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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol. 19 n. 44 Campinas Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621998000100001 

Apresentação

 

 

Este número dos Cadernos Cedes, intitulado O professor e o ensino: Novos olhares, reúne sete artigos elaborados a partir de apresentações de trabalhos em painéis, no VIII Endipe - Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, em maio de 1996. Alguns dos artigos passaram por pequenas reformulações para esta publicação, mas todos mantiveram sua estrutura original.

A idéia de reunir para publicação estes sete trabalhos foi prontamente bem recebida por todos os autores, na medida em que estes artigos possuem em comum a defesa do princípio de que qualquer processo de transformação da realidade escolar na direção da tão almejada melhoria da qualidade de ensino deverá, necessariamente, ter como um de seus principais elementos constitutivos a valorização do professor e do ato de ensinar. O fato de os autores dos artigos aqui reunidos compartilharem desse princípio não impede que, a partir dele, construam diferentes olhares sobre o professor e o ensino e defendam diferentes proposições teóricas e práticas sobre o trabalho docente, sobre a formação continuada de professores e sobre o processo pedagógico.

Assim, no primeiro artigo, intitulado Com o olhar nos professores: Desafios para o enfrentamento das realidades escolares, Alda J. Marin, a partir de pesquisas que tem realizado desde 1984, tendo o olhar no professor não só como preocupação de pesquisa, mas também como comprometimento político, defende que problemas como indisciplina na sala de aula, precárias condições para o trabalho educativo, despreparo dos professores para realizar adequadamente seu trabalho, baixo status profissional e baixa remuneração não devem ser vistos como caracterizadores de um insucesso generalizado da educação escolar, mas sim como desafios a serem enfrentados.

No segundo artigo, intitulado Significado e sentido do trabalho docente, Itacy S. Basso, visando contribuir para o aprofundamento teórico-metodológico da compreensão da natureza do trabalho docente, sustenta que o mesmo caracteriza-se por possuir um certo grau de autonomia, o que ressalta a importância da formação do professor para o exercício da prática pedagógica. O artigo problematiza a ruptura entre a finalidade social do trabalho docente, seu significado e o sentido pessoal que ele assume para seu agente, o professor. Tal ruptura descaracterizaria o trabalho docente, tornando-o um trabalho alienado.

No terceiro artigo, intitulado O professor e seu desenvolvimento profissional: Superando a concepção do algoz incompetente, Maria Helena G.F. Dias-da-Silva defende que a emergência da abordagem crítico-reflexiva em educação, a partir da crítica ao modelo de racionalidade técnica, teria possibilitado o reconhecimento da importância do professor e de seu desenvolvimento profissional como variável decisiva para a compreensão do fenômento educativo. A autora, a partir de pesquisas realizadas por ela e por outros pesquisadores, critica as análises que fazem do professor o bode expiatório dos problemas existentes no campo educacional e postula a necessidade de compreensão da "cultura docente em ação" e seu papel para a transformação da escola.

No quarto artigo, intitulado Do professor informante ao professor parceiro: Reflexões sobre o papel da universidade para o desenvolvimento profissional de professores e as mudanças na escola, Luciana M. Giovanni advoga a idéia de que os relacionamentos colaborativos entre a universidade e as escolas de primeiro e segundo graus como, por exemplo, os projetos coletivos na linha da pesquisa-ação colaborativa, representam alternativa metodológica privilegiada tanto para a investigação como para a atuação sobre o desenvolvimento profissional de professores e suas condições de trabalho.

No quinto artigo, intitulado Uma proposta metodológica para a formação continuada de professores numa perspectiva histórico-social, Francisco J.C. Mazzeu apresenta uma reflexão sobre a formação continuada de professores tomando como três eixos básicos desse processo o domínio dos conteúdos escolares e das formas de ensiná-los, o estudo da concepção dialética e a formação de uma nova atitude ético-política. Nessa direção propõe, em termos metodológicos para a formação continuada de professores, um processo que segue os mesmos cinco passos propostos por Saviani para o processo de ensino: a prática social como ponto de partida, a problematização, a instrumentalização, a catarse e a prática social como ponto de chegada.

No sexto artigo, intitulado O discurso pedagógico como forma de transmissão do conhecimento, Vera T. Valdemarin analisa as relações entre o conhecimento científico e o saber escolar, considerando este como resultante de um complexo processo de "transposição didática". Nessa direção, a autora defende que ao organizar a transmissão do saber a escola produz um novo conhecimento, diferente dos resultados da ciência quanto ao conteúdo e cuja originalidade não consiste na simples agregação ou justaposição de formas adequadas para o ensino.

No sétimo e último artigo, intitulado Concepções afirmativas e negativas sobre o ato de ensinar, de minha autoria, argumento pela necessidade de ser desenvolvida uma concepção afirmativa sobre o ato de ensinar e polemizo com algumas concepções pedagógicas, que caracterizo como sendo concepções negativas em relação ao ensino como transmissão de conhecimento, tais como as idéias escolanovistas e construtivistas. Nesse artigo analiso ainda alguns postulados defendidos por Vigotski* e seguidores, que iriam numa direção oposta a das idéias defendidas pela Escola Nova e pelo Construtivismo.

Os autores dos trabalhos aqui reunidos esperam que, de alguma forma, as idéias apresentadas estimulem o debate sobre aspectos importantes do trabalho educativo.

 

Newton Duarte

 

* O nome Vigotski é encontrado, na bibliografia existente, grafado de diversas formas: Vigotski, Vygotsky, Vigotskii, Vygotski, Vigotsky etc. Optamos por empregar a grafia Vigotski, mas preservamos, nas indicações bibliográficas, a grafia adotada em cada uma delas.