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Trans/Form/Ação

Print version ISSN 0101-3173

Trans/Form/Ação vol.26 no.2 Marília  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31732003000200007 

RESENHA REVIEW

 

 

Marcelo Carbone Carneiro1

 

 

GONZÁLEZ PORTA, M. A. A filosofia a partir de seus problemas. São Paulo: Editora Loyola, 2002.

O problema inicial do livro de Mario Porta é o de discutir a aprendizagem e propor um método de abordagem da filosofia. Na introdução, o autor pede ao leitor que seu livro seja julgado por sua utilidade, isto é, a de efetivar uma certa prática de exposição filosófica preocupada em ser compreensível e acessível ao leitor.

A tese do autor é a de que grande parte das dificuldades encontradas para se entender o pensamento filosófico deve–se à falta de entendimento do problema filosófico proposto. Portanto, a compreensão do problema constitui–se no núcleo do ensino e da aprendizagem em filosofia.

Na primeira parte do livro, Mario Porta desenvolve a idéia central do estudo da filosofia a partir dos seus problemas, isto é, procura responder à seguinte questão: no que consiste um "modo filosófico de pensar?"

O autor afirma de forma tranqüila que a história da filosofia não seria "um caos de pontos de vista incomensuráveis, nem consiste simplesmente em possuir certezas. Trata–se de ter opiniões sobre certos temas bem definidos e sustentá–las em algo diferente de uma convicção pessoal; mais ainda, o núcleo essencial da filosofia não é constituído de crenças tematicamente definidas e racionalmente fundadas, senão de problemas e soluções." (p. 25)

Esta leitura da história da filosofia, que reaparece na consideração final do livro, é bem controversa, pois considera os sistemas filosóficos comensuráveis e como continuidade ou "sedimentação conceitual" (p. 34). Segundo o autor, a filosofia posterior conteria a discussão anterior e não haveria ruptura e sim continuidade.

O ponto de partida da análise filosófica seria o de entender o problema; diante de um filósofo particular, começamos pela pergunta "qual é o problema por ele proposto?"(p.26).

Porta apresenta uma exposição da filosofia como guardiã da razão e vê em todo questionamento filosófico da razão uma incoerência. A racionalidade ocidental garante o esclarecimento, o discernimento, a reflexão clara e consciente e a não–contradição. "Pensar racionalmente é, em boa medida, separar, distinguir, diferenciar."(p.44) O autor apresenta uma leitura de defesa da racionalidade ocidental, pois, dentre outras coisas, argumenta a favor do conceito e da análise filosófica.

Na nota 3 da p. 44 diz Porta que

é usual escutar que a análise congela e isola as idéias. Nada mais injusto que isto. A análise não detém o pensamento, nem implica atomismo. Distinguir não é isolar, senão o primeiro passo imprescindível para estabelecer relações bem definidas. O todo é assim clarificado em cada uma de suas articulações. Quanto mais vinculadas se encontram duas idéias, mais necessária é sua distinção. Em realidade, a análise só se opõe a confusão e vaguidade: pensamento confuso e vago é aquele que não distingue onde é possível. (p. 44).

A nota construída de forma assertiva na verdade assume um ponto absoluto com relação ao conceito e à análise filosófica.

Pareceu–nos bastante curiosa a nota 4 da p. 45, onde o autor diz que " a ansiedade é inimiga da filosofia. O acompanhamento medicamentoso se torna, em alguns casos, recomendável." Teríamos aqui uma ironia?

Como ler, então, um texto de filosofia? Diz o autor que existem duas perspectivas possíveis sobre um texto: leitura e produção. A leitura tenta apreender a lógica do sistema filosófico. A produção constrói, por argumentos, a estrutura lógica do texto. Portanto, ao ler um texto de filosofia, devemos nos preocupar em saber qual a questão formulada na obra e apreender, a partir do problema, a lógica das razões levantadas pelo autor.

Diz Porta: "observamos em vários momentos que só é possível compreender textos filosóficos a partir de seus problemas (introdução, finalidade do livro, final) e que esses, por sua vez, não estão simplesmente aí esperando ser tomados, mas que sua 'construção' é parte essencial da atividade filosófica". (p.85) Para compreender o texto filosófico é necessário reconstruir racionalmente o problema, explicitar pressupostos teóricos, compreender o contexto histórico e apreender a lógica das razões levantadas.

Na segunda parte do livro, o autor expõe dois exemplos que colocam em movimento a tese de A filosofia partir de seus problemas. Em dois textos, publicados em momentos diferentes e reunidos no livro, é apresentada a filosofia de Kant (no capítulo 1 da segunda parte) e a de Cassirer (no capítulo 2 da segunda parte).

No texto sobre Kant "O Problema da Crítica da Razão Pura", o autor apresenta de forma didática e clara a teoria de Kant sobre o conhecimento e sobre a ética. No texto bastante elucidativo sobre Cassirer, cujo título é "O Problema da filosofia das formas simbólicas", Mario Porta expõe a filosofia das formas simbólicas proposta pelo neokantiano em questão. No último capítulo da segunda parte do livro, discute–se a filosofia contemporânea, porém tomando como ponto de partida a tese de que existe uma unidade na história da filosofia.

 

 

1 Professor do Departamento de Ciências Humanas – FAAC – UNESP/Bauru.