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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.20 no.52 Campinas Nov. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622000000300003 

As faces do livro de leitura

Cátia Regina Guidio Alves de Oliveira *
Rosa Fátima de Souz a **

 

 

RESUMO: Este trabalho pretende ser uma contribuição para a compreensão da história do livro didático no Brasil, mais especificamente no tocante ao estado de São Paulo. Trata-se da análise de alguns dos livros de leitura mais utilizados nas escolas primárias no final do século XIX e início do XX (1890-1920), compreendendo o livro como um objeto cultural. Delineamos as suas diferentes faces e o seu uso na escola, considerando o conteúdo, a finalidade, o formato, a produção editorial e a autoria, fazendo a interseção entre a história das disciplinas escolares e a história da leitura.

Palavras-chave: Livros de leitura, alfabetização, livros didáticos, séries graduadas de leitura

 

 

A expansão do ensino primário de iniciativa pública iniciada no estado de São Paulo no final do século XIX facultou a produção de uma literatura escolar sem precedentes. Este texto apresenta os resultados da pesquisa intitulada "As faces do livro de leitura". Compreendendo o livro como um auxiliar do ensino da língua portuguesa e como um objeto cultural, esta investigação objetivou delinear as diferentes faces do livro de leitura e seu uso na escola considerando o conteúdo, a finalidade, o formato, a autoria, buscando, dessa maneira, fazer a interseção entre a história das disciplinas escolares e a história da leitura.

As séries graduadas de leitura surgem na educação paulista, não por acaso, no momento da institucionalização da escola graduada – grupos escolares: modelo de organização didático-pedagógico de escola primária adequado às necessidades de escolarização em massa, fundamentada nos princípios da nacionalidade científica e na divisão do trabalho (Souza 1998).

A popularidade desses livros explica-se tendo em vista a sua adequação à estrutura do ensino primário. Cada livro correspondia a uma série e a coleção, de uma mesma autoria, mantinha a continuidade, a coerência e o aprofundamento das lições e dos temas. Entre as séries graduadas de leitura mais utilizadas nas escolas primárias paulistas destacam-se as obras de João Köpke, Thomas Galhardo, César Martines, Puiggari-Barreto e Felisberto de Carvalho.

Constituindo-se no único livro didático permitido nas escolas públicas, o livro de leitura compreendia um objeto cultural e era, ainda, um instrumento de ensino da língua e da leitura e um auxiliar do trabalho docente.

Segundo Bittencourt (1993, p. 3), o livro escolar é uma mercadoria que atende aos interesses do mercado, seguindo a evolução das técnicas de fabricação e comercialização. Mas, além disso, é também o "depositário" de muitos conteúdos educacionais que retratam conhecimentos e valores considerados importantes na sociedade em uma determinada época. Com base nessa afirmação podemos avaliar essa literatura escolar em suas várias instâncias e formas; por exemplo, como foi pensada, como se apresentava (formato, aspecto), de que se constituía, como era organizada, o que pretendia, como era utilizada e a quem era destinada.

Os conhecimentos estipulados para serem ensinados nas escolas primárias estavam vinculados à leitura. Como assinalam Chartier e Hebrard (1995), a era da leitura escolar foi inaugurada com os sistemas estatais de ensino no último terço do século XIX, quando a escola primária passa a servir aos interesses do Estado, convertendo-se no lugar em que se aprende a ler e no qual se exercitam as habilidades qualitativas da leitura.

Nesse contexto, a leitura escolar é advogada tendo em vista as suas amplas finalidades, como, por exemplo, a indicação da leitura de bons livros, capazes de contribuir para a educação moral e o doutrinamento político das camadas populares.

Diante desse novo panorama, as séries graduadas de leitura ocupam lugar de destaque. As editoras passam a produzir incessantemente uma literatura escolar até então inexistente. Esse período é marcado pela constituição de um saber escolar e pela transformação de uma sociedade escravagista em uma sociedade do trabalho livre (Bittencourt 1993), resultando daí uma nova concepção de vida social, que precisava ser aprendida na escola.

Portanto, nessa época, a literatura escolar passa a ser protagonista da história da leitura no Brasil, por ser considerada, além de outras implicações, a grande fonte de renda das empresas editoriais.

Enfim, o livro didático assumiu um papel importante na praxis educativa, tanto como instrumento de trabalho do professor, quanto como único objeto cultural ao qual a criança tinha acesso no final do século XIX e início do XX.

Assim, selecionamos duas séries graduadas de leitura para análise, a de Felisberto de Carvalho e a de Puiggari-Barreto, por constatarmos que ambas foram criadas na mesma época, por seguirem estilos diferentes e por terem sido muito utilizadas nas escolas públicas primárias do estado de São Paulo no final do século XIX e início do XX.

As séries graduadas de leitura compõem-se de três, quatro e até cinco livros (primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto livros de leitura), nos quais estão distribuídos todos os conhecimentos a serem ensinados desde o primeiro até o último ano da escola primária. Cada livro equivale a um ano letivo. Os conteúdos estão divididos por lições ou títulos. As lições são apresentadas com grafias variadas nas formas e nos tamanhos e, geralmente, possuem gravuras.

Os autores das séries graduadas estavam preocupados em organizar os saberes de acordo com os novos parâmetros ditados pelo Estado, na época, no sentido de inovar a educação, levando em conta os modelos culturais e o projeto político-social então vigentes. Dessa forma, no âmbito curricular estabelecido pelo Estado, verificamos que:

a organização dos conteúdos do programa seguem o princípio da concretude e da utilidade. Inicialmente, o programa de 1894 arrola noções básicas das ciências fontes: Física, Química, Zoologia, Botânica, Mineralogia e Geologia. A partir de 1905, verifica-se uma maior integração dos conteúdos sob a rubrica Ciências Físicas e Naturais – Higiene, compreendendo o estado dos animais conhecidos, tendo em vista o sistema taxionômico: animais vertebrados e invertebrados, domésticos, úteis, nocivos ao homem e à agricultura, aves e insetos, estudo das plantas, as partes do corpo humano. As noções de Física e Química compreendem o estudo sobre o ar, a luz, os minerais, o calor. (Souza 1998, pp. 15-16)

Como exemplo, temos a série de leitura de Felisberto de Carvalho em que, nos cinco livros que a constituem, estão desenvolvidos todos os temas citados acima.

Porém, um outro tipo de livro de leitura foi muito utilizado nas escolas primárias, aquele que traz no seu corpo apenas assuntos de cunho moral, poesia, histórias do dia-a-dia das crianças na família e na escola e, também, alguns textos de história falando dos feitos patrióticos e dos heróis brasileiros. Nesse estilo, temos a série graduada de leitura Puiggari-Barreto, de autoria dos professores Romão Puiggari e Arnaldo de Oliveira Barreto. São séries de leitura que, pelo perfil, eram utilizadas nos momentos destinados às aulas de leitura.

Verificamos que a preocupação dos autores estava direcionada para o desenvolvimento das habilidades de leitura e para o cultivo de bons hábitos de moral, civismo e bom comportamento social, além de trazer para os livros de leitura as belezas do Brasil – uma incansável tentativa de abrasileirar as obras didáticas e despertar o nacionalismo.

 

A série graduada de leitura de Felisberto de Carvalho e suas feições

A forma de apresentação de um livro didático, isto é, a sua forma física, é um item importante a ser analisado. A atenção dispensada pelos autores a esse aspecto, na verdade, contribui para que se possa detectar para qual público essa literatura está sendo produzida: quem se quer atrair, e de que maneira. É nesse formato que se deverão imprimir os aspectos do novo, do revolucionário e do melhor. Portanto, existe uma intenção implícita, antecedendo a decisão editorial e o trabalho de oficina.

Roger Chartier (1990) afirma que, para que as obras adquiram sentido, é preciso reconstituí-las estabelecendo relações entre três pólos: o texto, o objeto que lhe serve de suporte e a prática que dele se apodera. É preciso abordar o texto didático em toda a sua materialidade, investigando formato, capa, qualidade do papel e a relação entre signos e imagem.

No final do século XIX, no ano de 1892, o professor Felisberto Rodrigues Pereira de Carvalho publica, pela Livraria Francisco Alves1 o Primeiro livro de leitura (142 p.), o Segundo livro de leitura (186 p.) e o Terceiro livro de leitura (216 p.). Em 1895, lança o Quarto livro de leitura (290 p.) e o Quinto livro de leitura (389 p.)2

Os livros de leitura da sua coleção apresentam-se de uma forma muito atrativa, em tamanho médio manuseável (conforme expressão de Roger Chartier), com capas coloridas, estampando várias gravuras referentes aos assuntos neles tratados. Seu conteúdo está organizado por lições, no sentido de facilitar e orientar o trabalho do professor que utilizava, em geral, uma lição por dia. Todas as lições apresentam gravuras que, segundo o autor, valorizam as obras e, ao mesmo tempo, são eficazes no auxílio do ensino da leitura – tornam as lições atrativas, despertando na criança o desejo de saber acerca do assunto em questão.

Nas lições aparecem até três tipos de grafia. A simplificada, de uso obrigatório, conforme decreto recente, à época, do governo brasileiro; a vertical, para os exercícios de cópia e a grafia inclinada. O tamanho das letras varia de acordo com o objetivo que se quer atingir no decorrer das lições e, também, no que se refere ao grau de dificuldade.

De 1892 a 1934, o primeiro livro de leitura dessa coleção chega à 119a edição, o que confirma a sua grande utilização nas escolas públicas.

Em cada livro de leitura são designadas funções importantes determinadas pelas indicações metodológicas, pela organização dos conhecimentos de acordo com o grau de dificuldade e, também, pelos exercícios criados para os alunos.

Para a concretização dessas tarefas, o autor prepara o professor para realizá-las com sucesso, expondo antes das lições alguns dados teóricos e alguns passos que devem ser seguidos para que os objetivos sejam alcançados. Aquilo que estava exposto antes das lições determinava o que se deveria fazer com as mesmas e de que forma deveriam ser utilizadas, assim como definia posições entre autores e professores sem perder o elo de dependência estabelecido entre ambos.

Analisando o conteúdo acerca da metodologia contida nesses cinco livros de leitura de Felisberto de Carvalho, observa-se que o autor também direciona os passos do professor, mostrando como e quando se deve ministrar essas aulas. Primeiro a criança adquire o código, em seguida treina essa leitura até que se torne corrente e compreensiva; isto é, a criança deverá compreender o que está lendo para que, então, essa leitura passe a ser expressiva, gere idéias e proporcione novas articulações.

Para traçar esses passos, o autor fez uso de trechos de seu Tratado de methodologia. Nele está contida uma coletânea das teorias de educação mais discutidas da época.

Os conteúdos das lições estavam organizados consoante o ideal almejado naquele momento, que era a formação da nacionalidade mediante a formação do cidadão republicano.

A escola assumiu a tarefa de contribuir para a formação do caráter dos meninos e o livro de leitura constituía-se em um aliado importante, cujo autor, consciente de todos os conceitos que permeavam as discussões e reflexões da época a respeito da formação moral do cidadão, procurava aglutinar em sua obra conhecimentos que priorizassem esses preceitos moralizantes, tornando-a, assim, um objeto cultural portador de valores que iriam auxiliar o professor na concretização desses objetivos – ensinar a ler, escrever e formar o homem de bem, dele estirpando, então, os vícios da sociedade.

Verificamos nessa coleção a grande importância que tinha a instrução moral da criança no dia-a-dia da escola. Alguns temas merecem uma atenção especial. Por exemplo, os deveres do menino relativos à escola, como a assiduidade, o trabalho e o cuidado com o asseio do corpo.

A escola atendia um grande número de crianças. A convivência com a heterogeneidade era inevitável. Portanto, o cultivo da higiene tornava-se necessário no sentido de mudar hábitos, reservando-se para a escola o lugar no qual se adquiria uma passagem para o mundo civilizado, ou melhor, nesse caso, a escola funcionaria como agência que, pelo seu próprio caráter, transformaria em cidadãos os projetos de gente materializados na infância (Boto 1990, p. 212).

Foram estabelecidas normas de conduta moral e cívica que propagavam o culto à pátria, à família e à escola, verificando-se a predominância de uma concepção positivista na reorganização das idéias que constituiriam o imaginário republicano. Segundo José Murilo de Carvalho,

A elaboração de um imaginário é parte integrante da legitimação de qualquer regime político. É por meio do imaginário que se podem atingir não só a cabeça, mas, de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. É nele que as sociedades definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e futuro. (1990, p.10)

A comparação entre pátria e mãe constitui uma forma de tocar o coração do leitor que, num processo lento, mas gradual, passa a assimilar a idéia de que é mesmo filho da pátria.

Outros conceitos são ditados e introjetados em pequenas doses, constantes, em forma de exercícios de leitura e de ditado, como o conceito de nação, Estado, poderes, trabalho, propriedade e República, dentre outros. Uma urgência para o Estado, no final do século XIX e início do XX, era tornar-se o grande portador da verdade.

O projeto de ampliação e reformulação da instrução popular seria um plano imprescindível para atingir o progresso. A maior meta era transformar os súditos em cidadãos republicanos. Portanto, textos enaltecendo a República contribuíam para a formação de um juízo de valor, pois ao mesmo tempo que se informava de que se constituíam os regimes monárquico e republicano, já se convencia, sem possibilidades de vacilo, qual era o melhor caminho para a sociedade brasileira.

A série de Felisberto de Carvalho ainda contemplava assuntos concernentes a várias disciplinas que compunham o currículo das escolas primárias paulistas, com lições de gramática, sistema métrico, Zoologia, Botânica, Agronomia, Geografia – apresentando alguns elementos químicos que compõem a natureza, além de algumas lições de História do Brasil e muitas poesias de autores brasileiros e portugueses, retratando o amor à pátria, ao próximo e, também, enaltecendo as belezas do Brasil.

Nos dois últimos livros da série, o autor volta a olhar para outras questões. A disseminação da leitura já não é fator primordial nesse estágio da aprendizagem, mas sim sua interdição. Era preciso cercear a leitura, e de forma sutil, prescrevendo bons textos, trazendo para a escola, e conseqüentemente para os livros de leitura, a "boa literatura", que complementaria a cultura escolar.

Uma primeira intenção do autor poderia ser colocar o jovem em contato com a cultura da época, com o texto literário, o qual era considerado um gênero de grande valor. Uma segunda seria a de transformar a relação com a literatura em pretexto para outras aprendizagens, como o ensino eficaz da língua. O escrever bem, e bonito, estava associado, sem dúvida, ao estilo literário. Portanto, a poesia passa a ser modelo de escrita ideal a ser cultivado, no sentido de promover a ampliação da habilidade do bem escrever.

Os versos também poderiam contribuir para o desenvolvimento da linguagem oral por intermédio dos exercícios de dicção. "Versos escolhidos, trechos de boa literatura, pensamentos em linguagem castiça, devem ser dados com esse intuito aos alunos" (Carneiro Júnior et al. 1918). Essas são as instruções dos Inspetores de Instrução Pública na obra Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar – uma das publicações editadas para auxiliar professores na prática docente. A utilização da literatura nos livros didáticos constituía-se em recurso comum na escola dessa época.

A maioria dos poemas retratam temas que enaltecem a natureza, os acontecimentos históricos e as belezas do Brasil desde o descobrimento.3

A série graduada de leitura de Felisberto de Carvalho traz uma proposta de ensino a ser sedimentada e incorporada como saber elementar de uma escola que estava se organizando para atender à nova demanda, a qual exigia uma nova postura de todos os sujeitos envolvidos nesse processo. Nesse sentido, o livro de leitura seria o veículo pelo qual seriam transmitidos valores, idéias e concepções de mundo, além de desempenhar o papel de agente auxiliar – e ao mesmo tempo formador – da prática docente.

Nos cinco livros de leitura de Felisberto de Carvalho, as formas utilizadas para conduzir o ensino são, segundo o autor, variadas e inovadoras, porque trazem novas possibilidades de desenvolvimento dos conteúdos, permitindo ao aluno exercitar e memorizar aquilo que se pretende que ele aprenda.

Redigir com estilo e perfeição equivale a dizer que o menino adquiriu nobreza, correção, precisão, naturalidade, clareza, harmonia e concisão. Apto a ler e a escrever, o aluno precisa discernir o que deve ler e o que deve escrever.

No período republicano o Estado amplia as finalidades estabelecidas para a escola elementar. O ensino da língua nacional torna-se fundamental para a homogeneização, assim como a prescrição de normas de comportamento moral e cívico. O autor da série concretizou todos os padrões estabelecidos pelo governo, no que se refere a conteúdo, linguagem, propriedade dos assuntos e didaticidade.

 

Puiggari-Barreto – "lições ingênuas e vivazes de boas maneiras, tolerância, respeito e afeição"

Uma outra série de livros de leitura passa, a partir de 1904, a dividir espaço no mercado editorial. Trata-se da série graduada de leitura Puiggari-Barreto, que foi criada pelos professores Romão Puiggari e Arnaldo de Oliveira Barreto. Essa coleção representa outro estilo de livros de leitura e é muito semelhante à obra italiana intitulada Cuore, de Edmundo de Amicis, a qual retrata em suas páginas, em forma de diário, histórias vivenciadas por um menino de nome Henrique. Nesses episódios estão relatados o seu dia-a-dia na escola, na família e com os amigos, sempre evidenciando as atividades de cunho moral e patriótico. Na série Puiggari-Barreto, um narrador conta a história de Paulo e o seu convívio no lar e na escola, com os amigos e professores. Cada livro da série representa um ano de escola do personagem Paulo. Constitui-se essa série de quatro livros – Primeiro livro de leitura (240 p.); Segundo livro de leitura (203 p.); Terceiro livro de leitura (227 p.) e Quarto livro de leitura (184 p.), e de acordo com os próprios autores, trata-se de um trabalho mais didático que literário, composto por lições repletas de ilustrações. A capa é dura, a encadernação é razoável, a impressão feita em papel sem brilho, porém, de qualidade inferior ao daquela de Felisberto de Carvalho.

Os autores não subscrevem instruções aos mestres. Tem-se apenas a apresentação da página de rosto (com o nome da série, autores e suas funções, indicação da aprovação das obras pelo governo, a edição e o endereço da editora).

As obras não estão divididas por lições e sim por títulos, que seguem uma seqüência de assuntos e histórias do cotidiano do menino Paulo. Os autores relatam desde o primeiro dia de aula do menino, até a conclusão do quarto ano escolar. São histórias que tratam de situações, comportamentos, atitudes e acontecimentos do dia-a-dia de uma família brasileira idealizada.

O primeiro, o terceiro e o quarto livros foram escritos com um único tipo de grafia, a impressa vertical. No segundo livro aparecem dois tipos de grafia – a impressa vertical e a manuscrita. Porém, os tamanhos variam de livro para livro.

Os quatro livros dessa série de leitura apresentam-se formalmente de uma maneira bem mais simples e prática do que a apresentada pela série de Felisberto de Carvalho. As gravuras são maiores e retratam as cenas dos respectivos personagens do texto. Exercícios para os alunos estão presentes somente no quarto livro.

A série graduada de Romão Puiggari e Arnaldo de Oliveira Barreto constitui um estilo próprio de literatura didática, criada no sentido de atender a uma determinada forma de ensino da leitura, que seria a leitura corrente. As lições deveriam ser utilizadas em um momento específico da aula.

Justificamos, dessa forma, a falta de instrução para os mestres antes das lições da série Puiggari-Barreto, por concluir que seus autores renunciam a advertências e prefácios e se preocupam em criar essa coleção para o ensino aprazível da leitura corrente, recheada de lições que prescrevem normas de comportamento e civismo, estipulando modelos de pessoas que deveriam ser imitados e incorporados pelas crianças.

Enfim, a proposta dos autores representa uma outra concepção de leitura e um outro tipo de livro didático, que revela em suas lições uma preocupação maior com a leitura prazerosa – aquela que iria despertar na criança o gosto pelo ato de ler, traduzindo-se assim em um trabalho mais ameno, porém menos utilizado, posto que abrangia conhecimentos mais restritos e objetivos que não contemplavam outras instâncias dos saberes escolares, além do ensino da leitura e de condutas morais e cívicas.

As poesias, apresentadas nos três primeiros livros, são escritas com um vocabulário simples e com rimas leves. São as famosas poesias escolares, criadas pelos próprios autores da série ou por autores desconhecidos. No quarto livro tornam-se mais complexas, mas ainda de fácil entendimento.

No primeiro livro da série, quase todos os poemas são de autoria dos próprios autores e retratam cenas envolvendo os personagens da coleção. Muitas estão escritas no caderno de poesias do menino Paulo, que apreciava versos. Romão Puiggari e Arnaldo Barreto escolheram poemas que trazem como temas o analfabetismo e as belezas do Brasil, os bandeirantes e, também, a grande escuridão da ignorância, poemas que enfatizam a importância da instrução para o progresso.

Os autores preocupam-se com a eficiência de seus textos e a poesia constitui-se em um recurso a mais para se atingir o fim proposto. "Na escola, todas as oportunidades deveriam ser aproveitadas ao máximo para instruir e educar. Na literatura, na poesia, nas ciências, na ginástica, na música, em tudo se podia extrair uma lição moral, uma lição de civilidade" (Souza 1996, p. 196).

Além das poesias e dos hinos, era preciso que as crianças conhecessem a história do Brasil, de seus heróis. Os autores dos livros de leitura não hesitaram em apresentar em suas obras episódios da história em ordem cronológica.

Geralmente, a história contemplada por esses livros apresenta-se de forma fragmentada, constituída de informações sobre costumes indígenas, sobre as tradições, feitos heróicos, como a Independência, as lutas, até chegar à proclamação da República. Ao se prestarem a contar a história do Brasil em forma de discurso pedagógico, os autores dos livros de leitura a reduziram e simplificaram, estabelecendo com isso suas próprias concepções de história nacional.

A escola precisava construir um corpo de regras a serem cumpridas e encontrar subsídios que auxiliassem na constituição de uma imagem. A demarcação de um tempo de entrada, do recreio, das lições e de saída permitiu fixar uma certa rotina escolar, além de estabelecer um tempo útil e sagrado determinado para a aquisição dos saberes escolares.

Dentro dessa perspectiva de organização da escola primária, os discursos apresentados pela literatura escolar enfocam, dentre outros fatores, as práticas de higiene. As imagens apresentadas estabelecem um vínculo com a palavra escrita e conseguem, como artifício didático, unir forças entre texto e iconografia, despertando o interesse, fixando e inculcando nas crianças a mensagem do poder da higiene, considerada como um conjunto de preceitos que buscam a perfeição da natureza humana, por intermédio da educação.

Nos quatro livros da série Puiggari-Barreto, os assuntos e as imagens ignoram totalmente a questão do preconceito. Em nome de um discurso democrata, para os autores, todos devem ter acesso às mesmas oportunidades, como a instrução, o trabalho e o lazer. Mas não são colocados em discussão ou evidência esses temas.

A série de leitura Puiggari-Barreto apresenta exercícios para serem feitos pelos alunos somente no quarto livro, os quais constituem-se de gravuras que retratam acontecimentos históricos do Brasil ou de lugares característicos. Nesses exercícios os alunos deveriam observar a figura e depois discorrer sobre o assunto – são os chamados exercícios de memória –, porém, as imagens não condizem com o texto da lição.

Quanto ao conteúdo implícito das lições, detectamos certa rigidez na imposição de determinados valores apresentados pelos autores. Essa não é uma característica atribuída somente a essa série de leitura, mas a toda literatura escolar produzida na época. Trata-se de verdades preestabelecidas e inquestionáveis que, alimentadas em nome de uma ideologia positivista, retratam uma preocupação com a transformação do homem dentro de uma nova sociedade moderna.

Mas, Romão Puiggari e Arnaldo de Oliveira Barreto optam por um estilo mais comum de livros de leitura, inspirado na obra Cuore, de Amicis, e fogem totalmente do "modelo enciclopédico", criado por Felisberto Pereira Rodrigues de Carvalho.

 

Considerações finais

Mediante o estudo e análise da série de leitura Felisberto de Carvalho e da série de leitura Puiggari-Barreto, verificamos que foram criadas para atender a uma nova demanda escolar em constituição no final do século XIX e início do XX.

A primeira traz um modelo específico e um estilo totalmente singular no que se refere à organização e à composição do conteúdo, e representa um exemplo de livro didático para ser utilizado como único ou principal recurso do professor na escola primária. Seu autor teve a preocupação de aglutinar em uma série de cinco livros todos os conhecimentos que julgava imprescindíveis à escola elementar. Portanto, Felisberto de Carvalho cria um modelo enciclopédico de livro didático, revelando todo um cuidado em orientar o professor para atuar em sala de aula, utilizando o livro de leitura como sua principal ferramenta de trabalho para ensinar uma gama de conhecimentos úteis por meio da atividade da leitura. Ao professor, que atuava nessa escola ainda em processo de organização, fica a total responsabilidade pela formação da criança, futura cidadã.

Aos autores de livros didáticos coube a responsabilidade de, por intermédio de suas obras, instruir, formar e dirigir o trabalho docente. As várias edições da série em questão podem ser justificadas talvez pelo seu caráter específico, por trazer no seu conteúdo conhecimentos a serem ensinados já organizados e devidamente orientados – porque comportam o que se deve ensinar e até mesmo de que forma se deve ensinar.

Já a série de leitura Puiggari-Barreto constitui-se em um modelo mais comum de livro de leitura, pois descreve em suas lições histórias amenas, ingênuas e de fácil entendimento e, portanto, mais atrativas para as crianças.

Nas primeiras décadas do século XX, essas duas séries dividem com outras o espaço no mercado editorial e o espaço escolar. Porém, a série de Felisberto de Carvalho foi utilizada em um maior número de estados brasileiros, enquanto a série de leitura Puiggari-Barreto tinha sua utilização restrita aos estados de São Paulo, Santa Catarina e Espírito Santo, o que pode justificar também o maior número de edições da primeira.

Felisberto de Carvalho contempla, nos seus cinco livros, a leitura elementar (primeiro livro), a leitura corrente (segundo e terceiro livros) e a leitura expressiva (quarto e quinto livros) – valendo-se, para isso, de textos e exercícios que, segundo o autor, desenvolvem essas habilidades.

Já a série Puiggari-Barreto prioriza o ensino da leitura corrente, apresentando lições a serem utilizadas em momentos específicos para a aula de leitura. Os outros conhecimentos úteis ficam a critério do professor. As lições compostas por histórias agradáveis apresentam uma feição que se identifica mais com o aluno. Por seu formato e estilo, entende-se que tenha sido criada para o manuseio pelo aluno.

O contrário acontece com a série de Felisberto de Carvalho, que tudo indica ter sido criada para atender prioritariamente às necessidades do professor, como sujeito responsável pela organização do trabalho desenvolvido dentro da escola – no caso, a transmissão de conhecimentos já previamente estabelecidos.

Este estudo revela as diferentes faces do livro de leitura e retrata toda uma preocupação da época em legitimar a escola, como instituição responsável por introduzir conhecimentos básicos atinentes às ciências naturais, além da formação moral e cívica do cidadão. Nesse contexto, os livros de leitura desempenham um papel de suma importância, porque trazem impressos em suas páginas toda uma atmosfera acerca dos ideais de um determinado período de nossa História da Educação.

 

NOTAS

1. Na capa das edições do primeiro, do segundo e do terceiro livros de leitura de Felisberto de Carvalho aparece como editora a Livraria Paulo de Azevedo & Cia., também de propriedade de Francisco Alves, no Rio de Janeiro.

2. O quarto e o quinto livros formavam um só livro, mas, por designação do Estado, foram divididos em dois livros, surgindo um quinto livro de leitura, conforme mencionado em nota do editor do quarto livro de leitura.

3. Como, por exemplo, os poemas retirados da obra A Confederação dos Tamoyos (1856), de Domingos José Gonçalves de Magalhães.

 

 

The faces of the reading book

ABSTRACT: This study is a contribution to understanding the historical development of reading books in Brazil, in particular in the state of São Paulo, an analyse of some text books more frequently used in the primary schools at the end of XIX century and at the beginning of XX century (1890-1920), as a cultural instrument. We describe their different faces and their use in the school in terms of contents, objectives, format, publisher production and copyright. We attempt to determine the intersection between teaching in classroom and history of reading.

 

 

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* E-mail: jdilson@unioeste.br

** Professora Assistente Doutora – Departamento de Ciências da Educação – Faculdade de Ciências e Letras – Unesp – Campus de Araraquara. E-mail: rosa@fclar.unesp.br