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Trans/Form/Ação

Print version ISSN 0101-3173

Trans/Form/Ação vol.8  Marília Jan. 1985

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31731985000100009 

RESENHAS

 

 

Ubaldo Puppi

Professor aposentado - Departamento de Filosofia - Faculdade de Educação Filosofia, Ciências Sociais e da Documentação - UNESP - 17500 - Marília - SP

 

 

BIAGIONI, J. - A ontologia hermenêutica de H.G. Gadamer. Uberlândia, Universidade Federal de Uberlândia, 1983.

Com esse título, o autor se propõe, em sua pequena obra, apresentar "reflexões e perspectivas sobre a 3ª. parte de 'Verdade e Método'". "Wahrheit und Methode" é talvez a principal obra de Hans-Georg Gadamer. Possui, do meu conhecimento, traduções em francês e italiano: "Vérité et Methode", Paris, Ed. du Seuil, 1976; "Verità e Método", Milano, Fratelli Fabbri Ed., 1972. O alentado livro de H. G. Gadamer se compõe de três partes: 1. "Destaque da questão da verdade. A experiência da arte"; 2. "Alargamento do problema da verdade. Compreensão nas ciências humanas"; 3. "Inflexão ontológica na hermenêutica sob a conduta da linguagem".

A 3.ª parte, "Inflexão ontológica na hermenêutica sob a conduta da linguagem", se constrói sobre pressupostos históricos e filosóficos. De fato, a hermenêutica clássica, entendida como o domínio dos critérios regionais da interpretação de texto, recebeu nos dois últimos séculos, primeiro, um alargamento de amplitude universal e, em seguida, sua fundação ontológica. A universalização do critério hermenêutico se inicia com Schleiermacher, no séc. XVIII, a partir da filologia e da exegese, e prossegue com Dilthey, a partir de sua concepção da interpretação histórica. Assumida como tal e redirecionada por Heidegger, este lhe confere fundação filosófica em sua ontologia fundamental, com destaque, no caso, para certas estruturas do ser-no-mundo, particularmente a Verstehen e a Befindlichkeit, e para o círculo hermenêutico.

Essa temática, já presente em "Sein und Zeit", é retomada e desenvolvida por Gadamer na perspectiva da segunda filosofia de Heidegger, a qual, ao acentuar o poder de manifestação da linguagem, se impõe como divisor de águas que a separa de suas versões ditas existencialistas. Nesse particular, Gadamer é antípoda de Sartre e se aproxima de C. S. Peirce, a linguagem se constituindo no fulcro de sua hermenêutica geral ou ontologia hermenêutica. A mencionada 3ª. parte da "Wahrheit und Methode" é o locus onde trata expressamente da linguagem como "meio (medium) da experiência hermenêutica", e como "horizonte de uma ontologia hermenêutica". São subtítulos do capítulo. É de se notar a natureza inovadora e o alcance de uma ontologia de alto nível que faz da linguagem o meio e o horizonte do conhecimento. Precisando com mais detalhe, o primeiro subtítulo vê no elemento linguageiro (Sprachlichkeit) a determinação, não só do "objeto hermenêutico", mas também da "operação ( Vollzug) hermenêutica", enquanto o segundo subtítulo considera "a linguagem como experiência do mundo".

Essa deveria ser, portanto, em princípio, a temática global da brochura de J. Biagioni. A expectativa e o interesse por sua leitura não poderiam deixar de ser grandes. Foi pelo menos com essa disposição que comecei sua leitura. Logo de saída somos informados de que a escolha do tema teve sua motivação em sala de aula, durante curso assistido em universidade européia. A antecipação, própria do círculo hermenêutico, que Heidegger e Gadamer chamam, sem descartá-lo a priori, de preconceito, nos assalta sob a forma de prevenção. O que fazer? Apelar para a censura hermenêutica, lembrada no mesmo contexto de "Ser e Tempo" (p. 153 da ed. alemã): nem toda antecipação faz parte do círculo hermenêutico, mas tão-somente aquelas que são "segundo as coisas-mesmas", isto é, provocadas pelo que Gadamer chamará de a "coisa do texto"? Ao final da leitura de J. Biagioni, porém, a constatação que se tira é de fato a de um trabalho de principiante, um aplicado exercício acadêmico que, em que pese o fato de ter sido diligentemente tratado, não ultrapassa o nível da motivação. A esse nível o produto não é mau, nem desprezível, mereceria nota para graduar-se, mas é digno de ser publicado? O autor não deixa de ter qualidades, revela que pode continuar seus estudos filosóficos. Necessita, porém, de muito trabalho antes de voltar a publicar. É o que é preciso, e muito, já que ambição (válida) de ser autor não lhe falta: o livro que publicou é "o primeiro de muitos passos que pretendemos dar" (p. 14, circa medium).

O pequeno livro se abre com "uma palavra ao leitor" (p. 13), onde quer dizer a que veio. Só parcialmente nos esclarece sobre seu projeto; em grau maior, ele se nos confunde. Delineia-se a tese proposta, mas denunciando vacilação ao tentar circunscrever-lhe os contornos. Cito para conferição: "o que pretendemos estudar é o modo-de-ser do homem ser-no-mundo..." (p. 13); "nosso objetivo... foi o de... fixar-nos na filosofia da linguagem... de Gadamer..." (p. 15); "a nossa intenção... é tentar mostrar que a filosofia de Gadamer deseja ser a síntese de dois movimentos que a precederam: passar das chamadas hermenêuticas regionais em direção (sic) à hermenêutica universal e extrapolar o problema da epistemologia das ciências do espírito para atingir a ontologia" (p. 14).

Apesar de serem formulações conexas, cada tema aí contido comporta enfoque e desdobramentos peculiares, tanto em sua natureza própria, como em seus precedentes históricos. A última formulação, aliás, foi pinçada, sem aspas, de Ricoeur, que a enuncia naqueles termos e a desenvolve de modo mais completo e crítico (cf. Ricoeur, "Funções da hermenêutica", in "Interpretação e Ideologias", Rio de Janeiro, Franc. Alves Ed., 1977, pp. 38, ss.).

A favor de J. Biagioni, pode ser levado em conta que há um momento em que as três formulações se integram numa só proposta. É quando Gadamer estabelece o confronto entre a pertença e o distanciamento alienante ( Verfremdung). Com efeito: a pertença se traduz em termos de compreensão; o distanciamento é problema próprio da linguagem; é para superar o distanciamento que Gadamer salta da epistemologia das ciências humanas para a ontologia hermenêutica. Não, porém, sem deixar pistas para a retomada da epistemologia, agora à luz da ontologia que a funda. São as pistas, seja dito de passagem, que Ricoeur persegue para elaborar com segurança e de modo exemplar a epistemologia das ciências do texto: da semiótica à exegese. Ou, como diz ele mesmo: "da semiologia à exegese" (cf. sobretudo escritos seus dos três últimos lustros).

Estranhamente, contudo, J. Biagioni não faz nenhuma referência explícita ao par de opostos: pertença e distanciamento alienante. Parece não estar ainda filosoficamente equipado para aquilo que Gadamer denomina "fusão de horizontes". É preciso, antes, que seu horizonte filosófico cresça, para então poder aparecer. Não comparece, e ainda por cima dilui em seu escrito o de Gadamer. É o que ocorre, a título de ilustração, e de modo flagrante, quando tenta argumentar sobre o fato de trabalhar o pensamento de Gadamer em tradução (italiana, pelo que se depreende das citações). Recorre, sem cuidado e sem pesar conseqüências, às teorias de Gadamer sobre a tradução e a fusão de horizontes. Tem-nas na conta de soluções de facilidade, que basta evocar e aplicar a si para torná-las eficazes, sem atinar para a árdua problemática que levantam, e sem se dar conta do questionamento que suscitam ao serem levadas a sério (cf. pp. 31 e 32).

Mas é o livro no seu todo que revela insuficiente mestria sobre a problemática e a obra do autor estudado, além de deficiente estruturação do próprio discurso. Sua construção se aproxima mais da reprodução de esquemas estereotipados do que de uma compreensão e elaboração personalizadas. Contra tudo o que vem afirmado no livro sob o nome de hermenêutica, aí predomina o recurso ao esquematismo textual e ao pinçamento de citações. Em momento algum mostra a desenvoltura do intérprete seguro e bem informado, capaz de levar alegria e proveito a quem o lê. É assim que toda uma constelação de conceitos heideggerianos e gadamerianos, cujo significado inusual requer sejam expostos e bem trabalhados, permanece inexplicada. Há carência de definições funcionais e pobreza de aclaramentos intertextuais. A indagação que emerge então é: por que e para quem a obra foi escrita e publicada? Quem leu Heidegger e Gadamer dispensa o texto de J. Biagioni, por demasiado óbvio; quem não os leu, se depara, diante dele, com uma sinopse de difícil acesso: não por mérito, mas por deficiências do autor.

É sintomática, a respeito, a fuga do compromisso e da responsabilidade pela produção do texto. São freqüentes as passagens deste jaez: "sobre o assunto, cfr. as obras de..." outros autores; "precisaríamos (no condicional),aqui, abordar os temas" ... tais e tais; "bastaria lembrar ... apenas, que" ...; "aspectos que, aqui, deveriam (condicional) ser aprofundados, aos quais apenas acenamos de passagem" (cf. pp. 38, ss.). E, para dizer tudo numa frase, em vez daquilo que o autor fica devendo ao leitor, prossegue com depauperados resumos e inevitáveis, desde então, retomadas redundantes.

Esta resenha é severa, porque o autor assim a merece. Se julgasse que não tem talento, não me ocuparia dele. Junto a vícios precoces, revela promissoras possibilidades. E todos que produzimos textos de filosofia precisamos ouvir os conselhos de Descartes: "evitar a precipitação"; de Heidegger: "deixar ser o ser"; de Gerard Lebrun: cultivar a ruminante "paciência do conceito". Não faltam exemplos desestimulantes, bem o sabemos, mas o fato de terem audiência não deve servir de pretexto à facilidade. Também por essa razão a resenha é severa.

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