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Jornal Brasileiro de Nefrologia

Print version ISSN 0101-2800

J. Bras. Nefrol. vol.34 no.3 São Paulo July/Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20120016 

ARTIGOS DE REVISÃO REVIEW ARTICLES

 

Marcadores práticos de função renal em pacientes com cistinose

 

Practical markers of renal function in cystinosis patients

 

 

Luciana Pache de Faria GuimaraesI; Letícia Aparecida Lopes NeriII; Nairo Massakasu SumitaIII; Maria Helena VaisbichIV

IMestranda em Pediatria - Nefrologia - Instituto da Criança - HCFMUSP
IIBioquímica do Laboratório Central - Setor de Bioquímica - HCFMUSP
IIIChefe do laboratório Central - HCFMUSP
IVDoutorado (Médica Assistente Unidade de Nefrologia Instituto da Criança - HCFMUSP)

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Cistinose é uma doença sistêmica, autossômica recessiva, que leva à insuficiência renal crônica na infância, a não ser que o tratamento com cisteamina seja iniciado precocemente. Mesmo nestas condições, os pacientes evoluem para doença renal crônica terminal por volta da segunda década da vida. Portanto, a avaliação da função renal é essencial neste grupo de pacientes.
OBJETIVO: Avaliar e correlacionar a cistatina C, creatinina sérica e o clearance de creatinina pela Fórmula de Schwartz em pacientes com cistinose, com diferentes graus de função renal.
MÉTODOS: Foram incluídos pacientes com menos de 18 anos de idade, com diferentes níveis de função renal, de acordo com o KDOQI em estágios 1 a 4. Nenhum dos pacientes estava em terapia de substituição renal. Foram medidos os seguintes parâmetros: cistatina C, creatinina sérica e o clearance de creatinina pela fórmula de Schwartz.
RESULTADOS: Foram analisadas 103 amostras de sangue de 26 pacientes. Foi detectada correlação significativa entre creatinina sérica e cistatina C (r = 0,81, p < 0,0001), cistatina C e o clearance de creatinina pela fórmula de Schwartz (r = -0,84, p < 0,0001) e creatinina sérica e clearance de creatinina (r = -0,97, p < 0,0001).
CONCLUSÕES: A medida da cistatina não mostrou nenhuma vantagem sobre a creatinina sérica e o clearance de creatinina pela fórmula de Schwartz em pacientes com cistinose para avaliar o ritmo de filtração glomerular. Este é o primeiro relato sobre o valor da creatinina sérica, do clearance de creatinina pela fórmula de Schwartz e da cistatina C em pacientes com cistinose.

Palavras-chave: cistatina C, cistinose, creatinina, testes de função renal.


ABSTRACT

BACKGROUND: Cystinosis is an autossomic recessive systemic disease that leads to renal insufficiency early in life unless cysteamine be started early. Unfortunately, even in this situation the patients will develop chronic renal disease with need of renal replacement therapy about second decade of life. Therefore, the renal function evaluation is essential to these patients. The aim of this study was to evaluate cystatin C, serum creatinine and creatinine clearance estimated by stature (Schwartz Formula) in cystinosis patients, with different degrees of renal function, and to correlate these parameters.
METHODS: We studied cystinosis patients, aged lower than 18 years, with different degrees of renal function, classified according to KDOQI in Chronic Kidney Disease stage 1 to 4. No patient was under renal replacement therapy. In these patients we evaluate the serum creatinine, cystatin C and creatinine clearance according to Schwartz Formula.
RESULTS: We analyzed 103 blood samples of 26 patients. We detected a significant statistical correlation between serum creatinine and cystatin C (r = 0.81, p < 0.0001), cystatin C and creatinine clearance estimated by stature (r = -0.84, p < 0.0001) and between serum creatinine and creatinine clearance estimated by stature (r = -0.97, p < 0.0001).
CONCLUSIONS: The expensive measurement of cystatin C showed no advantage in relation to serum creatinine and creatinine clearance according to Schwartz Formula in cystinosis patients to estimate the glomerular filtration rate. This is the first report checking the value of serum creatinine, creatinine clearance estimated by stature and cystatin C in cystinosis patients.

Keywords: creatinine, cystatin C, cystinosis, kidney function tests.


 

 

Introdução

Cistinose é uma doença autossômica recessiva sistêmica por depósito intralisossomal de cistina e determina doença renal crônica terminal (DRCT).1 A avaliação da função renal é essencial. Não existe um método consagrado para avaliação do ritmo de filtração glomerular (RFG) e a creatinina sérica permanece o mais utilizado. Pacientes com cistinose são desnutridos, apresentam polidipsia, poliúria e anorexia, que podem influenciar a creatinina sérica. A cistatina C pode ser um marcador da função renal nestes pacientes, pois não sofre influência da massa muscular ou sexo como a creatinina, e é estável acima de 1 ano de idade.2,3 Entretanto, tem custo elevado e é passível de críticas.4,5

O objetivo deste estudo foi correlacionar a cistatina C, a creatinina sérica e o clearance de creatinina estimado pela Fórmula de Schwartz6 em pacientes com cistinose.

 

Pacientes e Métodos

Incluímos pacientes com idade inferior a 18 anos, em estágios 1 a 4 de função renal (KDOQI),7 com função tireoideana normal ou sob terapia de reposição hormonal, equilibrados metabólica e eletroliticamente, recebendo bitartrato de cisteamina e aderentes ao tratamento de acordo com a presença aos exames e consultas, e avaliamos os seguintes parâmetros: creatinina sérica, cistatina C e clearance de creatinina pela Fórmula de Schwartz.

A creatinina sérica foi medida pelo Método de Jaffé Modificado. O clearance de creatinina foi estimado pela Fórmula de Schwartz. Cistatina C foi medida pelo Método Nefelométrico, faixa normal = 0,7-1,38 mg/l.

Análise estatística

Os dados são apresentados como média e desvio-padrão. Correlação de Pearson foi empregada para correlacionar os parâmetros com distribuição normal e, caso a normalidade tenha sido rejeitada, procedeu-se à transformação logarítmica. Significância foi definida quando p < 0,05.

O Comitê de Ética Local aprovou o estudo e o consentimento informado foi assinado pelos responsáveis.

 

Resultados

Foram analisadas 103 amostras de sangue de 26 pacientes (16 meninos). Os parâmetros foram medidos a cada três meses, quatro vezes. A Tabela 1 mostra as características dos pacientes, em relação ao sexo, idade na primeira medida e distribuição das medidas de acordo com o KDOQI. A Tabela 2 mostra os valores da creatinina sérica, da cistatina C e do clearance de creatinina. Considerando todas as medidas após a transformação logarítmica, foi detectada correlação estatística significativa entre a creatinina sérica e a cistatina C (r = 0,81, p < 0,0001), entre a cistatina C e o clearance de creatinina estimado (r = -0,84, p < 0,0001) e entre a creatinina sérica e o clearance de creatinina estimado (r = -0,97, p < 0,0001). A Figura 1 mostra um Gráfico Bland-Altman comparando a creatinina sérica e a cistatina C e a Figura 2 mostra um Gráfico Bland-Altman comparando a cistatina C e o clearance de creatinina estimado.

 

 

 

 

 

 

Estratificando por grupo de acordo com o estágio de DRC

No grupo DRC 1, a creatinina sérica e a cistatina C tiveram distribuição normal e o clearance de creatinina após a transformação logarítmica. Não foi detectada correlação significativa entre cistatina C e creatinina sérica (r = 0,35, p = 0,06); mas, foi detectada entre cistatina C e clearance de creatinina (r = -0,38, p = 0,04) e entre creatinina sérica e clearance de creatinina (r = -0,95, p < 0,0001).

No grupo DRC 2, a creatinina sérica e o clearance de creatinina tiveram distribuição normal, e a cistatina C após transformação logarítmica. Não foi detectada correlação significativa entre creatinina sérica e cistatina C (r = 0,21, p = 0,24), entre cistatina C e clearance de creatinina (r = -0,18, p = 0,32); entretanto, entre creatinina sérica e clearance de creatinina a correlação foi significativa (r = -0,80, p < 0,0001).

No grupo DRC 3, os três parâmetros tiveram distribuição normal. A creatinina sérica e a cistatina C (r = 0,66, p < 0,0001), a cistatina C e o clearance de creatinina (r = -0,79, p < 0,0001) e a creatinina sérica e o clearance de creatinina (r = 0,81, p < 0,001) apresentaram correlação significativa.

No grupo DRC 4, os parâmetros obedeceram a distribuição normal. A correlação entre creatinina sérica e cistatina C não foi significativa (r = 0,39, p = 0,22); porém, entre a cistatina C e o clearance de creatinina (r = -0,61, p = 0,04) e entre a creatinina sérica e o clearance de creatinina (r = -0,92, p < 0,0001) foram significativas.

 

Discussão

Um marcador do RFG prático vem sendo investigado. O mais utilizado é a creatinina sérica, pela facilidade de execução e baixo custo; entretanto, esta sofre influência do sexo, massa muscular e idade e apresenta secreção tubular, que pode superestimar o RFG8. Em adição, o método de dosagem mais empregado é o colorimétrico de Jaffé, que pode sofrer influência de outros cromógenos e superestimar a creatinina em cerca de 15% a 25%.9 O clearance de creatinina endógena depende de coleta cronometrada de urina e tem o mesmo inconveniente do método para medir a creatinina. Pacientes com cistinose são poliúricos, o que dificulta a coleta de urina cronometrada.

Os métodos confiáveis para avaliar o RFG são o clearance de inulina, do Cromo EDTA, DTPA ou do Iohexol, entre outros.2,5 Entretanto, são complicados, custosos, não totalmente livres de efeitos colaterais e difíceis de serem aplicados na prática. O clearance de creatinina pela Fórmula de Schwartz seria outra opção, mas depende da creatinina sérica e da estatura, a qual está comprometida nestes pacientes.10 A cistatina C tem o potencial de ser um bom marcador quando há perda de massa muscular.11-13 Pacientes com cistinose apresentam massa muscular reduzida, o que pode comprometer a medida da creatinina.14 Apesar das restrições à cistatina C, objetivamos correlacionar os métodos práticos de medida do RFG.

Foi detectada boa correlação entre creatinina sérica e clearance de creatinina pela Fórmula de Schwartz com a cistatina C em todas as medidas em diferentes estágios de DRC. Nos grupos de estratificados, a melhor correlação foi detectada no grupo DRC 3. Uma explicação para a falta de correlação entre os parâmetros nos grupos pode ser o pequeno número de medidas.

Assim, a medida da cistatina C não mostrou vantagem sobre a creatinina sérica e o clearance de creatinina estimado nestes pacientes. A busca por um marcador do RFG continua e sugerimos que os parâmetros empregados sejam adaptados às características de cada doença. Este é o primeiro relato avaliando a cistatina C, creatinina sérica e clearance de creatinina em pacientes com cistinose.

 

Referências

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4. Madureira e Silva MV, Moscoso Solorzano G, Nishida SK, Kirsztajn GM. Os níveis de cistatina C sofrem influência da dose de corticoide em pacientes com nefrite lúpica? J Bras Nefrol 2011;33:306-12.         [ Links ]

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Correspondência para:
Maria Helena Vaisbich
Hospital das Clínicas - HCFMUSP Instituto da Criança
Rua Carlos Steinen, nº 280, apto 31, Paraíso
São Paulo, SP, Brasil. CEP: 04004-011
Tel/Fax: (011) 3051-2474
E-mail: vaisbich@terra.com.br

Data de submissão: 18/11/2011
Data de aprovação: 15/02/2012
Apoio financeiro: FAPESP Processo 10/10622-0.