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Trans/Form/Ação

Print version ISSN 0101-3173

Trans/Form/Ação vol.34 no.3 Marília  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-31732011000500006 

Sobre as origens do vocabulário político medieval1

 

On the Roots of Medieval Political Vocabulary

 

 

José Antônio Martins2

Professor de Filosofia Política do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UEM e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNIOESTE. Doutor em Filosofia pela USP e Pós-Doutor em Filosofia pela Universidade de Pádua (Itália)

 

 


RESUMO

O fenômeno da incorporação do corpo lexical político aristotélico transliterado do grego ao contexto latino do século XIII nos remete a problemas sobre as presenças e ausências terminológicas, não somente na tradução da Política, feita por Guilherme de Moerbeke, e nos comentários de Alberto Magno e Tomás de Aquino ao texto latino de Aristóteles, mas também à possível reverberação desses vocábulos políticos moerbekianos em alguns leitores da Política, no século XIV. Não se trata apenas de verificação de quem usou ou não usou tais ou quais termos, nem mesmo da elaboração de juízos sobre esses usos, como que para rotular pensadores; antes, trata-se de tentar individuar, a partir dos usos terminológicos, o surgimento de um novo modo de pensar e compreender a esfera da vida humana que é a dimensão pública, ou melhor, política. Tentaremos compreender, neste artigo, especificamente como emerge, a partir dessa tradução latina da Política, um novo quadro conceitual, a saber: a esfera política. Constataremos que a tradução da Política de Moerbeke consolida um novo vocabulário e um novo quadro conceitual que será, doravante, um dos fundamentos do pensamento político.

Palavras-chave: Política. Aristóteles. Moerbeke. tradução. recepção.


ABSTRACT

Since its translation from Greek into Latin in the 13th century, the phenomenon of incorporation of Aristotelian political lexicon into the Latin context raises issues regarding which terminology was left out and which one was taken in. These questions are raised not only concerning the translation of the Politics by William of Moerbeke, but also the first commentaries on the Aristotelian Latin text by Albertus Magnus and Thomas Aquinas, as well as the possible reverberation of those new Moerbekian political vocables in some readers of the Politics in the 14th century. This is neither only about verifying who has used or not used certain vocabulary nor about pronouncing judgments on these practices in order to stick a label on a thinker. Rather, this is about trying to specify the beginning of a new way of thinking and to understand that domain of human life that is its public dimension, or rather, its political dimension from the use of vocables. More specifically, this paper intends to understand how a new conceptual framework emerges from the Latin translation of the Politics, i.e., the political sphere. It is granted that the translation of the Politics by Moerbeke sets a new vocabulary and a new conceptual framework that will be among the grounds of the political thinking from then on.

Keywords: Politics. Aristotle. Moerbeke. translation. reception.


 

 

A) INTRODUÇÃO

A tradução latina da Política de Aristóteles, feita pelo frade dominicano Guilherme de Moerbeke, inaugura um novo momento no pensamento político latino, pois traz inúmeros conceitos novos, um novo modo de pensar a dimensão pública do homem, bem como novos vocábulos. Contudo, o texto latino da Política por si só não foi o único responsável pelas mudanças verificadas no pensamento político, a partir do século XIII. Os comentários ao texto, feitos num primeiro momento por Alberto Magno e Tomás de Aquino, além das inúmeras apropriações desses novos conceitos políticos pelos escritores mais diversos, como Marsílio de Pádua, Egídio Romano, Bartollo de Sassoferrato, Lauro Quirini etc., ampliaram e consolidaram aquilo que ficou conhecido como o aristotelismo político medieval. Esses dados históricos, entretanto, são já deveras conhecidos.

Chamamos a atenção para outra ordem de problemas que essa tradução traz para o mundo ocidental latino, a saber: a instauração de um novo vocabulário político, que será, por seu turno, a base do vocabulário político da modernidade.

A tradução latina da Política já é, por si mesma, um fato muito curioso. Uma das últimas obras a ser vertida para o latim, sendo traduzida direto do grego, sem nenhuma outra tradução anterior para qualquer língua, sem uma tradição de estudos e comentários sistemáticos, a Política é um desses casos raros de um texto que passou séculos sendo conservado nas bibliotecas sem despertar maiores interesses. Quando o tradutor dominicano das obras aristotélicas inicia seu trabalho, uma de suas primeiras traduções é da Política. Neste caso, há outra peculiaridade: tem-se uma primeira tradução em 1260 (a translatio imperfecta) e uma segunda, em 1265 (a translatio completa), fato único de duas traduções do mesmo texto na carreira de Moerbeke.

Porém, o que chama mais a atenção é o fato de ele não ter traduzido, mas tão somente transliterado, vários termos gregos, dentre os quais podemos destacar os vocábulos pertencentes à família terminológica ligada à polis (politica, politicum, politico, politici, politeuma, politias, politicam, politizare etc.) e os termos que designam as formas de governo, como democratia, oligarchia, tirania, aristocracia (e os termos derivados desses, democraticus, oligarchicus, tiranus etc).

Além dessas transliterações, que já indicam uma ausência de vocabulário latino apropriado à disposição do tradutor, outro aspecto, correlato a este, diz respeito a algumas ausências significativas de termos latinos consolidados e que decorrem de uma antiga tradição de escritores que remontam à República romana, como respublica, stati paucorum, statis multorum, gubernator, optimates etc. Mais intrigante ainda é a tradução de koinonia politiké por communicatio politica e não por civitas, societas ou respublica, termos latinos esses que poderiam ser tomados como equivalentes à conceituação aristotélica.

Esses primeiros dados revelam o quanto a Política, para os seus primeiros leitores latinos, deve ter provocado um relativo estranhamento e dificuldade de compreensão, comprometendo de certo modo sua utilização. Mas não foi isso que se viu, principalmente no século XIV, quando o texto teve uma larga difusão pela Europa latina3. Verifica-se, pois, um descompasso: temos, de um lado, um texto de leitura difícil, com um vocabulário estranho e inédito, que, não obstante, difunde-se pela Europa latina e se torna em algumas décadas um dos textos aristotélicos mais lidos e comentados. Em outras palavras, apesar da nova e difícil terminologia, isso não foi suficiente para os latinos se distanciarem do texto, ou mesmo renegálo; ao contrário, a edição latina da Política foi amplamente lida e sua terminologia e conceituação assimilada ao pensamento político latino.

Diante desse fenômeno, convém analisar o porquê de algumas presenças e de algumas ausências terminológicas, não somente na tradução moerbekiana, mas também nos seus primeiros comentadores, no caso, Alberto e Tomás. Não se trata tão somente de verificação de quem usou ou não usou tais ou quais termos, nem mesmo da elaboração de juízos sobre esses usos, como que para rotular pensadores. Trata-se, antes, de tentar individuar, a partir dos usos terminológicos, o surgimento de um novo modo de pensar e compreender essa esfera da vida humana que é a sua dimensão pública, ou melhor, política. No caso específico aqui, tentaremos compreender como emerge, a partir dessa tradução latina da Política, um novo quadro conceitual, a saber: a esfera política.

 

B) A TRADUÇÃO DE MOERBEKE

Conhece-se amplamente a importância das traduções de Guilherme de Moerbeke para a filosofia tardo-medieval, principalmente em função de suas revisões de traduções e traduções das obras de Aristóteles e outros autores gregos, como Temístio e Simplício. Nesse sentido, a história pessoal desse frade dominicano e das circunstâncias em que viveu fornecem boas pistas para compreender o problema em questão.

Martin Grabmann, em um primeiro estudo sobre o tradutor dominicano, apresenta várias informações sobre sua carreira. Guilherme ou Willian de Moerbeke, de Brabante, ou também Guilherme de Corinto ou Grego são algumas denominações que recebeu, ao longo de sua vida. Moerbeke é uma cidade da atual Bélgica, próxima de Brabante e Louvain. Pouco se conhece sobre o início da vida de Moerbeke: sabe-se que nasceu em 1214, que entrou para a ordem dominicana ainda jovem e recebeu a sua primeira formação no Studium da província dominicana em Colônia4. Tendo em vista sua propensão para o estudo de línguas, principalmente o grego, Moerbeke é enviado para Tebas e depois Nicéa - territórios bizantinos de língua grega -, certamente para aperfeiçoar seu conhecimento da língua e atender a uma carência antiga entre os frades dominicanos e os latinos, em geral: a pouca quantidade de conhecedores da língua grega para traduzir os diversos textos inéditos dos filósofos gregos5. Não se sabe ao certo quando Moerbeke foi para os territórios gregos, contudo, a data de uma tradução, depositada em Nicéa em 1260, revela que próximo a essa data ele ficou nos territórios bizantinos. Depois, é transferido para a corte papal, a pedido do papa Urbano IV, e reside primeiro em Orviedo e depois em Viterbo, respectivamente onde ficava a cúria, até 1278, quando é nomeado arcebispo de Corinto, cargo que ocupou até a sua morte, em 1286.

Segundo Verbeke6, esse período em que Guilherme de Moerbeke passou em terras bizantinas foi para se aperfeiçoar no grego, apreendendo e se familiarizando com o grego falado, que não era mais o grego antigo dos textos filosóficos. Embora o grego não fosse o mesmo, essa estadia foi importante para o estudo dos escritos dos Padres da Igreja, a patrologia grega, e um primeiro contato com os textos originais dos filósofos antigos7. Provavelmente, foi a partir dos contatos feitos nesta época que Moerbeke conseguiu os primeiros manuscritos para suas traduções. Quando, a partir de 1260, passa a disponibilizá-las, elas são resultados do trabalho de um membro de uma ordem religiosa conhecida pelo rigor e profundidade dos conhecimentos filosóficos e teológicos, donde ser muito razoável supor que Moerbeke tivesse um bom conhecimento também de filosofia, em particular, do aristotelismo8.

Sobre as traduções de Moerbeke, sabe-se que muitas delas foram, na verdade, correções de antigas traduções, as denominadas edições vetus, na qual o frade dominicano fazia alterações e modificações substanciais9. Seja nesses casos, seja nas inúmeras outras traduções dos originais gregos, ele tinha à disposição ou outras traduções latinas dessas obras realizadas a partir dos originais gregos ou traduções feitas com base nas edições árabes, sem contar a ampla gama de comentários e paráfrases dessas obras, já em língua latina, formando um corpo de subsídios terminológicos e conceituais a sua disposição. Os textos relativos à doutrina da alma e do intelecto, ao lado dos textos lógicos, metafísicos e físicos, evidenciam a presença de um contexto discursivo que o auxiliaram no trabalho de tradução. Se tivermos em conta aquilo que, primeiro Piaia10 e depois De Libera11, nomeiam como translatio studiorum, veremos como havia já na metade do século XIII, nas universidades europeias, um lastro de discussão, tradução e debates que ofereciam uma ampla gama de termos e conceitos muito precisos para esses temas. Enfim, a presença seja de antigas traduções latinas, seja de debates e discussões teóricas sobre os temas a serem traduzidos, permitiam a Moerbeke realizar um trabalho de alto nível, com um grau de precisão terminológica bem acima da média.

Agrega-se a isso, como mostraram Verbeke e Bossier, que na cronologia das traduções se verifica uma evolução qualitativa, na medida em que Moerbeke realiza um contínuo esforço de aprimoramento do vocabulário e das técnicas de tradução. Essas constatações refutam em parte uma concepção de que as traduções de Moerbeke eram de baixa qualidade, visto que ele mesmo declara e em vários outros manuscritos se lê que a tradução foi feita "[...] palavra por palavra" (verbum a verbo). De fato, em algumas traduções, nas quais se mantém a estrutura original do grego, é até possível reconstituir o original grego. Todavia, essa não era uma regra geral para todas as traduções, nem implicam a afirmação, como faz Roger Bacon, ainda no século XIII, de que Moerbeke produzia versões bárbaras para a língua latina12. Isso na verdade não parece ocorrer em todos os casos e certamente não é o caso da segunda versão da Política.

Conforme se frisou, a Política teve duas traduções: uma denominada translatio imperfecta, que contém o livro I inteiro e parte do livro II, até o capítulo 11, e teria sido feita antes de 1260. Uma segunda tradução aparece entre 1265, a translatio perfecta, que contém toda a obra13. Como foi mencionado, não havia uma tradução da Política em língua latina - alguma edição vetus - nem uma tradução árabe, pois a Política não foi traduzida para essa língua14. Portanto, o que se sabe é que Moerbeke foi o primeiro a traduzir para o latim o texto aristotélico, fazendo-o pelo original grego. Uma hipótese muito provável, defendida por Verbeke, sugere que a primeira versão teria sido feita a partir de um manuscrito incompleto de baixa qualidade caligráfica, com rasuras e de difícil leitura. Já a segunda tradução, conforme Susemihl15, teria sido feita com base no texto completo.

O fato que chama a atenção dos especialistas é que a tradução da Política foi o único caso conhecido em que Moerbeke fez uma primeira versão e depois realizou uma segunda, o que sugere um cotejamento entre elas16. Em uma análise, ainda que superficial, verifica-se que a primeira tradução, uma das primeiras realizadas pelo frade, revela em algumas passagens suas indecisões e inseguranças, típicas de um iniciante. A segunda mostra um aperfeiçoamento, seja no vocabulário, seja na construção dos períodos, embora algumas lacunas ainda se façam notar. Conforme Verbeke, a tradução da Política é um caso paradigmático da evolução de um tradutor e mostra, pois, os métodos de tradução disponíveis em meados do século XIII, metodologia esta que não se restringia tão somente à tradução de palavra por palavra, mas que, em alguns casos, era uma tradução de períodos e de sua adaptação à estrutura frasal do latim.17

Nesse sentido, a primeira tradução é mais chamativa, uma vez que traz à tona todas as dificuldades da qual falávamos de início. O jovem Moerbeke, ao traduzir a Política a partir de um manuscrito ruim e incompleto, e não tendo um vocabulário apropriado para levar a cabo sua tarefa, deveria forjar um léxico próprio para tentar expressar da melhor maneira esse pensamento político aristotélico, inédito em língua latina, ou seja, criar um vocabulário político latino.

 

C) A HERANÇA DA TRADUÇÃO E COMENTÁRIO DA ÉTICA : GROSSETESTE E ALBERTO

Tendo em vista essa tradução da Política, agora podemos retornar a uma questão deixada no início: qual foi a possível fonte vocabular de que Moerbeke fez uso, em sua tradução? Questão que se complica mais, como apontou Schmidt18, quando nos interrogamos sobre a tradução de koinonia politiké por communicatio politica. Contudo, antes de passar a essas questões, e talvez até para compreendê-las melhor, seria conveniente se perguntar sobre as possíveis motivações para a tradução da Política para o latim, ou em outras palavras: o que motivou Moerbeke a traduzir a Política?

Não se conhece nenhum documento, seja de Moerbeke, seja da Ordem dos Dominicanos, que forneça indícios que expliquem as motivações para a tradução da Política. Na falta desses elementos históricos, uma opção é o estudo do contexto intelectual anterior a 1260, que poderia ter motivado a tradução e, portanto, fornecido o vocabulário e o apoio conceitual necessário para o tradutor.

Seguindo as pesquisas de Bertelloni19, o interesse pela Política de Aristóteles provavelmente nasce das leituras e comentários da Ética a Nicômaco. Após a tradução, ou melhor, revisão de uma antiga edição feita por Roberto Grosseteste, em 1246, tem-se o estudo e comentário dessa edição latina da Ética por Alberto Magno, no Studio dominicano de Colônia, entre 1248 e 1252, que resulta no Comentário à Ética, também conhecido como Super-Ethica.

Sobre o trabalho de Grosseteste, convém lembrar que ele revisou uma antiga tradução da Ética feita no início do século XII por Burgúndio de Pisa, a edição vetus ou antiqua20. Grosseteste, depois de uma estadia nos territórios bizantinos, traz novos manuscritos gregos, bem como alguns comentários gregos à Ética, como os de Eustrácio e Miguel de Éfeso. Com esse material à disposição, revisa a tradução de Burgúndio de Pisa, ao mesmo tempo em que traduz esses dois comentários gregos. O resultado é uma nova tradução do texto aristotélico, agora com o apoio dos comentários, o que certamente conferiu maior qualidade à tradução.

Essa tradução que se completa entre 1246-1247 é disponibilizada a Alberto, que nos cinco anos seguintes empreende cursos e comentários ao texto - o que resultará na Super-Ethica - cursos estes que foram acompanhados pelo jovem Tomás de Aquino, estudante em Colônia. Muito provavelmente, Moerbeke também acompanhou parte desses cursos ou teve notícias dele, visto ser um membro da mesma província teutônica dos dominicanos, do qual faziam parte os conventos de Brabante e Colônia.

Coincidências à parte, alguns anos depois, Moerbeke parte para os territórios bizantinos e retorna com uma tradução parcial da Política. Contudo, na ausência de documentos históricos comprovando essa relação causal entre o estudo da Ética e a imediata tradução da Política, uma breve análise da tradução latina de Grosseteste e do comentário de Alberto pode fornecer alguns esclarecimentos.

Como se sabe, são ao menos quatro os momentos em que Aristóteles faz referência na Ética à vida política: em I.1, 1093a 25ss, quando afirma textualmente que a política é a ciência arquitetônica; em VI.8, 1141b 24ss, onde é reiterada a função arquitetônica da política ; em VIII.11 e 12, no qual é exposta uma rápida teoria das formas de governo; e no final de X. 10, 1179a33ss, quando se analisa o papel da lei e do legislador.

Assim, uma leitura atenta da Ética conduz o leitor a problemas relativos à vida política, que não são desenvolvidos no texto ético. Tendo em vista que os latinos possuíam algumas indicações sobre um texto político de Aristóteles, cumpria descobri-lo e traduzi-lo para que se compreendesse melhor essa parte prática da filosofia aristotélica, donde a tese de Bertelloni, pela qual a recepção da Política de Aristóteles não foi um ato passivo, como uma descoberta inesperada, mas a busca de um texto necessário para a compreensão da filosofia prática de Aristóteles. Dessa maneira, a recepção do texto político aristotélico é fruto de um esforço teórico em conhecer a filosofia prática de modo completo. Ora, a estadia de Moerbeke nos territórios bizantinos, documentada como sendo posterior a 1250 e anterior a 126021, com a publicação da tradução alguns anos após a tradução de Grosseteste e ao comentário de Alberto, encaixam-se adequadamente a esse quadro teórico da necessidade de conhecimento e compreensão do texto político aristotélico para a solução dos problemas herdados da Ética, principalmente no que tange à divisão das ciências práticas e à correta disposição dessas ciências, até mesmo em que medida elas são ciências.

Entretanto, para além dessa hipótese de caráter histórico que emana da leitura da Ética, pensamos que uma comparação entre o vocabulário utilizado tanto na tradução latina de Grosseteste, quanto no comentário de Alberto, em confronto com a tradução da Política de Moerbeke, poderiam revelar diferenças ou similitudes terminológicas que demonstrariam, por seu turno, as possíveis heranças ou não entre os textos éticos e a tradução do texto político. Conforme a hipótese de Bertelloni, se a Política foi traduzida sob inspiração do texto da Ética, então o vocabulário empregado por Moerbeke é tributário da tradução de Grosseteste e do comentário de Alberto.

Na edição da Ética da coleção Aristotelis Latinus, publicada por Gauthier22, verificamos, nos extratos da tradução de Burgúndio de Pisa, alguns termos transliterados como: Ex ++ timogratia autem utique in dimocratiam conterminales [1160b16]; minimum autem malum est dimocratia in parvum enim [1160b19]; In tirannide enim nichil aut ++ parum amicitie [1161a32].

Na correção de tradução de Grosseteste, quando, em 1160a31, Aristóteles faz sua rápida dissertação sobre as formas de governo, na tradução encontramos os seguintes termos latinos: politie, aristocratia, timocraticam, politiam, tirannis, tirannus, tirannidem, oligarchiam, epieikess e democratiam. Esses exemplos são ilustrativos do quanto, na tradução de Grosseteste, uma série de termos gregos não são traduzidos, mas somente transliterados, o que demonstra que ele também não possuía um vocabulário latino apropriado para fazer a tradução dos termos políticos aristotélicos.

Agora vejamos como Alberto, ao comentar esse trecho específico da Ética, explica essa passagem. Ele começa sua exposição do livro VIII do Super Ethica, Tratado III, capítulo II23, analisando as formas de governo retas e corrompidas (Politcae autem sive politexae species). As retas são os regimes conforme a justiça (secundum regimen justitiae), designados como: regnum, aristocratia e timocratia. Os respectivos desvios são designados como: tyranni, obligarchia [e não oligarchia] e democratia. Logo em seguida, Alberto salienta que a politexam também é chamada de politicam ou urbanitatem (appellare politexam [vel politicam] sive urbanitatem). Essa frase, como outras que se seguem ao longo desse capítulo, revelam a preocupação de Alberto em apresentar termos em latim correlatos aos termos gregos transliterados ou explicar o que significam esses termos gregos. Em algumas passagens, ele até escreve em caracteres gregos e fornece a tradução, como, por exemplo: Δηµοσ enim Graece, Latine plebs est.

Este último exemplo é muito significativo, pois, além de mobilizar a terminologia política transliterada da tradução de Grosseteste, Alberto faz um movimento a mais: procura explicar alguns termos-chave em grego, dando sua significação em latim. Ora, esse trabalho não somente consolida a terminologia transliterada de Grosseteste, uma vez que a utiliza, mas instaura um novo repertório de vocábulos políticos latinos, visto que fornece significado a eles. Com suas explicações e comentários, Alberto evidencia a quais dados de realidade esses termos fazem referência, embora seja um tanto quanto restrito nesse trabalho, no Super Ethica, pois dedica poucas páginas a essa explicação e o faz de modo muito parcial (mesmo porque o texto aristotélico também não permite maiores digressões sobre a teoria das formas de governo). Seja como for, nesse pequeno extrato do comentário albertiano, fica evidente como um novo vocabulário político, totalmente herdado do grego, se insere no mundo latino ocidental.

 

D) O VOCABULÁRIO POLÍTICO MOERBEKIANO

A esta altura, talvez já seja possível responder a algumas questões apresentadas no início, principalmente no que tange às transliterações de alguns termos políticos-chave. Com efeito, Moerbeke em sua tradução utiliza-se do mesmo vocabulário político usado por Grosseteste e Alberto, seja para designar as formas de governo: regnum, monarchia, aristocratia, democratia, oligarchia, tirannus, seja os termos derivados de politica. Donde, pode-se concluir que, se não foi Moerbeke que criou esses vocábulos políticos, agora latinizados, certamente foi por meio de sua tradução que eles se consolidaram no vocabulário político latino, doravante. Tanto é verdade que ela estará presente na ampla maioria dos textos políticos dos escritores, principalmente quando se tratar de escritos sobre a teoria das formas de governo. Prova maior do enraizamento desse novo vocabulário político latino é a repercussão da tradução da Política feita no século XV pelo humanista Leonardo Bruni24. Em sua tentativa de fazer uma tradução que superasse as limitações de um texto pouco latino, cuja tradução verbum a verbo produzia verdadeiros barbarismos, Bruni faz um texto mais latinizado, ou seja, com um vocabulário de forte inspiração ciceroniana e dos escritores latinos em geral. Nesse sentido, boa parte desses termos transliterados são trocados por termos mais adequados ao latim clássico, como se verifica na tabela abaixo:

 

 

Além dessa substituição de terminologia, Leonardo Bruni se empenha principalmente em modificar o modo de construção das frases e dos períodos. Assim, a tradução de Bruni modifica em muito a estrutura e o estilo da exposição, produzindo, em termos de estilística latina, um texto mais adequado.

Todavia, esse esforço de adaptar o texto da Política a um vocabulário latino mais clássico não surte efeito. Ao contrário, sua difusão é restritíssima e o texto é pouco utilizado; suas modificações terminológicas não encontram grande aceitação entre seus contemporâneos, que ainda se valem da terminologia política latina cunhada no século XIII25.

Isso mostra como o vocabulário político latino no século XV já estava sob forte influência do léxico elaborado pelos leitores da edição latina da Política de Moerbeke, donde a solução de acomodar novos vocábulos políticos, mas não mais alterá-los substancialmente, como pretendeu Bruni. Tanto é assim que, nos textos políticos escritos nas línguas modernas, essa terminologia latina dos medievais é transliterada e adaptada a essas novas línguas, principalmente no que se refere à terminologia das formas de governo e ao espaço político, como, por exemplo: democracy (inglês), democracia (espanhol e português), democrazia (italiano), democratie (francês), demokratie (alemão).

Contudo, duas outras questões ainda restam, neste caso dizendo respeito ao termo politica e ao termo communitas. Como chamou atenção Rubinstein, sem contudo responder a contento, o termo politica e seus derivados, mais do que uma transliteração do grego, são índices de uma mudança no modo de conceber a dimensão pública do homem26. Antes das traduções latinas medievais dos textos aristotélicos, que se iniciam no século XII, o termo política, em sua conotação como

o lugar das questões públicas, não possuía esse sentido entre os latinos. Mesmo quando voltamos ao Policraticus, de John de Salisbury, não se verifica o uso dessa palavra na acepção citada. Nesse sentido, quando o termo ocorre nas traduções da Ética ele causa estranhamento, pois política indica algo abstrato e vazio de sentido, ou melhor, aquilo que um grego, seja do século III antes de Cristo, seja do século XII da era cristã, entendia como polis e política, não fazia parte do quadro de significações latino, donde tal transliteração transportar para esse mundo latino um conceito novo e sem referências. Isso se verifica na medida em que a indicação de que há algo que se diz política, que pode ser entendido como a communitas politica dos latinos, não fazia muito sentido até a tradução da Política e seus posteriores comentários. A dificuldade que se apresenta, então, é como ocorre essa construção de significação de um termo transliterado da língua grega para o latim e como passa a denotar uma esfera da vida humana, um domínio inegável e inescapável do existir humano. Mais até que os vocábulos gregos sobre as formas de governo, o termo politica ocupará no pensamento latino um lugar especial, que antes do século XIII não possuía. Logo em seguida à tradução de Moerbeke, a politica será equiparada em alguns casos à respublica, embora isso não se dê para todos os pensadores políticos, nem de modo amplo para aqueles que fazem tal equivalência. No limite, a questão que se põe é como que esse termo grego adquire a significação que lhe será própria entre os latinos, a partir do século XIII.

Outra dificuldade, correlata a essa, concerne à tradução de koinonia politiké por communitas ou communicatio politica. De modo mais claro: por que nem Grosseteste, nem Moerbeke traduziram koinonia politiké por civitatis, societas ou respublica? Para recordar, logo na abertura da Política, Aristóteles define polis como uma koinonia politiké, como a associação humana mais excelente; é essa associação que formará a polis, que nós costumeiramente traduzimos por cidade. Ora, por que os tradutores medievais não optaram por traduzir a expressão que será a definição de cidade por civitas, que é um termo latino consagrado e de largo uso, como o fará Bruni, no século XV? Para termos um bom critério, convém comparar a tradução do parágrafo inicial da Política (I, I, 1252a1), feita por Moerbeke e por Bruni.

Quoniam omnem civitatem videmus Quoniam videmus omnem civitatem
communitatem quandam existentem et esse societatem quamdam, et
omnem communitatem boni alicuius gratia omnem societatem boni alicujus
institutam (eius enim quod videtur boni gratia gratia constitutam. Nam ejus gratia,
omnia operantur omnes), manifestum quod omnes quidem bonum aliquod coniecturant, quod bonum videtur, omnia omnes
maxime autem principalissimi omnium agunt, patet quod bonum aliquod
omnium maxime principalis et omnes omnes conjectant. Maxime vero
alias circumplectens, haec autem est quae principalissimum omnium, quae est
vocatur civitas et communicatio politica. principalissima, et caeteas omnes
  complecititur. Est autem haec, illa quae
[Guillelmus de Morbeka translator civitas appellatur, et civilis societas.
Aristotelis F. Susemihl, Leipzig, 1872  
[Aristotelis Politicorum libri octo cum vetusta [Leonardi Arentini translatio in Alberti
translatione Guilelmi de Moerbeka] Magni, Opera Omnia, Commentari in octo
  libris Politicorum Aristotelis, ed. Augusti
  Borgnet, Paris: Víves, 1891 [p. 1]

Ao analisar as questões envolvendo a tradução de koinonia por communitas, Schmidt, considerando apenas a tradução de Moerbeke e não as traduções da Ética de Grosseteste e Burgundio, propõe a mesma questão em seu artigo e sugere que a razão para essa opção de tradução estaria na influência do texto latino da Bíblia, a Vulgata, feita por Jerônimo, no século IV27. Segundo ele, Moerbeke adotou a mesma opção de Jerônimo na Vulgata, pois nesta, principalmente nos textos do Novo Testamento, onde está a maioria das ocorrências do termo koinonia, na edição grega da Bíblia (ou edição dos setenta), na maior parte das vezes koinonia é traduzida por communitas28. A razão para essa escolha de Jerônimo reside no fato de querer indicar para essa nova agremiação dos cristãos, à qual os apóstolos fazem referência com a koinonia, um termo que diferisse daquilo que já era sinal de decadência no mundo romano, a civitas, bem como este último termo estar carregado de um sentido mais jurídico do que político. No espírito dessa nova proposta de organização dos homens, evidente nos textos apostólicos do Novo Testamento e nos textos patrísticos em geral, uma nova acepção deveria ser aplicada para aquilo que em grego a designava. Nesse sentido, o termo communitas difere a associação dos cristãos do termo latino civitas, ou mesmo societas, que também possuía uma forte conotação contratualista e utilitarista, se tomarmos em conta os textos ciceronianos e estoicos, de modo geral. A communitas cristã estará livre dessa carga romana e traz a novidade própria de um projeto que se pretende reformador.

Contudo, a hipótese de Schmidt falha, ao não apontar que a influência de Moerbeke também nesse caso da tradução de koinonia politiké ser a tradução de Grosseteste e o comentário de Alberto. Todavia, ainda assim poderíamos manter a questão e aplicá-la para Grosseteste ou até mesmo para a tradução da Ética de Burgúndio de Pisa, por ser o nascedouro da questão, e o problema permaneceria: por que esses tradutores e comentadores não modificaram a tradução de koinonia politiké por civitatis, mas mantiveram communitas politica?

Independentemente das possíveis motivações para a tradução, no caso da Política, a resposta para a tradução de koinonia por communitas se verifica na própria tradução de Moerbeke e é corroborada pelos comentários de Tomás e Alberto. Moerbeke, na tradução, como visto, declara: "[...] maxime autem principalissimi omnium omnium maxime principalis et omnes alias circumplectens, haec autem est quae vocatur civitas et communicatio politica [grifo nosso]". Ora, aquilo que é chamado pelos latinos de civitas (vocatur civitas) é o que se designa, na tradução, por comunidade política. Portanto, na própria tradução se encontra a indicação do que se entende por communicatio politica, a civitas, ou melhor, a civitas no seu grau máximo, na sua maior excelência. Interpretação igual temos no comentário à Política de Alberto, que também evidência que a communicatio aqui é aquela que visa ao maior bem de todos, ao mais excelente, logo sendo a comunidade principalissima29. Interpretação também compartilha Tomás de Aquino, mas com mais clareza, sustentando que essa comunidade excelente é uma civitas:

Por outro lado, é evidente que a cidade inclui todas as outras comunidades, com efeito, as casas, as aldeias e os cidadãos estão compreendidos nela; e assim a comunidade política é a principal comunidade. Concluímos, então, que ela é principalmente boa entre todas as boas comunidades humanas.30

Contudo, nem toda civitas é uma comunidade política, ou seja, os termos não são totalmente equivalentes, mas só parcialmente equivalentes31, pois apenas a civitas que visa ao maior dos bens é aquela que compreende todas as outras, em relação ao maior dos bens.

Torna-se evidente, portanto, que a não tradução de koinonia por civitas, societas ou respublica, mas por communitas, ocorre em função da excelência ou maior dignidade dessa comunidade política em relação às demais associações humanas, o que não impede de aparecer em várias passagens essa equiparação entre communitas politica com civitas. A questão parece não ser tanto a designação de koinonia por communitas ou civitas, mas para que nem toda e qualquer forma de civitas seja nomeada como communitas política, o que está totalmente conforme ao raciocínio aristotélico. Com efeito, o próprio Aristóteles, ainda no começo da Política (I, 2), enfatiza que só será de fato uma polis a koinonia que cumprir algumas condições: ser autosuficiente (autarqueia), visar ao maior dos bens (telos), proporcionar a felicidade dos seus membros (eudaimonia) e, maior critério de todos, ser por natureza (to physei), donde não ser qualquer koinonia que satisfaça esses requisitos, mas apenas a koinonia politiké.

Entretanto, se a solução fica evidente para a opção de tradução de koinonia por communitas, o mesmo não se pode dizer para a transliteração de politica. A existência e o uso frequente desse vocabulário político nas línguas modernas escondem o impacto que este gerou, no momento de seu ingresso no mundo latino medieval. É de fato um tanto quanto desconcertante saber que o termo politica e seus derivados não faziam parte do quadro conceitual dos povos europeus de língua latina, antes da tradução das obras de Aristóteles.

Rubinstein desmonstra que, antes da tradução de Moerbeke, os poucos usos do termo ainda no século XII, seja no Policratus de John de Salisbury, seja no Didascalion de Hugo de São Vitor, apesar de fazerem referências ao termo politicus e politica, não o empregavam na mesma acepção que será corrente depois da tradução de Moerbeke e dos comentários de Alberto e, principalmente, dos de Tomás de Aquino32. Com efeito, malgrado essa terminologia já estar presente antes de 1260, como evidenciado, ela não era muito clara para esses leitores do texto político aristotélico, a despeito dos grandes esforços explicativos de Alberto, no seu comentário à Ética. Após a tradução latina da Política, os comentário, as explicações e os usos do texto que se seguem não somente esclarecem o que esses termos políticos significam, como os consolidam como um vocabulário preciso para se referir a esse domínio público da vida humana. De outro modo, a estranheza que certamente causaram termos como politeia e politeuma, para os leitores latinos, se dissolveu quando das explicações, inicialmente de Tomás, mas depois com Pedro Alvergnia - que completa o Sententia libri Politicorum -, Ptolomeu de Lucca e das utilizações dos argumentos aristotélicos por Edígio Romano, Marsílio de Pádua, Bartolo de Sassoferrato etc.

Nesse trabalho dos pensadores medievais de explicação dos conceitos políticos aristotélicos, dois aspectos devem ser salientados: a equivalência dos termos políticos aristotélicos aos conceitos correntes do vocabulário latino, como cives, civitatis, urbanitatem, optmates etc; em um segundo momento, quando nos comentários e nos demais textos políticos que se valem dos argumentos aristotélicos, são mobilizados exemplos históricos de Esparta, da época republicana de Roma e do contexto italiano dos séculos XIII e XIV, que aproxima em muito o pensamento político aristotélico do republicanismo.

O comentário de Tomás, mais do que o de Alberto, procura aproximar esses conceitos políticos aristotélicos com os exemplos políticos existentes, embora se atenha em quase todo o momento no caráter científico do texto e nas explicações de suas fundamentações metafísicas, na parte argumentativa do texto aristotélico. Se pudéssemos resumir em poucas palavras o comentário tomasiano à Política, poder-se-ia afirmar que buscou principalmente apresentar e explicar, em termos científicos, o texto político aristotélico, haja vista seu destaque aos aspectos metafísicos e físicos da conceituação política. Ainda que seja um comentário parcial e incompleto - fato esse que não deve ser minimizado, pois poderia indicar uma escolha de Tomás em não querer tratar do restante do livro - naquilo a que se dedica, o texto tomasiano enfatiza os aspectos metafísicos e não explora muito as implicações políticas sugeridas pelo texto.

Para ilustrar, apresentamos alguns exemplos de explicação do vocabulário transliterado de Moerberke, feita por Tomás no seu comentário. No que tange ao termo polis, destaca Tomás: "Portanto, polis, em poucas e breves palavras, significa em grego cidade"33. Acerca da politeuma: "Logo, isto é politeuma para a cidade, isto é, a ordenação dos cidadão"34. Ainda sobre politeuma, acrescenta Tomás: "Portanto, disse primeiro que a política não é outra que a politueuma, que significa a ordenação predominante na cidade; é necessário que seja diferenciado os políticos conforme a diversidade predominante [na cidade]"35. Para o termo politica: "[...] politica, isto é, as ordenações civis"36. E, na sequência: "Também é verdadeiro que instituir politicamente é ordenar o regime civil e possuir leis, assim como Licurgo que instituiu o regime politíco espartano e Solon que instituiu o ateniense; [...] Política é o regime da cidade37".

Ainda:

Porém a política [forma de governo] é principalmente isso: ser livre conforme a natureza [...]. Mas a política [forma de governo] é principalmente liberdade e igualdade, que é compartilhada principalmente pelas pessoas onde subjaz propriamente a igualdade, e tambem é constituída de muitos [membros] ou de um ou em diversos ofícios.38

Esses exemplos comprovam o esforço de Tomás em tornar compreensível para o seu leitor o significado desses termos que não faziam muito sentido para um latino, donde podemos notar aqui também uma aproximação do vocabulário político grego transliterado para o quadro mental e conceitual latino do século XIII. Os comentários que se seguem ao longo do século XIV consolidarão essa aproximação terminológica.

Um segundo aspecto desse processo está no uso desses conceitos da Política pelos escritores políticos, que confirmam definitivamente esse vocabulário como o léxico político latino. Nesse sentido, três exemplos são ilustrativos: o De regime principum, de Egídio Romano, o Defensor Pacis, de Marsílio de Pádua, e o De regime civitatis, de Bartolo de Sassoferrato. Todas essas obras foram escritas para atender às demandas políticas do momento, configurando-se, dessa maneira, como obras de política militante. Assim, cada uma delas faz, ao seu modo, uma mobilização dos conceitos políticos aristotélicos da tradução latina de Moerbeke, característica essa que se ressalta, se levarmos em conta a diversidade posições defendidas, por exemplo, entre Egídio e Marsílio, sendo o primeiro um defensor da monarquia como o regime ideal e o segundo propondo uma democracia ou governo conciliar universal para a Igreja. A partir desse momento, já existe um vocabulário comum para tratar dos regimes políticos, que tem sua fonte na tradução latina do texto aristotélico.

Retornando ao nosso ponto de partida a propósito da terminologia política, se, por um lado, a tradução de Moerbeke por si só resolve um primeiro problema, quando mostra que a communicatio politica é equivalente àquilo que os latinos nomeiam de civitatis societas, falta, todavia, explicar as traduções dos demais termos problemáticos. A solução para esse desconforto terminológico será dada paulatinamente por meio dos comentários, que mantiveram esse vocabulário e o explicaram, e a mobilização desses argumentos aristotélicos em textos políticos dos mais diversos tipos, mas que tinham como solo comum esse novo quadro conceitual e mesmo vocabulário. Enfim, diante do impacto inicial da novidade que foi a tradução da Política, assim como antes tinha sido a tradução da Ética, houve na sequência um longo e persistente trabalho de explicações e aproximações teóricas, que resultou no vocabulário político corrente do tardo-medioevo e do Renascimento.

Isso não significa que, concomitantemente, e, com mais força, no Renascimento italiano dos séculos XIV, XV e XVI, não houvesse uma mobilização também do vocabulário latino romano ou ciceroniano, cujo grande exemplo aqui é a tradução da Política de Leonardo Bruni, que utiliza essa base lexical latina. Quando o vocabulário latino ciceroniano ou de origem jurídica (que permanece via direito romano e suas glosas), for usado pelos humanistas, ele o será dentro desses limites conceituais do aristotelismo político, sobretudo no que tange à teoria das formas de governo, cujo exemplo é o texto de Bartollo. Ora, o conhecido jurista e glosador da Escola de Bolonha, quando se dedica à reflexão das formas de governo, o faz num quadro conceitual aristotélico.

Portanto, a introdução da tradução latina da Política inaugura um novo momento no pensamento político medieval, mas será, ao longo dos séculos, assimilada e integrada a novos corpos lexicais, como uma sobreposição de camadas terminológicas. A despeito disso, o marco já está lançado e a filosofia doravante terá uma identidade específica. Por isso é que dissemos uma filosofia política, um campo do político e não uma filosofia cívica, uma esfera cívica, a não ser como dimensão subordinada da política.

 

 

recebido em: 12.05.2011
aprovado em: 23.09.2011

 

 

1 Este artigo apresenta alguns resultados de minha pesquisa de Pós-Doutorado realizada na Universidade de Padova (Itália), que contou com apoio da CAPES.
2 Publicou Republicanismo e Democracia (Org). Maringá: Eduem, 2010, e organizou e traduziu a edição bilíngue de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel (ed. Hedra, 2009).
3 Cf. FLÜELER, C. Rezeption und Interpretation der Aristotlischen Política im späten Mitterlalter. Teil I-II. Amsterdam: B. R. Grüner, 1992; Rufino, Salvador Rus. Comentários a la "Politica" de Aristóteles en la Europa medieval e moderna. Madrid: Fundación Ignácio Larramedi, 2008. Disponível em: http://www.larramendi.es/i18n/cms/elemento.cmd?id=estaticos/paginas/bv_aristoteles_comentarios. htmhttp://www.larramendi.es/i18n/cms/elemento.cmd?id=estaticos/paginas/bv_aristoteles_comentarios.html. Acesso em: 20 ago. 2011.
4 Cf. GRABMANN, M. Guglielmo di Moerbeke O. P. il tradutore delle opere di Aristotele. Miscellanea Historiae Pontificiae, vol. XI, Roma: Pontificia Università Gregoriana, 1946. [p. 30 ss].
5 Segundo Grabmann, os dominicanos possuíam, nessa época, ao menos sete conventos no Oriente, incluindo Tebas, onde provavelmente Moerbeke fez sua estadia. Cf. GRABMANN (op. cit., p. 36-37).
6 Cf. VERBEKE, G. Moerbeke traducteus et interprète: un texte et un pensèe. In: Guilaume di Moerbeke. Louvain: Brans et Vanhamel, 1989, p. 2.
7 Cf. VERBEKE (op. cit., p. 3-4).
8 Como mostra Verbeke, na tradução do livro III do De Anima de Filopono, em 1268, Moerbeke só traduz uma parte e não o texto todo, por decisão própria, numa clara demonstração de que conhecia o tema e que, para os debates em cursos na Universidade de Paris, no entorno a 1270, essa parte do texto bastava. Cf. VERBEKE (op.cit, p 4-5).
9 Cf. GAUTHIER, R-A. Introduction. Sententia Libri De Anima. Roma-Paris: Leonina, 1984.
10 Cf. PIAIA, G. Vestigia philosophorum. Il medioevo e la storiografia filosofica. Rimini: Maggioli, 1983.
11 Cf. DE LIBERA, A. La philosophie médiévale, 1993.
12 Cf. GRABAMANN (op. cit., p. 168ss).
13 Para a translactio imperfecta, cf. Aristotelis Latinus. Politica [translatio imperfecta]. Ed. Michaud- Quartin, 1961; Para a translactio perfecta, cf. SUSEMIHL, F. Aristotelis Politicorum libri octo cum vetusta translatione Guilelmi de Moerbeka. Leipzig, 1872.
14 Cf. PINE, S. Aristotle's Politics in Arabic Philosophy. In: Israel Oriental Studies V (1975), p.150-60, também presente em: The Collected works of Shlomo Pine, V. III, Jerusalem: The Magnes Press, The Hebrew University, 1996. [251-261].
15 Cf. SUSEMIHL, F. Aristotelis Politicorum libri octo cum vetusta translatione Guilelmi de Moerbeka. Leipzig, 1872.
16 Cf. VERBEKE (op. cit.); BOSSIER (op. cit.)
17 Não queremos adentrar nessa temática, extremamente espinhosa; entretanto, não custa lembrar ainda os problemas que envolvem a tradução de um texto filosófico, particularmente, no qual a preocupação primordial é a tradução do conceito e da ideia, e não necessariamente a elegância e a correção estilística que comportam as traduções literárias.
18 Cf. SCHMIDT, J. A Raven with a halo: The translation of Aristotle's Politics. In: History Political Thought, v. VII, summer, 1986.
19 BERTELLONI, F Les schèmes de la philosophia pratica anterieus à 1265: leur vocabolaire concernant la Politique ete les rôle dans la réception de la Politique d'Aristotle. In: L'elaboration du vocabulaire Philosophique au Moyen Age. Brepols, 1998 [p. 171-202]         [ Links ]; Presupuestos de la recepcion de la Política de Aristóteles. In: Aristotélica et Lulliana, Steenbrugis, 1995 [p. 35-54]         [ Links ]; Giuridicitá della 'scientia politica' nella riflessione politica delgi artisti nella prima metá del secolo XIII. In: Les philosophies morales ete politiques au Moyen Âge, Ottawa, 1992 [p. 333-341]         [ Links ].
20 GAUTHIER, R.-A. Introduction in L'Éthique a Nicomaque. Louvain: Publications Universitaries, 1970, p. 116.         [ Links ]
21 Cf. VERBEKE (op. cit.); GRABMANN (op. cit.)
22 Aristoteles latinus. Burgundius Pisanus translator Aristotelis. XXVI. fasc. Secundus. Gauthier, R. A. (ed.). Leiden/ Bruxelles: E. J. Brill (Corpus Philosophorum Medii Aevi ), 1972-1974 [p. 99-124].
23 Cf. edição francesa organizada por Augusti Borgnet (Paris: Vives, 1891, p. 539ss).
24 Cf. BIANCHI, L. Studi Sull'Aristotelismo del rinascimento. Padova: Il Poligrafo, 2003 [cap. 5, p. 148ss]
25 Um bom exemplo é o escritor veneziano Lauro Quirini, que, em 1449-50, publica o seu De Republica, seguindo de perto a estrutura argumentativa da Política e utilizando o vocabulário político moerbekiano, apesar de ser contemporâneo de Bruni e trocar correspondências com ele. Sobre Quirini, cf. SENO, C.; RAVEGNANI, G. De Republica. In: KRAUTTER, K. et alii. Lauro Quirini Umanista. Firenze: Leo Olschki, 1977.
26 RUBINSTEIN, N. The History of the Word politicus in Early Modern Europe. In: Studies in Italian History in the Middle Ages and the Renaissance. Roma: Edizioni di Stori e Letteratura, 2004. [cap.13]         [ Links ].
27 Cf. SCHMIDT, J. A Raven with a Halo: The Translation of Aristotle's Politics. In: History Political Thought, v. VII, summer, 1986.

28 No Antigo Testamento, as ocorrências de koinonia estão em: Levítico, 5.21 e Sabedoria, 8.18. No Novo Testamento, em: Atos dos Apóstolos 2:42; Romanos 15:26; 1 Coríntios 1:9; 1 Coríntios 10:16 [2 vezes]; 2 Coríntios 6:14; 2 Coríntios 8:4; 2 Coríntios 9:13; 2 Coríntios 13:14; Gálatas 2:9; Efésios 3:9; Filipenses 1:5; Filipenses 2:1; Filipenses 3:10; Filemon 1:6;. Hebreus 13:16; 1 João 1:3 [2 vezes];. 1 João 1:7; 1 João 1:6.
29 BORGNET, A. (ed.). Alberti Magni, Opera Omnia, Commentari in octo libris Politicorum Aristotelis, Paris: Víves, 1891 [p. 8]         [ Links ].
30 Manifestum est autem quod ciuitas includit omnes alias communitates, nam et domus et uici sub ciuitatem comprehenduntur; et sic ipsa communitas politica est communitas principalissima: est ergo coniectatris principalissimi boni inter omnia bona humana. Thomae Aquinatis. Sententia libri politicorum. Comissio Leonina, t. XLVIII. Roma: Santae Sabinae, 1971 [p. A72, linhas 45-50].
31 Tanto o raciocínio de Tomás quanto o de Alberto enfatizam a finalidade visada por essa comunidade, algo que é evidente no texto político aristotélico.
32 RUBINSTEIN, N. The History of the Word politicus in Early Modern Europe, publicado inicialmente em Ideas in Context. The Languages of Political Theory in Early-Modern, 1997, e que também pode ser consultado em Studies in Italian History in the Middle Ages and the Renaissance. Roma: Edizioni di Stori e Letteratura, 2004. [cap.13]         [ Links ]
33 Polis enim in greco per o paruum scriptum et i breue significat ciuitatem. [liber I, cap. 9, linha 217222, A111]
34 Et hoc ideo quia politeuma ciuitatis, id est positio ordinis in ciuitate. [liber III, cap. 5, linha 22-25, A201]
35 Dicit ergo primo quod <quia> politia nichil est aliud quam politeuma, quod significat ordinem dominantium in ciuitate, necesse est quod distinguantur polite secundum diuersitatem dominantium. [liber III, cap. 6, linha 16-20, A204]
36 [...] politie, id est ordinationes ciuitatem. [liber I, cap. 8, linha 15, A148]
37 [...]quidam uero etiam instituerunt politiam, que est ordinatio regiminis ciuitatis, et posuerunt quasdam leges, sicut Licurgus qui instituit lacedemonicam politiam, et solon qui instituit atheniensem; [....] politiam, id est regimen ciuitatis. [liber II, cap. 17, linha 22-26 e 41, A181]; quia politia nichil aliud est quam ordo inhabitantium ciuitatem" [liber III, cap. 1, linha 41-42, A186].
38 Politica enim est principatus eorum qui sunt liberi secundum naturam; set politica est principatus liberorum et equalium, unde communtantur persone principantes et subiecte propter equalitatem, et constituuntur etiam plures principantes uel in uno uel in diuersis officiis. [liber I, cap. 5, linha 16 e 32-36, A94].