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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.19 n.48 Campinas Aug. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621999000100001 

Apresentação

Carmen Lúcia Soares1

 

 

A temática do corpo, largamente tratada pela filosofia e pelas ciências humanas, tem sido pouco considerada no âmbito da educação. Os currículos dos cursos de pedagogia, por exemplo, são reveladores da quase total ausência de tratamento do corpo, quer seja na forma de disciplinas/atividades, quer seja sobre o conhecimento entendido como necessário à formação do professor. Quando há referências ao corpo, via de regra, estas aparecem com caráter instrumental, em torno de atividades que devem ser ministradas para "descarregar energias reprimidas" ou "melhorar/aprimorar habilidades cognitivas".

O corpo como primeiro plano de visibilidade humana, como lugar privilegiado das marcas da cultura, ou o corpo como lugar onde a mão adulta marca a criança, como espaço de imposição de limites psicológicos e sociais, conforme assinala George Vigarello, em um dos mais instigantes trabalhos sobre história do corpo,2 tem sido pouco considerado no campo da educação e, mais especificamente, no campo da educação física. Nesta, os estudos em torno do corpo são também incipientes. Poucos são os que consideram o corpo "uma palavra polissêmica, uma realidade multifacetada e, sobretudo, um objeto histórico", ou o corpo como "memória mutante das leis e dos códigos de cada cultura, registro das soluções e dos limites científicos e tecnológicos de cada época", conforme as palavras de Denise B. Sant'Anna3.

A organização deste Caderno pretende alimentar a necessária discussão do corpo em sua heterogeneidade e polissemia no âmbito da educação e, mais especificamente, chamar a atenção para as possibilidades de abordagem que se apresentam na e pela educação física escolar.

Assim, reunimos cinco artigos escritos por pesquisadores de três universidades públicas brasileiras: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e da Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista.

O Caderno abre-se ao público com o trabalho de Ana Márcia Silva (UFSC), que nos permite compreender como se constituíram diferentes expectativas de corpo a partir do momento em que este se separa da natureza e constitui-se em "objeto" da ciência.

No artigo de Tarcísio M. Vago (UFMG - Colégio de Aplicação), o leitor encontrará uma análise dos diferentes modos como a educação física integra-se e exclui-se da cultura escolar ao longo do tempo, além da tematização de aspectos referentes à legislação e à normatização da educação física na escola.

Eustáquia S. de Sousa e Helena Altmann analisam as expectativas corporais, esperadas socialmente em relação a meninos e meninas, e suas manifestações na cultura escolar. Analisam também como a escola e a educação física escolar vêm tratando essas expectativas.

Valter Bracht (Ufes) analisa em seu artigo o processo de construção das teorias pedagógicas da educação física no Brasil, demonstrando como elas refletem a concepção e o significado humano de corpo engendrados na e pela sociedade moderna.

O artigo que fecha este Caderno é de autoria de Alexandre F. Vaz (UFSC), e traz uma instigante análise com base numa leitura do esporte e, dentro dele, no treinamento corporal como um rito sacrificial que reduz e naturaliza o corpo.

Muito há que se analisar, discutir... escrever sobre o corpo, este lugar da escritura, da inscrição das marcas da cultura humana. A todos, uma boa leitura.

 

 

1. Professora da Faculdade de Educação da Unicamp; membro pesquisador do grupo de estudos audiovisuais - OLHO e do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE).

2. Refiro-me ao livro de George Vigarello (org.), Le corps redréssé. Histoire d'un pouvoir pédagogique. Paris: Jean-Pierre Delarge, éditions universitaires, 1978.

3. Essas considerações encontram-se na apresentação do livro organizado por Denise B. Sant'Anna, Políticas do corpo. São Paulo: Estação Liberdade, 1995.