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Food Science and Technology

Print version ISSN 0101-2061On-line version ISSN 1678-457X

Ciênc. Tecnol. Aliment. vol.20 no.3 Campinas Sept./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-20612000000300018 

IDENTIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO DAS ANTOCIANINAS DO FRUTO DO AÇAIZEIRO (Euterpe oleracea) Mart1

 

Florinda O. BOBBIO2,*; Janice I. DRUZIAN4; Patrícia A. ABRÃO3; Paulo A. BOBBIO2; Sandra FADELLI3

 

 


RESUMO

Do extrato aquoso, congelado e liofilizado dos frutos do açaizeiro, foram extraídas as antocianinas e após purificação e separação das duas principais frações as mesmas foram identificadas usando métodos químicos, espectroscópicos e CLAE. As antocianinas foram identificadas como cianidina-3- arabinosídeo e cianidina-3-arabinosil-arabinosídeo. O teor de antocianinas totais no caso do fruto do açaizeiro foi determinado e o valor encontrado foi de 263mg/100g casca.

Palavras-chave: antocianinas; açaí, Euterpes oleracea; cianidina-3-arabinosídeo; cianidina-3-arabinosil-arabinosídeo.


SUMMARY

IDENTIFICATION AND QUANTIFICATION OF THE ANTHOCYANINS FROM THE FRUIT OF AÇAI (Euterpe oleracea) Mart. From the liophylized commercialy frozen extract of the fruit of Euterpes oleracea (açaí) two anthocyanins were isolated and identified as cianidin-3-arabinoside and cyanidin-3-arabinosylarabinoside. The percentage of total anthocyanins in the peels of the fruits was 263 mg/100g peel.

Keywords: Açaí; Euterpes oleracea; cianidin-3-arabinoside; cyanidin-3-arabinosylarabinoside.


 

 

1 – INTRODUÇÃO

O consumo crescente dos chamados sucos de frutas naturais e sua popularização como "bebida energética", em muitos casos não é acompanhada do conhecimento de componentes menores como os pigmentos presentes em tais sucos ou extratos. Dos frutos do açaizeiro, Euterpe oleracea, é produzido um extrato aquoso que é largamente consumido especialmente na região norte do país.

Desta palmácea existem vários estudos do seu palmito, [2, 5, 7, 8], mas poucas publicações são dedicadas ao fruto do açaizeiro. A composição do óleo do mesocarpo do fruto foi estudada por LUBRANO et. al [6]. A composição e quantidade de pigmentos contidos na fina casca de cor preta do fruto não tem sido estudada, apesar da coloração intensa que indicaria a possibilidade do fruto do açaizeiro ser importante fonte de pigmentos naturais especialmente considerando a abundância da matéria-prima e a ausência de efeitos tóxicos.

 

2 - MATERIAIS E MÉTODOS

Em virtude da dificuldade de se obter os frutos do açaizeiro em quantidade e condições que permitissem seu uso para a extração dos pigmentos, foi usada a polpa do fruto congelada, proveniente do Pará e encontrada no mercado de Campinas. Somente para a análise quantitativa foi possível, pela pequena quantidade necessária, usar frutos in natura, provenientes do Pará.

2.1 - Extração das antocianinas do fruto do açaizeiro

Quinhentos gramas de polpa foram congelados e liofilizados. O material liofilizado foi extraído exaustivamente com solução a 0,1% de HCl em etanol [1]. Os extratos combinados foram filtrados e concentrados à pressão reduzida e à temperatura de 38-39oC. O extrato assim obtido, denominado aqui extrato bruto, foi armazenado a –18oC sob N2 na ausência de luz.

2.2 - Avaliação do teor de antocianinas nos frutos do açaizeiro

Foram extraídas exaustivamente 19,00g de cascas obtidas de 100,00g de frutos, com HCl 1,5N em etanol 95 G.L. a 5oC [4]. Os extratos foram filtrados à pressão reduzida.

O resultado foi expresso em mg de pigmento (antocianinas) por 100g de cascas.

2.3 – Identificação das antocianinas do fruto do açaizeiro

O extrato bruto concentrado foi cromatografado em papel Whatman no3 com HCl 1% como solvente [3]. Foram separadas duas zona (Z1 e Z2), com intensa coloração vermelha. As zonas foram eluídas com metanol e após concentração a vácuo a 38-39oC, foram recromatografadas em papel Whatman no3 com BAW (butanol - ácido acético - água 6:1:2 v/v) e com AWH, (ácido acético:água:ácido clorídrico 82 :15:3 v/v).

A identificação das antocianinas purificadas foi feita por métodos químicos, cromatográficos e espectroscópicos, descritos por FRANCIS [3].

2.4 - CLAE das zonas Z1 e Z2

Foi usado um aparelho Shimadzu LC10 com arranjo de diodos e coluna de fase reversa C18 de 250X4,6mm. Como fase móvel foram usadas: MeOH (B) e 0,5% H3PO4/MeOH (A), fluxo de 1ml/minuto, programação por gradiente: A/B=95/5 até A/B=40/60, l =280 e 520hm

 

3 - RESULTADOS E DISCUSSÃO

O teor de antocianinas encontrados foi de 50,00 ± 5mg por 100,00g de frutos manual e cuidadosamente descascados. A retirada da fina casca é facilitada pela pouca aderência à polpa. Considerando que é possível a separação da casca do fruto sem danos significativos ao mesmo e que a quantidade de casca representou 19% do peso do fruto, teríamos um teor de antocianinas de 263mg/100g de casca. O método de dosagem das antocianinas na casca do fruto do açaizeiro foi baseado no método desenvolvido por LEES e FRANCIS [4] que usaram a expressão:

Foi usado o valor de E encontrado por LEES e FRANCIS (4) para o extrato de "cranberry" igual a 98,2. Este valor corresponde a uma mistura de antocianinas purificadas obtidas do suco do cranberry.

Essa porcentagem pode ser considerada elevada e suficiente para considerar os frutos do açaizeiro uma fonte economicamente viável de antocianinas com a vantagem de não apresentar efeitos tóxicos para o consumidor, pois os frutos são consumidos pelo homem sem apresentar qualquer efeito tóxico conhecido.

Quando cromatografado em papel com HCl 1%, o extrato bruto revela a existência de duas antocianinas Z1 e Z2, cuja pureza foi comprovada por recromatografia em mais dois sistemas diferentes de solventes BAW e AWH. Os valores de l máx. para as zonas Z1 e Z2 purificadas por cromatografia em BAW foram 280 e 528hm e 283 e 530hm respectivamente, (em metanol/HCl).

O resultado do CLAE está representado nas Figuras 1 e 2. Os tempos de retenção foram de 24,86 para Z1 e 21,40 para Z2.

 

 

 

Soluções das duas frações, Z1e Z2, tratadas com solução de AlCl3 em metanol mostraram deslocamento batocrômico, indicando a presença de grupos OH vicinais no anel B (7), o que indica a possível presença de cianidina, delfinidina ou petunidina, como sendo a aglicona das antocianinas. Entretanto, o valor da absorvância no comprimento de onda máximo para Z1 e Z2, purificadas, no visível (528 e 530 h m) indicam que a aglicona de Z1 e Z2 é a cianidina.

A hidrólise total das zonas Z1 e Z2 para a identificação dos carboidratos revelou a existência somente de arabinose e pela hidrólise controlada comprovou-se a existência de duas moléculas de arabinose para a antocianina Z1 e de uma molécula de arabinose para Z2. A ausência de ácidos fenólicos nas moléculas das duas antocianinas foi verificada pela ausência de picos de absorção entre 320-360 em seu espectro UV-Vis.

 

4. CONCLUSÕES

O elevado teor de antocianinas nas cascas dos frutos da Euterpes oleracea e a ausência de efeitos tóxicos dos extratos aquosos do açaí indicam que o fruto do açaí é uma matéria-prima viável para a obtenção de antocianinas para uso como corante natural. Usando CLAE e métodos químicos e espectroscópicos de uso corrente descritos na literatura, foi possível identificar cianidina-3-arabinosídeo e cianidina-3-arabinosil-arabinosídeo como as duas principais antocianinas da casca dos frutos do açaí.

 

5 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1]BAILONI, M.A.; BOBBIO, P.A.; BOBBIO, F.O. Preparação e estabilidade do extrato antociânico das folhas da Acalipha histida. Ciência Tecnol. Alimentos. v. 18, n. 1, p. 17-18, 1998.        [ Links ]

[2]CAMPOS, S.D.S.; PEDRASSI, C.A. Texture profiles of palm hearts from the palm hearts, from the palm types açaí (Euterpes oleracea) and juçara (E. edulis). Coletânea do Instituto de Tecnologia de Alimentos, v. 18, n. 2, p. 161-170, 1988.        [ Links ]

[3]FRANCIS, F.G. Analysis of Anthocyanins. In: Anthocyanins as Food colors (P. Markakis ed.), p 182-208. Academic Press, N.Y. 1982.        [ Links ]

[4]LEES, D.H.; FRANCIS, F.G. Standardization of pigment analysis in cranberries. Hortscience. v. 7, p. 83-84, 1972.        [ Links ]

[5]LEMOS SILVA, G. M.; LOURENÇO, E.J., NEVES, V.A.. Inhibition of shikimate dehydrogenase from heart of palm, Euterpes oleracea. J. Food Biochemistry, v. 9, n. 2, p. 105-116, 1985.        [ Links ]

[6]LUBRANO, C.; ROBIN, J.R.; KHAIAT, A. Fatty acid, sterol and tocopherol composition of oil from the fruit mesocarp of six palm species in French Guiana. Oleagineux, v. 49, n. 2, p. 59-65, 1994.        [ Links ]

[7]QUAST, D. G.; BERNHARDT, L.W. Progress in heart of palm processing research. J. Food Protection, v. 41, n. 8, p. 667-674, 1978.        [ Links ]

[8]UZELAK, M.; TRIGUEIRO, I. Analises dos açúcares em palmito de 3 espécies: E. edulis, E. oleracea e Syagrus oleracea. Coletânea do Instit. Tecn. de Alimentos, v. 9, p. 63-83, 1978.        [ Links ]

 

6 - AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a FAPESP pelo auxílio financeiro, processo nº 99/01632-1.

 

 

1Recebido para publicação em 28/04/2000. Aceito para publicação em 08/01/2001.

2Departamento de Ciência de Alimentos – Faculdade de Engenharia de Alimentos – UNICAMP. C.P.: 6121, CEP: 13083-970 – Campinas – SP – Brasil

3 Bolsista I.C. FAPESP

4 Universidade Oeste de Santa Catarina – SC.; Brasil.

* A quem a correspondência deve ser enviada.

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