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Brazilian Journal of Political Economy

versão impressa ISSN 0101-3157versão On-line ISSN 1809-4538

Rev. Econ. Polit. v.28 n.4 São Paulo out./dez. 2008

https://doi.org/10.1590/S0101-31572008000400012 

RESENHAS

 

 

Globalização: a certeza imprevisível das nações
Ernesto Lozardo (org.)
São Paulo: Editora do Autor, 2008

Imagine um mundo no qual a desigualdade de renda entre nações não apresente precedentes históricos; no qual as desigualdades entre países sejam bem mais relevantes, na explicação da desigualdade total entre indivíduos vivendo no planeta, do que as desigualdades que se encontram dentro de cada país tomado em separado.

Mas, da mesma forma, um mundo no qual, num intervalo de quarenta anos, algumas economias possam apresentar mobilidade vertical de renda percapita também sem paralelos históricos; desta forma deixando de figurar entre as mais pobres para alcançar padrões de renda substancialmente mais elevados (a exemplo do que fizeram Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan no período que vai do início dos anos 1970 até os dias atuais).

Este é o retrato do mundo atual. Neste contexto, Ernesto Lozardo toma para si, no livro objeto desta resenha, uma tarefa hercúlea: explicar de que forma as nações emergentes determinam e têm suas trajetórias determinadas pelo processo de globalização. E como as nações prósperas, ricas e globais, chegaram a este ponto.

Uma explicação muito comum para a atual desigualdade de renda entre nações dá-se em termos da forma diferenciada e assimétrica como a Revolução Industrial afetou cada economia a partir do início do século XIX. É preciso observar que isto se deu não apenas em termos de crescimento do produto, mas também em termos demográficos. Dados históricos mostram que os Estados unidos e a Inglaterra descolaram substancialmente suas rendas per capita do resto do mundo a partir da segunda metade do século XIX, deixando para trás, com ênfases decrescentes, o Japão, o noroeste da Europa, os demais países da Europa, a América Latina e a Ásia.

Lozardo não se detém diretamente na defesa ou negação desta tese. Mas, com riqueza de detalhes, dá ao leitor uma certeza: para entender em pormenores os motivos de possíveis assimetrias na coleta dos frutos das revoluções tecnológicas é necessário mergulhar com determinação e vontade nos processos históricos e culturais que determinam a evolução das instituições e do processo decisório em cada nação. É a partir daí que se forma o quadro geral no qual se determinam a produtividade, a formação de capital físico e de capital humano. Para atender a este fim, o livro propicia uma prazerosa leitura dos casos da China, Índia, Japão, do Sudeste Asiático, da Europa e dos Estados unidos.

Economistas, treinados a desenhar linhas de chegada, mas não o roteiro de cada corrida (que é o que realmente interessa), costumam desprezar esta etapa anterior de análise tomando, perigosa e pobremente, o ambiente institucional como dado. Globalização: a certeza imprevisível das nações não segue este caminho de menor esforço. Neste ponto reside uma das maiores qualidades do livro.

O segundo fato que caracteriza o mundo atual, exemplificado pelo crescimento acelerado de algumas economias asiáticas após a Segunda Guerra, costuma ser explicado pelas diferentes políticas econômicas seguidas pelas nações. Têm sido particularmente bem-sucedidas aquelas voltadas para educação e abertura comercial.

O alto crescimento de algumas economias pode também ser entendido no contexto da revolução das técnicas de produção que se deu a partir do final do século XIX, ainda que numa versão mais tardia (latecomers). As difusões tecnológicas teriam sido particularmente mais bem absorvidas nestes países pela escolha de políticas internas adequadas (acompanhada, diga-se de passagem, também por um processo de transição demográfica). Isto leva Lozardo a deter-se sobre um outro aspecto do crescimento: o das reformas de origem macro e microeconômica que uma nação deve trilhar se deseja colher com êxito os frutos da globalização.

Trata-se de ponto particularmente importante para o Brasil, no momento, a observação do autor sobre a importância da composição de demanda na determinação dos aportes de produtividade. Em um país com câmbio flexível operando com elevada mobilidade de capitais, a exemplo do tem ocorrido em nosso país, elevações dos gastos públicos (ainda quando cobertos com receitas equivalentes de impostos), tendem a afetar tal composição na direção de bens não transacionáveis, perdendo espaço os bens transacionáveis com o exterior. Como costumeiramente é nas exportações e nas substituições de importação que se materializam pesquisas e novos produtos, perde o país em potencial de crescimento de longo prazo.

Outro ponto que fica claro na exposição é que estratégias de desenvolvimento baseadas unicamente em políticas de substituição de importações não têm boas chances de contribuir positivamente para o crescimento sustentado. O mesmo se poderia dizer das políticas industriais nas quais se concede ao Estado o poder de decidir, de forma centralizada, os setores ou ramos de atividades a serem privilegiados com os favores públicos.

O livro nota também com argúcia que, se democracia plena não é necessária para o crescimento, pode ser importante para dividir de forma mais eqüitativa os frutos deste. China e Rússia, por exemplo (com diferentes graus de democracia), estão em processo crescente de concentração de renda, desta forma caracterizando a ocupação de um ponto no ciclo do crescimento distinto daquele atualmente ocupado pelo Brasil (onde a ênfase distributiva tem sido forte).

Lozardo argumenta que a elevação da desigualdade que hoje se verifica entre as nações do mundo não tem explicação, como costumam sugerir alguns, na globalização. O livro apresenta dados que sugerem que os países menos desenvolvidos têm se beneficiado mais da integração dos mercados do que os mais desenvolvidos. Evidentemente, o divisor de águas aqui se materializa em função das políticas internas seguidas pelos países.

Para compreender todos estes processos de forma mais ampla, é preciso lembrar a evolução histórica das teorias de crescimento. Ao contrário da teoria clássica baseada em Ricardo e Malthus, feita para explicar um crescimento com renda per capita praticamente estagnada (ainda que com crescimento do produto), a teoria que surge a partir de Solow toma como dada a fertilidade. Tal hipótese, aliada ao princípio da produtividade decrescente do capital, torna o crescimento sustentado impossível, a menos da introdução de postulados ad hoc sobre crescimento de produtividade. Na ausência de tal expediente, não há crescimento sustentável por habitante. Evoluções da renda per capita nada mais fazem do que refletir transitoriedades na convergência para o estado estacionário, em que isto não mais ocorre.

Uma solução transitória para o problema veio com Lucas e Romer, através da introdução de progressos técnicos ou tecnologias endogenamente determinadas nos modelos de crescimento. uma nova fronteira da teoria do crescimento, entretanto, considera com muito mais ênfase os processos de difusão tecnológica entre nações. Não mais se toma, como nos modelos descritos acima, a formação de capital como independente do que fazem outras nações. Esta hipótese, sabese hoje, não é compatível com a evidência empírica disponível nos últimos duzentos anos (em particular, aquela que divide os países em earlycomers e latecomers).

Na questão específica da globalização, Lozardo provê uma taxonomia interessante, baseada na eterna noção econômica da oferta e da demanda: no mundo atual, os investimentos diretos estrangeiros, o comércio e as multinacionais proveriam a oferta de globalização. Por outro lado, a demanda por ela se daria em função da necessidade de crescimento e desenvolvimento que caracterizaria as economias emergentes. Em particular, tal necessidade decorreria do desejo de acesso de consumidores de economias emergentes ao padrão de consumo dos mais ricos (fruto da queda do custo de informação).

Um ponto importante do livro é o alerta quanto ao papel de co-responsabilidade que devem assumir as nações mais prósperas, se desejam prover maiores chances de sucesso de longo prazo à opção pelo capitalismo. Assim como dentro de cada país a desigualdade de renda acaba por dificultar o crescimento, o mesmo pode se dar para o mundo capitalista como um todo. Como coloca Lozardo com propriedade, "o maior perigo para a riqueza de poucos é a pobreza de muitos".

Políticas inteligentes para as economias mais ricas e globalizadas deveriam desta forma incluir em seus propósitos apoio a economias emergentes na consecução de justiça, da redução de pobreza, da proteção ambiental, do respeito a valores individuais e sociais e da segurança global. Obter dos países prósperos esta visão pragmática da necessidade de co-responsabilidade mundial será o grande desafio do capitalismo neste século, conclui Lozardo. Longe de qualquer ranço assistencialista, trata-se este de um desafio à capacidade de percepção e execução dos líderes das economias mais prósperas.

Enfim, como é comum a qualquer livro que se detenha sobre um tema tão amplo e controverso, haverá partes do livro com as quais o leitor tenderá a concordar com maior ou menor veemência. O importante, entretanto, é que o convite à reflexão que o livro proporciona estará muito bem alicerçado. De fato, Lozardo oferece gentilmente, ao longo de todo o texto, os três ingredientes que requerem o rigor acadêmico e que costumam caracterizar os clássicos em qualquer assunto: dados, fatos e teorias. Como dizia o saudoso piauiense Petrônio Portela, com os fatos não se briga. Caberá ao leitor pinçar suas próprias conclusões. A acuidade na escrita e o prazer na leitura são assegurados.

 

Rubens Penha Cysne
Professor da EPGE/FGV

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