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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol. 18 n. 43 Campinas Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621997000200001 

Apresentação

 

 

Encontros e desencontros existentes nas relações entre disciplinas e áreas do conhecimento no campo das ciências humanas são, aqui, tema central posto pela reflexão e base de um instigante desafio: o de compreender os pontos de união e de desunião entre conhecimentos e práticas diversas. Pontos esses que se revelam nas frágeis fronteiras existentes em contextos e demandas comuns. Este parece ser o caso dos processos educativos e da educação em sua trajetória histórica, que envolve sujeitos sociais e práticas socioculturais diversas.

A questão das relações entre antropologia e educação não se coloca aqui como uma viagem ao universo profundo dessas disciplinas, apenas revela alguns caminhos percorridos e, de modo introdutório, a problematização que lhe é própria. O desconhecimento em torno dessa questão e de sua natureza apresentou-se a mim como desafio pessoal, quando, em 1995, como antropóloga, passei a integrar o Decisae - Departamento de Ciências Sociais Aplicadas à Educação - da Faculdade de Educação da Unicamp. Desafio novo a questionar se de fato havia possibilidade de dialogar num campo tão diferente daquele em que tradicionalmente me situava - a antropologia, no e para o universo de cientistas sociais -: a antropologia para estudantes dos cursos de ciências sociais.

Tudo era novo - os sujeitos sociais, meus alunos, a composição multidisciplinar do Decisae com sociólogos, politólogos, filósofos e, de resto, uma única pedagoga. Dei início, então, a um esforço sistemático que resultou na organização de um curso - antropologia e educação - que ministrei como disciplina optativa, junto ao curso de pedagogia. Encontrei aí não só o desafio de apresentar um itinerário novo para mim e para meus alunos, mas também de descobrir a importância do mesmo, à medida que, transpondo diferentes barreiras, descobríamos, juntos, o significado desse outro discurso - o da antropologia - como contribuição na formação e prática de futuros educadores.

A descoberta não se limitou à própria investida e descortinou a possibilidade de outros mergulhos que trouxessem à tona as relações entre antropologia e educação. Como membro do Gepedisc1 - Grupo de Estudos e Pesquisa em Diferenciação Sóciocultural - do Decisae, organizei a mesa-redonda Antropologia e educação: Interfaces do ensino e da pesquisa, realizada na Faculdade de Educação, em novembro de l996. O evento visava reunir profissionais de áreas diversas, para debater experiências e trabalhos embasados na interface da antropologia e da educação, no campo do ensino e da pesquisa, em níveis de graduação e pós-graduação.

O evento, que origina a presente publicação, buscou responder a uma carência de informações e de debates referidos à temática em questão, da qual se sabe que existe uma história presente e passada, marcada de "boa vizinhança, mas também de litígio", como afirma Darton com relação à antropologia e à história. A boa vizinhança e o litígio estão expressos na diversidade das falas dos expositores da mesa-redonda, transformadas aqui em artigos. O objetivo daquele momento e de agora é avaliar contribuições e limites entre as áreas em debate, buscando estabelecer as conquistas e os limites das experiências do passado e do presente, num diálogo que tem se revelado de imensas possibilidades, porém que é ainda pouco conhecido.

Os artigos da presente coletânea, propositalmente, colocam-nos a diversidade das formas de entendimento das relações entre antropologia e educação, não havendo uma unidade entre eles. Assim, os dois primeiros artigos, o de minha autoria e o da professora-doutora Josildeth Gomes Consorte, antropóloga do Departamento de Antropologia da PUC-S.P, retomam do passado e constituem o espaço que trata da história das relações entre antropologia e educação em alguns de seus aspectos. Ambos são complementares, já que se referem à trajetória da antropologia como ciência, tematizam questões mais centrais no período que vai do final do século XIX aos anos 50 do presente século, particularizando aí as dimensões da corrente culturalista em face da educação.

Os artigos das professoras-doutoras Tania Dauster, antropóloga do Departamento de Educação da PUC, do Rio de Janeiro, e Marli D.A. de André, pedagoga da Faculdade de Educação da USP, informam sobre experiências e práticas no campo do ensino e da pesquisa em educação, tomando por base a etnografia e seus recursos, na união de campos diversos e de seus paradoxos, que marcam algumas trilhas do tempo presente das relações entre antropologia e educação.

Finalmente, o artigo da professora-doutora Ana Lúcia F. Valente, antropóloga do Departamento de Ciências Humanas, da Faculdade de Educação da UFMS, que fecha esta primeira investida do Gepedisc na discussão da interface entre antropologia e educação, traz-nos a contribuição do lado polêmico dessa relação. Seu artigo demonstra que neste final do século, mais do que o que nos une, há questões que nos separam e, ainda que não interditem o diálogo, estão exigindo uma postura crítica perante a realidade com que se dá o uso da antropologia no campo da educação.

As possibilidades de uma reflexão e de uma prática alternativa, referidas a novos mapas culturais mais adequados a tempos e espaços diversos, exigem que as relações entre antropologia e educação sejam historicizadas, de modo a permitir práticas políticas conseqüentes com a busca do conhecimento e da cidadania, onde, como diz Azevedo,2 "o conhecimento não é algo acabado, mas um processo humano totalizante, interdisciplinar, histórico, de busca permanente, de organização e transformação do mundo".

Muita coisa deixou de ser abordada, o que confirma o caráter introdutório deste debate, mas reafirma-se o caráter aberto e descentralizado desses múltiplos olhares sobre a formação humana. Não há dúvidas sobre o muito que ainda se está por dizer.

 

 

Neusa Maria Mendes de Gusmão
Decisae - Gepedisc - FE Unicamp

 

 

1 O Gepedisc é um grupo de pesquisa que tem por objetivo realizar pesquisas que contribuam para a compreensão e o conhecimento do campo educacional em diferentes contextos étnicos e socioculturais e promover o intercâmbio entre pesquisadores de questões sócio-antropológicas relacionadas à diferenciação sociocultural. Outros grupos semelhantes, preocupados com o diálogo interdisciplinar entre antropologia e educação, entre eles, o Núcleo Educação, Cultura e Sociedade, da Faculdade de Educação da UFMG, têm surgido em muitas universidades, o que confirma a pertinência desse debate.

2 Clóvis José Azevedo, Introdução. In: Silva, Luiz H. , Azevedo, José C. e Santos, Edmilson S. dos (orgs.). Novos Mapas Culturais. Novas Perspectivas Educacionais. SME/Porto Alegre, Sulina, l996, p. 13.