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Brazilian Journal of Nephrology

Print version ISSN 0101-2800On-line version ISSN 2175-8239

J. Bras. Nefrol. vol.40 no.4 São Paulo Out./Dec. 2018  Epub Aug 02, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2175-8239-jbn-2017-0014 

Artigos Originais

Avaliação de variáveis associadas à permeabilidade de fístulas arteriovenosas criadas por um nefrologista para fins de hemodiálise

Anderson Tavares Rodrigues1 
http://orcid.org/0000-0001-6634-1383

Fernando Antônio Basile Colugnati1 

Marcus Gomes Bastos2 

1Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG, Brasil.

2Universidade Federal de Juiz de Fora, Faculdade de Medicina, Juiz de Fora, MG, Brasil.

RESUMO

Introdução:

A fístula arteriovenosa (FAV) é considerada o acesso vascular padrão ouro para hemodiálise crônica, e sua falha prediz taxas mais altas de morbimortalidade.

Objetivos:

1) Avaliar a taxa de sucesso da FAV criada por um nefrologista e 2) identificar variáveis clínicas, laboratoriais e demográficas que influenciam a patência da FAV.

Métodos:

Estudo de coorte retrospectivo de 101 pacientes com doença renal crônica, totalizando 159 FAVs criados por um nefrologista entre junho de 2010 e junho de 2013. Resultados: Das FAVs criadas, 124 (78%) apresentaram patência imediata e 110 (62,9%) apresentaram patência tardia. A hemoglobina (10-12 g/dL) foi a única variável relacionada à patência tardia da FAV (p = 0,05). A pressão arterial elevada no momento da cirurgia foi associada a um menor número de procedimentos por paciente (p = 0,001). A FAV proximal ocorreu com maior frequência em pacientes com dois acessos confeccionados (p = 0,03). A taxa de sucesso da FAV foi semelhante à relatada anteriormente na literatura.

Conclusão:

O nível de hemoglobina no intervalo recomendado tem um impacto favorável na perviedade tardia da FAV e pressão arterial elevada durante a cirurgia no menor número de acessos vasculares por paciente. A alta taxa de sucesso indica que ela pode ser feita por nefrologistas treinados.

Palavras-chave: Fístula Arteriovenosa; Diálise Renal; Insuficiência Renal Crônica; Grau de Desobstrução Vascular

INTRODUÇÃO

A confecção da fístula arteriovenosa autógena (FAV) no punho, conforme descrito inicialmente em 1966,1 continua sendo o acesso vascular de escolha para o tratamento hemodialítico, pois está associada a baixos níveis de complicações e melhor durabilidade a longo prazo.2 Além disso, a FAV autógena está associada a uma menor taxa de mortalidade nos primeiros 6 meses de hemodiálise, comparada ao uso de cateteres venosos centrais e acesso vascular com prótese.3 Em 2016, no Brasil, a prevalência de pacientes em diálise utilizando cateter venoso central como acesso vascular foi de 20,5%; e 2,2% estavam em uso de prótese, o que significa que 77,3% apresentavam FAV autógena.4

A falência da FAV é um importante problema clínico com altos custo e morbidade no tratamento de pacientes com doença renal crônica (DRC) estágio 5 em hemodiálise.5 Os gastos com acesso vascular para hemodiálise são altos; por exemplo, em 2007, nos Estados Unidos, os gastos do Medicare com acesso vascular para diálise foram de cerca de US $ 1,8 bilhão.6 A falha de acesso vascular para hemodiálise aumenta significativamente as taxas de morbidade e os custos do tratamento,7 enquanto a FAV em funcionamento está associada a menores taxas de mortalidade.8

Nos Estados Unidos, o acesso vascular é criado principalmente pelo cirurgião vascular, em contraste com outros países, nos quais o nefrologista planeja e confecciona a FAV.9 Por exemplo, na Itália e no Japão, as taxas de confecção de FAV pelo nefrologista são 85% e 25%, respectivamente. Nesses países, o tempo entre a indicação e a criação de acesso vascular é de 5 a 6 dias, muito abaixo dos 40 a 43 dias relatados para Canadá e Reino Unido, países nos quais a FAV é feita por cirurgiões. Como resultado, esse atraso influenciou a proporção de pacientes que iniciaram diálise com FAV.7

Até o momento, nenhuma publicação relatou a experiência da criação de FAV por nefrologistas brasileiros, justificando assim, os estudos que avaliam essa possibilidade como uma estratégia para reduzir o uso de cateteres venosos centrais no início da diálise. Assim, os objetivos deste estudo foram avaliar as taxas de patência imediata e tardia da FAV criada por um nefrologista e identificar as variáveis demográficas, clínicas e laboratoriais associadas à funcionalidade do acesso vascular.

METODOLOGIA

AMOSTRA E CONFIGURAÇÕES

Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo envolvendo pacientes da Clínica Pró-Renal - Centro de Nefrologia, em Barbacena, Minas Gerais, Brasil, em hemodiálise crônica que consentiram com a confecção de uma FAV por um nefrologista (A.T.R.), previamente treinado para realizar o procedimento. Como não há currículo formal em nefrologia com relação ao treinamento para a confecção da FAV, um treinamento em Fellowship foi realizado pelo autor (A.T.R.) com um cirurgião vascular durante um período de três meses, quando cerca de 100 fístulas foram feitas.

O período avaliado incluiu o início da criação da FAV pelo nefrologista no período de junho de 2010 a junho de 2013. Os pacientes cuja FAV foi criada por outros profissionais médicos não pertencentes ao serviço não foram incluídos no estudo.

As variáveis avaliadas estavam presentes no momento da confecção da FAV, uma vez que o mesmo paciente pode ter sido submetido a mais de um procedimento. As informações foram transcritas em um banco de dados que foi desenvolvido especificamente para o estudo e foram registrados idade, gênero e diagnóstico de diabetes mellitus (DM). Analisamos também as seguintes variáveis: frequências dos procedimentos agrupados por período de meses, a área anatômica onde o procedimento foi realizado, número total de procedimentos por paciente, presença ou ausência de pressão arterial elevada (PA) (definida como PA > 140/90 mmHg) no momento da cirurgia, níveis de hormônio paratireoidiano intacto (iPTH), fósforo (P) e hemoglobina (Hb) e o produto de cálcio (Ca) × P. Todos os dados laboratoriais foram coletados no mês da confecção do acesso. Os valores de iPTH foram estratificados em três grupos: < 500 pg/dL, 501-1000 pg/dL e > 1000 pg/dL; o produto de Ca × P foi dividido em ≤ 55 e > 55; o nível de P foi dividido em ≤ 5,5 mEq/L e > 5,5 mEq/L; os valores de Hb foram estratificados em ≤ 10 g/dL, 10,1-12,0 g/dL e > 12 g/dL. A taxa de complicações relacionadas ao número total de procedimentos realizados também foi descrita.

As áreas anatômicas dos procedimentos distais foram definidas como aquelas abaixo da dobra do cotovelo com apenas uma anastomose vascular e utilizando as artérias radial ou ulnar, e as veias cefálica ou basílica do antebraço; enquanto aquelas dos procedimentos proximais foram definidas como aquelas na região da dobra do cotovelo com apenas uma anastomose vascular e utilizando a artéria braquial e veias do plexo basílico, cefálico ou braquial.

A patência imediata foi identificada se a FAV apresentasse pulso à palpação e/ou frêmito palpável e/ou sopro audível na veia de drenagem no período pós-operatório imediato e patência tardia se a FAV pudesse ser puncionada e usada para uma sessão de hemodiálise 30-60 dias após o procedimento cirúrgico.

O protocolo do estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Presidente Antônio Carlos - UNIPAC sob protocolo número 831/2010.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

A análise dos dados foi realizada utilizando-se o software IBM SPSS Statistics para Macintosh, Versão 21.0 (Armonk, NY: IBM). As variáveis do estudo corresponderam àquelas registradas no banco de dados mencionado acima. Foram calculados a frequência e as médias, desvios-padrão e percentuais indicados para cada variável. As taxas de patência das fístulas com as outras variáveis do estudo foram colocadas em tabelas de contingência linha por coluna ou tabelas de análise de variância (ANOVA). A significância estatística das diferenças obtidas nas comparações foi determinada usando o teste qui-quadrado ou o teste exato de Fisher para tabelas ANOVA. As variáveisdependentes - patência imediata e tardia - foram avaliadas por modelos de regressão logística e ajustadas para PA elevada no momento do procedimento, nível de Hb e número de procedimentos por paciente para obter o odds ratio (OR), intervalo de confiança de 95% (IC 95%) e valor de P. O nível de significância estatística para a análise foi de 5%.

RESULTADOS

Estudamos 101 pacientes (49 homens [48,5%], 52 mulheres [51,5%]; 38 [37,6%] com DM como causa ou comorbidade da DRC) com idade média de 56,3 ± 16,2 anos. Das 159 FAVs, 54 (34%) foram criadas entre junho de 2010 e junho de 2011, 53 (33,3%) entre julho de 2011 e junho de 2012 e 52 (32,7%) entre julho de 2012 e junho de 2013. As FAV foram criadas uma vez em 100 pacientes (62,8%), duas vezes em 38 (23,9%) e três ou mais vezes em 21 (13,2%). O número máximo de FAVs por paciente foi de cinco. PA elevada foi observada em 92 (58,6%) cirurgias. A porção distal foi utilizada em 95 (59,7%) procedimentos. Patências imediata e tardia da FAV ocorreram em 124 (78,0%) e 110 (69,2%) procedimentos, respectivamente.

A Tabela 1 apresenta as variáveis clínicas e laboratoriais durante a confecção da FAV com patência imediata. Como pode ser observado, esta não foi infuenciada pelo gênero, diagnóstico de diabetes, os diferentes períodos de confecção da FAV, o número de procedimentos por paciente, a área anatômica da fístula ou o nível de iPTH e P. Por outro lado, é evidente que a PA elevada, o produto de Ca × P ≤ 55, e os níveis de Hb de 10,1 a 12,0 g/dL tendem a favorecer a patência imediata da FAV.

Tabela 1 Características inerentes à procedimentos de confecção de fistula que mostraram patência imediata ou não 

Característica Com patência imediata Sem patência imediata χ2/F p
N % N %
Gênero
Homens 59 47.6 19 54.3 0.491 0.567
Mulheres 65 52.4 16 45.7
Diabetes mellitus
Sim 48 38.7 15 42.9 0.196 0.698
Não 76 61.3 20 57.1
Período do procedimento
Junho 2010 a Junho 2011 42 33.8 12 34.3 1.270 0.535
Julho 2011 a Junho 2012 39 31.5 14 40.0
Julho 2012 a Junho 2013 43 34.7 9 25.7
Nº de procedimentos/paciente
1 80 64.5 20 57.1 3.478a 0.182
2 31 25.0 7 20.0
≥ 3 13 10.5 8 22.9
PA elevada na cirurgia
Sim 76 62.3 16 45.7 3.082 0.084
Não 46 37.7 19 54.3
Local do acesso
Distal 75 62.0 20 58.8 0.112 0.842
Proximal 46 38.0 14 41.2
Nível de iPTH
< 500 73 68.2 21 72.4 0.239a 0.948
501-1000 19 17.8 4 13.8
> 1000 15 14.0 4 13.8
Produto Ca × P
≤ 55 70 66.7 24 85.7 3.870 0.062
> 55 35 33.3 4 14.3
p
≤ 5.5 51 48.6 18 64.3 2.187 0.201
> 5.5 54 51.4 10 35.7
Hemoglobina
≤ 10.0 70 69.3 20 76.9 4.596a 0.087
10.1-12.0 24 23.8 2 7.7
> 12.0 7 6.9 4 15.4

χ2, qui-quadrado de Pearson; F, teste exato de Fisher (a); PA, pressão arterial; iPTH, nível do paratormônio intacto; Ca, nível de cálcio; P, nível de fósforo.

A Tabela 2 mostra as variáveis clínicas e laboratoriais em relação à patência tardia da FAV. Um nível de Hb de 10,1 a 12,0 g/dL foi a única variável que impactou positivamente a patência tardia da FAV.

Tabela 2 Características inerentes ao procedimento de coinfecção da fistula que tiveram patência tardia ou não 

Característica Com patência tardia Sem patência tardia χ2/F p
N % N %
Gênero
Masculino 52 47.3 26 53.1 0.455 0.607
Feminino 58 52.7 23 46.9
Diabetes mellitus
Sim 44 40.0 19 38.8 0.021 1.000
Não 66 60.0 30 61.2
Período do procedimento
Junho 2010 a Junho 2011 38 34.5 16 32.6 1.035 0.589
Julho 2011 a Junho 2012 34 30.9 19 38.8
Julho 2012 a Junho 2013 38 34.5 14 28.6
Nº de procedimentos/paciente
1 69 62.7 31 63.3 0.884 0.631
2 28 25.5 10 20.4
≥ 3 13 11.8 8 16.3
PA elevada na cirurgia
Sim 67 62.0 25 51.0 1.686 0.131
Não 41 38.0 24 49.0
Sítio do acesso
Distal 63 58.3 32 68.1 1.313 0.167
Proximal 45 41.7 15 31.9
iPTH (pcg/dL)
< 500 65 69.1 29 69.0 0.007 1.000
501-1000 16 17.1 7 16.7
> 1000 13 13.8 6 14.3
Produto de Ca × P
≤ 55 65 69.1 29 74.4 0.361 0.677
> 55 29 30.9 10 25.6
P (mEq/L)
≤ 5.5 48 51.1 21 53.8 0.085 0.850
> 5.5 46 48.9 18 46.2
Hemoglobina (g/dL)
≤ 10.0 61 67.7 29 78.4 5.998 0.050
10.1-12.0 23 25.6 3 8.1
> 12.0 6 6.7 5 13.5

χ2, qui-quadrado de Pearson; F, teste exato de Fisher (*); PA, pressão arterial; iPTH, nível de paratormônio intacto; Ca, nível de cálcio; P, nível de fósforo.

As Tabelas 3 e 4 apresentam o OR do modelo de regressão logística ajustado para PA alta no momento da cirurgia, número de procedimentos por paciente (valor de referência igual a um procedimento) e Hb (valor de referência de 10,1 a 12,0 g/dL); as variáveisdependentes foram patência imediata e tardia. Houve uma tendência clara para a PA elevada no momento da confecção da FAV com patência imediata da FAV (Tabela 3) e o impacto positivo dos níveis de Hb de 10,1 a 12,0 g/dL na patência tardia.

Tabela 3 Resultados do modelo de regressão aplicado à variável dependente de patência imediata 

Variável Odds ratio Valor de p 95% IC
PA alta na cirurgia 2.66 0.055 0.98-7.21
Nº de procedimentos/paciente
2 1.33 0.622 0.43-4.10
≥ 3 0.52 0.293 0.15-1.76
Hemoglobina (g/dL)
≤ 10.0 0.23 0.071 0.05-1.13
>12.0 0.19 0.094 0.03-1.33

IC, intervalo de confiança; PA, pressão arterial.

Tabela 4 Resultados do modelo de regressão aplicado à variável dependente de patência tardia mantida 

Variável Odds ratio Valor p 95% IC
PA alta na cirurgia 1.45 0.396 0.61-3.45
Nº de procedimentos/paciente
2 1.63 0.332 0.61-4.34
≥3 0.85 0.790 0.27-2.72
Hemoglobina (g/dL)
≤10.0 0.25 0.035 0.07-0.90
>12.0 0.17 0.043 0.03-0.94

IC, intervalo de confiança; PA, pressão arterial.

Em relação às complicações do procedimento, dois pacientes (1,25%) apresentaram pseudoaneurisma roto, três FAV foram associadas à síndrome do roubo do acesso vascular (1,88%) e um paciente (0,62%) apresentou infecção com boa resposta ao tratamento com antibióticos de curto espectro.

DISCUSSÃO

Embora nosso estudo tenha sido retrospectivo e realizado em um único centro, o que limita a generalização de seus resultados, sua importância decorre de ser o primeiro relato de experiência com FAVs criadas por um nefrologista no Brasil. Os dados brasileiros sobre terapia de substituição renal indicam um número crescente de pacientes com insuficiência renal funcional em necessidade de diálise (mais que o dobro da última década) e que uma proporção significativa desses pacientes inicia o tratamento por acesso vascular temporário4. Assim, nossos resultados no cenário brasileiro de diálise são encorajadores, pois apontam para a possibilidade de os nefrologistas se capacitarem para confeccionar a FAV.

Há evidências publicadas de que a experiência do médico que confecciona a FAV tem um impacto positivo em sua patência. Por exemplo, Fassiadis et al. observaram associação entre a experiência do cirurgião que criou as fístulas radiocefálicas e o sucesso do procedimento10. Em nosso estudo, após dividir a construção de fístulas em três períodos consecutivos, descobrimos que a taxa de sucesso da FAV foi igual nos três períodos e não foi associada à experiência cirúrgica do nefrologista.

A pressão arterial é um aspecto interessante durante a criação da FAV. Na clínica de diálise, não é incomum observar perda da FAV devido a episódios hipotensivos. Uma análise secundária do estudo HEMO6 demonstrou, pela primeira vez, uma associação entre hipotensão pré, intra e pós-dialítica e perda da FAV. Em nossos pacientes, a PA elevada (> 140/90 mmHg) apresentou um efeito protetor na patência imediata da FAV, com uma menor necessidade de novos procedimentos por paciente, mas isso não se correlacionou com a patência tardia. Conforme descrito por Gandhi et al., a PA elevada não se associou a complicações e se apresentou como uma questão segura para o paciente submetido a procedimento de acesso vascular11. Não analisamos especificamente o nível da PA, mas tabulamos apenas se o paciente era hipertenso ou não no momento da cirurgia, como dados qualitativos e não para análise quantitativa. No entanto, nossa opinião é que pacientes hipertensos assintomáticos não devem ser tratados. Em estudos futuros, pretendemos analisar qual nível de PA é mais favorável na promoção de melhor patência de acesso.

A não uniformidade da distribuição do gênero nos estudos publicados limita a avaliação de possíveis associações entre gênero e patência da FAV. Embora Wang et al. (2008)12 tenham observado que pacientes do sexo feminino apresentaram maior insucesso da patência das fístulas braquiocefálicas, a taxa de sucesso da FAV foi igual para os gêneros, resultado semelhante ao nosso.

A associação entre idade e patência da FAV permanece controversa, com estudos a favor9 e contra12, embora pacientes idosos realizem hemodiálise com menor frequência13. Entre nossos pacientes, apenas 27% eram idosos, o que não permite inferir o impacto da idade na patência da FAV.

Diabetes mellitus é reconhecidamente um fator de risco para doença endotelial e, portanto, potencialmente favorece a taxa de falha da FAV. No entanto, de acordo com os achados de Kazemzadeh et al. (2008)14, não observamos impacto negativo do DM na patência da FAV em nossos pacientes.

As diretrizes sobre o acesso vascular do Kidney Disease Outcomes Quality Initiative (KDOQI) em pacientes com DRC em tratamento dialítico15 recomendam a colocação de FAV distal nas extremidades superiores para aumentar a possibilidade de criação de novas fístulas, se necessário. Em nosso estudo, a maioria das FAVs foram confeccionadas distalmente (58,6%), enquanto aquelas confeccionadas proximalmente foram associadas à necessidade de mais de um procedimento.

Os níveis de iPTH e P, assim como o produto de Ca × P, estão associados a alterações vasculares como calcificação16, aterosclerose17 e hiperplasia miointimal18 isoladamente ou em combinação, podendo impactar negativamente na patência da FAV. Em nossos pacientes, na confecção da FAV, os valores de PTH, P e Ca×P foram encontrados dentro dos limites clínicos recomendados na maioria dos casos, e não influenciaram o resultado da patência da FAV.

Estudos recentes realizados em pacientes com DRC não dependente de diálise mostraram um impacto geralmente negativo da correção dos níveis de Hb à normalidade na mortalidade cardiovascular19,20. Por outro lado, menos estudos correlacionaram a patência da FAV e o nível de Hb, mas um relatou que os pacientes com níveis de Hb de 10,1 a 12,0 g/dL tiveram as taxas de patência mais altas21. Em nosso estudo, embora os registros de valores de Hb estivessem ausentes em aproximadamente 20% dos pacientes no momento da confecção do acesso vascular, a OR da patência tardia da FAV também foi maior se o nível de Hb foi 10,1-12 g/dL, enquanto valores <10,0 g/dL e > 12 g/dL afetaram adversamente o sucesso do acesso venoso.

Como mencionado anteriormente, no Brasil, a incidência e prevalência de pacientes que utilizam o acesso venoso central temporário para hemodiálise são inaceitavelmente altas4. Existem várias razões para explicar essa infeliz observação: 1) encaminhamento tardio de pacientes com DRC avançada ao nefrologista; 2) financiamento inadequado da FAV; e 3) na maioria dos programas de terapia de substituição renal, a FAV é confeccionada por cirurgiões vasculares, que têm pouco tempo longe de suas práticas para criar FAVs em vista do crescente número de novos pacientes com indicação de hemodiálise. Assim, é importante avaliar se os nefrologistas podem ser capacitados para confeccionar FAVs para seus pacientes. As experiências relatadas em outros países sugerem que isso é possível. Por exemplo, Garcia-Trío et al. não encontraram diferença nas taxas de patência de FAV colocadas por nefrologistas e cirurgiões e relataram uma taxa de falha primária de 21,8%22. Em nosso estudo, 78,0% das FAVs apresentavam critérios de patência imediata, muito semelhantes a esses dados. Além disso, 69,2% dos nossos pacientes apresentavam FAVs com patência tardia, ou seja, fístulas adequadas para punção venosa, percentual semelhante ao observado em outros estudos 23,24. Esses achados são de grande importância, pois indicam uma nova possibilidade na abordagem das FAVs, pois os nefrologistas podem preparar e criar a FAV para seus pacientes e, assim, encurtar o tempo de confecção do acesso venoso, comparado ao longo tempo do procedimento quando realizado por cirurgiões7. Além disso, pode se tornar uma estratégia importante para formalizar um currículo de treinamento no âmbito da nefrologia intervencionista, a fim de aumentar este excelente campo de atuação ainda não disponível para os nefrologistas brasileiros.

Finalmente, é importante enfatizar os baixos índices de complicações relacionadas às FAVs em nossos pacientes. A porcentagem de complicações observadas está de acordo com dados publicados25. Nenhuma complicação grave precoce ou tardia, que poderia causar consequências ou danos permanentes aos pacientes, foi observada. Isso reflete a importância de uma boa técnica cirúrgica e da experiência do profissional na colocação segura da FAV, evitando complicações e obtendo bons resultados finais.

Em conclusão, este estudo retrospectivo sobre a confecção de FAV por um nefrologista brasileiro indicou uma taxa de sucesso de patência tardia semelhante à de nefrologistas e cirurgiões em outros países. Além disso, a PA elevada (> 140/90 mmHg) é importante para a patência imediata do acesso venoso, e os níveis de Hb de 10,1 a 12,0 g/dL são recomendados para garantir a patência tardia da FAV.

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Recebido: 06 de Dezembro de 2017; Aceito: 17 de Maio de 2018

Correspondência para: Anderson Tavares Rodrigues. E-mail: anderson-cti@uol.com.br

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