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Revista Brasileira de Sementes

versão impressa ISSN 0101-3122

Rev. bras. sementes v.25 n.1 Pelotas jul. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31222003000100012 

Dormência em sementes de paricarana (Bowdichia virgilioides Kunth - Fabaceae - Papilionidae)

 

Seed dormancy of paricarana tree (Bowdichia virgilioides Kunth) - Fabaceae - Papilionidae

 

 

Oscar José SmiderleI; Rita de Cássia Pompeu de SousaII

IEng° Agr°, Dr., Pesquisador Embrapa Roraima, Cx. Postal 133, 69301-970, Boa Vista, RR; e-mail: ojsmider@cpafrr.embrapa.br
IILic. Química, Auxiliar de Operações; Embrapa Roraima

 

 


RESUMO

O trabalho foi realizado no Laboratório de Análise de Sementes da Embrapa Roraima, com o objetivo de estudar métodos para o alívio da dormência de sementes de paricarana. O delineamento experimental foi o inteiramente ao acaso com 4 repetições de 50 sementes. Os tratamentos foram: escarificação mecânica com lixa d'água; imersão em ácido sulfúrico (pa) por 5 e 10 minutos; imersão em álcool etílico por 5 e 10 minutos e testemunha, sem tratamento prévio das sementes. As sementes foram incubadas a 25ºC no interior de placas plásticas 'gerbox', com papel "germitest" umedecido. Através de avaliações regulares, verificou-se os parâmetros porcentagem de germinação, porcentagem de sementes duras, índice de velocidade de germinação e porcentagem de plântulas normais ao final de 30 dias. A contagem diária das sementes germinadas foi feita durante 30 dias. Os resultados demonstraram que os tratamentos pré-germinativos promoveram a germinação de paricarana, sendo que a escarificação com ácido sulfúrico (5 minutos), revelou ser o método mais efetivo para o alívio da dormência desta espécie.

Termos para indexação: Bowdichia virgilioides, germinação, escarificação, permeabilidade do tegumento.


ABSTRACT

This study was carried out at the Seed Laboratory of Embrapa Roraima, with the objective to study the alleviation of seed dormancy in the Paricarana tree (Bowdichia virgilioides). The experimental design was a randomized complete block design with four replications of 50 seeds each. The treatments were: mechanical scarification with water sandpaper; sulfuric acid - pa (5 and 10 minutes), ethanol (5 and 10 minutes) and the control. The seeds were placed in plastic boxes on moistened paper and incubated at 25ºC in a germinator. The parameters obtained were germination percentage, hard seed percentage, germination rate, percentage of normal seedlings at 30 days after sowing. The germinated seeds were counted daily during 30 days. Chemical scarification with sulfuric acid for 5 minutes was shown to be the most appropriate method for seed alleviation of this species.

Index terms: Bowdichia virgilioides, germination, dormancy, scarification, tegument permeability.


 

 

INTRODUÇÃO

A utilização do teste de germinação é fundamental para o monitoramento da viabilidade das sementes em bancos de germoplasma, antes e durante o armazenamento. Todavia, o conhecimento atual sobre as técnicas de monitoramento é limitado, concentrando-se, principalmente, em plantas de interesse agrícola. Pouco se conhece acerca das condições para germinação da maioria das sementes de espécies silvestres (Heywood, 1989). Lotes de sementes que possuem algum tipo de dormência podem ter a sua viabilidade subestimada quando são obtidos baixos valores de porcentagem de germinação. Dessa forma, metodologias para a superação de dormência são importantes, particularmente, para o monitoramento da viabilidade de sementes (Ellis et al., 1985). A dormência é uma característica de relativa importância em lotes de sementes de espécies cultivadas, sendo, todavia, um dos problemas mais sérios na conservação de germoplasma de espécies silvestres, já que essas produzem freqüentemente sementes dormentes. A impermeabilidade do tegumento à água é um tipo de dormência bastante comum em sementes da família Leguminosae (Villiers, 1972). Para Rolston (1978), das 260 espécies de leguminosas examinadas, cerca de 85% apresentavam sementes com tegumento total ou parcialmente impermeável à água.

Esse tipo de dormência pode ser superado através da escarificação, termo que se refere a qualquer tratamento que resulte na ruptura ou no enfraquecimento do tegumento, permitindo a passagem de água e dando início ao processo de germinação (Mayer & Poljakoff-Mayber, 1989). Sob condições naturais, a escarificação pode se dar pelo aquecimento úmido ou seco do solo, ou por temperaturas alternadas, o que permitiria a água chegar ao interior da semente. Esse processo pode ocorrer, também, pela ação de ácidos, quando da ingestão das sementes por animais dispersores, além da ação dos microorganismos presentes no solo (Vazquez-Yanes & Orozco-Segovia, 1993).

Em laboratório, foram desenvolvidos diversos métodos, visando a quebra da dormência por impedimento a entrada de água, como a escarificação mecânica e química, a embebição das sementes em água e tratamentos com altas temperaturas, sob condição úmida ou seca (Bewley & Black, 1982; Bebawi & Mohamed, 1985; Perez & Prado, 1993).

De acordo com Eira et al. (1993), todos esses tratamentos apresentaram vantagens e desvantagens, de modo que cada um deles deve ser estudado, levando-se em conta, também, o custo efetivo e sua praticidade de execução. Além disso, as sementes podem apresentar diferentes níveis de dormência. Sendo assim, o método empregado deve ser efetivo na quebra da dormência, sem prejudicar as sementes com baixos níveis de dormência.

A busca de metodologias para análise de sementes florestais desempenha papel fundamental dentro da pesquisa científica e de interesse diversificado. O conhecimento dos principais processos envolvidos na germinação de sementes de espécies nativas é de vital importância para a preservação daquelas espécies ameaçadas e multiplicação dessas e das demais em programas de reflorestamento.

A Paricarana (Bowdichia virgilioides Kunth.) é uma árvore típica de áreas de savanas arborizadas em Roraima. Esta espécie é encontrada também nas regiões nordeste e centro-oeste brasileiras, onde é conhecida pelos nomes populares de: sucupira-do-cerrado, sucupira-do-campo, angelim-amargoso, coração-de-negro (Almeida et al., 1998). Árvore de casca grossa e fendilhada atinge até 20 metros de altura, apresentando tronco com diâmetro máximo de 60 centímetros. Possuem folhas compostas, pinadas, com folíolos pubescentes. As pequenas flores, com corola lilás conferem um aspecto ornamental e apícola à árvore, que floresce entre os meses de outubro e dezembro. Os frutos são legumes, indeiscentes, achatados, contendo pequenas sementes com 3 a 5 mm de comprimento, apresentando coloração avermelhada (Lorenzi, 1992; Rizzini, 1990).

Possui madeira estriada pesada, de cerne pardo escuro, de alta durabilidade, dura, sendo empregada como dormentes, postes, cercas, embarcações e móveis de luxo. Pela sua elevada resistência ao fogo é muito utilizada em cercas de áreas de pastagem natural, em Roraima, sujeita a queimadas anuais. A infusão da entrecasca da paricarana é utilizada na medicina popular local para tratamento tópico de inflamações em geral.

Estudos de germinação de sementes vão auxiliar na produção de mudas para reflorestamento ou repovoamento de áreas onde ocorreu exploração intensa da espécie de forma extrativista, ou ainda, podem fomentar o uso desta árvore nativa em programas de arborização urbana de cidades localizadas em áreas de savana, com solos pobres e sujeitos a severas deficiências hídricas anuais. As sementes germinam entre 1 e 2 meses.

Levando-se em conta as características aparentes das sementes dessa espécie no que diz respeito à espessura do tegumento e sua dureza, o presente trabalho teve como objetivo selecionar tratamentos pré-germinativos em laboratório, que permitissem abreviar, aumentar e uniformizar a germinação das sementes de paricarana.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado no Laboratório de Análises de Sementes da Embrapa Roraima. As sementes foram colhidas e beneficiadas manualmente e armazenadas no laboratório em temperatura de 25ºC e umidade relativa de 65%.

Os tratamentos realizados foram: escarificação mecânica com lixa d'água por 1'; imersão em H2SO4 pa por 5'; imersão em H2SO4 pa por 10'; imersão em álcool etílico por 5'; imersão em álcool etílico por 10'; testemunha (sem tratamento).

Avaliações realizadas: Sementes duras: foram realizadas contagens diárias das sementes duras; Germinação: 200 sementes, depois de tratadas, foram semeadas em caixas plásticas (gerbox) contendo papel germitest umedecido 2,5 vezes seu peso com água deionizada e incubadas a 25ºC no interior de germinador (Brasil, 1992). Contagens diárias foram realizadas durante 30 dias. Foi considerada germinada, a semente que apresentava comprimento radicular maior do que 2 mm; Velocidade de germinação: foi obtida junto ao teste de germinação (Popinigis, 1985). O número de sementes germinadas em cada dia após a instalação do teste foi dividido pelo respectivo número de dias após a instalação do teste; Porcentagem de plântulas: ao final dos 30 dias foi obtido o número de plântulas normais, passiveis de se tornarem mudas para instalação de viveiro.

Utilizou-se delineamento experimental inteiramente ao acaso, com 04 repetições de 50 sementes por parcela. Os dados obtidos foram transformados em arc sen (x/100)0,5.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram detectadas diferenças significativas para os caracteres porcentagem de sementes duras, porcentagem de germinação, porcentagem de plântulas e velocidade de germinação. Os coeficientes de variação estimados para os quatro caracteres oscilaram de 10,8% a 14,8% (Tabela 1).

 

 

Os tratamentos com H2SO4 e com lixa d'água apresentaram redução na porcentagem de sementes duras (Figura 1) e maiores porcentagens de germinação (Figura 2), diferindo do observado para as sementes tratadas com álcool e para a testemunha. Esses resultados mostram que a escarificação mecânica e o ácido sulfúrico foram mais eficazes em romper o tegumento das sementes de paricarana. Assim, a água foi absorvida pelas sementes, embebendo-as, o que desencadeou o processo de germinação e posterior emergência das plântulas.

 

 

 

 

A germinação de sementes aumentou de 21% para 79% com a escarificação com lixa d'água e de 21% para 90% na escarificação com H2SO4 por 5 minutos. Resultados semelhantes foram obtidos, com H2SO4, por Camargo & Ferronato (1999) ao estudarem métodos de quebra de dormência. O T50 foi de 9 dias para o tratamento com ácido sulfúrico por 5 minutos e a lixa, e acima de 30 dias para o tratamento com álcool e testemunha. Esses resultados indicam benefícios dos tratamentos com H2SO4 e a escarificação mecânica para a multiplicação da espécie em estudo. Entre os dois tratamentos, destacamos a lixa por não ser perigosa ao manuseio pelo homem.

 

CONCLUSÃO

Dentre os tratamentos realizados, a escarificação química com H2SO4 (5 minutos), foi o método mais apropriado para o alívio da dormência, e conseqüentemente o aumento na porcentagem de germinação das sementes de paricarana.

 

REFERÊNCIAS

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Aceito para publicação em 11.06.2003

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