível, utilizando-se a seguinte fórmula:

077fo.gif (1203 bytes)

Os valores dos coeficientes de absorção 077fo1.gif (1222 bytes) utilizados para o cálculo dos carotenóides foram citados por DAVIES [8], referentes ao éter de petróleo como solvente, exceto para o cis-zeta-caroteno, referente ao hexano. Para o 5,6,5’,6’-diepóxi-beta-caroteno e 5,6,5’,6’-diepóxi-criptoxantina, foram usados os coeficientes de extinção de 2710 [1] e de 2636 da alfa-criptoxantina [8], respectivamente, sendo o primeiro referente ao éter de petróleo e o segundo ao hexano. Para a luteína, o coeficiente de extinção foi de 2589 citado por CRAFT & SOARES Jr. [6], referente ao hexano. Para a fração não identificada foi usado o coeficiente de extinção do beta-caroteno.

 

3 — RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 – Características e identificação dos principais carotenóides presentes em três cultivares de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.)

Os três cultivares de pimentão amarelo apresentaram a mesma composição qualitativa de carotenóides. O esquema de separação se encontra na Figura 1 e as características dos pigmentos estão resumidas na Tabela 1.

 

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FIGURA 1. Esquema de separação dos carotenóides do pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.)

 

 

TABELA 1. Características dos carotenóides de pimentões amarelos (Capsicum annuum, L.) cultivados no Estado de São Paulo.

Identificação

Máximo de absorção em éter de petróleo (nm)

Valor de Rf em camada delgada

Reações químicas

Fitoflueno

328 344 363

0.99

___

Alfa-caroteno

420 442 470

0.99

trans +

Beta-caroteno

(423) 447 476

0.99

trans +

cis-Zeta-caroteno

377 398 432

0.99

trans +

Pigmento não identificado

418 441 470

0.99

trans +

5,6,5’,6’-diepóxi beta-caroteno

413 436 467

0.96

epóxido +
trans +

5,6,5’,6’-diepóxi criptoxantina

415 436 465

0.40

epóxido +
trans +
acetilação +

Beta-criptoxantina

(422) 442 470

0.50

acetilação +
metilação -
trans +

Luteína

419 442 471

0.12

acetilação +
metilação +
trans +

Violaxantina

415 438 469

0.04

epóxido +
trans +
acetilação +

( ) Significa inflexão no lugar de pico

 

3.2 – Quantificação dos principais carotenóides de três cultivares de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.).

Os resultados quantitativos para as amostras dos três cultivares de pimentão amarelo analisados estão presentes na Tabela 2.

 

TABELA 2. Médias* e desvios padrão de três cultivares de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.) cru, cultivados no Estado de São Paulo, expressos em mg/g.

Carotenóide

Amador Híbrido F1
Média ± DP

Zarco Híbrido F1
Média ± DP

Sunboy Híbrido F1
Média ± DP

Alfa-caroteno

1,35 ± 0,36

0,88 ± 0,23

0,48 ± 0,14

Beta-caroteno

2,16 ± 0,71

1,13 ± 0,29

1,15 ± 0,39

cis-zeta-caroteno

Traço

traço

traço

Pigmento não identificado

1,08 ± 0,37

1,03 ± 0,28

0,65 ± 0,33

5,6,5’,6’-diepóxi beta-caroteno

3,90 ± 1,14

1,65 ± 0,32

1,62 ± 0,68

5,6,5’,6’-diepóxi criptoxantina

11,62 ± 4,60

3,39 ± 0,16

2,54 ± 0,92

Beta-criptoxantina

0,18 ± 0,12

traço

traço

Luteína

3,94 ± 1,26

5,51 ± 0,84

4,12 ± 1,56

Violaxantina

3,99 ± 1,59

2,22 ± 0,45

1,54 ± 0,98

* Média de cinco determinações
DP – desvio padrão

 

Nos cultivares Zarco Híbrido F1 e Sunboy Híbrido F1 , a luteína foi o principal carotenóide, estando presente com teores de 5,51 e 4,12 mg/g, seguido pela 5,6,5’,6’- diepóxi-criptoxantina com 3,39 e 2,54 mg/g, respectivamente. O 5,6,5’,6’-diepóxi-beta-caroteno foi encontrado com teores semelhantes nestes cultivares, ou seja, Zarco Híbrido F1: 1,65 mg/g e Sunboy Híbrido F1: 1,62 mg/g.

Na cultivar Amador Híbrido F1, a 5,6,5’,6’-diepóxi-criptoxantina foi o pigmento encontrado em quantidades mais expressivas, 11,62 mg/g, representando cerca de 41,18% do total. Seguindo este carotenóide, encontramos com teores muito próximos entre si, a violaxantina (3,99 mg/g), a luteína (3,94 mg/g) e o 5,6,5’,6’-diepóxi-beta-caroteno (3,90 mg/g), que representaram respectivamente, 14,14, 13,96 e 13,83% do total de pigmentos. 

Em quantidades inferiores às encontradas no cultivar Amador Híbrido F1, a violaxantina se apresentou com teores de 2,22 e 1,54 mg/g nos cultivares Zarco Híbrido F1 e Sunboy Híbrido F1, respectivamente.

A luteína foi o principal carotenóide encontrado no pimentão amarelo analisado por HEINONEN et al [13], estando presente com um teor de 7,70 mg/g, enquanto que nos trabalhos de DAVIES et al [9] e MATUS et al [15], a violaxantina foi o carotenóide mais abundante representando 31,30 e 34,07 % do total, respectivamente.

Embora a formação da configuração cis seja considerada etapa degradativa, sabe-se da ocorrência natural de pigmentos com esta forma geométrica [28,30,31,35]. Nos três cultivares de pimentão amarelo analisados, foi encontrado o cis-zeta-caroteno, que esteve presente apenas como traços, não sendo quantificado.

A beta-criptoxantina, por sua vez, só pode ser quantificada no cultivar Amador Híbrido F1, sendo encontrada com teores baixos, representando apenas 0,64 % do total de carotenóides.

Este carotenóide também foi encontrado por RAHMAN & BUCKLE [24], com teores de 7,00 mg/g e proporção de 7,26 %.

O alfa e o beta-caroteno foram os principais carotenóides responsáveis pelo valor de vitamina A dos cultivares estudados. Os maiores teores foram encontrados no cultivar Amador Híbrido F1, com teores de 1,35 mg/g para o alfa caroteno e 2,16 mg/g para o beta-caroteno.

Ao contrário do nosso trabalho e de outros citados na literatura [9,13,15,23], onde o beta-caroteno foi sempre encontrado em quantidades não muito representativas, RAHMAN & BUCKLE [24] encontraram este carotenóide com teores apreciáveis, 16 mg/g.

Estando de acordo com os nossos resultados, o alfa-caroteno, não detectado em todos os trabalhos com pimentão amarelo, sempre esteve presente em baixas concentrações, como em estudos realizados por HEINONEN et al [13] com 0,92 mg/g e RAHMAN & BUCKLE [24] com 2,0 mg/g.

Todos os carotenóides por nós identificados foram citados por RAHMAN & BUCKLE [24] no cultivar Golden California Wonder. Entretanto, algumas frações referidas pelos autores como a 5,6 epóxi-criptoxantina, a zeaxantina, a anteraxantina, a mutatoxantina, a luteoxantina, a auroxantina e a neoxantina, não foram detectadas nos cultivares analisados no presente trabalho, pelo menos em quantidades mensuráveis.

Também os pimentões amarelos analisados por DAVIES et al [9] e por MATUS et al [15], apresentaram composições qualitativas diferentes dos frutos por nós analisados.

As diferenças do ponto de vista quali e quantitativo entre os vários trabalhos, podem ser devidas a diversos fatores como tipo de solo utilizado para cultivo, clima, tempo de armazenamento, variações genéticas e grau de maturação [5,17].

Os frutos de um mesmo cultivar por nós analisados, apesar de serem da mesma safra, apresentaram entre si diferenças quanto à intensidade da cor amarela. Alguns possuíam uma coloração bem mais intensa que outros, provavelmente devido à quantidade de radiação solar recebida [14,25]. Este fato, explicaria a heterogeneidade nas concentrações de carotenóides para um mesmo cultivar.

3.3 Efeito do cozimento sobre os teores das frações com atividade pró-vitamínica A dos pimentões amarelos.

Os teores dos carotenóides ativos após o cozimento estão expressos na Tabela 3

 

TABELA 3. Médias* e desvios padrão, expressos em mg/g, de carotenóides com atividade pró-vitamínica A, de três cultivares de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.) após o cozimento.

Carotenóide

Amador Híbrido F1
Média ± DP

Zarco Híbrido F1
Média ± DP

Sunboy Híbrido F1
Média ± DP

Alfa-caroteno

1,01 ± 0,23

0,69 ± 0,23

0,39 ± 0,10

Beta-caroteno

1,60 ± 0,53

0,75 ± 0,18

0,90 ± 0,16

Beta-criptoxantina

0,14 ± 0,10

traço

traço

* Média de cinco determinações
DP – desvio padrão

 

Para verificação de diferença estatisticamente significativa entre as amostras cruas e cozidas quanto aos teores de carotenóides com atividade pró-vitamínica A, foi usado o teste "t" de Student para amostras pareadas fixando o nível descritivo em 5% [19].

As perdas de alfa e de beta-caroteno após o cozimento foram consideradas significativas nos cultivares Zarco Híbrido F1 e Amador Híbrido F1. No primeiro, constatou-se porcentagens médias de perda de 23,23 e 33,23% e no segundo, de 23,85 e 25,85% para o alfa e o beta-caroteno respectivamente. No cultivar Amador Híbrido F1, a diminuição da beta-criptoxantina após o cozimento (22,22%) não foi significante.

Na cultivar Sunboy Híbrido F1, somente o alfa-caroteno apresentou perda média significativa, sendo esta de 18,14%. Para o beta-caroteno, entretanto, a redução de 17,05% não foi significante, provavelmente, devido a uma determinação onde a amostra cozida apresentou um teor (0,88 mg/g) maior que o encontrado na amostra crua (0,79 mg/g). Ao se realizar o teste "t" pareado excluindo este resultado, a perda média (24,16 %) foi significativa.

A comparação das perdas de alfa e de beta-caroteno entre os três cultivares após o cozimento, foi realizada através da técnica de Análise de Variância [19].

Não houve diferença significativa nas perdas de beta-caroteno entre os três cultivares ao nível de significância de 5%. Porém, observou-se que quanto às perdas de alfa-caroteno, havia diferença significativa entre as mesmas. Através da técnica de Bonferroni [19], foi possível verificar que a cultivar Amador Híbrido F1 apresentou maiores perdas que a Sunboy Híbrido F1.

3.5 – Teores de vitamina A dos pimentões amarelos (Capsicum annuum, L.)

Os valores de vitamina A dos pimentões amarelos crus e cozidos, expressos em equivalentes de retinol/100g (ER/100g), estão apresentados na Tabela 4.

 

TABELA 4. Valores de vitamina A, expressos em ER/100g, de três cultivares de pimentões amarelos, crus e cozidos.

Cultivar

Valor de vitamina A
Média* ± DP

Amador Híbrido F1
Cru
Cozido

 
48,70 ± 14,83
36,27 ± 10,77
Zarco Híbrido F1
Cru
Cozido


26,33 ± 6,82
18,22 ± 5,03

Sunboy Híbrido F1
Cru
Cozido
 
23,17 ± 5,87
18,28 ± 3,52

*Média de cinco determinações
DP - Desvio Padrão

 

A determinação do teor de vitamina A dos pimentões amarelos foi feita considerando-se as frações alfa-caroteno, beta-caroteno e beta-criptoxantina, sendo esta última incluída somente no cálculo referente à cultivar Amador Híbrido F1.

O cálculo do valor de vitamina A foi feito a partir da atividade pró-vitamínica A de cada carotenóide precursor, segundo BAUERNFEIND [3]. Para o cálculo, foi utilizada a recomendação da Academia Nacional de Ciências - Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos [18]:

1 equivalente de retinol = 6 mg de beta-caroteno
=12 mg de outros carotenóides precursores de vitamina A

Devido ao seu sistema conjugado de duplas ligações, os carotenóides são estruturas instáveis, sendo alterados ou destruídos por ácidos, luz e calor. Logo, após o cozimento de vegetais contendo carotenóides, é de se esperar que ocorram perdas nos teores destes pigmentos. Tal foi observado após o cozimento dos pimentões, ocorrendo diminuição nos teores de a e b -caroteno (Tabela 3) com conseqüente diminuição nos valores de vitamina A, como pode ser observado no Tabela 4.

As perdas dos teores de vitamina A após o cozimento foram de 25,53, 30,80, 21,08 %, respectivamente, para os cultivares Amador Híbrido F1, Zarco Híbrido F1 e Sunboy Híbrido F1.

No entanto, PARKER [21], ressalta que o consumo de vegetais sem cozimento prévio diminui a biodisponibilidade dos carotenóides. Assim, o consumo de vegetais após o cozimento é vantajoso no tocante ao melhor aproveitamento da pró-vitamina A.

Os pimentões amarelos contêm valores de vitamina A bem menores que outros vegetais que são considerados boas fontes de pró-vitamina A, a saber, o brócolo (1692 ER/100g) [17], a escarola, (442 ER/100g) [17], algumas variedades de batata-doce (de 903 a 3703 ER/100g) [2].

Entretanto, apesar de não ser boa fonte de vitamina A, os pimentões amarelos apresentam uma grande variedade de carotenóides que, embora não apresentem atividade pró-vitamínica, podem exercer outras funções no organismo, particularmente como antioxidantes, como destaca BRITTON [4].

 

4 — CONCLUSÕES

Os principais carotenóides encontrados nos três cultivares de pimentão amarelo (Capsicum annuum, L.) analisados bem como as representatividades destes pigmentos nos cultivares Amador Hibrido F1, Zarco Hibrido F1 e Sunboy Hibrido F1, respectivamente foram: 4,78, 5,57 e 3,97% para o alfa caroteno, 7,65, 7,15, 9,50% para o beta-caroteno,13,82, 10,44 e 13,39% para o 5,6,5’,6’-diepóxi-beta-caroteno, 41,18, 21,44 e 20,99% para a 5,6,5’,6’-diepóxi-criptoxantina, 3,83, 6,51 e 5,37% para o pigmento não identificado, 13,96, 34,85 e 34,05% para a luteína, 14,14, 14,04 e 12,72% para a violaxantina. A beta-criptoxantina foi encontrada com representatividade de 0,64% na variedade Amador Hibrido F1. Esteve presente ainda o cis-zeta-caroteno apenas como traços em todas as variedades.

Os principais pigmentos responsáveis pelo valor de vitamina A nos três cultivares foram o alfa e o beta-caroteno.

Após o cozimento por 10 minutos à temperatura de 100° C, o alfa-caroteno apresentou perdas médias estatisticamente significativas em todos os cultivares, enquanto que para o beta-caroteno, as perdas foram consideradas significantes nos cultivares Amador Híbrido F1 e Zarco Híbrido F1.

As perdas de beta-caroteno foram consideradas as mesmas para os três cultivares, enquanto que para o alfa-caroteno, os cultivares Amador Híbrido F1 e Sunboy Híbrido F1 apresentaram diferença entre si, sendo que as perdas na primeira foram maiores em comparação com a segunda.

A determinação dos valores de vitamina A dos pimentões amarelos mostrou que estes não são fonte importante desta vitamina na dieta humana. Os valores de vitamina A, expressos em equivalentes de retinol/100g, das amostras cruas e cozidas, respectivamente foram: Amador Híbrido F1: 48,70 e 36,27, Zarco Híbrido F1: 26,33 e 18,22, Sunboy Híbrido F1: 23,17 e 18,28.

 

5 — REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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6 — AGRADECIMENTOS

As autoras agradecem ao CNPq pela bolsa de estudos concedida à primeira autora para realização da Dissertação de Mestrado, que resultou no presente trabalho e à auxiliar de laboratório Inês Maria Henrique, pelo auxílio prestado.

 

 

1 Recebido para publicação em 10/09/97. Aceito para publicação em 30/09/98.

2 Departamento de Alimentos e Nutrição - FCF - USP - Caixa Postal 66083, Cep 05389-970, São Paulo-SP.

* A quem a correspondência deve ser enviada.