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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol. 18 n. 43 Campinas Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621997000200004 

Um outro olhar: Entre a antropologia e a educação

Tania Dauster*

 

 

RESUMO: O artigo tem como objetivo mapear as relações entre os campos da Antropologia e a Educação, tendo como referência a experiência da autora, considerando três eixos: ensino (pós-graduação e graduação), pesquisa e orientação de teses e dissertações no contexto do Departamento de Educação da PUC-RIO.

Palavras-chave: Antropologia, Educação, ensino, pesquisa, orientação

 

 

Introdução

Graduada em filosofia e tendo feito mestrado1 em Educação na PUC-Rio, vim a trabalhar na área de pesquisa em uma instituição governamental voltada para a educação de adultos e, no exercício de minhas funções de investigadora, aproximei-me, progressivamente, da literatura antropológica que me abria um horizonte de questões jamais anteriormente contempladas.

Nos princípios dos anos 80, com um projeto sobre práticas anticoncepcionais em setores de baixa renda urbana, ingressei no Museu Nacional, onde concentrei-me, naquela época, na vertente da antropologia urbana2, vindo a realizar uma tese de doutoramento sobre a família em camadas médias urbanas. Esta inserção marca minha prática atual como professora, pesquisadora e orientadora.

Onde me situo hoje?

Terminando o doutoramento, em 1986, ingressei no Departamento de Educação da PUC-Rio, convidada a abrir uma área de antropologia e educação. Segundo o modelo desta universidade, o professor deve articular ensino e pesquisa, atuando na pós e na graduação. Contando com minha formação e experiência de pesquisa, o Departamento apostou nas possibilidades de investir nessa junção disciplinar, cujo significado tentarei explicar melhor adiante.

 

Notas histórico-teóricas

Não se trata de uma área nova de trabalho, assim, vale registrar, de forma sucinta, a contribuição de autores consagrados e outros desenvolvimentos no campo.

Nos anos 30, a antropóloga americana Margareth Mead faz da educação objeto privilegiado da antropologia, no interior da escola Cultura e Personalidade. Sua obra clássica, intitulada Growing up in New Guinea, buscava entender como valores, gestos, atitudes e crenças eram inculcados nas crianças pelos adultos, com o objetivo de formá-las para viver dentro de sua sociedade. Investigou tanto os modos de transmissão das gerações mais velhas para as mais novas como a própria formação da personalidade e as formas de aprendizagem existentes (P. Bonte e M. Izard 1991).

Esta referência é, particularmente, importante, uma vez que esta antropóloga demonstrou, ao lado da dimensão científica, a preocupação pedagógica, buscando, com base em sua experiência etnográfica, influenciar as atitudes em face de crianças e adolescentes no seu país, no sentido de uma menor repressão. A pesquisadora mostrou que a adolescência, com as características conhecidas por nós, é um fenômeno sociocultural e não uma questão fisiológica (P. Erny 1982).

Esta abordagem revelava as especificidades culturais, travando um intenso diálogo com a psicologia e a psicanálise, tendo em vista sustentar a existência de "personalidades culturais".

Um outro enfoque localiza-se na vertente da Escola Sociológica Francesa. Pierre Bourdieu trabalha a noção de habitus tendo em vista o processo educativo, que, por intermédio de sua teoria, surge, de forma dinâmica, como inculcação de disposições duráveis, matriz de percepções, juízos e ações que configuram uma "razão pedagógica", ou seja, como lógica e estratégias que uma cultura desenvolve para transmitir seus valores (P. Bonte e M. Izard 1991).

Voltando ao cenário dos Estados Unidos, observa-se uma outra tendência na investigação. Desde a Segunda Guerra Mundial, os pesquisadores vêm tomando as instituições educativas como palco de fenômenos culturais que podem ser examinados, segundo o enfoque antropológico. Acreditando ser este um caminho de acesso aos valores abrangentes da sociedade, dada a função de transmissão de valores, própria do sistema escolar, examinando os conflitos de cunho cultural que ocorrem na sociedade, ou ainda, investigando os processos de aprendizagem e os efeitos do ensino em contextos pluriculturais (P. Bonte e M. Izard 1991).

Estas notas preliminares têm o intuito de sinalizar alguns ângulos por meio dos quais as relações entre antropologia e educação podem ser dimensionadas.

 

Uma experiência

Passo agora ao meu ofício - articulação entre os campos da antropologia e da educação, tendo em vista minha prática e as concepções que a orientam.

Mencionei, no início desta exposição, o lugar do qual falo. Cabe, agora, desdobrar a forma pela qual ocupo este espaço, considerando três eixos: ensino (pós-graduação e graduação), pesquisa e orientação de teses e dissertações.

 

Sobre o ensino

Nos idos de 1985, Claude Lévi-Strauss, escrevendo sobre o lugar da antropologia e os problemas de seu ensino, teceu considerações sobre o projeto antropológico que, a meu ver, continuam relevantes, mesmo considerando-se as transformações histórico-teóricas no seu âmbito.

Ao definir o que é antropologia, Lévi-Strauss explica que ela emerge de uma forma específica de colocar problemas, a partir do estudo das chamadas sociedades simples, tendo no seu desenvolvimento voltado-se para a investigação das sociedades complexas, com o sentido de entender a cultura e a vida social. Uma das vias para a construção deste conhecimento é a etnografia concebida como descrição, observação, trabalho de campo a partir de uma experiência pessoal. Segundo o mesmo autor, o antropólogo visa elaborar a ciência social do observado, a partir deste ponto de vista, ultrapassando suas próprias categorias. Construindo um conhecimento fundado na experiência etnográfica, na percepção do "outro" do ângulo de suas razões positivas e não de sua privação, buscando o sentido emergente das relações entre os sujeitos, ele estaria transpondo suas próprias referências como aquelas do contexto observado.

Eis aí, resumidamente, um dos legados da antropologia.

É este outro olhar, esta forma alternativa de problematização dos fenômenos que busco evocar, a princípio, no uso da etnografia dentro do campo da educação.

Como fazê-lo?

Não se trata de reduzir a etnografia a uma técnica, mas tratá-la como uma opção teórico-metodológica, o que já implica conceber a prática e a descrição etnográficas ancoradas nas perguntas provenientes da teoria antropológica.

Peirano (1995) insiste em que não existe dissociação entre pesquisa teórica e empírica, sendo a história da disciplina ao mesmo tempo história e teoria, e as monografias constitutivas do próprio desenvolvimento da disciplina e da teoria antropológica.

Vale lembrar que a postura de base antropológica visa o entendimento das diferenças culturais ou da alteridade, a partir de um projeto universalista. Como diz Peirano, neste mesmo ensaio, a antropologia pretende não só o conhecimento contextualizado de cada universo cultural, mas, nos seus horizontes universalistas, supõe que o que se encontra em uma dada cultura estará em outra, embora de forma distinta.

Vista assim, a relação entre a antropologia e o campo da educação adquire contornos desafiantes. Como articular o projeto antropológico de conhecimento das diferenças com o projeto educacional de intervenção na realidade (R. Novaes 1992)?

Mantendo este dilema, percebo que o ensino de antropologia na área de educação deve permitir que o educador apreenda outras relações e posturas, mergulhando na literatura antropológica. Trata-se da aprendizagem de uma outra linguagem, de um outro código que possibilita outras dúvidas sobre os fenômenos tidos como educativos dentro e fora da escola. Discutem-se posturas etnocêntricas que fazem do "diferente" um inferior e da diferença uma "privação cultural", assim como desconstroem-se estereótipos (G.Velho 1980) a partir de um outro sistema de referências, buscando entender uma outra racionalidade nos seus termos.

Esta atitude de estranhamento visa, por meio da análise de relações sociais concretas, o questionamento de categorias abstratas e o conhecimento mais complexo da realidade.

Passa-se, então, à desnaturalização dos fenômenos, mostrando como práticas, concepções, valores são socialmente construídos e, portanto, simbólicos.

Quais as estratégias a serem usadas?

Segundo Clifford Geertz (1978), o entendimento do que é uma ciência passa pelo conhecimento de seu exercício. De acordo com esta orientação, tenho como proposta de ensino o trabalho intensivo sobre as práticas de investigação etnográfica, conhecendo diretamente autores e suas monografias, discutindo escolhas, trabalhando conceitos forjados no âmbito da disciplina, no contexto da obra dos autores, com particular destaque para as definições de cultura.

Abre-se relevante espaço para os debates contemporâneos sobre o estatuto da antropologia como ciência, os limites dos pesquisadores na elaboração da interpretação, as questões relativas a "padrões e estilos de vida" na sociedade complexa e às relações entre cultura, massificação da sociedade contemporânea e relativização da globalização (Velho 1994). Acrescentem-se outras discussões sobre o trabalho de campo em uma perspectiva dialógica, investindo-se nas polêmicas sobre a descrição etnográfica.

Tratando-se de uma iniciação à literatura antropológica, não existem pretensões de esgotar coisa alguma, mas de elaborar outras perguntas inspiradas na antropologia, fabricando outras versões sobre os fenômenos de interesse do educador.

 

Sobre a pesquisa e as orientações de teses e dissertações

Fruto da inspiração antropológica, vêm sendo desenvolvidas pesquisas institucionais e orientações de teses e dissertações.

Os trabalhos se passam no meio urbano, e vêm buscando a ótica da antropologia das sociedades complexas. Gilberto Velho (1980) já mostrara como as grandes cidades são reveladoras da complexidade institucional e da heterogeneidade oriunda de diferentes tradições culturais ou religiosas e daquela proveniente do mundo do trabalho. Portanto, mesmo a partilha de patrimônios culturais extensivos não afasta descontinuidades e diferenças emergentes de experiências sociais distintas. São estas distâncias que tornam possível a pesquisa na própria sociedade do observador.

O mesmo autor, prosseguindo nas suas investigações, dá especial relevo aos processos de construção da identidade, projeto e memória, por exemplo, tendo em vista a reflexão sobre as "sociedades complexas moderno-contemporâneas", referenciando-se, sobretudo, no contexto brasileiro (Velho 1994). Segundo, ainda, Gilberto Velho (idem), não se trata, também, de distinguir as chamadas elites e as camadas populares, mas valorizar os aspectos dinâmicos e relacionais entre os mesmos. Desvendar, então, as combinatórias e as mediações entre os níveis diferentes de uma sociedade complexa é, como diz o autor, tarefa contemporânea e significativa para a pesquisa histórico-sociológica.

Tendo estas questões como fundamentação, está sendo desenvolvido um programa de pesquisa3 visando conhecer como se dá a difusão diferencial (Chartier 1990) da leitura e da escrita, em distintos setores na cidade do Rio de Janeiro.

As concepções e práticas de leitura e escrita estão ligadas à problemática da identidade e da construção da subjetividade, remetendo o pesquisador às suas dimensões históricas, mas também à idéia de que valores e atitudes são variáveis em termos de padrões de sociabilidade no espaço cultural.

As práticas de leitura e escrita vêm sendo examinadas dentro e fora das fronteiras escolares, tanto no interior do projeto de pesquisa, como a partir de recortes específicos, seja em dissertações de mestrado ou em teses de doutorado.

Entre tensões e paradoxos, vem sendo realizada uma reflexão sobre o que "faz o leitor, leitor" em diferentes contextos escolares e em um estudo de caso envolvendo escritores vinculados à chamada literatura infanto-juvenil.

 

Notas

1. Dissertação intitulada "Análise do nível operatório do adulto analfabeto", orientada pela professora Vera Candau.

2. Tese intitulada "Nome de família: Maternidade fora do casamento e o princípio de filiação patrilinear", orientada pelo professor Gilberto Velho.

3. O papel da escola na formação do leitor - limites e possibilidades, coordenado por Tania Dauster - PUC-Rio - e Pedro Benjamim Garcia - UFRJ.

 

 

Another view: Between Anthropology and education

ABSTRACT: The article aims to map the relationship between anthropology and education adopting as a reference the author's experience considering three axes: teaching (postgraduate and graduate courses), research, and supervision of thesis and dissertations in the Department of Education at the Catholic University in Rio de Janeiro.

 

 

Bibliografia

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* Antropóloga e professora/pesquisadora - Departamento de Educação - PUC-Rio.