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Revista Brasileira de Sementes

Print version ISSN 0101-3122

Rev. bras. sementes vol.29 no.2 Londrina Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31222007000200027 

NOTA CIENTÍFICA

 

Sobrevivência de patógenos associados a sementes de soja armazenadas durante seis meses

 

Soybean seed health after six months of storage

 

 

Juliana Altafin GalliI; Rita de Cássia PaniziII; Roberval Daiton VieiraIII

IPesquisadora Cientifica Apta Regional Centro Norte, Rod. Washington Luiz, km 372, Caixa Postal 24, CEP 15830-000, Pindorama-SP, julianagall@aptaregional.sp.gov.br
IIDepto. de Fitossanidade, UNESP, CEP: 14884-900, Jaboticabal - SP
IIIDepto de Produçao Vegetal, UNESP

 

 


RESUMO

Sementes contaminadas ou infectadas no campo podem ter sua sanidade alterada durante o armazenamento, pela perda da viabilidade dos patógenos. O objetivo do presente trabalho foi verificar o efeito do armazenamento na qualidade sanitária de sementes de soja. Variedades de soja BRS 133, MSoy 6101, Conquista e Liderança foram inoculadas, no campo, por pulverização com suspensão de esporos de dois isolados de Colletotrichum dematium var. truncata e Phomopsis sojae. Após a colheita foram realizados testes de sanidade, sem e com desinfestação superficial das sementes com hipoclorito de sódio a 1% por 3 min. As sementes foram armazenadas em câmara fria, por seis meses, e testes de sanidade foram novamente realizados. Os resultados do trabalho permitem concluir que o armazenamento das sementes de soja contaminadas por fungos em câmara fria, por um período de seis meses, diminuiu a incidência de Phmopsis sojae e Colletotricum dematium var. truncata.

Termos para indexação: Glycine max, patologia de sementes, Colletotrichum dematium var. truncata, Phomopsis sojae.


ABSTRACT

Seeds infected by pathogens in the field can have their health altered during storage, through viability loss. The objective of the present study was to verify the effect of storage of soybean seeds in their health quality, inoculated with pathogens in field conditions. The soybean BRS 133, MSoy 6101, Conquista and Liderança varieties were inoculated, in the field, by pulverization with a spore suspension of two isolates of Colletotrichum dematium var. truncata and Phomopsis sojae. After harvest, seed health tests were carried out, without and with surface disinfection of the seeds with sodium hypochlorite at 1% for 3 min. After this analysis, the seeds were stored in a cold chamber for six months, and seed health tests were newly performed. The results of the work allow concluding that the storage of the seeds in cold chamber, for a period of six months, reduced the incidence of the pathogens Phmopsis sojae and Colletotricum dematium var. truncata in the seeds.

Index terms: Glycine max, seed pathology, Colletotrichum dematium var. truncata, Phomopsis sojae.


 

 

INTRODUÇÃO

Sementes provenientes de campos de produção podem carregar vários tipos de microrganismos, incluindo actinomicetos, vírus, bactérias e fungos. As primeiras duas classes de microrganismos usualmente não são problema em sementes armazenadas devido sua incapacidade de crescer sobre substratos com baixos níveis de umidade relativa (Kulick, 1994). Fungos que atacam as sementes pertencem basicamente a duas categorias, fungos de campo ou de armazenamento (Christensen e Kaufmann, 1965). Fungos de campo usualmente permanecem quiescentes durante o armazenamento da semente. Os fungos de armazenamento, como o nome diz, afetam as sementes armazenadas, pois são capazes de crescer sob condições relativamente secas, onde os fungos de campo não conseguem crescer.

A maior parte dos fungos patogênicos associados à soja tem nas sementes portadoras veículo de introdução em novas áreas de cultivo onde, sob condições ambientais favoráveis, poderão causar sérios danos à cultura (França Neto e Henning, 1984). Dentre as doenças fúngicas, destacam-se a antracnose e a seca da haste ou Phomopsis da semente, causadas, respectivamente, por Colletotrichum dematium var. truncata e Phomopsis sojae, sendo a primeira a responsável por afetar a fase inicial de formação das vagens e a segunda a maior responsável pelo descarte de lotes de sementes nos cerrados. Ambas doenças são favorecidas por elevadas precipitações e altas temperaturas, principalmente nos estádios finais do ciclo da cultura.

A qualidade da semente obtida no campo deve ser mantida no armazenamento até a próxima semeadura. As condições abióticas do ambiente favoráveis à conservação da qualidade da semente são temperatura e umidade relativa do ar durante o período de armazenamento. Armazenamento em condições adversas resulta na redução da germinação e do vigor das sementes. A deterioração das sementes no armazenamento é um fenômeno cumulativo, reduzindo o vigor mais rapidamente do que a viabilidade (Wilson Jr, 1994). A deterioração provoca danos genéticos às sementes, que poderão ou não ser expressos imediatamente, nas gerações subseqüentes (Basu, 1994). A qualidade fisiológica inicial da semente é determinante na manutenção da germinação e vigor durante o armazenamento (Salinas et al., 1996).

Além da qualidade inicial da semente e das condições de armazenamento interferirem na longevidade da semente, diferentes espécies apresentam comportamento distinto no armazenamento. Tekrony et al. (1993) identificaram que a germinação de sementes de soja decresceu mais rapidamente no armazenamento do que as sementes de outras espécies que produzem grãos. O aumento da viabilidade das sementes, durante o armazenamento, foi identificado por Tekrony et al. (1984), que atribuíram esta diferença a contaminação inicial das sementes por patógenos do gênero Phomopsis. Estas sementes foram contaminadas e infectadas no campo, e, durante o armazenamento, o fungo, não encontrando condições favoráveis, perdeu sua viabilidade, não mais causando danos às sementes. Outra diferença no comportamento das sementes durante o armazenamento é atribuída, por Tekrony et al. (1987) e Basu (1994), às diferenças genéticas entre cultivares. Este último autor complementa ainda que, quando as condições de armazenamento são favoráveis e as diferenças genéticas entre cultivares não se manifestam, estas apresentam o mesmo comportamento.

Para França Neto e Henning (1992), a capacidade de P. sojae em reduzir o poder germinativo das sementes proporciona o descarte de lotes com alto vigor. No experimento de Bizzetto e Homechin (1997), no armazenamento de sementes de soja nas temperaturas de 18 e 22ºC, apesar da redução do nível de P. sojae, não houve aumento no percentual de germinação, consequentemente não atingindo o percentual mínimo exigido de 80% de germinação. Isto provavelmente decorreu da existência de danos mecânicos, deterioração por umidade e incidência de percevejo, fatores responsáveis pela baixa qualidade fisiológica das sementes.

Partindo do exposto de que sementes contaminadas e infectadas por patógenos no campo podem ter sua sanidade alterada durante o armazenamento, pela perda da viabilidade do fungo, o objetivo do presente trabalho foi verificar a sobrevivência de patógenos associados a sementes de soja após seis meses de armazenamento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado no Laboratório de Patologia de Sementes e na área experimental do Departamento de Fitossanidade da UNESP, Câmpus de Jaboticabal – SP. Sementes das variedades de soja BRS 133, MSoy 6101, MG/BR 46 (Conquista) e BRS MG Liderança foram, manualmente, semeadas no campo em 08 de janeiro de 2003, distribuídas em quatro blocos constituídos de quatro parcelas, uma para cada variedade. Cada parcela foi constituída de seis linhas de cinco metros de comprimento, espaçadas de 0,45m entre si, totalizando uma área de 13,5m2. Foram semeadas 20 sementes por metro linear.

Os isolados de Colletotrichum dematium var. truncata e Phomopsis sojae usados nos experimentos foram obtidos em lavouras da região de Jaboticabal-SP e o isolado 9765 (referido no presente trabalho como isolado nº 2) de Colletotrichum foi obtido junto a micoteca do Instituto Agronômico de Campinas – IAC/SP. Para obtenção e multiplicação do inóculo, os isolados, conservados em óleo, foram repicados para placas de Petri contendo meio BDA e mantidos a temperatura ambiente, por 15 dias.

A suspensão de conídios, para aplicação em plantas no campo, foi obtida adicionando-se água destilada nas placas contendo o fungo. As concentrações da suspensão conidial foram obtidas através de leituras em câmara de Neubauer e ajustadas para 104 conídios/mL.

As plantas foram inoculadas por pulverização desta suspensão de conídios na parte aérea, utilizando-se um pulverizador manual, a partir do final do florescimento. O primeiro, segundo e terceiro blocos foram inoculados com C. dematium var. truncata isolado nº 1, P. sojae e C. dematium var. truncata isolado nº 2, respectivamente, com o objetivo de se obter sementes naturalmente infectadas pelos fungos. O quarto bloco foi considerado como testemunha. Os blocos foram separados a uma distância de cinco metros, para evitar a influência entre os tratamentos.

A colheita foi realizada manualmente. Foram colhidas as quatro linhas centrais de cada parcela desprezando-se 0,5m de cada extremidade. As vagens foram manualmente debulhadas. As sementes de cada tratamento (inoculação com fungos) foram submetidas ao teste de sanidade pelo método do papel de filtro ("Blotter test"), com duas variações: sem e com desinfestação superficial das sementes (hipoclorito de sódio a 1% por três minutos). Foram colocadas 10 sementes por placa, totalizando 200 sementes por tratamento, dispostas sobre três folhas de papel de filtro previamente umedecidas com água destilada. A incubação foi a temperatura de 20 ± 2ºC, regime luminoso de 12hs de luz/12 de escuro, durante sete dias. Após este período as sementes foram examinadas em microscópio estereoscópico. Na análise estatística utilizouse o delineamento inteiramente casualizado e os dados foram submetidos à análise de variância pelo teste F, utilizando-se de esquema fatorial 4 x 2 [tratamentos (inoculação com C. dematium var. truncata isolado nº 1, P. sojae, C. dematium var. truncata isolado nº 2 e testemunha) x sem e com desinfestação superficial das sementes], com cinco repetições (cada quatro placas sendo uma repetição). Os dados foram expressos em porcentagem e transformados em e arco seno para a análise estatística (na tabela encontram-se os dados originais).

As demais sementes foram armazenadas, durante seis meses, em câmara fria, a 10ºC e 50% de umidade relativa, em sacos de papel etiquetados e, após este período, foram submetidas ao teste de sanidade, conforme descrito anteriormente.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados dos testes de sanidade das sementes das variedades BRS 133, MSoy 6101, Conquista e Liderança, realizados logo após a colheita, estão presentes na Tabela 1. Verifica-se que as sementes, independente do tratamento e da variedade, apresentaram uma alta incidência de Fusarium sp., com valores elevados mesmo após a desinfestação destas com hipoclorito de sódio.

Para a variedade BRS 133 não houve diferença significativa na interação entre os tratamentos e a desinfestação superficial das sementes para Fusarium sp. (F = 1,01NS). Entre os tratamentos a maior incidência do fungo ocorreu na testemunha. Com relação a Phomopsis sojae, entre os tratamentos o maior valor ocorreu na parcela inoculada com P. sojae, apesar de não ter diferido significativamente da testemunha e do tratamento com Colletotrichum isolado nº2. Apenas o tratamento inoculado com Colletotrichum isolado nº1 apresentou incidência significativa de C. dematium var. truncata na semente. A desinfestação superficial das sementes diminuiu significativamente a incidência dos fungos nas sementes para todos os tratamentos.

Na variedade MSoy 6101, para Fusarium sp. os maiores valores de infecção ocorreram nas sementes inoculadas com P. sojae e Colletotrichum isolado nº1. Para P. sojae, não houve diferença significativa entre sementes sem e com desinfestação superficial para a testemunha e o tratamento inoculado com P. sojae. Para as sementes com desinfestação superficial, o maior valor de P. sojae encontrou-se na parcela inoculada com P. sojae, apesar de não diferir significativamente da testemunha. Não houve diferença significativa na interação entre os tratamentos e a desinfestação superficial e entre a desinfestação superficial das sementes para C. dematium var. truncata (F = 1,23NS), tendo a parcela inoculada com o isolado nº 1 apresentado os maiores valores.

Para a variedade Conquista, as sementes desinfestadas superficialmente diferiram significativamente das não desinfestadas, para todos os tratamentos, apresentando os menores valores de infecção por fungos. Para Fusarium sp. as maiores porcentagens ocorreram nas parcelas inoculadas com Colletotrichum isolado nº1 e nº2. Com relação a P. sojae, não houve diferença significativa na interação entre os tratamentos e a desinfestação superficial das sementes (F = 2,45NS). Entre os tratamentos, os maiores valores foram encontrados na parcela inoculada com Colletotrichum isolado nº2 e a menor porcentagem de incidência de P. sojae se deu nas sementes inoculadas com P. sojae em condições de campo, apesar de na média não ter diferido da testemunha. Colletotrichum dematium var. truncata foi encontrado somente as sementes inoculadas com Colletotrichum isolado nº1.

Para a variedade Liderança não houve diferença significativa na interação entre os tratamentos e desinfestação superficial para Fusarium sp. (F = 1,26NS), com o menor valor na parcela inoculada com Colletotrichum isolado n º1. Com relação a P. sojae também não houve diferença significativa na interação entre tratamentos e desinfestação superficial (F = 0,35NS), e os maiores valores de P. sojae ocorreram na parcela inoculada com P. sojae, apesar das médias não terem diferido significativamente dos tratamentos com P. sojae, Colletotrichum isolado n º2 e testemunha. As sementes inoculadas com Colletotrichum isolado nº1 apresentaram as maiores porcentagens de C. dematium var. truncata do experimento.

Estudando o efeito do período e da temperatura de armazenamento na qualidade fisiológica e sanitária de sementes de soja com altos índices de Phomopsis sojae, Bizzeto e Homechin (1997) observaram que o gênero Fusarium spp. manifestou-se em elevado percentual nas sementes, independentemente do período de armazenamento, e que apesar da redução da viabilidade de P. sojae ao longo do armazenamento, houve aumento do percentual de P. sojae quando associada ao Fusarium sp. Essa interação também foi notificada por Hartman et al. (1995), que verificaram aumento da incidência de Phomopsis sp. em sementes de soja produzidas em áreas com maior ocorência de Fusarium solani.

Os resultados do presente experimento apresentaram o padrão relatado na literatura de interação entre os fungos Fusarium sp. e P. sojae em sementes de soja. Nas variedades BRS 133 e MSoy 6101, as parcelas inoculadas com P. sojae apresentaram as maiores porcentagens de infecção pelo patógeno, mas também apresentaram alta porcentagem de infecção por P. sojae na testemunha. Para ambos os casos a alta porcentagem de P. sojae esteve associada à alta porcentagem de sementes infectadas por Fusarium sp.. Na variedade Conquista, o tratamento inoculado com P. sojae apresentou a menor porcentagem de infecção das sementes por este fungo dentre os tratamentos. Esta menor porcentagem de P. sojae correspondeu a menor porcentagem de infecção por Fusarium sp., novamente comprovando a interação entre os dois patógenos (Tabela 1).

Os resultados do teste de sanidade das sementes das variedades BRS 133, MSoy 6101, Conquista e Liderança, realizados após seis meses de armazenamento em câmara fria, estão presentes na Tabela 2. Para a variedade BRS 133 a desinfestação superficial das sementes diminuiu significativamente as porcentagens de Fusarium sp. e P. sojae das mesmas, em todos os tratamentos. Para Fusarium sp. os maiores valores de infecção foram observados na testemunha e no tratamento inoculado com P. sojae, que não diferiram entre si. Para P. sojae os maiores valores foram observados na parcela inoculada com P. sojae e na testemunha, como na primeira análise. Para C. dematium var. truncata não houve diferença significativa entre os tratamentos.

Comparando os valores obtidos na primeira análise (Tabela 1), verifica-se que as porcentagens de Fusarium sp. e P. sojae diminuíram consistentemente após o armazenamento em câmara fria. A maior porcentagem de Fusarium sp. observada na primeira análise (49%, para sementes com desinfestação no tratamento testemunha) passou para 37% após o armazenamento (Tabela 2), uma queda de 24% na incidência do patógeno. Para P. sojae a porcentagem de incidência do patógeno apresentou uma diminuição de 61% (de 15 para 6%, para sementes com desinfestação no tratamento inoculado com P. sojae, respectivamente na primeira e segunda análise) (Figura 1A).

Para a variedade MSoy 6101 com relação a Fusarium sp. os tratamentos Colletotrichum isolado nº 1 e testemunha não diferiram entre si quanto a desinfestação superficial das sementes, apesar das sementes desinfestadas apresentarem os menores valores de infecção pelo fungo. O menor valor de Fusarium sp. se deu no tratamento Colletotrichum isolado nº 2, como na primeira análise. Para P. sojae apenas o tratamento inoculado com Colletotrichum isolado nº 2 apresentou diferença significativa entre sementes sem e com desinfestação superficial, esta última apresentando o menor valor de infecção (3%). Colletotrichum dematium var. truncata foi encontrado somente no tratamento inoculado com Colletotrichum isolado nº 1 em sementes sem desinfestação.

Comparando com os valores obtidos na primeira análise (Tabela 1), observa-se que para esta variedade as porcentagens de infecção das sementes, para alguns tratamentos, não diminuíram consistentemente. Para Fusarium sp. os tratamentos que apresentaram os maiores valores (81 e 72%, respectivamente para sementes com desinfestação inoculadas com Colletotrichum isolado nº 1 e testemunha) praticamente permaneceram com as mesmas porcentagens observadas na primeira análise (84 e 72%). Para P. sojae os maiores valores também se mantiveram na segunda análise (41 e 33%, respectivamente para sementes com desinfestação nos tratamentos P. sojae e testemunha, na primeira análise, e 38 e 32%, respectivamente, na segunda análise) (Figura 1B).

Na variedade Conquista para Fusarium sp. e Phomopsis sojae não houve diferença significativa na interação entre os tratamentos e a desinfestação superficial das sementes (F = 2,05NS e F = 0,88NS, respectivamente). Para todos os tratamentos as sementes desinfestadas apresentaram menores porcentagens de fungos. Entre os tratamentos, as maiores porcentagens de Fusarium sp. foram encontradas no tratamento com Colletotrichum isolado nº 1 e os menores valores, no tratamento inoculado com P. sojae. Para Phomopsis sojae, os maiores valores foram encontrados na parcela inoculada com Colletotrichum isolado n º1, tratamento que também obteve as maiores porcentagens de Fusarium sp., mostrando a relação entre os patógenos mesmo após o armazenamento. Para C. dematium var. truncata apenas as sementes inoculadas com o isolado n º 1 apresentaram infecção pelo patógeno (Tabela 2).

Para esta variedade foi observado o padrão de redução na porcentagem de incidência de patógenos ao longo do armazenamento, em todos os tratamentos, com exceção de Fusarium sp. nas sementes com desinfestação inoculadas com P. sojae, que na primeira análise apresentaram 33% de infecção e na segunda análise, 34% de infecção. As sementes com desinfestação do tratamento com Colletrotrichum isolado nº 2 apresentaram 40% de queda na porcentagem de Fusarium sp. ao longo do armazenamento (de 84% na primeira análise para 50% na segunda análise, respectivamente). Houve queda na incidência de P. sojae de até 51%, para as sementes com desinfestação do tratamento com Colletotrichum isolado nº 2 (de 35% na primeira análise para 17% na segunda análise). Para C. dematium var. truncata houve um aumento na porcentagem de incidência no decorrer do armazenamento, no tratamento inoculado com Colletotrichum isolado nº 1, variando de 5 para 8%, em sementes sem desinfestação na primeira e segunda análise (Figura 1C).

Para a variedade Liderança, a desinfestação superficial das sementes reduziu a porcentagem de patógenos em todos os tratamentos. Fusarium sp. foi encontrado em maior quantidade no tratamento inoculado com Colletotrichum isolado nº 1. Phomopsis sojae foi encontrado em maior porcentagem no tratamento inoculado com o próprio patógeno, e em menor porcentagem na testemunha. Colletotrichum dematium var. truncata foi encontrado em grande porcentagem no tratamento inoculado com o isolado nº 1.

Comparando com a primeira análise, Fusarium sp. apresentou uma diminuição na incidência após seis meses de armazenamento, com quedas de 42, 50 e 55% na porcentagem do patógeno nas sementes com desinfestação dos tratamentos P. sojae, C. dematium var. truncata isolado nº 2 e testemunha, respectivamente. Para as sementes inoculadas com C. dematium var. truncata isolado nº 1 houve um aumento na incidência após o armazenamento (61% na primeira análise e 65% na segunda análise, para sementes com desinfestação superficial). A porcentagem de P. sojae também diminuiu consistentemente após o armazenamento, nas sementes que sofreram desinfestação superficial, com queda de 23, 45, 52 e 51% na incidência, respectivamente para os tratamentos Colletotrichum isolado n º 1, P. sojae, Colletotrichum isolado n º 2 e testemunha. A porcentagem de C. dematium var. truncata caiu de 25 para 16% após o armazenamento, para sementes com desinfestação inoculadas com o isolado n º 1 (Figura 1D).

Objetivando avaliar a influência do período e temperatura de armazenamento na qualidade fisiológica e sanitária de sementes de soja e o comportamento de P. sojae, Bizzetto e Homechin (1997) observaram que a incidência de P. sojae decresceu ao longo de oito meses, nas sementes armazenadas a 18 e 22ºC, confirmando os resultados obtidos por Henning et al. (1981), França Neto et al. (1985), Goulart e Cassetari Neto (1988) e França Neto et al. (1994), os quais verificaram que lotes com elevados porcentuais de P. sojae, quando armazenados durante seis meses, apresentaram a incidência reduzida a praticamente zero. Também foi verificado pelos autores que a desinfestação (imersão em hipoclorito de sódio a 10% do produto comercial por 1 minuto) e as temperaturas de armazenamento adotadas não proporcionaram reduções significativas nas médias de incidência de P. sojae nos diferentes períodos de avaliação, apesar da diminuição da viabilidade ao longo do armazenamento. Esse resultado contraria os resultados de Kmetz et al. (1979) e Henning e França Neto (1980), que destacaram a redução acentuada de Phomopsis spp. pela desinfestação superficial com hipoclorito de sódio.

Os resultados do presente experimento estão de acordo com os encontrados pelos autores anteriormente citados, com queda na incidência de P. sojae durante o armazenamento, com exceção das sementes da variedade MSoy 6101 que, para alguns tratamentos, não apresentou diminuição na incidência do patógeno após o armazenamento. Para essa variedade a desinfestação superficial das sementes com hipoclorito de sódio a 1% por três minutos não reduziu a incidência do patógeno, em alguns tratamentos, concordando com os resultados obtidos por Bizzetto e Homechin (1997) e contrariando os resultados de Kmetz et al. (1979) e Henning e França Neto (1980). Para Fusarium sp. os valores, apesar de apresentarem queda durante o armazenamento para todas as variedades, em determinados tratamentos mantiveram seus valores altos (Colletotrichum isolado nº 1 e testemunha, na variedade MSoy 6101 e P. sojae na variedade Conquista). Estes resultados estão de acordo com Bizzetto e Homechin (1997) que observaram que o gênero Fusarium sp. manifestou-se em elevado porcentual nas sementes, independentemente do período de armazenamento, destacando a maior incidência nas sementes armazenadas a 18º C.

 

CONCLUSÃO

O armazenamento das sementes de soja contaminadas por fungos em câmara fria a 10ºC e 50% de umidade relativa, por um período de seis meses, diminui a incidência dos fungos Phomopsis sojae e Colletotrichum dematium var. truncata.

 

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Submetido em 30/08/2005
Aceito para publicação em 09/04/2007

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