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Revista Brasileira de Sementes

versão impressa ISSN 0101-3122

Rev. bras. sementes vol.31 no.1 Londrina  2009

https://doi.org/10.1590/S0101-31222009000100019 

Tratamento de sementes de algodoeiro com fungicidas no controle de patógenos causadores de tombamento de plântulas

 

Cottonseeds treatment with fungicides for the control of seedling damping-off pathogens

 

 

Luiz Gonzaga ChitarraI; Augusto César Pereira GoulartII; Maria de Fátima ZoratoIII

IDr. Eng. Agr. em Fitopatologia, Embrapa Algodão (UEP – MT), Caixa Postal 7011, 78115-970, Várzea Grande, MT, chitarra@cnpa.embrapa.br
IIEng. Agr. MSc em Fitopatologia, Embrapa Agropecuária Oeste, Caixa Postal 661, 79804.970, Dourados, MS, goulart@cpao.embrapa.br
IIIDra. Biologo em Tecnologia de Sementes, Aprosmat, Caixa Postal 81, 78745.280, Rondonópolis, MT, fzorato@aprosmat.com.br

 

 


RESUMO

Dentre as doenças que incidem sobre o algodoeiro, o "tombamento" é considerado uma das principais, sendo causado por um complexo de fungos de solo e da semente, os quais, ocorrendo separadamente ou em combinação, podem ocasionar o tombamento de pré e pós-emergência das plântulas. Os principais agentes etiológicos do tombamento são Rhizoctonia solani Khun, Colletotrichum gossypii South e Colletotrichum gossypii South var. cephalosporioides Costa. O objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito de diversos fungicidas, utilizados em tratamento de sementes de algodão, no controle de patógenos associados às sementes e/ou presentes no solo. Sementes livres de patógenos, não-inoculadas e inoculadas com Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides(Cgc)), foram tratadas com tolylfluanid + pencycuron + triadimenol, carboxin + thiram e fluazinam + tiofanato metílico. No teste de emergência em areia, o tratamento testemunha inoculada com Cgc apresentou o menor índice de emergência. O maior índice de emergência ocorreu em sementes sem inoculação e tratadas com tolylfluanid + pencycuron + triadimenol. O tratamento mais eficiente no controle do tombamento de pós-emergência do algodoeiro, em substratos contendo Rhizoctonia solani, foi a mistura tolylfluanid + pencycuron + triadimenol. No campo, a maior incidência e severidade da ramulose, causada por Cgc, ocorreu em plantas provenientes de sementes não tratadas com fungicidas e inoculadas com Cgc. Nenhum dos fungicidas testados foi fitotóxico ao algodão.

Termos para indexação: Tratamento químico, Gossypium hirsutum, Rhizoctonia, Colletotrichum.


ABSTRACT

The cotton seedling damping-off is a worldwide problem caused by a complex of soil-borne and seed-borne fungi, occurring separately or in combination, and cause pre- or post-emergence damping-off. The main etiological agents causing the damping-off are Rhizoctonia solani Khun, Colletotrichum gossypii South and Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides. The aim of this work was to evaluate the effectiveness of many fungicides that have been used on the treatment of cottonseeds to control pathogens associated with seeds and/or presents in the soil. Cottonseeds free of pathogens, inoculated and non-inoculated with Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides (Cgc), were treated with tolylfluanid + pencycuron + triadimenol; carboxin + thiram and fluazinam + thiophanate methyl. On the Growing on Test, the non-treated seeds inoculated with Cgc showed a lower level of emergence. The higher level of emergence occurred on non-inoculated seeds treated with tolylfluanid + pencycuron + triadimenol. The most efficient treatment in the control of post-emergence damping-off in substrates containing Rhizoctonia solani, was obtained with the mixture of tolylfluanid + pencycuron + triadimenol, followed by carboxin + thiram. In the field, the higher severity of ramulosis, caused by Cgc, occurred in plants from non-treated seeds inocculated with Cgc. None of the fungicides tested showed phytotoxity to cotton.

Index terms: Chemical treatment, Gossypium hirsutum, Rhyzoctonia, Colletotrichum


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, a cotonicultura brasileira se encontra em uma nova realidade onde a semeadura em pequenas áreas e a baixa tecnologia vem perdendo espaço para um novo modelo produtivo, em que são utilizadas altas tecnologias, investimento em qualidade de fibra e semeadura em extensas áreas (Anuário da Agricultura Brasileira, 2000). Dentro desta alta tecnologia, podem ser citadas as profundas modernizações nas práticas culturais, dentre elas a implantação da colheita mecanizada, a maior utilização de reguladores de crescimento e o uso do Sistema de Plantio Direto (SPD). Acompanhando toda esta revolução tecnológica, o uso de sementes sadias e/ou tratadas com fungicidas eficientes torna-se necessário para o controle adequado de inúmeras doenças do algodoeiro, cujos agentes causais são transmitidos por sementes ou habitantes naturais do solo.

Estudos recentes, conduzidos em diferentes regiões do país, têm demonstrado que os fungicidas atualmente disponíveis para tratamento de sementes de algodoeiro (pertencentes ao grupo dos protetores e dos sistêmicos) têm controlado de forma variável o complexo de fungos associados às sementes desta cultura, bem como o "tombamento" que causam em condições de campo (Goulart, 1988 e 1992). Os mais utilizados são aqueles à base de captan, thiram, carboxin, quintozene, carbendazin, tolylfluanid, pencycuron e difenoconazole. A combinação de dois ou três fungicidas sistêmicos com protetores – na qual cada produto é efetivo contra um fungo específico que faz parte do complexo causador do tombamento – tem proporcionado maior espectro de ação no controle destes fungos nas sementes e no solo, em comparação ao uso isolado de um determinado fungicida.

Dentre as doenças que atacam o algodoeiro, o "tombamento" é considerado uma das principais, sendo causado por um complexo de fungos de solo e de semente, os quais, ocorrendo separadamente ou em combinação, podem ocasionar o tombamento de pré e pós-emergência das plântulas. Os principais agentes etiológicos causadores do tombamento de plântulas de algodoeiro são Rhizoctonia solani Khun (Pozza e Juliatti, 1994; Mentem e Paradela, 1996; Cia e Salgado, 1997), Colletotrichum gossypii South var. cephalosporioides Costa (causador da ramulose) e Colletotrichum gossypii South (causador da antracnose), seguidos de Fusarium spp. e Pythium sp. (Tanaka et al., 1989; Tanaka e Mentem, 1991), que são considerados secundários nas condições do Estado do Mato Grosso.

Dentre o conjunto de práticas recomendadas para o controle do tombamento, o tratamento das sementes com fungicidas tem sido, até o momento, a principal medida adotada para o controle desses referidos patógenos e a opção mais econômica para minimizar os efeitos negativos do tombamento (Carvalho et al., 1985; Goulart, 1988; Mentem e Paradela, 1996; Cia e Salgado, 1997). No entanto, com o aumento da área cultivada com algodão nos últimos anos no Estado do Mato Grosso, tem-se observado uma incidência bastante elevada do tombamento de plântulas de algodoeiro, levando, muitas vezes, à necessidade da ressemeadura, ocasionando a elevação no custo de produção e podendo, ainda, reduzir a produtividade da cultura pela alteração da época de emergência.

Os objetivos deste trabalho foram avaliar o efeito de diversos fungicidas utilizados no tratamento de sementes de algodão no controle de patógenos, associados às sementes e/ou presentes no solo, bem como avaliar a eficiência do tratamento de sementes no tombamento de plântulas de algodão, causado por fungos de solo e de sementes em condições de campo, laboratório e casa de vegetação; além de verificar a fitocompatibilidade de novos fungicidas no tratamento de sementes do algodoeiro.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os ensaios foram instalados no laboratório da APROSMAT em Rondonópolis – MT, em casa de vegetação da Embrapa Agropecuária Oeste em Dourados – MS, e em campo, no município de Campo Verde - MT.

Foram utilizadas sementes de algodão da variedade ITA 90 deslintadas com ácido sulfúrico. Para garantir que os resultados revelassem única e exclusivamente o efeito dos fungos Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides e Rhizoctonia solani sobre o tombamento, foi utilizado um lote de sementes livre de qualquer espécie de fungo (escolha baseada em resultados de vários testes de sanidade de sementes) que pudesse interferir nas avaliações.

Tabela 1 mostra os fungicidas que foram utilizados nos ensaios.

 

 

O delineamento experimental utilizado nos ensaios de laboratório e campo foi o de blocos ao acaso, em esquema fatorial 2 × 4 (2 sistemas de inoculação – com e sem Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides × 4 tratamentos – 3 com fungicidas e 1 testemunha), com quatro repetições por tratamento. Para o ensaio em casa de vegetação, foi utilizado blocos casualizados, em esquema fatorial 2 × 4 × 2 (2 sistemas de inoculação – com e sem Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides × 4 tratamentos – 3 com fungicidas e 1 testemunha × 2 sistemas de inoculação – com e sem Rhizoctonia solani), com quatro repetições por tratamento.

Ensaios de Laboratório

Deslintamento das sementes de algodão

As sementes de algodão com línter, da variedade ITA 90, foram inicialmente homogeneizadas e submetidas ao deslintamento com ácido sulfúrico comercial concentrado (96-98%), na proporção de 200mL de ácido para 0,45kg de sementes. As sementes foram expostas ao ácido sulfúrico durante 1 minuto e 30 segundos sob agitação constante, utilizando-se um bastão de madeira. Após este período, as sementes foram lavadas em água corrente por três minutos e em seguida colocadas em uma solução de óxido de cálcio (0,1%), durante um minuto. Foram lavadas novamente em água corrente por trinta segundos e postas a secar a sombra por 24h.

Obtenção, isolamento e cultivo de Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides

Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides foi obtido de sementes deslintadas de ITA 90, através do teste de sanidade de sementes – "blotter test". Duzentas sementes foram distribuídas em oito placas de Petri, cada uma com três folhas de papel de filtro esterilizadas e umedecidas com água destilada esterilizada, contendo solução de 2,4 Diclorofenoxiacetato de sódio na concentração de 5ppm. As placas contendo 25 sementes foram incubadas à temperatura de 21 (± 2)°C, em regime alternado de 12h luz/12h escuro, por sete dias. Após este período, procedeu-se à leitura das sementes em microscópio estereoscópio, efetuando-se o isolamento de Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides (Tanaka et al., 1996). A cultura pura desse fungo foi obtida através do cultivo em BDA (batata-dextrose-ágar), em placas de Petri de 9cm de diâmetro, por sete dias à temperatura de 21 (± 2)°C em regime alternado de 12h luz/12h escuro.

Inoculação das sementes com Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides

O método de inoculação utilizado nas sementes foi baseado em procedimento semelhante ao descrito por Tanaka e Menten (1991).

A multiplicação do patógeno foi feita em meio de cultura BDA. O cultivo foi realizado em placas de Petri de 9cm de diâmetro, por sete dias, à temperatura de 21 (± 2)°C em regime alternado de 12h luz/12h escuro.

As sementes deslintadas com ácido sulfúrico foram desinfestadas superficialmente com hipoclorito de sódio 1% durante três minutos, lavadas em água destilada esterilizada por três vezes e postas a secar por aproximadamente 24h. As sementes foram distribuídas em cada placa de Petri (9cm de diâmetro), 20 sementes por placa, contendo a colônia fúngica em crescimento ativo sobre o BDA, disposta em uma única camada ocupando toda a superfície da mesma, por um período de 24h. As sementes foram retiradas das placas e colocadas a secar sobre papel toalha, em temperatura ambiente, por 24h.

Tratamento das sementes inoculadas com Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides com fungicidas

As sementes inoculadas foram tratadas com os fungicidas descritos no Quadro 1. O tratamento químico das sementes foi realizado utilizando saco plástico de 2,0L, dentro do qual foi adicionado os fungicidas, de cada tratamento, nas doses corretas para o tratamento de 0,5kg de sementes. As sementes foram colocadas dentro do saco e agitadas vigorosamente até a completa cobertura com os fungicidas.

Teste de germinação

Foram utilizadas oito subamostras de 25 sementes, em cada tratamento, por repetição e semeadas em rolos de papel toalha, marca "Germitest", umedecidos com água na proporção de 2,3:1 (duas vírgula três vezes o volume de água para uma parte do peso de papel). Os rolos foram mantidos em germinador com temperatura regulada a 25°C ± 1°C. As avaliações foram efetuadas aos quatro dias e sete dias após a instalação do teste, e os resultados expressos em porcentagem de plântulas normais, anormais e mortas (Brasil, 1992).

Cultivo e inoculação de Rhizoctonia solani

Culturas puras do patógeno, isolado do coleto de plântulas de algodão, foram mantidas em meio BDA por 48 horas e então repicadas para um substrato composto de 2kg de sementes de aveia preta e meio litro de água e mantido em condições ambientais por 35 dias. No 35º dia, a aveia colonizada pelo fungo foi retirada do "erlenmeyer" e seca à sombra por 10 dias. Ao final desse período, esse substrato (aveia + R. solani) foi triturado em moinho (1mm), de modo a se obter o inóculo do patógeno na forma de um pó.

Sementes inoculadas e não-inoculadas com Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides e tratadas e não-tratadas com fungicidas (tabela 1), foram semeadas em bandejas plásticas (56cm x 35cm x 10cm) tendo como substrato areia lavada. A semeadura foi feita em orifícios individuais, eqüidistantes e a 3cm de profundidade. Antes do fechamento dos orifícios, foi feita a inoculação com R. solani, pela distribuição homogênea do inóculo do fungo na superfície do substrato, de modo que o mesmo ficasse em contato direto com as sementes, exceto no caso das testemunhas, em que não foi feita a inoculação.

Para a avaliação de tombamento, foi utilizado o "growing on test". Em cada bandeja plástica foram semeadas 200 sementes. A avaliação de tombamento foi realizada diariamente, a partir de 7 DAS (dias após a semeadura), computando-se o número de plântulas tombadas. Aos 26 DAS, obteve-se o valor cumulativo de plântulas tombadas. Para a confirmação do patógeno, plântulas com sintomas de "tombamento" foram coletadas, lavadas em água corrente, desinfestadas superficialmente com uma solução de hipoclorito de sódio a 1,5% por 3 minutos e posteriormente submetidas a uma "câmara úmida". Após cinco dias de incubação submetida à temperatura de 22º C e sob regime de 12h luz/12h escuro, foi realizada a identificação dos patógenos.

Ensaio de campo

O ensaio de campo foi instalado na Fazenda Marabá em Campo Verde – MT .

Sementes inoculadas e não-inoculadas com Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides, tratadas e não-tratadas com fungicidas, foram semeadas no campo (15 sementes.m-1), sendo a avaliação da emergência realizada 15 dias após a semeadura. As parcelas constaram de 4 linhas de 5m, espaçadas de 0,90cm. Foram avaliados os possíveis efeitos fitotóxicos (atraso na emergência, plântulas com folhas retorcidas, espessas e alargadas e redução da altura das plântulas) advindos da utilização dos fungicidas. Foram avaliadas, também, as principais doenças foliares que incidem sobre o algodoeiro. Dentre estas doenças, foram avaliadas a ramulose, causada por Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides; a bacteriose ou mancha angular, agente etiológico Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum; a ramularia, causada pelo fungo Ramularia areola; a mancha de estenfílio, causada por Stemphylium solani; a mancha de alternaria, causada por Alternaria spp; e viroses. As avaliações da incidência e severidade das doenças foram feitas nas duas linhas centrais de cada tratamento, considerando as linhas laterais como bordadura. Adotou-se o seguinte critério para determinação dos níveis de incidência e severidade (Tabela 2).

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com os resultados do teste de germinação (Tabela 3), não houve diferença significativa entre os diversos tratamentos com fungicidas que as sementes de algodão foram submetidas. Observou-se, no entanto, que a maior porcentagem de germinação ocorreu em sementes inoculadas e tratadas com tolylfluanid + pencycuron + triadimenol.

 

 

A Tabela 4 apresenta os resultados do "growing on test" desenvolvidos em casa de vegetação. O tratamento testemunha inoculado com Cgc apresentou o menor índice de emergência. O maior índice ocorreu em sementes não inoculadas e tratadas com tolylfluanid + pencycuron + triadimenol. Não houve diferença significativa entre as sementes inoculadas e tratadas com carboxin + thiram e fluazinam + tiofanato metílico. Em sementes inoculadas, o tratamento tolylfluanid + pencycuron + triadimenol apresentou o maior índice de emergência indicando ser o tratamento mais eficiente no controle do fungo Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides em sementes de algodão quando comparado com a testemunha.

 

 

Os resultados da avaliação do "growing on test", em substratos contendo R. solani, permite verificar que o tratamento testemunha + Rhizoctonia apresentou a maior porcentagem de plântulas tombadas, seguido pelos tratamentos testemunha + Rhizoctonia + Colletotrichum; fluazinam + tiofanato metílico + Rhizoctonia + Colletotrichum; e fluazinam + tiofanato metílico + Rhizoctonia (Tabela 5). Os demais tratamentos foram similares entre si, ou seja, não houve diferença significativa entre os tratamentos com fungicidas e a testemunha não inoculada. Isso reflete e demonstra a eficiência de alguns produtos avaliados neste ensaio na manutenção da emergência de plântulas e no controle do tombamento causado por R. solani. O fungo R. solani pode causar tombamento de pré e pós-emergência. Tombamento de pré-emergência ficou evidenciado nas avaliações de emergência de plântulas. Conforme evidencia Sinclair (1965), R. solani é considerado o fungo mais prejudicial por causar o tombamento de pré-emergência, em maior intensidade que os demais fungos. Os fungicidas que proporcionaram maiores índices de emergência, na verdade, controlaram o fungo presente no substrato. Nesse caso, a elevação da emergência foi um efeito indireto do fungicida, decorrente do controle do fungo no substrato. O efeito drástico do patógeno pode ser, de forma clara, observado quando se comparam os resultados obtidos nas testemunhas com e sem a inoculação.

 

 

Na Tabela 6 encontra-se os resultados obtidos no ensaio de casa de vegetação, relativos à emergência inicial (7 DAS) de sementes de algodoeiro em substratos contendo R. solani. A emergência inicial das sementes tratadas com fungicidas e inoculadas com Cgc e semeadas em substrato contendo R. solani foi superior as sementes não inoculadas, tratadas, e em presença de R. solani. A ação dos fungicidas sobre as sementes inoculadas com Cgc foi maior, indicando, provavelmente, que o Cgc estivesse exercendo um efeito antagônico a R. solani favorecendo a emergência das plântulas. Na presença somente do fungo R. solani, a porcentagem de emergência foi menor, indicando a agressividade do fungo quando este atua sem a interferência de Cgc, e a difícil ação dos fungicidas testados no controle deste patógeno.

 

 

Sendo este estudo preliminar, sugere-se que outros estudos devem ser realizados para que se possa ter uma melhor conclusão em relação a estes dois patógenos atuando simultaneamente sobre as sementes de algodão.

Em relação à emergência final (Tabela 7), não foram observadas diferenças significativas entre os tratamentos tolylfluanid + pencycuron + triadimenol + Rhizoctonia com e sem inoculação com Cgc, e o tratamento carboxin + thiram + Rhizoctonia + Cgc. Para sementes não inoculadas com Cgc em presença do fungo R. solani, o melhor resultado da emergência final foi obtido com o tratamento tolylfluanid + pencycuron + triadimenol. A avaliação da emergência média final de plântulas avaliadas aos 26 DAS, reflete a eficiência dos fungicidas na proteção das mesmas contra o ataque de R. solani, bem como a capacidade de manutenção do estande, no sentido de evitar o tombamento de pós-emergência causado pelo patógeno. Esses tratamentos protegeram, de maneira eficiente, as plântulas de algodão, mantendo, praticamente, na maioria dos tratamentos, a mesma média de emergência avaliada no início, o que refletiu diretamente na menor porcentagem de tombamento. Resultados semelhantes foram obtidos por Asmus et al. (1993) e Goulart et al. (2000), os quais observaram, utilizando esta mesma metodologia de inoculação de R. solani, aumento na porcentagem de emergência e controle do tombamento de plântulas quando as sementes de algodão foram tratadas com os fungicidas.

 

 

De acordo com os resultados do ensaio de emergência em campo, não houve diferença entre os diversos tratamentos com fungicidas que as sementes de algodão foram submetidas (Tabela 8).

 

 

Os resultados das principais doenças foliares que incidem sobre a cultura do algodoeiro nos ensaios em Campo Verde – MT encontram-se na Tabela 9. Houve uma baixa incidência de virose e ramularia, tanto para plantas proveniente de sementes inoculadas quanto para as não inoculadas. A maior incidência e severidade de ramulose, causada pelo fungo Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides, ocorreu no tratamento testemunha inoculada com Cgc. A incidência e severidade das doenças foliares do algodoeiro, considerando-se a ramulose e a mancha angular, estão diretamente relacionadas com a qualidade fitossanitária das sementes de algodão e as condições edafoclimáticas. Ainda não é conhecido se alguns patógenos, como exemplos a Ramularia areola e Stemphylium solani, são transmitidos ou não por sementes. Entretanto, no caso da ramulose e da mancha angular, a semente é considerada um dos principais meios de disseminação de Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides e Xanthomonas axonopodis pv. malvacearum, respectivamente. Porém, não se conhece ainda tratamento de semente eficiente principalmente para o controle da mancha angular. Estes resultados de campo também demonstraram a fitocompatibilidade com o algodão de todos os tratamentos com os fungicidas utilizados, não sendo observados quaisquer tipos de sintomas nas plântulas que revelassem a presença de efeitos fitotóxicos advindos da utilização dos produtos, tais como aparecimento de plântulas com folhas deformadas e retorcidas ou até mesmo um atraso na emergência.

 

 

Portanto, o tratamento de sementes de algodoeiro com mistura de fungicidas eficientes tem sido, até o momento, uma das alternativas mais eficazes e econômicas para minimizar os efeitos negativos dos patógenos que causam tombamento de plântulas (Carvalho et al., 1985; Cia e Salgado, 1997; Davis et al., 1997; Wang e Davis, 1997). Trata-se de uma medida de fácil execução, relativamente barata quando avaliada pela relação custo/benefício (apenas 0,17% do custo total de produção), conforme Goulart e Melo Filho (2000), que vem ao encontro à necessidade de se racionalizar o uso de produtos químicos na agricultura. Dessa maneira, em função do seu baixo custo e em vista dos benefícios que proporciona, busca-se estimular os cotonicultores a usar essa tecnologia. Julga-se oportuno salientar que, principalmente quando se trata de algodão, cujo nível de tecnologia de produção de sementes no Brasil ainda não é considerado como um dos mais elevados, o tratamento de sementes com fungicidas faz-se necessário e até mesmo indispensável.

 

CONCLUSÕES

O tratamento de sementes de algodão utilizando a mistura dos fungicidas Tolylfluanid + Pencycuron + Triadimenol proporciona o melhor controle dos fungos Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides e Rhizoctonia solani, causadores de tombamento de plântulas.

 

AGRADECIMENTOS

Este estudo teve o suporte financeiro do Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (FACUAL – MT) e foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Mato Grosso (FUNDAPER).

 

REFERÊNCIAS

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Submetido em 14/06/2007. Aceito para publicação em 15/05/2008.

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