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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol. 19 n. 45 Campinas July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621998000200002 

"Chegou a hora de darmos a luz a nós mesmas" - Situando-nos enquanto mulheres e negras

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva**

 

 

RESUMO: O artigo, ao analisar manifestações de mulheres negras, busca entender como se constituem cidadãs numa sociedade que discrimina seu grupo e etnia. À indagação sobre o que significa ser mulher e negra, formulada a mulheres militantes do Movimento Negro nos estados do sul do país, mostrou que o configurar-se como mulheres negras implica enfrentar atitudes e posturas discriminatórias, além de exigir combatividade, introspecção, auto-imagem positiva, crítica a relações sociais e propostas para transformá-las. Buscando elucidar sua presença na sociedade, o estudo mostra que lutam para superar a invisibilidade conferida aos descendentes de africanos, bem como para ter suas necessidades atendidas por políticas públicas que resolvam os problemas que os afligem e suprimam as opressões que lhes são impingidas. Assim, lutam por justiça para todos que são marginalizados pela sociedade. O artigo conclui com a afirmativa de que as fontes mais genuínas de conhecimento sobre as mulheres negras são elas mesmas, sendo necessário que estudos que as tomem por temática, considerem seus pontos de vista de mulheres e negras.

Palavras-chave: Mulheres negras, relações raciais e de gênero, educação, desvantagens, políticas públicas

 

 

Este texto focaliza manifestações de mulheres negras a respeito de vivências suas que situam as dimensões do constituirem-se cidadãs numa sociedade que discrimina o grupo de gênero e o de raça/etnia que as inclui. Temos aqui, seguindo encaminhamentos propostos por Collins1 e por Christian,2 como centro das análises, a experiência de ser mulher e negra. Melhor dizendo, o propósito deste trabalho é o de compreender, a partir de seu ponto de vista as relações que as mulheres negras vivem na sociedade, entre si, com mulheres não-negras, e com homens negros e não-negros.

Também é intenção fortalecer o entendimento de que nós, mulheres, não somos apenas fonte de conhecimento sobre nossa condição; muito mais: somos agentes de conhecimento. Por isso elegi, como meio para atingir o objetivo do trabalho, palavras de mulheres negras, quer tenham sido registradas durante coleta sistemática de dados, ouvidas aqui e ali, em palestras, no decorrer de conversas prolongadas ou casuais, na expressão de desabafos, contrariedades, dor, satisfação, alegria, quer tenham sido lidas em textos. Estes atos de fala, sobretudo como mirada que nós mulheres dirigimos para nossa própria experiência, falando sobre o já vivido, o experimentado agora, o que planejamos vir a ser são, assinala Ama,3 a expressão do movimento feito no sentido de deixarmos de ser objeto para sermos sujeito, para nos constituirmos em vozes libertadas.

Falar, para as mulheres negras, se constitui, pois, num ato de destruição gradativa da identidade imposta pela sociedade racista e machista, bem como num gesto decisivo de rompimento com o que as oprime enquanto seres humanos. Por isso, deixam "os brancos e os homens negros assustados", quando falam; por isso são "olhadas com indiferença", "postas de lado".4

A fala dessas mulheres, de um modo geral, longe está de ser um discurso individual e em busca de benefícios e reconhecimento meramente pessoais. Sobretudo entre aquelas que militam em prol da causa negra, essa fala significa estarem atentas a discriminações que possam sofrer seja "lá quem for, mulher ou homem, negro ou não, deficiente, gordo, velho, homossexual, pobre, analfabeto".5 Se "colocamos a mão no arado da luta contra toda forma de discriminação... não podemos voltar atrás".6

Partindo do que a vida ensina, vamos ajeitando nosso modo de ser, de atuar na sociedade, vencendo estágios de alienação e concretizando lutas silenciosas ou abertas, formando-nos cidadãs. É esta a maneira como interpreto a exortação de Eliad, adotada como título deste artigo7 e que foi, em parte, assim traduzida, por outra mulher: "somos mulheres, somos negras e queremos descobrir mais sobre nós mesmas, sobre as outras mulheres..."8 O que conduz, antes de mais nada, à indagação sobre o que significa ser mulher e negra.

 

O que é ser mulher negra, hoje?

Esta pergunta, formulada a mulheres militantes, lideranças ou não, do Movimento Negro nos estados do sul do país obteve respostas que indicam o configurar-se como mulheres negras implicando fazer face permanentemente a atitudes e posturas discriminatórias, além de exigir combatividade, introspecção, auto-imagem positiva, bem como crítica a relações sociais e propostas para transformá-las.9

Eis falas que expressam enfrentamento constante de discriminações: Ser mulher negra significa

"não viver e agüentar discriminação todos os dias"; "engolir duro para não chorar em público, especialmente sendo pobre"; "ser discriminada pelo sexo e pela cor", "pelo homem negro e pelos brancos"; "ser oprimida... colocada em lugar de submissão"; "ter dificuldade em arrumar emprego"; "ser explorada pela mulher branca que não paga o mínimo para a empregada doméstica"; "não ser reconhecida pela sua capacidade intelectual"; "ser olhada com indiferença"; "ser vista como `mulata' para ser exibida"; ter que mostrar que é igual aos outros".

Vejamos expressões que ilustram a combatividade: A mulher negra é

"guerreira"; "vive lutando, minuto a minuto, para mudar o estado das coisas"; "exige o seu espaço"; "luta contra tudo e contra todos, por um lugar ao sol"; "luta para mudar alguma coisa"; "tem que ter uma força incrível para vencer todos os obstáculos, sobretudo se é viúva, sozinha"; "enfrenta barra pesada, uns apoiam outros não"; "deixa os brancos e o homens assustados, porque fala"; "tem posicionamentos firmes"; "influi através de denúncias"; "discute, em todas as formas de organização civil, a problemática racial"; "luta contra o racismo"; "trabalha para ser sujeito no processo histórico"; "tem consciência de seus direitos políticos, profissionais, emocionais/sexuais".

A introspecção, muitas vezes confundida com timidez, atitude submissa, medo de se expor e incapacidade de se expressar, é entendida pelas mulheres negras como necessidade de "refletir muito antes de agir". A auto-imagem positiva está representada pelas afirmativas de que ser mulher negra implica "gostar da sua figura", "acreditar em si própria"; "não se sentir inferior, apesar das pressões"; "não abaixar a cabeça, empinar o nariz, gostem ou não gostem"; "dizer o que pensa"; "assumir posições mesmo que pareça desaforada". A crítica às relações sociais e às propostas para transformá-las exige das mulheres negras:

"ter consciência e abraçar a questão do negro"; "perceber o tipo de democracia existente"; "romper barreiras e relacionamentos"; "despertar fé, fazer com que as pessoas acreditem no ser humano"; "valorizar outros negros, conscientizá-los de sua importância, orientá-los para que mudem"; "realizar atividades que resgatem a cultura negra"; "despertar a consciência da sociedade"; trabalhar as diferenças sem desigualdades".

Dessas palavras de mulheres negras de diferentes classes sociais, escolaridade e atividades profissionais se depreende que a participação das mulheres negras demanda expressão dos sofrimentos, reivindicações, anseios e metas do seu grupo racial/étnico.

 

Da invisibilidade ao reconhecimento

Superar "a invisibilidade" conferida aos descendentes de africanos "nas diferentes esferas da vida nacional" bem como "a displicência com que a cor tem sido tratada" nas estatísticas e nos estudos oficiais em geral, conforme propuseram-se Carneiro e Santos10 em trabalho pioneiro sobre as mulheres negras brasileiras, continua sendo, mais de dez anos depois, objetivo a ser cumprido. Quanto a isso, ilustrativas são a indignação e a decepção de uma aluna da habilitação magistério, no estado de São Paulo, ao criticar palestras feitas em sua escola a respeito de fracasso escolar:

É estranho, todo mundo sabe... mas parece que os professores não enxergam... só quando é para reclamar, é claro: as crianças negras saem da escola muito cedo, muitas mal vencem as primeiras séries. Pois é, as estatísticas que nos mostraram e o que os palestrantes disseram faz pensar que não tem diferença de negro pra branco no Brasil. O pior é que quando comentei com minhas colegas, disseram que eu era negra racista. O pior ainda é que perguntei a um professor de geografia se no censo os dados não levavam em conta a cor das pessoas, ele respondeu que sim. Então, por que os palestrantes não mostraram?!

Desnecessário tecer considerações a respeito da discriminação que sofre a população negra, em particular a mulher, ao ser-lhe negada a possibilidade de realizar estudos e ao ser afastada dos bancos escolares, seja por necessidade de trabalhar para auxiliar no sustento da família, seja por ver desconsiderado seu modo de ser, viver, a cor da sua pele, a cultura de seu grupo étnico. Entretanto, a experiência de Lígia, aluna de escola de 1º grau na cidade de São Carlos,11 mostra o quanto ainda é imprescindível repetir e comprovar tais considerações:

...não levando para o lado pessoal, aqui há um incentivo ao preconceito, e é bem aberto, dá pra perceber, até professores incentivam e maltratam pessoas negras. Infelizmente essa é a realidade. Na cabeça das pessoas brancas (existem exceções) o negro continuará escravo, para servi-lo até o fim dos tempos. Na minha classe o preconceito não é só racial, existe preconceito até entre eles mesmos (dependendo da escola que cada um veio).

A situação de desvantagem da população negra diante da oferta de educação escolar é de tal modo gritante que os dados estatísticos de que dispomos, embora escassos e não suficientemente discriminados, por si sós fazem a denúncia. É importante destacar que, durante boa parte deste século, ofertas de educação destinadas a meninas negras, órfãs ou de famílias não podendo tê-las na casa familiar estavam em orfanatos (para estas, internatos), locais criados para educar futuras empregadas domésticas e, na melhor das hipóteses, costureiras12 Algumas delas transformadas em "filhas de criação", isto é, babás, copeiras, cozinheiras em casa de famílias abastadas, recebiam parca remuneração, e era-lhes, às vezes, proporcionada alguma instrução escolar.

Mostram os dois últimos censos, com alguma melhora neste último, que grande parte das mulheres negras com dez anos ou mais de idade não atinge quatro anos de estudos; muito poucas chegam a freqüentar o ensino superior e entre estas significativo número busca diploma de licenciatura, encaminhando-se para o magistério como profissão. Esse fato, no entanto, não garante que nas escolas em que estejam presentes a problemática enfrentada pelos descendentes de africanos no Brasil seja de alguma forma tratada.

Talvez por não serem muitas e por não se sentirem encorajadas, nem todas assumem, ou o fazem com muita dificuldade, uma atitude aberta de combate ao racismo e às discriminações como escolha ideológica e pedagógica.13

O desafio de construir uma auto-imagem positiva da mulher negra em uma sociedade que a exclui e discrimina é uma marca do processo de construção da identidade racial das professoras. Tarefa difícil mas não impossível. Tarefa que não apaga a força e a dignidade dessas mulheres.

Esse processo desafiador e conflituoso nos revela que as professoras, de um modo geral, encontram-se despreparadas para lidar com a questão racial na escola. A opção é pelo silêncio e pelo ocultamento. No caso da professora negra, somam-se ao despreparo a dificuldade e o desafio que este trabalho representa, pois a remete à sua própria história de vida e às marcas deixadas pelas experiências com racismo e discriminação.14

A "fragmentação da identidade racial" sublinhada por Carneiro e Santos15 ao analisarem as relações da mulher negra com a população branca e com homens negros parece ser menos corrosiva e causar menos males entre professoras do que em outras profissões em que as negras são menos numerosas, como, por exemplo, nas áreas de medicina, engenharia e ministério religioso. É o que indicam experiências pedagógicas no sentido de combate ao racismo, seja em nível de sala de aula, de formação continuada de professores ou de elaboração de leis municipais, lideradas por professoras negras ou por elas conduzidas isoladamente16. Salienta-se, entretanto, que embora encabeçadas em sua maioria por mulheres negras, tais propostas não têm dado ainda a ênfase necessária à problemática que aflige todas as mulheres deste grupo étnico-racial.

Se na escola se tomasse conhecimento e se analisasse as discriminações sofridas por todas as mulheres, em particular as mulheres negras, estariam sendo combatidas injustiças e haveria possibilidade de construir novas relações entre grupos sociais distintos. Assim, a abordagem de tais questões ensinaria serem inúmeras as mulheres negras que são arrimo de família, ou que participam decisivamente de sua manutenção. Mostraria que muitas vivem nas periferias das regiões metropolitanas, em casebres ou malocas que não recebem serviços de saneamento, nem de água, luz e raramente contam com serviços de saúde e escassamente de educação para crianças ou jovens, muito menos para adultos. Mostraria também que a oferta de tais serviços, muitas vezes, passa a existir diante de pressões e reivindicações que têm à frente mulheres, entre elas as negras.

Saberíamos todos que de um modo geral as mulheres negras, nas zonas urbanas, desempenham atividades remuneradas na prestação de serviços domésticos ou de faxina e limpeza. Tomaríamos conhecimento de que aquelas com o 1º grau costumam encontrar emprego como operárias, comerciárias, atendentes em hospitais. E de que entre as que completaram o 2º grau, a grande maioria é composta por professoras em escolas do ensino fundamental; seguidas por auxiliares de escritório, bancárias, supervisoras de produção, e bem mais raramente profissões como técnica-eletricista, torneira-mecânica e tipógrafa.

Se tais questões fossem tratadas na escola, aqueles que por ela passassem teriam conhecimento de que nas zonas rurais, as mulheres negras, não diferente de outras mulheres, exercem atividades na lavoura familiar ou nas fazendas, nas estâncias, nas empresas rurais, onde realizam atividades ligadas à produção ou tarefas como empregadas domésticas.

Sendo as discriminações vividas pelas mulheres objeto de discussão nas escolas, como esconder que as condições de trabalho e os salários oferecidos às mulheres negras, em muitas situações, são inferiores aos proporcionados às brancas, segundo indicam dados dos censos, embora tenham a mesma escolaridade, a mesma experiência, o mesmo treinamento e desempenhem as mesmas funções?

Seriam desnecessárias pesquisas para mostrar que a jornada de trabalho da mulher negra dura de oito horas até "dia e noite, enquanto as forças permitam"; e que, conforme a atividade desenvolvida, o vínculo empregatício e o apoio com que possa contar para o trabalho doméstico, sua jornada é qualificada, por elas próprias, "quase sempre como duríssima, estafante, pesada, cansativa, com poucos frutos e, na melhor das hipóteses, razoável".17

Ficaria mais difícil desrespeitar as trabalhadoras, especialmente as negras, cuja vida de trabalhadora muitas vezes é iniciada precocemente, em muitos casos ainda durante a primeira infância, e que para a maioria "é péssima, muito difícil quanto à remuneração, agitada, de muita preocupação", sejam elas empregadas, trabalhem como autônomas ou por conta própria,18 sendo que quase unicamente as portadoras de diploma de curso superior dizem encontrar satisfação e realização pessoal no trabalho, mesmo que sejam obrigadas a duplo ou triplo emprego como as professoras.

Quão surpresos não ficariam todos ao aprender que nem sempre são os homens os que mais discriminam as mulheres negras, que "às vezes as mulheres tomam posições assustadoras em relação a outras mulheres!" E será que causaria impacto a afirmativa segura de uma empregada doméstica branca, a uma pesquisadora do mesmo grupo racial, ao ser-lhe feita pergunta sobre seu relacionamento com colegas negras? Eis a resposta:

Eu só sei dizer que não trato igual uma negra como uma branca... Não tenho colegas pretas, só vizinhos, são todos muito bons, mas para conviver não dá. Já não me dou igual como com um branco... Nas casas que já trabalhei, vi que quando chegava uma negra ela não era tratada igual que eu... Às vezes aparecia alguma procurando emprego onde eu trabalhava de faxina, mas nunca conseguiram o emprego.

Não haveria espanto diante da explicitação do fato amplamente conhecido na sociedade de que os homens brancos procuram desvalorizar a competência da mulher negra, procurando "seduzi-la, em nome do exotismo sexual" que lhe seria próprio. Assim como não espantaria a atitude igualmente machista dos homens negros procurando ignorar a presença da profissional mulher negra, até mesmo discriminando-a seja aberta, seja camufladamente.

Seria uma boa lição para os docentes das habilitações para o magistério darem-se conta de que as professoras negras têm manejado com mais presteza e força, muitas vezes interpretada como agressividade, do que mulheres negras em outras profissões e tarefas, as situações de discriminação racial que sofrem no local de trabalho, reagindo criticamente. E seriam instados a comprometer-se com a questão, ao constatarem que se algumas são tão combativas, outras se desajustam, não conseguindo enfrentar o problema como o faz uma das batalhadoras: "Tu tens que enfrentar e batalhar, mostrar que tu tens os mesmos direitos, que podes ocupar as mesmas posições do que as outras colegas."

Se realmente as instituições de ensino estivessem empenhadas em combater as tensas relações raciais que caracterizam o dia-a-dia dos brasileiros, tomariam cuidado de, em profissões em que mulheres são raridade, mormente as negras, prepará-las para enfrentar as pressões futuras que chegam a ser de tal sorte, a ponto de comprometer a saúde mental, ou de levar ao abandono da carreira na qual investiram muitos anos de estudo. Na formulação dos currículos, o desabafo desta mãe seria considerado:

É duro, a minha filha é engenheira civil... Tanto esforço de todo mundo... mas infelizmente ela não foi forte para não ligar quando apontavam a "negrona, a tição"... acho que não foram tanto os colegas, mas também foram... o pior ela achava eram os peões: mulher querendo fazer trabalho de homem era demais, além disso negra! O caso é que hoje ela é dona de casa e faz pão para vender. Tem sentido uma coisa destas? Mas como diz meu marido: - É melhor uma filha padeira sã do que uma engenheira no hospital.

A preocupação dos currículos dos diferentes graus de ensino em combater o racismo e as discriminações levaria à constatação de maneiras mais ou menos delicadas e conscientes e de se relacionar com os negros preconceituosamente. E depoimentos como os que seguem seriam, atentamente levados em conta. Vejamos as palavras de uma negra, advogada: "Tu tens que ser muito competente no teu trabalho, então te respeitam, muitas vezes querem te usar, fazendo trabalhar pra eles e elas; mas o convívio não admitem, visitar, sair junto pra uma diversão." E de outra, faxineira: "Elas, as brancas, são deitadas, se tu não te cuidas, o serviço delas acaba sobrando pra gente."

Em todos os níveis de ensino seriam analisadas as condições de trabalho e se engajariam, todos, na busca de formas de corrigir situações, como a dos baixos salários, que obrigam mulheres, sobretudo negras, independentemente do nível de preparo, a buscar um segundo emprego, a se dedicar à produção de objetos, de alimentos para vender, a enfrentar a prostituição. Seriam denunciadas e questionadas situações como a das empregadas domésticas, quase todas negras, que além de receberem muito freqüentemente baixos salários, às vezes complementados com alimentação e algumas roupas, fazem face a diversas formas de exploração e/ou dificuldades. Por exemplo, entre as que "dormem" no emprego, muitas denunciam não ter hora para acabar de trabalhar, quando não sofrem agressões do patrão ou filhos da casa; entre as que "não dormem", boa parte necessita levantar ainda de madrugada para chegar cedo ao emprego, pois residem em locais distantes, além de ter de deixar almoço preparado para os próprios filhos; as que trabalham por dia nem sempre recebem como pagamento o que cobraram, mas o que a patroa quer pagar; faxineiras se queixam de ter de providenciar o próprio almoço, não tendo, entretanto, liberdade para aquecê-lo.

E, neste quadro, verificar-se-ia que grande parte das mulheres negras aprende a trabalhar ou aprende um ofício com a mãe, uma parente, uma vizinha, assim como com as patroas. Não com muita freqüência, paralelamente ao ensino regular (ou em conjunto com ele), são-lhes oferecidas oportunidades de cursos para aprendizagem e qualificação profissional. Verificar-se-ia, ainda, que o preparo requerido para exercer profissões e assumir funções não garante à mulher negra oportunidade de emprego, visto ser, com certa regularidade, preterida diante de uma concorrente de cor branca, mesmo com menor qualificação, sob "o pretexto de não ter boa aparência", isto é, de ser negra.

Seria verificado também que a maioria das trabalhadoras mães e negras vive em vilas da chamada periferia urbana, onde são poucas as instituições para deixar seus filhos durante a jornada de trabalho, devendo valer-se da ajuda de alguma parente ou vizinha, ou do trabalho de mulheres que, mediante pagamento mensal, tomam conta de algumas crianças em sua própria casa. Em muitos casos, sendo as crianças já crescidas, tomam conta delas próprias e dos irmãos menores, enquanto a mãe trabalha para garantir sua sobrevivência biológica, comprometendo às vezes seu desenvolvimento emocional.

Diante de tudo isso, é de se perguntar como pode a grande maioria das mulheres negras no Brasil ser sadia. A tendência manifesta entre elas à pressão alta tem causa na constituição biológica, em hábitos nutricionais ou no racismo e no machismo que determinam as relações entre as pessoas? Como não ter a saúde afetada, tendo em vista o estado de pauperização em que vivem, a precariedade das moradias e as condições de higiene dos bairros onde residem? Até quando a falta de informação e apoio à mulher pobre, na sua maioria negra, para decidir e controlar o número de filhos levará à prática do aborto, nas piores condições de higiene e segurança e a custo muitas vezes da vida?

E, finalmente, se currículos escolares levarem professores e alunos a deparar com as amargas circunstâncias de vida das mulheres negras, permitirão que conheçam formas de organização dessas mulheres.19 Então estarão sendo conhecidas e lembradas desde a liderança de Luiza de Nahim, na revolta dos malês; a de Felipa, chefiando quilombo na Amazônia; a de Tia Ciata, no Rio de Janeiro, proporcionando apoio a artistas, como mãe-de-santo e descendente de africanos, o que resultou na criação do samba; e de outras tantas mães-de-santo, como Mãe Menininha do Gantois, que corajosamente enfrentaram investidas no sentido de extermínio das religiões de raiz africana. Será destacado o papel das quituteiras nas lutas abolicionistas; o de todas as mulheres negras, no pós-abolição, para a manutenção física e psicológica da população negra; o das mulheres de hoje, nos grupos e associações de interesse mútuo e de classe, nas organizações populares, em grupos do Movimento Negro e de organização de mulheres, inclusive de mulheres negras.

É claro que não há ingenuidade em propor que toda essa experiência de vida, calcada na violência, se objeto de estudos na escola, provocará consciência da sociedade e melhoria de vida para as mulheres, as negras em particular. Há, sim, a esperança de que se professores e estudantes, em todos os níveis de ensino, dedicarem-se ao estudo dos sérios problemas sociais em nosso país nesse trabalho centralizado na mulher negra, serão preparados cidadãos aptos a construir uma sociedade justa para todos. Sobretudo se formos a fundo na contribuição que cada um de nós, com seus grupos de raça/etnia, vimos dando para a construção da nação brasileira, buscando entender como nossos grupos foram e vão recriando-se nas relações de uns com os outros, mostrando o quanto aprendemos uns com os outros. Em outras palavras, a superação da invisibilidade dos grupos marginalizados pela sociedade, entre eles as mulheres negras, e o reconhecimento de seu papel de cidadãos serão valorizados e reconhecidos através da educação de todos os brasileiros, inclusive da oferecida pelas escolas.

 

Elucidando nossa presença

Queremos nos fazer ver e conhecer tal qual somos e para que isso aconteça o mais desprovidamente possível de preconceitos são necessárias muitas iniciativas, desde fazer conhecer nossa história, até nos sentirmos representadas nas estatísticas. Queremos que nossas necessidades sejam atendidas por políticas públicas que busquem resolver os problemas que nos afligem, suprimir as opressões que nos são impingidas.

E para tanto fazem-se necessários estudos sobre as condições de vida biológia e psicológica das mulheres negras, tanto nos bairros das periferias urbanas como nos de classe média, aí presentes como integrantes desta classe social ou como trabalhadoras para esta classe. Para contar com tais dados, necessitamos da participação de prefeituras municipais, conselhos da condição feminina, delegacias da mulher, secretarias de educação, trabalho, saúde, instituições de ensino superior e escolas de todos os graus de ensino, especialmente as freqüentadas por significativo número de estudantes negros.

Há muitos aspectos das situações enfrentadas pelas mulheres negras que precisam ser explicitados. Nossa proposta, que evidentemente não é exaustiva, aponta necessidades fundamentais de coleta de dados para formulação de políticas públicas coerentes. Desnecessário se faz insistir que os dados e informações colhidos deverão sempre possibilitar o confronto entre as variáveis: cor, ou melhor, descendência étnica/racial, sexo, faixa etária, situação do domicílio - rural, urbano, e, se urbano, periferia, não-periferia. A ambigüidade do termo periferia, bem como a localização de agrupamentos com características de periferia nos centros das cidades, exige discussão cuidadosa e explicitação do sentido do termo conforme os levantamentos.

Assim, os dados gerais sobre população, além dos quesitos já apontados, deverão ser discriminados por credo religioso, sendo incluídas todas as denominações, portanto também as afro-brasileiras às quais pertencem significativo número da população negra, assim como a muçulmana, a budista e outras tantas quantas houver.

Tendo em vista necessidades da população negra, em especial das mulheres, tais dados gerais precisam ser coletados, incluindo tipos de habitação utilizados, área total ocupada por número de habitantes, bem como meios de transporte disponíveis no bairro, freqüência de atendimento e distâncias médias entre habitação e trabalho.

Relativamente à educação será importante conhecer da população escolarizada: quantos são atendidos em classes, serviços especiais, especificando, quando for o caso, os tipos de deficiência; a matrícula de alunos novos e repetentes; o número de alunos aprovados e reprovados ao final do ano; de alunos transferidos e evadidos; de alunos concluintes de grau de ensino; de alunos que trabalham por tipo de atividade exercida, aprovação e reprovação ao final do ano; de alunos que trabalham e número de anos de estudos até a conclusão do grau de ensino. Ainda sobre o ensino regular, deverão ser coletados dados a respeito do corpo docente, discriminando formação, carga horária, número de professores removidos durante o ano. Quanto aos estabelecimento de ensino, haverá interesse em conhecer o tipo de mantenedora, a área física a as condições dos prédios, estado de conservação das instalações; metro quadrado por aluno em sala de aula; tipos de salas especiais; recursos didáticos. Os mesmos quesitos deverão ser considerados para o ensino supletivo.

Será também importante dispor de dados sobre matrícula, abandono e conclusões ou níveis/tipos de aprendizagens conseguidos, em estabelecimentos que oferecem cursos de qualificação e profissionalização, em instituições que cuidam da formação de deficientes, assim como em albergues e outras instituições de programas destinados a meninas/meninos de rua, por tempo de permanência na instituição.

Imprescindível será conhecer a população de zero a seis anos atendida em creches e estabelecimentos de educação infantil e outros, por entidade mantenedora, número de crianças atendidas, funcionários, segundo a formação; relação atendentes/crianças; condições dos prédios e instalações; metro quadrado por criança; tipos de atendimentos oferecidos.

No que diz respeito ao mercado de trabalho, serão necessários dados sobre mulheres economicamente ativas, por número de filhos e faixa etária destes; população desempregada; população por número de empregos já ocupados; população por tipo de atividade, por exemplo, serviços domésticos e similares, construção civil; população em atividade insalubre, por tipo de insalubridade; população trabalhando no setor informal da economia, por tipo de atividade, por exemplo: biscateiro, artesão, prostituta; empregados em serviços domésticos e similares, na construção civil.

Tendo em vista a oferta dos serviços de saúde, interessará conhecer a localização de hospitais e postos de saúde, e respectivas instituições mantenedoras; a relação população/ofertas de atendimento de saúde; pessoas atendidas, por tipo de atendimento e causa; população por tipo de doenças de que é acometida, por recursos que busca para tratar doenças; tipos de medicamentos e mezinhas mais usados, por causa do uso; planejamento familiar: mulheres que usam anticoncepcionais e outros recursos para evitar ou se livrar da concepção.

Situações de violência agridem física e/ou psicologicamente, causando danos à saúde e ao equilíbrio emocional; portanto, os registros de atendimentos médico e hospitalar, bem como de denúcias em delegacias policiais e outras instituições precisam conter informações, pelo menos, sobre tipos de agressão e causas.

Como se pode ver, a obtenção de dados requererá mais do que levantamentos estatísticos. Muitas vezes exigirá entrevistas e observações do modo de vida das pessoas, principalmente quando os dados buscados forem relativos à saúde e à violência. A não-disponibilidade de informações para o atendimento de necessidades prementes demanda aos órgãos responsáveis a definição, execução e avaliação de políticas e consulta às mulheres das comunidades a serem atendidas, a fim de que prioridades possam ser definidas. Esta é a perspectiva de mulheres, como manifestam Roland e Carneiro,20 a respeito da saúde, que entendem depender a melhoria das condições de vida "de nós próprias mulheres negras, da nossa ação política organizada, assumindo cada vez mais o controle sobre as informações..." Por isto, "a luta das mulheres negras passa... pela exigência da coleta e análise do quesito cor em todos os rencenseamentos oficiais, porque temos o direito de saber quantos somos e como vivemos."21

Então, "saber-se negra é viver... a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades", buscando mudanças que criem novas relações de poder na sociedade.

Não se trata do poder representado pelo dinheiro, por influência, por autoridade vista como comando de uns sobre outros, pelo predomínio de valores e concepções de uma classe social, pelo atendimento exclusivo de interesses pessoais e de classe ou grupo. Trata-se do poder que se exprime em liberdade, assumida com os grupos e classe social a que pertence, de cada um ser o que é, de participação, de colaboração nas escolhas e decisões, de eqüidade que toma o critério da justiça para lidar com a pluralidade, a diversidade dos grupos e classes, de autoridade originada no diálogo e respeito, de solidariedade não confundida com tolerância, de empenho em atender a necessidades de todos.22

Mulheres negras, hoje, buscamos educar-nos para a liderança, tal como a entendem nossas raízes africanas:23 todo o mundo deve ser líder, não necessariamente chefe, diretor, mas um líder na família, no trabalho, na comunidade, isto é uma pessoa que contribui para o progresso e o fortalecimento de todos. Liderança, neste caso, implica educação escolar, acadêmica e sabedoria edificada no convívio com as comunidades de destino, a dos descendentes de africanos, a das mulheres.

Mulheres negras vivendo, entre nós, as tensões dos confrontos de nossas diferenças de classe social, escolarização, faixa etária, entre outras, vivendo contraditórios sentimentos e discordâncias quanto a estratégias a adotarmos, vamos lutando por justiça para nós, para todos os que são marginalizados pela sociedade. Não admitimos as equivocadas análises que fazem de circunstâncias que nos são impostas, tampouco aceitamos limitadas definições do que sejam as mulheres negras. Somente nós mesmas podemos nos definir. Somos as fontes mais genuínas de conhecimento sobre nós; exigimos que estudos que nos tomem por temática tenham como centralidade nossos pontos de vista de mulheres negras.

 

Notas

1. COLLINS, Patricia Hill. Black feminist thougt: Knowledge, consciousness, and politics of empowerment. Nova York, Routledge, 1991, p. 221.         [ Links ]

2. CHRISTIAN, Barbara. "Diminishing returns: Can black feminism(s) survive the academy"? In: GOLDBERG, David Theo (org). Multiculturalism: A critical reader. Oxford-UK, Cambridge, USA, 1994, pp. 168-179, (p. citada 172).         [ Links ]

3. AMA, Ata Aidoo. "Ghana: To be a woman". In: KWAME, Safro (org.). Readings in African philosophie; An Akan Collection. Mariland, University Press of America, 1995, p. 260.         [ Links ]

4. SILVA, Petronilha B.G. e. A mulher negra nos anos 80: Proposta para elucidação da presença e diagnóstico dos problemas da mulher negra nos estados do sul. UFRGS - Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher, Fundação Carlos Chagas, 1988, pp. 40-41.         [ Links ]

5. Palavras de professora negra, ao concordar em participar de estudo sobre a situação de crianças negras na escola onde trabalha.

6. LIMA SILVA, Sílvia Regina. "Teologia negra feminista latino-americana". In: ATABAQUE, ASSET. Teologia afro-americana. São Paulo, Paulus, 1997, p. 127.         [ Links ]

7. A interpretação não é arbitrária, uma vez que participei das discussões que ensejaram a exortação referida.

8. Op. cit. nota 2, p. 127.

9. Op. Cit. nota 4, pp. 37-40.

10. CARNEIRO, Sueli e SANTOS, Thereza. Mulher negra. São Paulo, Nobel, Conselho Estadual da Condição Feminina, 1985, pp. 3-4.         [ Links ]

11. LOPES, Ademil. Escola, Socialização e Cidadania: Um estudo da criança negra numa escola pública de São Carlos. São Carlos, EDUFSCar, 1995, p.106.         [ Links ]

12. SILVA, Petronilha B.G. e. Histórias de operários negros. Proto Alegre, EST, Nova Dimensão, 1987, p. 6 e pp. 68-80.         [ Links ]

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14. GOMES, Nilma Lino. A mulher negra que vi de perto: O processo de construção da identidade racial de professoras negras. Belo Horizonte, Maza, 1995, p. 188.         [ Links ]

15. Op. cit. nota 10.

16. Op. cit. nota 4 e nota 13.

17. Op. cit. nota 4, p. 24.

18. Op. cit. nota 4, p. 42.

19. CARNEIRO, Sueli. "A organização nacional das mulheres negras e as perspectivas políticas". Revista de Cultura Vozes, nº 2. Petrópolis, mar./abr. 1990, v. 84, pp. 211-219.         [ Links ]

20. ROLAND, Edna e CARNEIRO, Sueli. "A saúde da mulher no Brasil - A perspectiva da mulher negra". Revista de Cultura Vozes, nº 2. Petrópolis, mar./abr. 1990, v. 84, pp.204-210 (p. citada 210).         [ Links ]

21. CARNEIRO, op. cit. nota 19.

22. SILVA, Petronilha B.G. e. "Vamos acertar os passos? Referências afro-brasileiras para os sistemas de ensino". In: LIMA, Ivan C. e ROMÃO, Jeruse (org.). As idéias racistas, os negros e a educação. Florianópolis, Núcleo de Estudos Negros, 1997, pp.39-57 (pp. citadas 46-47).         [ Links ]

23. SILVA, P.B.G. e. "Em busca de compreensão de pensamentos africanos em educação". Pretoria, 1996, p. 11 (datilografado).         [ Links ]

 

 

"The moment has come for us to bring ourselves forth" Positioning ourselves as women and as Black

ABSTRACT: The article focuses on disclosures made by black women in an attempt to establish dimensions of their self construction as citizens in a society that discriminates against the gender and race/ethnic group to which they belong.

Militant women belonging to the Black Movement in the southern states of the country were queried on the meaning of being women and black. The responses highlight that self representation as black women implies to permanently confront discriminatory attitudes and postures. In addition, it requires combativeness, introspection, positive self image, as well as a critical stance towards social relations while putting forward proposals for their transformation. The study points out that in search of construing their presence in society, these women struggle to overcome the invisibility imposed on the descendants of Africans. The women also struggle to have the needs of this group met by social policies that would address the problems that afflict it and would eliminate the oppressions that are inflicted upon it, fighting in this manner, for justice for all those who are marginalized by society. The article concludes with the assertion that the most genuine sources of knowledge concerning the black women are themselves, indicating the need for studies that address this theme, to have at center, the former's points of view as women and blacks.
Cadernos Cedes, ano XIX, nº 45, Julho/98

 

 

* Palavras da pastora Eliad D. Santos, durante oficina sobre "Teologia Negra Feminista Latino-Americana". In: ATABAQUE, ASSET. Teologia afro-americana; II consulta ecumênica de teologia e culturas afro-americana e caribenha. São Paulo, Paulus, 1997.

** Docente do Departamento de Metodologia do Ensino/ UFSCar; integrante do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da mesma universidade; professora-visitante, junto ao Departamento de Didática de University of South África, durante o primeiro semestre de 1996.