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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.22 no.56 Campinas Apr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622002000100001 

APRESENTAÇÃO

 

 

Quem são as meninas? Este Caderno pretende, por intermédio de resultados de pesquisas, contar um pouco da vida das crianças do sexo feminino em idade escolar. Afinal, tratar da questão feminina como tema transversal, como fazem os PCNs, parece-nos insuficiente (embora necessário...).

Sobre a professora, felizmente, hoje temos várias pesquisas e a especificidade feminina na profissão docente também tem sido cada vez mais investigada, podendo contribuir para a formação de professores e professoras rumo à superação da educação sexista que já vem sendo denunciada desde o final dos anos 60 (embora a questão de gênero na pesquisa educacional ainda seja um tema pouco explorado: Fulvia Rosemberg (2001), estudando a produção apresentada nos últimos anos nas reuniões anuais da Anped, constatou apenas 3% delas trabalhando com gênero).

Sobre as crianças para além do(a) aluno(a), embora seja um tema que surge recentemente nas pesquisas sobre o ensino fundamental, é um assunto que desde o final dos anos 70 vem sendo bastante enfocado nas investigações sobre creches e pré-escolas brasileiras. Mesmo assim, ainda é bastante tímida a produção que, além de referir-se à criança, dê-lhe de fato voz (é bom lembrar que muitas das crianças que freqüentam espaços coletivos de educação na esfera pública, embora ainda não falem, comunicam-se e esperam metodologias não-convencionais: "ouvirem" suas linguagens não-verbais). No entanto, assim como as inúmeras pesquisas que tratam das relações de gênero não costumam abordar as especificidades das diferentes idades e fases da vida ¾ principalmente aquelas que dizem respeito às crianças ¾, também as investigações que privilegiam as diferenças etárias, e a infância em particular, raras vezes fazem análises de gênero.

Estas lacunas sugeriram então este Caderno sobre as meninas, reunindo cinco pesquisas realizadas nas camadas populares. Quatro delas, embora não tivessem o objetivo específico de estudar as meninas, quando colheram os dados sobre a infância, não desprezaram as diferenças entre sexo e as relações de gênero.

José de Souza Martins, em 1991, escrevendo sobre a criança sem infância no Brasil, dá a palavra para a menina Regimar falar da luta pela terra e pela vida e, em 1975, pudemos ler a tradução do livro da italiana Bellotti, Educar para a submissão, que apresenta a educação escolar das meninas na Itália. Ainda tendo esses livros como referência, esta presente publicação pretende tanto contribuir para preencher algumas das lacunas acadêmicas apontadas, como contribuir para uma educação mais igualitária no convívio das diferenças de idade, gênero, classe, raça, mostrando a criança guarani, a infância de três educadoras de um programa de educação não-formal, a menina-mulher e a mulher-menina no corte de cana, a menina trabalhadora nas franjas do rural urbano e as brincadeiras de meninas na zona rural. Como diz uma das autoras, Dulce Whitaker, "para escapar às armadilhas dualistas cumpre, em primeiro lugar, reconhecer a impossibilidade de dar conta do tema".

A história oral utilizada como metodologia nas pesquisas aqui publicadas é uma contribuição acadêmica para se dar voz a estas crianças que falam. A discussão sobre educação no rural também é outra contribuição destes artigos que foram, além das relações entre capital e trabalho, observando gênero e infância.

Este Caderno, como é sua característica, vai problematizar aspectos de uma temática relevante: a escolarização das mulheres e o trabalho infantil na perspectiva da diferenciação sociocultural, buscando também a superação das desigualdades. O otimismo expresso nos artigos (três escritos por mulheres e dois por homens) é contagiante. Longe de apenas lamentar a situação de opressão vivida pelas meninas, as pesquisas denunciam-na e mostram sinais de resistência e de busca de autonomia e dignidade.

 

 

ANA LÚCIA GOULART DE FARIA
(Professora e membro do GEPEDISC, da Faculdade de Educação da UNICAMP. E-mail: cripeq@unicamp.com.br)