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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.20 no.50 Campinas Apr. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622000000100001 

APRESENTAÇÃO

 

 

A idéia de publicar mais uma coletânea de textos que se referenciam na perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano surge de uma reiterada preocupação com os modos de compreender (e explicar?) a constituição de sujeitos imersos nas práticas sociais, e de uma vontade de compartilhar alguns esforços que têm sido feitos nessa direção.

A coletânea reúne textos de pesquisadoras que vêm, há vários anos, realizando trabalhos de pesquisa teórica e empírica, relacionados a formas de atuação prática no âmbito da educação formal e não-formal. Os trabalhos polemizam sobre concepções de desenvolvimento, de linguagem, de discurso; de sujeito e de constituição da (inter)subjetividade; de relações de ensino; de significação das ações humanas e apropriação das práticas sociais.

Assumindo uma concepção de sujeito que se constitui nas relações concretas de vida social, as autoras se propõem a investigar as condições e a dinâmica dessas práticas, vistas como fundamentais na constituição do psiquismo humano, buscando entender: 1) como elas vão se estabilizando, se institucionalizando e se transformando, produzindo efeitos nos sujeitos que delas participam e 2) os modos de participação dos sujeitos no âmago dessas relações. De maneiras diferenciadas, os trabalhos que aqui se apresentam vão analisar e discutir os modos como as instituições vão marcando os indivíduos e como os sujeitos interagem, provocando ou produzindo mudanças.

O texto de Maria Cecília Rafael de Góes é relevante no conjunto dos trabalhos como um lugar de indagação da própria prática da pesquisa. A autora indaga sobre o que tem sido referido como "análise microgenética", discutindo vários procedimentos metodológicos que se encontram imbricados ou implicados na perspectiva teórica, apontando e identificando contribuições, interseções e nuanças na composição de tais procedimentos. Maria Cecília faz um levantamento dos trabalhos de vários pesquisadores e grupos de pesquisa, pontua ênfases e especificidades, indica desdobramentos e a emergência de novas questões.

Quanto a esse particular, é importante explicitar que, apesar dos pressupostos comuns assumidos pelas pesquisadoras, as análises que se apresentam nesta coletânea não são nada homogêneas. Referem-se a diferentes aspectos teóricos, conceituais, empíricos ou metodológicos. As perguntas, as indagações, as esferas de atividade, as condições de realização dos trabalhos; a formação, a história e a biografia de cada autora vão configurando modos singulares de eleição e aproximação dos focos de investigação.

Minha contribuição neste número diz respeito à questão da internalização/apropriação das práticas sociais. Inicio meu texto por uma discussão de noções historicamente condensadas nesses termos e estabilizadas na cultura. Tomando como um dos pontos de partida a formulação de Vygotsky de que as funções mentais são relações sociais internalizadas, argumento pela necessidade de se considerar a apropriação como uma categoria essencialmente relacional, propondo articular essa questão ao problema da significação das ações humanas.

O trabalho de Mônica de Carvalho Magalhães Kassar discute alguns movimentos na formação do pensamento contemporâneo (naturalismo, positivismo, liberalismo), caracterizando valores e marcas que aparecem relacionados aos modos de organização social. Com base nessa caracterização, Mônica nos mostra, em suas análises, como os modos de pensar, historicamente constituídos, afetam e reverberam nos sujeitos imersos na dinâmica das práticas sociais.

Adriana Lia Friszman de Laplane escolhe enfocar o silêncio como modo de interação. Em seu texto, ela destaca e discute várias formas de estudar e teorizar sobre as interações, mostrando possibilidades e limites de diferentes abordagens. Do trabalho empírico realizado em uma classe de primeira série do ensino fundamental, Adriana problematiza situações em que crianças sistematicamente não falam com adultos. Nas análises realizadas, Adriana mostra como a teoria bakhtiniana da enunciação e a análise do discurso francesa contribuem para a compreensão de tais situações.

As interações na sala de aula também são objeto de investigação no artigo de Cristina Broglia Feitosa de Lacerda. Só que o foco agora é a dinâmica que se estabelece em uma classe de ensino regular que acolhe uma criança surda e sua intérprete em língua de sinais. O que resulta dessa dinâmica é um trabalho com a(s) língua(s) – português falado e escrito e língua de sinais – que envolve os participantes de maneira especial e redimensiona o trabalho educacional na escola.

No texto de Elizabeth dos Santos Braga, é a tessitura interdiscursiva no trabalho com a literatura que se torna objeto de análise. Na leitura de poesias de Mário de Andrade para as crianças, instaura-se uma vigorosa trama intertextual, na qual diferentes vozes e posições – professor, aluno, leitor, ouvinte, livro, autor – são ressaltadas e analisadas em uma relação dialógica. A literatura, considerada como prática discursiva, aparece como um locus de memórias e histórias.

Tomando como foco de indagação a experiência partilhada com uma ex-aluna que inicia o trabalho de profissional na educação, Roseli Aparecida Cação Fontana nos fala, em seu texto, do drama constitutivo do sujeito e do trabalho docente. Na delicada trama das relações de ensino e de poder, ela vai analisando os modos de constituição do ser professora, emergindo de condições bem concretas de trabalho e de vida.

Desse modo, procurando levar em conta nas análises as condições concretas, as políticas institucionais e as relações de poder, os textos que compõem essa coletânea analisam as possibilidades de desenvolvimento humano contingenciado histórica e culturalmente. Procuram examinar os modos de participação e constituição de sujeitos, interpretando e dando visibilidade analítica a essas possibilidades e relações. As situações de análise tornam-se, assim, um importante lugar de exercício do olhar. Olhar que não deve ser tomado aqui em um sentido empiricista. Merece ser tomado em seu caráter indiciário, no lusco-fusco do (in)visível. Olhar que traz implicados modos de conceber, modos de atuar. Nesse sentido, podemos dizer que há uma certa posição e perspectiva de sujeitos – que assumem aqui a autoria –, como educadores e pesquisadores em educação. Na medida em que as análises tornam visíveis aspectos antes não necessariamente destacados ou relevados, elas podem contribuir para uma compreensão da complexidade, do drama das relações humanas. Relações essas que, assumidas como fundantes, vão indicando a multiplicidade de formas e de (im)possibilidades de se tornar sujeito nas práticas sociais.

 

 

Ana Luiza Bustamante Smolka