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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol. 19 n. 45 Campinas July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621998000200005 

A leitura de romances no século XIX

Maria Arisnete Câmara de Morais*

 

Nenhum ser humano normalmente constituído aceita a opinião que tem de si próprio e dos valores que preza se não a vê confirmada na forma como é tratado pelos outros.
Norbert Elias

 

 

RESUMO: O que se sabe sobre as leituras femininas no Brasil da segunda metade do século XIX? Uma geografia dessas leituras só tem sentido quando relacionada à comunidade de leitores e leitoras, utilizando-se como fonte jornais e textos literários. Enfatiza-se a rede de interdependências sociais que se estabelece entre as leitoras, os escritores e os editores do século XIX, buscando referências teórico-metodológicas em autores como Roger Chartier, Michel de Certeau e Norbert Elias. Entre as constatações, evidencia-se que: as representações do livro como companheiro da mulher são uma constante nos romances analisados; as indicações de leitura que preconizam a moral e os bons costumes e, em contrapartida, as leituras de romances considerados proibidos revelam não só as práticas de leituras femininas, mas também as táticas a que essas mulheres recorriam em busca de um espaço de leitura.

Palavras-chave: Leitura, literatura, público feminino, romance no século XIX.

 

 

O que se sabe acerca das leituras femininas no Brasil da segunda metade do século XIX? Esta é uma indagação que permeia este ensaio, utilizando-se como fontes de dados as marcas dessas leituras encontradas nos jornais e nos textos literários, deduzindo-se desses impressos as leituras femininas que se pretende configurar. A importância que se dá a essas leituras só pode ser entendida através da compreensão da rede específica de interdependências em que estão envolvidos editores, escritores, escritoras e leitoras pertencentes a essa comunidade de leitores cujas características próprias, muitas vezes, escapam à compreensão do leitor ou da leitora do século XX.

Norbert Elias (1986), analisando a sociedade de corte na França do século XVIII, designadamente a de Luís XIV, escolheu a habitação como ponto de partida para explorar uma rede de interdependências sociais. Adverte que todas as formas de integração social são unidades de seres humanos que mantêm relações entre si, ligados uns aos outros por uma rede de interdependências.1 Esse autor vai demonstrando que o comportamento de muitas pessoas separadas enreda-se de modo a formar estruturas entrelaçadas, tensas, equilibradas. Isso significa que tensão e interdependência são próprias a todas as reuniões de seres humanos, quer seja em pequenos grupos de leitoras, por exemplo, quer seja na totalidade de um determinado espaço geográfico.

Dessa forma, elege-se explorar a rede de interdependências sociais tomando como ponto de partida as leituras que os escritores e as escritoras indicavam para as jovens do Brasil do século XIX e, em contrapartida, as leituras que estas faziam. Leituras que poderão oferecer uma visão das relações que se estabeleciam entre a leitora e o livro, ou melhor, entre a leitora e o romance.

A literatura registra que muito se tem escrito e comentado acerca das relações das mulheres brasileiras com os livros e suas formas de apropriação. Os escritores do século XIX, como Machado de Assis, José de Alencar, Adolfo Caminha e Aluísio Azevedo, figuram, em seus romances, uma leitora às voltas com um livro: quer seja lendo durante os serões, quer seja às escondidas à luz de velas. Da mesma forma, a literatura registra também as tensões que as mulheres enfrentavam, no início de sua formação como leitoras, no cenário brasileiro imperial prestes a tornar-se republicano.

Nos textos dos viajantes que estavam no Brasil durante o século XIX, principalmente no Rio de Janeiro, registra-se uma vasta documentação sobre a educação das mulheres e suas relações com os impressos. Entre esses comentários estão os de D.P. Kidder e J.C. Fletcher em 1851 ao falarem a respeito das maneiras e dos costumes das damas brasileiras que "são gentis" e de "porte gracioso", embora não tenham "uma base de conhecimentos variados para tornar agradável e instrutiva a sua palestra"; mas o que importa neste ensaio é a análise sobre as reservas literárias dessas mulheres que consistem, segundo suas informações, principalmente em novelas de Balzac, Eugênio Sue, Dumas pai e filho, George Sand, em intrigas de pacotilha e folhetins dos jornais.2 Considerando a enorme influência cultural francesa, na moda e na literatura, por exemplo, nada mais natural do que encontrar entre o acervo de leitura de uma jovem brasileira do século XIX referências aos escritores populares também na França. Significativas também são as observações de Elizabeth Agassiz em 1865 quando falava a respeito da ausência de livros nas casas que freqüentava. Afirmava que, durante um ano de permanência no Brasil, apenas uma vez encontrou livros nas casas dessas famílias: no quarto de uma jovem senhora, que lhe dera hospitalidade, estava "uma biblioteca bem escolhida das melhores obras de história e literatura em francês e alemão", porém sem deixar registro sobre os títulos e autores desses livros tão elogiados. Vale registrar ainda sua perplexidade ao constatar que, para as mulheres, "o mundo dos livros lhes está fechado, pois é reduzido o número de obras portuguesas que lhes permitem ler". Através das suas incursões pelo Brasil, admirava-se ao avistar numa fazenda um livro em cima de um piano:

Um livro é coisa tão rara nos aposentos ocupados pelas famílias que fiquei curiosa em saber qual seria o conteúdo dele. Era um romance, e, ao virar-lhe as páginas, veio o dono da casa e disse em voz alta que aquela não era uma leitura conveniente para mulheres. "Aqui está (entregando-me um pequeno volume), uma excelente obra que comprei para minha mulher e minhas filhas." Abri o precioso volume, era uma espécie de tratado de moral, cheio de banalidades sentimentais e de frases feitas em que reinava um tom de condescendência e proteção à pobre inteligência feminina, porquanto, apesar de tudo, as mulheres são mães dos homens e exercem um pouco de influência sobre sua educação. Após essa mostra do alimento intelectual que lhes ofereciam, não me poderia admirar que a esposa e as filhas do nosso anfitrião demonstrassem um gosto dos mais moderados pela leitura.3

Esses textos dos viajantes registram o ritmo lento em que se desenrolava a educação das mulheres numa sociedade que buscava a modernização. Controlar as leituras ao alcance das mulheres era uma extensão das prerrogativas masculinas na vã ilusão de controlar seus sonhos e fantasias. Esses depoimentos ressaltavam bem o papel assumido pelos pais e maridos de protetores da inteligência e da moral das mulheres. O acesso aos livros de literatura era limitado e não passava, muitas vezes, do livro de orações, que servia também de iniciador das mulheres na página impressa. Tal situação estava bem de acordo com o provérbio português registrado por Charles Expilly (1935): "Uma mulher já é bastante instruída, quando lê corretamente as suas orações e sabe escrever a receita da goiabada. Mais do que isso seria um perigo para o lar."4

Era, portanto, nesse ambiente de relações tensas e mutáveis que as mulheres viviam no século XIX. Era nesse ambiente também que conquistavam seus espaços de leitura.

Nesta análise, há que se considerar a advertência de Chartier de que a leitura não é jamais limitada e, portanto, abordar este tema é considerar a irredutível liberdade dessas leitoras e os condicionamentos que pretendem refreá-las.5 Condicionamentos que consistem, inclusive, na luta pela primazia da boa leitura, categorizando-a e categorizando os leitores. Leituras diferenciadas para leitores e leitoras diferenciados. Um exemplo é A arte de amar, de Ovídio, endereçada exclusivamente aos homens feitos e estudiosos das letras clássicas, conforme consta nas publicações da livraria Laemmert para o ano de 1872. Leituras consideradas obscenas ou de cunho político não eram recomendáveis às leitoras do século XIX.

Às leitoras do século XIX, conforme se pode observar, recomendava-se a prática de leituras amenas e delicadas, cujas temáticas girassem em torno de amores românticos e bem-sucedidos. Por meio do jornal O Futuro (1863), por exemplo, Machado de Assis enviava esta recomendação de leitura às mulheres: "Aconselho às leitoras que, juntinho ao abade Smith, simples e cândido escritor, levem um livrinho modesto, cândido pela forma e pelo fundo, páginas escritas, reunidas por um talento que alvorece, terno e ingênuo, O lírio branco de Luís Guimarães Júnior."6

Oferecendo-se a uma leitura plural, o texto torna-se uma arma perigosa nas mãos das incautas leitoras que necessitam, segundo se julga, de uma interpretação de profissionais socialmente autorizados. Suprime-se a prática da leitura por uma relação de forças entre editores e consumidores, entre mestres e alunos, ou ainda entre pais e filhas.

Trata-se, portanto, de um jogo de poder. Um dos parceiros no jogo, os editores, apropriando-se do monopólio legítimo dos impressos, decidem que livros devem ser editados, decidem a qualidade do que consideram não só boa leitura, mas também do que consideram rentável financeiramente: "Existem livros que são jogos de luta por excelência, a Bíblia é um deles. O capital é um outro. O poder sobre o livro é o poder sobre o poder que o livro exerce. Quer dizer, o poder extraordinário que tem o livro logo quando se torna um modelo de vida."7

Se é verdade esse raciocínio, romances como A dama das camélias (1852) do escritor francês Alexandre Dumas, e Lucíola (1862), de José de Alencar, de acordo com a opinião da escritora D. Ana Ribeiro de Góes Bettencourt (1885),8 não eram modelos de vida para os códigos de moral do século XIX, pois eram leituras prejudiciais à juventude e pouco proveitosas como fonte de conhecimento. Da mesma forma, talvez não o sejam O primo Basílio (1878) do escritor português Eça de Queiroz, e A normalista (1893), do brasileiro Adolfo Caminha. Não eram modelos de vida se se considerar que esses autores pintavam com hábeis pincéis os perfis de mulheres que aí estão representados.

Situada entre os meios antagônicos de um sentido único imposto e a pluralidade de interpretações, a leitura corre o risco de tornar-se um instrumento de si mesma se tiver como base a instituição social como força reguladora dessas leituras. Assim entendida, a leitura significa uma prática passiva na qual o escrito é o estabelecido.

Chartier enfatiza que o livro (primeiro o manuscrito, depois o impresso, representativo do mundo do escrito, assim como o jornal) sempre visa instaurar uma ordem.9 Quer seja em termos da sua compreensão, quer seja pela autoridade que o encomenda ou permite sua publicação, quer seja pela própria organização numa biblioteca. Apesar disso, o livro não consegue instaurar uma ordem no leitor. O leitor é livre para se inscrever no texto e pôr também a sua marca, modificando-o e modificando-se.

Se se considera o texto polissêmico por natureza e a leitura uma operação de caça na compreensão de Michel de Certeau,10 admite-se também que cada leitura significa uma emoção nova, como se fosse a primeira leitura do mesmo texto. Novas maneiras de ler decorrem dessa prática, novos aspectos que nem eram tocados na primeira leitura surgem. E o leitor e a leitora criam o não-escrito no espaço organizado, pela capacidade que tem esse espaço de permitir uma pluralidade de significações. Assim, esse espaço é todo novidade, todo diálogo e emoção, pura magia.

Entretanto, a escritora baiana D. Ana de Góes Bettencourt, colaboradora do Novo almanaque de lembranças luso-brasileiro, receosa e vigilante, talvez, das prováveis viagens em torno de si mesmas que as leitoras poderiam empreender, alertava às senhoras brasileiras e portuguesas para o perigo dessas leituras de conteúdo duvidoso: os romances. Leituras de romances exaltam a imaginação e, por isso mesmo perigosas, não devem fazer parte do repertório de leitura de uma jovem! Devem fazer parte desse repertório leituras de conteúdo religioso e de cunho moral que preconizam o desprezo do luxo e das honras mundanas. A escritora (indignada?) escrevia:

Muitos falam contra os romances como leitura prejudicial à mocidade e pouco proveitosa como fonte de conhecimento. Porém, apesar de quanto se tem dito, continuam eles a ser lidos ainda pela maior parte daqueles que reconhecem sua pouca importância, e formam quase exclusivamente a biblioteca das senhoras que dedicam algumas horas à leitura, não se contentando em cuidar somente de modas e enfeites. Escrevendo A filha de Jephte e o anjo do perdão procurei dar um impulso a este gênero de romance. Faltando-me porém as habilitações e o tempo, faço um apelo às minhas companheiras para que trilhem esta senda honrosa, onde terão a glória de concorrer para o engrandecimento do nosso sexo, ampliando-lhe a instrução e a moralidade, principais motores da sua completa reabilitação.11

Percebe-se que a escritora era uma leitora bastante informada. Apesar de apontar a leitura do romance como prejudicial à mocidade, mais especificamente às mulheres, mesmo assim conhecia todos os romances que ela mesma execrava. Passeava pela literatura brasileira, portuguesa e francesa com bastante propriedade: Alexandre Dumas, Eugène Sue, Ponson du Terrail, Montepin, Alexandre Herculano e José de Alencar, na sua opinião, eram escritores cujas leituras seduziam as almas inexperientes das leitoras do século XIX. Essas leituras veiculavam perigosas teorias "que matam os sãos princípios de moral" que as leitoras recebiam de suas mães e, por isso, teriam que manter distância desse perigo iminente! Os perfis de mulheres "altivas e caprichosas" criados por José de Alencar, uma alusão, talvez, aos romances Diva (1864) e Lucíola (1862), eram prejudiciais também. Imagine! Se as leitoras quisessem imitar "esses tipos inconvenientes" na vida real?!... Conclui-se que, para orientar leituras de romances, a primeira condição é ser também leitora desses romances.

Nessa mesma linha de indicações de leituras para o sexo feminino encontram-se os comentários da professora norte-rio-grandense Izabel Gondim, nas suas Reflexões a minhas alunas (1910). Esse livro, oferecido ao governo dos Estados Unidos do Brasil, dirigia-se à educação nas escolas primárias do sexo feminino e nele a professora aconselhava as moças a absterem-se de leituras de livros considerados perniciosos em que a boa moral fosse preterida. A escritora referia-se aos romances da escola realista como "incendiários do coração da mocidade, cujas paixões dissimuladamente exaltam por meio das fantásticas criações de personagens desmoralizados postos em evidência, sob as mais belas e atraentes formas". Ela conclui sua análise afirmando que não será difícil ouvir a apreciação a respeito desses livros por parte de pessoas sensatas (talvez referindo-se a si própria) a quem as alunas deveriam recorrer a fim de ouvir-lhes a opinião antes de empreender a leitura de obras desse gênero.12

Se é verdade que o número de edições de um livro é indício pelo menos de uma boa vendagem ou não do produto, infere-se que o livro de Izabel Gondim circulava durante o final do século XIX e início deste. A primeira e a segunda edições foram publicadas no Rio de Janeiro em 1874-1879 e a terceira, revista e aumentada consideravelmente, foi editada em Natal (1910), pela tipografia de A. Leite. Essas edições mostram o prestígio desse livro, principalmente em se tratando de editores que, de antemão, apostam no conhecimento prévio de seus leitores.

Apesar desse prestígio, sabe-se que nem todo livro possuído é garantia de leitura e que o acesso ao impresso não se reduz "à exclusiva posse do livro"13 uma vez que as leituras dos romances circulavam também nos jornais. O romance-folhetim é um exemplo disso, comprovado através do enorme sucesso que fazia entre os estudantes e nos "círculos femininos da sociedade fina".14 Esta é uma referência à enorme aceitação de público do romance O guarani, inicialmente publicado no folhetim do Diário do Rio de Janeiro em 1857 (talvez 1856) conforme registram as Reminiscências (1923) do Visconde de Taunnay.

Joaquim Manuel de Macedo também indicava a boa leitura para as jovens no seu livro Mulheres célebres (1878). Sugeria o estudo de algumas biografias de celebridades históricas, sempre tomando como parâmetro a lição moral das ações dessas mulheres virtuosas ou heróicas. Saliente-se que essa obra era adotada pelo Governo Imperial para a leitura nas escolas de instrução primária do sexo feminino do Município da Corte:

É positivo que ao menos para as meninas de classe superior nas escolas de instrução pública primária há grande e muito sensível pobreza de livros de leitura, que excitando interesse pela natureza de seus assuntos, sejam fontes de princípios morais, de lições de benemerências e de virtudes, e apropriados a inteligências já esclarecidas o bastante para refletir sobre o que lêem, e conscienciosamente aceitar juízos e apreciações dos fatos, aliás ainda com o auxílio, e com a luz mais brilhante e profunda da professora.15

Por outro lado, no romance A normalista (1893), o professor Berredo ia delineando a boa leitura para as normalistas durante a aula:

Eu estou certo, - dizia o Berredo, convicto, - de que as senhoras não lêem livros obscenos, mas refiro-me a esses romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas... Aposto em como quase todas as senhoras conhecem A Dama das camélias, a Lucíola..."

Infelizmente, para desapontamento do professor, quase toda a classe conhecia "essas historiazinhas fúteis de amores galantes", embora fossem "péssimos exemplos". Em seu lugar, ele aconselhava a leitura do "grande" Júlio Verne, o propagandista das ciências: "Comprem a Viagem ao centro da terra, Os filhos do capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos..."16

Se, de um lado, havia as indicações de leituras da escritora D. Ana Góes Bettencourt, da professora Izabel Gondim e as dos escritores Adolfo Caminha, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis, de outro lado, representava-se a figura paradigmática da leitora. No romance A normalista (1893), a personagem Maria do Carmo ora estava ao piano, ora saía a passear com Lídia Campelo, ora lia romances:

Ultimamente Lídia dera-lhe a ler O primo Basílio, recomendando muito cuidado: "que era um livro obsceno" - lesse escondido e havia de gostar muito.

- Não me contes, atalhou Maria, tomando o livro - quero eu mesma ler... gostaste?

- Mas muito! Que linguagem, que observação, que rigor de crítica!... Tem um defeito - é escabroso demais.

- Onde foste tu descobrir esta maravilha, criatura?

- É da mamãe. Vi-o na estante, peguei, li-o.

- Aquilo é que é um romance. A gente parece que está vendo as coisas, que está sentindo... 17

Leitura silenciosa como essa, à luz de vela ou de candeeiro, afastada dos serões de família, é um símbolo de privacidade capaz de permitir certas audácias, antes interditas, como as leituras clandestinas de Lídia Campelo e Maria do Carmo, as normalistas. Leituras clandestinas, "escabrosas demais", como o romance O primo Basílio, tinham que ser degustadas lentamente para se sentir todas as emoções que o texto propiciava. Leituras "escabrosas demais", esse hábito estaria esquecido? Ler em silêncio à luz do lampião de azeite é um desnudamento privado. Quem não tem medo da nudez do espírito no espaço público?

No romance Helena (1876), Machado de Assis também representava a figura paradigmática da leitora, através do diálogo entre Helena e Estácio:

- Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ela ao irmão, caminhando para a sala de jantar.

- Não?

- Não senhor, fiz um furto!

- Um furto!

- Fui procurar um livro na sua estante.

- E que livro foi?

- Um romance.

- Paulo e Virgínia?

- Manon Lescaut.

- Oh! Exclamou Estácio. Esse livro...

- Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.

- Não é um livro para moças solteiras...

- Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentando-se à mesa. Em todo caso, li apenas algumas páginas.18

Fica-se sabendo que para perceber se um livro é recomendável às moças solteiras ou casadas a primeira condição não é apenas folheá-lo... Da mesma forma, através das falas desses escritores toma-se conhecimento dos romances que circulavam no período analisado.

Percebe-se, nesses textos, que as leitoras da segunda metade do século XIX não se contentavam em apenas enfeitar-se e cuidar de modas, enfeites, tules, babados, moldes e riscos de bordados vindos de Paris. As leitoras do século XIX deliciavam-se com outros produtos chegados também de Paris pelo último Paquete: os livros! Com eles, as amáveis leitoras, louras, morenas, faceiras, espirituosas, simpáticas, conforme as configurações criadas por suas representações modeladas pelos escritores, deliciavam-se com a leitura de romances.

Que diria Rousseau se observasse essas amáveis e faceiras leitoras do século XIX lendo romances às escondidas no seu quarto à luz de velas ou candeeiro? Esse escritor considerava que não conhecia projeto mais insensato do que a leitura de romances para a juventude. E afirmava: "uma moça honesta não lê livros de amor" através das cartas de dois amantes com o título Júlia ou a nova Heloísa. "É começar por colocar fogo na casa para depois usar as mangueiras" completava Rousseau.19

No entanto, o irreversível caminho do fogo se deflagrava: a leitura de romances já fazia parte do cotidiano feminino no século XIX. Essas leituras representavam o máximo do perigo, uma vez que sua prática propiciava às leitoras escapar às contingências, às convenções através das viagens em torno de si mesmas: durante os serões, ou na intimidade do seu quarto.

A professora Maria Teresa Santos Cunha (1995) analisa, na sua tese de doutorado, as normas, as condutas e os valores nos romances de M. Delly, pseudônimo do casal de irmãos franceses La Rosière, que viveu do final do século XIX até a primeira metade deste. Esses romances, cujos títulos evocam figuras femininas como Ondina, Elfrida, Magali, Mitsi, foram bastante divulgados no Brasil durante o período de 1940/1960 através da coleção Biblioteca das Moças. Neles, as protagonistas liam livros essencialmente religiosos ou de formação, que instruíam e educavam, em contraposição aos que seduziam ou vulgarizavam as jovens leitoras ali representadas. Um dos exemplos citados pela referida professora é o romance O fim de uma valquíria:

Bóris ocupava-se da instrução da prima mediante livros que lhe enviava e pensava consigo enquanto os escolhia:

- Hei de fazer alguma coisa de Anita, que não há de ser uma mulher vulgar.20

As representações do livro, como companheiro da mulher, e da leitura, como prática solitária e coletiva, são uma constante nos romances analisados tanto na investigação da professora Maria Teresa quanto neste ensaio.

As representações de leituras observadas no que se poderia chamar, neste texto, de boa leitura, liberavam (talvez) anseios reprimidos e ajudavam essas leitoras a desenvolver suas sensibilidades. Leituras que alimentavam sonhos e permitiam às leitoras imaginarem-se protagonistas do seu romance predileto. Por exemplo, Maria do Carmo, a normalista, lia O primo Basílio e imaginava se pudesse fazer com o Zuza, seu namorado, o mesmo que Luiza e Basílio faziam no romance...

Se o corpo fala, se a leitura implica espaços, hábitos e gestos, nessas representações, as leitoras regalavam-se absortas com a leitura na intimidade de cada uma, indiferentes às solicitações exteriores. Portanto, essas representações são indícios de como se julgava que deveriam ser as leituras dessas jovens.

O Catálogo da exposição Virando Vinte (1994/1995),21 uma mostra sobre o século XIX realizada no estado de São Paulo, traz um exemplo dessas representações de leituras femininas: era a representação da vida de romance. Trata-se da fotografia do óleo sobre tela A leitura (1898),22 do pintor José Ferraz de Almeida Júnior, na qual representa uma jovem de longos cabelos trançados, sentada numa cadeira, provavelmente no jardim de sua casa, entregue à leitura silenciosa. Mas, o que lia essa leitora? O texto lido coincide com essa imagem feminina solitária?

Será que essa jovem aí representada lia o romance A filha de Jephte e o anjo do perdão da já referida escritora D. Ana Ribeiro? Ou lia romances da escola realista? Ou será que ainda preferia a leitura de Alencar, "nosso ameno romancista", que, no entanto, criava certos perfis de mulheres altivas e caprichosas? Será que preferia a leitura do romance O lírio branco, esse "livrinho modesto" do escritor Luís Guimarães Júnior? Entre a leitura dos romances Paulo e Virgínia, do escritor Bernardin de Saint-Pierre e Manon Lescaut (livro não apropriado às moças solteiras), do Abade de Prévost, qual dessas leituras escolheria?

Se qualquer chefe de família procedesse a uma escolha rigorosa na biblioteca das mães, como queria D. Ana Ribeiro que se fizesse na de suas filhas, que redução sofreriam os livros que se pudessem ler com gosto e proveito? Saliente-se que a normalista Lídia Campelo encontrou o romance O primo Basílio na estante de sua mãe...

As leitoras procuravem as suas táticas de leituras. Se já na primeira metade do século XIX, utilizavam, em lugar da escrita, uma combinação simbólica das diferentes flores nas suas correspondências amorosas e se recebiam uma educação na qual não somente proibia-se a leitura de romances como ainda se as preservava de qualquer contato com os homens, na segunda metade do século XIX elas criavam seus próprios espaços de leitura. Conquistavam espaço aqui, perdiam mais adiante, atacavam, criavam surpresas, apesar de um leitor anônimo perguntar, através do jornal Belo Sexo, em 1862:23 "onde estão no sexo feminino esses luzeiros que ofuscam Lamartine, Victor Hugo, Camões, Garret, Dante, etc.?".

As táticas das leitoras do século XIX evidenciavam maneiras diferentes de convivência com os códigos de moral estabelecidos no século XIX: liam romances proibidos. Se o papel da mulher era velar pela ordem da família, a sociedade não estaria em perigo com essa prática clandestina? As gerações futuras não estariam comprometidas moralmente, uma vez que compete às mães velar pela escolha da leitura dos romances de suas filhas?

Quando se lê um texto sobre indicações de leitura para as incautas donzelas do século XIX não se deve esquecer os códigos de moral vigentes que ainda estavam longe de admitir a prática indiscriminada da leitura tanto para homens quanto para mulheres. Boa parte das tensões e interdependências com as quais as leitoras emergentes do século XIX conviviam perdeu hoje em dia sua principal fonte de significações: o padrão mutável de interdependências cria novas formas de tensão e equilíbrio flutuante e elástico. Ainda que as tensões e os conflitos caracterizem qualquer forma de integração social, eles mudam conforme mudam as sociedades.

Recolhendo e guardando os textos que permitiram configurar, em parte, as leitoras, as indicações de leituras e os romances que liam, permanecem as imagens desses textos ora analisados. Não se sai mais a mesma pessoa depois de vasculhar todo esse passado tenso, vivo e dinâmico! Permanece a lição de que se apreende melhor o contexto da nossa própria história de vida quando se aprofunda as histórias de leitura e de vida das mulheres que pertenceram a outras épocas. A análise dessas leituras do século XIX permite essa apreensão e também põe em evidência que "a escala de valores a que estamos ligados é um dos elos da cadeia de pressões sociais a que cada um de nós está sujeito",24 conforme esclarece Norbert Elias.

Embora inacabado, necessário se faz colocar um ponto final (provisório) neste ensaio, movida por outras indagações: o que traz consigo a inquietação sobre a história das mulheres e suas práticas de leituras no século XIX? Essa inquietação traz consigo possíveis linhas de sombra, se se considera que as leituras dessas jovens não são senão as representações dessas práticas de leituras configuradas no livro e no jornal. Essa inquietação traz consigo mais inquietações, mais desejos de mergulhar fundo na corrente do tempo, em busca de outras histórias de leitura, e a certeza dos severos limites impostos a este trabalho. O que se sabe acerca das leituras femininas no Brasil da segunda metade do século XIX?

 

Notas

1. ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Tradução de Ana Maria Alves. Lisboa: Estampa, 1986, p. 20.         [ Links ]

2. KIDDER, D.P. e FLETCHER, J.C., In: LEITE, Míriam Moreira (org.). A condição feminina no Rio de Janeiro: Século XIX. Antologia de textos de viajantes estrangeiros. São Paulo: Edusp, 1993, p. 72.         [ Links ]

3. AGASSIZ. In: A condição feminina no Rio de Janeiro: Século XIX, op. cit. pp. 74-75.

4. EXPILLY, Charles. Mulheres e costumes do Brasil. Tradução de Gastão Peralva. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935, p. 401.         [ Links ]

5. CHARTIER, Roger. A história cultural: Entre práticas e representações. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel, 1990, p. 123.         [ Links ]

6. ASSIS, Machado de. O futuro (1862-1863), op. cit., 1º jan. 1863. pp. 266-268.

7. BOURDIEU, Pierre. e CHARTIER, Roger. "Comprendre les pratiques culturelles." In: CHARTIER, Roger (Org.). Pratiques de la lecture. Paris: Rivages, 1985, p. 229.         [ Links ]

8. BETTENCOURT, D. Ana Ribeiro de Góes. "O Romance. Às senhoras brasileiras e portuguesas." In: Novo almanaque de lembranças luso-brasileiro para o ano de 1886. Lisboa: Livraria de António Maria Pereira, 1885, pp. 67-72.         [ Links ]

9. CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Tradução de Mary Del Priore. Brasília: Universidade de Brasília, 1994.         [ Links ]

10. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Rio de Janeiro: Vozes, 1994, pp. 269-270.         [ Links ]

11. BETTENCOURT. D. Ana Ribeiro de Góes. "O Romance," op. cit., pp. 67-72.

12. GONDIM, Izabel. Reflexões a minhas alunas. Para educação nas escolas primárias do sexo feminino oferecidas ao Governo dos Estados Unidos do Brasil. 3ª ed. (revista e aumentada consideravelmente). Natal: Tipografia de A. Leite, 1910, p.25.         [ Links ]

13. CHARTIER, ROGER. A ordem dos livros, op. cit.; p. 24.

14. TAUNNAY, Visconde de. Reminiscências. 2ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1923, P. 85.         [ Links ]

15. MACEDO, J. Manuel de. Mulheres célebres (obra adotada pelo governo imperial para a leitura nas escolas de instrução primária do sexo feminino do Município da Corte). Rio de Janeiro: B.L. Garnier, 1878, p. 19.         [ Links ]

16. CAMINHA, Adolfo. A normalista. 10ª ed. São Paulo: Ática, 1994, p. 50.         [ Links ]

17. Ibid. pp. 23-25.

18. ASSIS, Machado de. Helena, São Paulo: Formar, p. 26.         [ Links ]

19. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Júlia ou a nova Heloísa. Cartas de dois amantes habitantes de uma cidadezinha ao pé dos Alpes. Tradução de Fulvia M.L. Moretto. São Paulo: Hucitec, 1994, p. 36.         [ Links ]

20. CUNHA, Maria Teresa Santos. "Educação e sedução: Normas, condutas, valores, nos romances de M. Delly." Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, tese de doutorado, 1995, p. 150.         [ Links ]

21. A exposição Virando Vinte realizou-se na Casa das Rosas no período de 23 de novembro de 1994 a 22 de janeiro de 1995, promovida pela Secretaria do Estado da Cultura/São Paulo.

22. ALMEIDA, Jr., José Ferraz de. A leitura (1898). São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo.         [ Links ]

23. Belo sexo, Rio de Janeiro, 28 de set. de 1862, p. 1.         [ Links ]

24. ELIAS, Norbert. A sociedade de corte, op. cit., p. 49.

 

 

Novels reading in the nineteens Century

ABSTRACT: What is known about female reading in the second half of the nineteenth century? A cartography of readings makes sense only if related to the community of male and female readers here analysed, using as data newspapers and literary works. A net of social interdependencies is established between female readers, writers and editors of the nineteenth century, having as theoretical-methodological references authors such as Roger Chartier, Michel de Certeau e Norbert Elias. The evidences, make clear that representating the book as the woman companion is always present in the novels analysed; the designation of readings that preconize moral customs and the reading of prohibited novels reveal not only female readings practices but also the strategies used in the search for a reading "space".

 

 

* Professora doutora do Departamento de Educação da UFRN.