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Jornal Brasileiro de Nefrologia

versão impressa ISSN 0101-2800

J. Bras. Nefrol. vol.31 no.3 São Paulo jul./set. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-28002009000300001 

CONSULTA NEFROLÓGICA EM 10 MINUTOS

 

Abordagem clínica da oligúria

 

Clinical approach to oliguria

 

 

Verônica Torres da Costa e Silva; Luis Yu

IServiço de Nefrologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo

Correspondência para

 

 

Oligúria é definida, classicamente, como a redução do volume urinário para um valor abaixo de 400 mL em 24 horas. Recentemente, o sistema RIFLE/AKIN de definição e classificação de lesão renal aguda (LRA) propôs como critério para definição de LRA uma redução do volume urinário abaixo de 0,5 mL por quilo (Kg) de peso, por um período superior a 6 horas. A utilização desse parâmetro tem duas implicações práticas e relevantes. A primeira é a de considerar reduções do volume urinário em termos relativos ao peso e não em termos absolutos. Ou seja, pacientes com volume urinário superior a 400 mL/dia (mas inferior a 0,3 - 0,5 mL/Kg/dia) devem ser apontados como oligúricos e tratados como tal. Outro aspecto é o fato de apesar de a maioria, mas nem todos os pacientes com LRA, apresentar redução do volume urinário, todo paciente que apresenta oligúria deve ser entendido e abordado como portador de LRA até prova em contrário, mesmo que exames laboratoriais, como creatinina e ureia, estejam normais.

Considerando a presença de oligúria como sinônimo de LRA, sua abordagem causal deve seguir a classificação clássica atual em LRA de origem pré-renal, intrínseca e pósrenal (Tabela 1). Qualquer causa de LRA pode levar à oligúria, embora reduções mais significativas de diurese, como anúria, sobretudo de instalação súbita (em menos de 24 horas), sejam sugestivas de causa obstrutiva ou vascular. Nos pacientes com sepse, o termo LRA associado à sepse tem sido preferido (em detrimento do termo necrose tubular aguda secundária à sepse), considerando a ênfase nos aspectos inflamatórios e hemodinâmicos e nos achados histológicos muitas vezes normais encontrados nesses pacientes.

 

 

Alguns dados de anamnese devem ser investigados e podem auxiliar no diagnóstico. Eventos de menor magnitude, como diarreia, vômito e baixa ingestão alimentar, podem apresentar repercussões mais graves, particularmente em pacientes mais suscetíveis, como idosos, portadores de insuficiência cardíaca e doença hepática crônica. Homens acima de 50 anos devem ser questionados quanto a queixas de prostatismo e avaliação urológica recente. Deve-se investigar sobre história prévia de doença litiásica, uso recente de drogas potencialmente nefrotóxicas, como anti-inflamatórios não hormonais e contraste iodado. É preciso lembrar que qualquer medicação (antibióticos, analgésicos) pode causar nefrite intersticial aguda. A ocorrência de oligúria no pós-operatório está mais frequentemente associada a eventos isquêmicos (instabilidade hemodinâmica, anestesia prolongada), podendo estar associada a complicações cirúrgicas mecânicas (como síndrome compartimental abdominal) ou à rabdomiólise.

Um exame físico detalhado deve ser realizado, com a finalidade de buscar achados que orientem o fator causal, embora na maioria das vezes características específicas não sejam encontradas. Devem-se procurar sinais de desidratação e má perfusão tecidual. Exame abdominal cuidadoso com pesquisa de bexigoma é mandatório.

Os principais exames complementares em um paciente com oligúria são:

A) Avaliação da urina: o exame de Urina I e a bioquímica urinária devem ser solicitados na maioria dos pacientes com oligúria, tendo maior relevância na distinção entre LRA de origem pré-renal e necrose tubular aguda (Tabela 2). A presença de hematúria e proteinúria aponta para LRA de outras etiologias, como glomerulonefrite, nefrite intesticial e microangiopatia trombótica. Um grupo de exceção é o de pacientes sépticos, no qual a avaliação da bioquímica e do sedimento urinário não parece ter utilidade prática. A LRA de origem pós-renal não apresenta um padrão característico.

 

 

B) USG de rins e vias urinárias deve ser realizado em todo paciente com oligúria, a fim de avaliar a morfologia renal e afastar a presença de fatores obstrutivos. A complementação com doppler de artérias renais pode ser útil no diagnóstico de eventos tromboembólicos e o doppler veias renais deve ser realizado na suspeita de trombose, principalmente em pacientes com fatores predisponentes (síndrome nefrótica, neoplasia, trombofilias).

C) Outros exames complementares devem ser solicitados conforme a necessidade: TC de abdômen para a avaliação de cálculos em ureter, pielonefrite aguda, massas abdominais ou retroperitoneais; cintilografia com gálio e pesquisa de eosinófilos na urina na suspeita de nefrite intersticial; solicitação de dosagem de complemento sérico e sorologias para doenças secundárias (fator reumatoide, FAN, ANCA, sorologias virais) na suspeita de glomerulonefrite, pesquisa de esquizócitos no sangue periférico e provas de hemólise (DHL, reticulócitos e haptoglobina) na suspeita de microangiopatia trombótica.

O tratamento da oligúria é direcionado à abordagem do evento causal associado. As LRA de origem pré-renal devem ser abordadas com medidas de expansão volêmica; os pacientes com obstrução, submetidos a procedimento desobstrutivo assim que possível, e as LRA de origem intrínseca devem ser tratadas de acordo com a causa específica. A necessidade de diálise depende do contexto clínico, sendo uma decisão do nefrologistaque acompanha o caso. Eventualmente, mesmo nos casos de LRA de origem pré e pós-renal, pode haver necessidade de diálise para compensação do quadro clínico se as alterações laboratoriais forem significativas.

 

 

Correspondência para:
Luis Yu
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255 7º andar S. 711-F
São Paulo - CEP: 05403-900
Tel: (11) 3069-7629

Data de submissão: 07/08/2009
Data de aprovação: 09/09/2009

 

 

Declaramos a inexistência de conflitos de interesse.