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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.22 no.56 Campinas Apr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622002000100003 

RECORTANDO E COLANDO AS IMAGENS DA VIDA COTIDIANA DO TRABALHO E DA CULTURA LÚDICA DAS MENINAS-MULHERES E DAS MULHERES-MENINAS DA ZONA DA MATA CANAVIEIRA PERNAMBUCANA

 

MAURÍCIO ROBERTO DA SILVA*

 

(...) O cassaco de engenho
Quando é mulher:
É um saco vazio
Mas que se tem de pé.
O cassaco de engenho
Mulher é como um saco:
De açúcar, mas sem ter
Açúcar ensacado.
O cassaco de engenho
Quando é mulher:
Não é um saco capaz
De conservar, conter.
É um saco como feito
Para se derramar:
De outros que não se sabe
Como se fazem lá.

(Fragmentos do poema "Festa na casa-grande",
de João Cabral de Melo Neto)

 

 

RESUMO: Este texto trata de diversos aspectos macro e microssociais da vida cotidiana das meninas-mulheres e das mulheres-meninas da Zona na Mata Canavieira Pernambucana. Procura mostrar, por um lado, a alienação e o conformismo que se expressam na dura e perversa vida de trabalho precoce, dupla jornada de trabalho e trabalho doméstico dessas meninas e mulheres. Por outro lado, valoriza outros aspectos relacionados à transgressão e resistência da cultura lúdica construídas em surdina na vida cotidiana, para além da alienação e do conformismo, a saber: o lazer/lúdico construído à revelia do sistema patriarcal e do projeto de estranhamento do trabalho capitalista no mundo rural.

Palavras-chave: Meninas. Mulheres. Infância.Trabalho lúdico.

 

 

Por que as meninas e as mulheres?

Este texto não se caracteriza como uma produção essencialmente acadêmica sobre gênero, mas, sim, sobre as questões macro e microssociais da vida cotidiana, entendendo-a, de acordo com Heller (1994), em sua heterogeneidade universal, e Lefebvre (1958), com a riqueza e pobreza da vida cotidiana, dialeticamente, isto é, em suas generalidades e particularidades. Entretanto, no que concerne ao cotidiano das meninas e mulheres da Zona Canavieira Pernambucana, priorizarei o mundo do trabalho e suas relações com a construção da cultura lúdica. Assim, procuro contemplar suas trajetórias de vida, sobretudo levando em consideração a fusão das questões de classe e gênero.

Considero importante destacar que as reflexões contidas neste artigo surgiram pelo imprevisível e pelo acaso, típicos de uma pesquisa que considera o processo e não o produto, processo esse que privilegia os dados oriundos da inserção do pesquisador no real, melhor dizendo, pelas palavras de Hugo Assman (1995, p. 5-8), caminhos feitos no caminhar. Portanto, trata-se de questões acerca do universo feminino que brotaram durante as reflexões teórico-metodológicas do fazer investigativo. Nestes meandros, emergiram temas transversais que se constituem, assim, parte dos resultados achados da tese de doutorado1 intitulada "O assalto à infância no mundo amargo da cana-de-açúcar: Onde está o lazer/lúdico? O gato comeu?".2

Os resultados da tese indicam conclusões provisórias, com base nas diversas categorias de crianças envolvidas no processo investigativo. Esses resultados trazem em seu bojo: a luta das crianças pela vida/sobrevivência, a presença do corpo feminino, produtivo direta e indiretamente para o capital, respectivamente, no eito (cana) e nas tarefas domésticas, cujas conseqüências visíveis são as máculas do envelhecimento precoce. Os resultados também acenam para a presença do corpo feminino brincante, aquele que é produtor de resistências e rebeldias à ordem alienante estabelecida, por meio das vivências da cultura lúdica. Os doces-jogos e brincadeiras das meninas e mulheres resistem, de um lado, aos condicionamentos culturais da brincadeira como futilidade e coisa de mulher, representação esta ainda presente no senso comum; de outro lado, às intempéries e iniqüidades capitalistas no meio rural açucareiro. Os jogos das meninas e mulheres, assim como os dos meninos e homens, são construídos no mundo amargo da cana-de-açúcar, em que se destaca de maneira comovente a amarga vida cotidiana, contrastando com a rebeldia, a doçura, a delicadeza, a estética de suas gestualidades, seus afetos, suas vozes agudas, seus gritos graves por justiça, respeito e dignidade. Enfim, contrastando com suas brincadeiras-de-roda e cantos de acalanto, os quais são constructos e legados culturais que elas criam, recriam e preservam para a humanização do lugar.

As condutas lúdicas verificam-se, para ambos, em especial para as meninas e mulheres, com seus múltiplos afazeres domésticos ou duplas jornadas de trabalho, num tempo residual, exíguo e precário, para eles/elas e suas famílias; tempo este permeado de constrangimentos e alienações, por conseguinte, um tempo não-livre. A cultura lúdica, portanto, é tecida à luz das políticas emergenciais e perpetuadoras da miséria absoluta, isto é, da privação e da carência de políticas públicas efetivas e estruturadoras, tendo como pano de fundo as destruições do capitalismo no setor sucroalcooleiro que, de forma iníqua, provocam: desemprego, subemprego, exploração, trabalho clandestino, prostituição, moradias precárias, destruição do meio ambiente, mais-valia dos usineiros que gerou a falência das usinas, êxodo rural, mendicância. O tempo de lazer/lúdico, o gato, digo, o capitalismo ainda não comeu de todo. Todavia, continua destruindo dia após dia a infância, a juventude, matando e destruindo a força humana de trabalho e a subjetividade dos trabalhadores adultos e velhos, meninos e meninas, homens e mulheres; enfim, apesar dos protestos, acelerando a velhice precoce desses seres sociais para o abismo dos sem-presente, sem-futuro e sem-cidadania.

Durante todo o tempo da pesquisa, nunca tive intenção em adentrar especificamente no universo feminino. No entanto, surpreendi-me e também com a problemática da condição humana/desumana das meninas/mulheres da Zona Canavieira Pernambucana,3 além de aspectos relacionados à classe, religião, cultura e raça/etnia. Sensibilizei-me, portanto, com as diversas facetas da vida cotidiana feminina, ainda pouco contadas e consideradas pelos estudiosos. Por esse motivo, deixei-me conduzir por um exercício de alteridade, levando em consideração que o outro menina/mulher se reflete no espelho com o menino/homem, o homem que também sou. Portanto, considerei que o pesquisador/homem/menino também é portador de um olhar que tem suas raízes nos confins do aconchegante e morno ventre feminino. Dito isto, fica relativamente claro que o que está em jogo, em última instância, é a reflexão sobre a tensão entre a degradação e a utópica emancipação da condição humana, em suma, do gênero humano em sua dimensão universal. Todavia, vale ressaltar que faço um recorte para um olhar sob as meninas e mulheres da Zona da Mata Canavieira Pernambucana, considerando, principalmente, a história de vida e a presença destas nessa região. Este texto surge, portanto, porque percebi que elas ainda são tratadas, de acordo com Panzutti (1997, p. 59), como eminência oculta, apesar de desempenharem um papel determinante na produção da vida material e imaterial do grupo familiar. Além disso, tomei como advertência e inspiração para escrever estas linhas as palavras do poeta pernambucano Marcus Acioly, parafraseando Victor Hugo durante a entrevista sobre a exploração do trabalho infantil e a possível supressão do tempo do lúdico na cana-de-açúcar: "(...) Quem já viu a miséria do homem, precisa ver a da mulher".

Ao voltar minhas atenções para a presença das meninas e mulheres na Zona Canavieira Pernambucana, inspiro-me nas idéias de Perrot (1988, p. 167-184) que lembra que, no Ocidente contemporâneo, as mulheres têm poderes e, por conseguinte, não são apenas excluídas perenes, nem coitadinhas. Segundo a autora, elas também podem ser vistas para além da representação dominante de donas de casa insignificantes, negligenciadas e negligenciáveis, oprimidas e humilhadas, ou ainda, de suas virtudes, como a intuição, que na perspectiva de Darwin (citado por Galeano, 1999, p. 70), "(...) eram virtudes características das raças inferiores".

Esta imagem da mulher pode ser, como diz Perrot (1988, p. 184), substituída pela mulher popular rebelde, ativa e resistente, guardiã das subsistências, administradora do orçamento familiar, a espinha dorsal, coração e a cabeça de onde emanam sensibilidade, afeto, zelo. Elas investem no privado, no familiar, no social e na sociedade civil, tendo um papel determinante no imaginário dos homens, preenchendo, dessa forma, suas noites e ocupando seus sonhos, nos quais ela ainda é considerada para muitos como o sexo frágil. Em contrapartida, as pesquisas feministas vêm repensando sobre o poder das mulheres, mostrando a vontade que elas têm de superar o discurso miserabilista da opressão e da fragilidade, visando a subverter o ponto de vista da dominação e desconstruir essas relações sociais milenares que oprimem a mulher nos espaços privado e público, urbano e rural. Tais pesquisas mostram, portanto, o outro lado da moeda, isto é, a presença e a ação da mulher, a plenitude de seus papéis, a coerência de sua cultura e a existência de seus poderes.

Apesar de tudo que foi colocado é preciso superar a idéia do poder feminino como uma guerra sexista entre mulheres e homens, meninos e meninas, pois "(...) na história e no presente, a questão do poder está no centro das relações entre homens e mulheres" (Perrot, 1988, p. 184). Quem sabe não seja esse o desafio que se nos impõe no início deste século/milênio, mas isso, é claro, se ouvirmos atentamente os versos do poeta:

(...) Os sexos estão talvez mais próximos do que se pensa e talvez seja esta a chave da grande renovação do mundo: o homem e a mulher, libertos de todos os seus erros, de todas as suas dificuldades, não tornarão a procurar-se como contrários, mas como irmãos e irmãs, como parentes. Unirão as suas humanidades para suportar juntos, gravemente, pacientemente, o peso da carne difícil que lhes foi dada. (Poema de Rainer Maria Rilke, escrito em 1903)

Para que isso seja factível, urge pensar/agir na dimensão da alteridade. Esta deve levar em consideração o outro menina/mulher, como sujeito múltiplo na dualidade do seu eu e em interação com a dualidade do outro, isto é, da alteridade como respeito e reconhecimento do outro na plenitude de sua dignidade e de seus direitos (Gusmão, 1999; Rúbio e Daolio, 1997; Frei Betto, 2000). Nestes termos, investigar a cultura do trabalho e a ludicidade das meninas e mulheres nos liames da região açucareira pernambucana significa, pois, levar em conta que estas se encontram nas teias urdidas da alteridade compreendida aqui como um duplo movimento opressivo de classe e gênero.

Isto implica, em primeiro lugar, percebê-las historicamente como meninas/mulheres duplamente humilhadas, ofendidas e aviltadas pelo sistema patriarcal. Em segundo lugar, reconhecê-las como sujeitos, que, a exemplo dos homens/meninos, trazem no corpo as marcas da dominação que portam já ao nascer, bem como do que eu denomino de constrangimentos de classe social (pobreza, fome, trabalho alienado etc.). Estas marcas de classe (pobreza, fome, miséria) fundem-se, portanto, com os constrangimentos de gênero, maculados historicamente pela dominação masculina patriarcal, forjando, assim, múltiplas alienações e repercutindo de maneira insofismável sobre suas identidades. Tais relações entre dominação de classe e questões de gênero poderão, consecutivamente, gerar impasses e dilemas, a saber: ser criança e ser menina, ser menina e mulher; ser menina, mulher, mãe, trabalhadora precoce, negra, nordestina e pobre ao mesmo tempo.

O epicentro deste texto é, pois, trazer à tona alguns recortes e achados da pesquisa, que, diretamente, dizem respeito ao mundo do trabalho e do lazer/lúdico das meninas-mulheres da Zona da Mata Canavieira Pernambucana. Ele tem de dar, introdutoriamente, visibilidade a suas trajetórias de vida no trabalho e no lúdico, sobretudo levando-se em conta que essas mulheres ainda são tratadas de forma generalizada como crianças, ocultando assim questões específicas do mundo feminino do âmbito da Zona da Mata Canavieira Pernambucana.

Esta reflexão é de suma importância, pois essas mulheres trabalhadoras, pobres e analfabetas, assim como as sertanejas, não constam, a exemplo das mulheres das famílias ricas do século XIX, nas páginas dos inventários ou livros de memórias. Assim, pouco se escreve sobre elas, talvez por não deixarem nenhum bem após a morte, nenhum registro que testemunhe a relevância social, cultural, econômica e política da história de suas vidas cotidianas; pouco se escreve, portanto, sobre as meninas e as mulheres, suas histórias de labuta e luta pela sobrevivência numa sociedade fundamentada no patriarcalismo (Falci, 1997, p. 241-242).

Vale destacar que, a partir do meu olhar, não é possível investigar as problemáticas referentes ao trabalho e ao lúdico das meninas em si, mas, sim, tratá-las imbricadas com as questões das mulheres trabalhadoras adultas. Esse meu posicionamento se verifica considerando os aspectos transgeracionais de gênero que envolvem meninas e mulheres, filhas, mães e netas. Assim, seguindo as trilhas desse raciocínio, visualizo duas categorias de sujeitos, quais sejam: as meninas-mulheres e as mulheres-meninas. Denominei as primeiras assim levando em conta a precocidade com que adentram no mundo feminino adulto, isto é, no trabalho, na sexualidade etc. Quanto às segundas, emprestei-lhes essa denominação uma vez que estas, talvez, por terem sido iniciadas precocemente em ritos de passagem para o mundo adulto, guardem ainda no cofre secreto de suas identidades um naco dos resquícios da menina-criança que, por pouco tempo, foram um dia...

Pelo que pude perceber na produção científica e nos documentos institucionais, há ainda muito o que escrever em prol das meninas e das mulheres em geral e, em especial, da região açucareira pernambucana. Raramente os estudos, principalmente sobre o mundo do trabalho, reconhecem o significado social de suas contribuições para a construção dos elementos macro e microssociais da vida cotidiana. A meu ver, falta ainda o reconhecimento dessas mulheres como produtoras de conhecimento, cultura, política, economia e história ¾com base em suas tarefas laborais mais diversas como lavadeiras, babás, empregadas domésticas, bóias-frias, doceiras, costureiras, parteiras, contadoras de histórias, amantes, apanhadeiras de água nos riachos, quebradeiras de coco etc. (Falci, 1997, p. 241-242).

As reflexões introdutórias e provisórias contidas neste texto se justificam considerando que a produção acadêmica, sobre a condição da infância trabalhadora brasileira, privilegia ainda, sobretudo nas Ciências Sociais, os enfoques voltados para a generalização de uma única infância e não de infâncias. Desse modo, fala-se ainda no senso-comum acadêmico, apesar de uma tendência de superação e da grande produção científica a respeito de uma concepção abstrata, a-crítica, a-histórica de criança, apontando-a como única e ligada a processos homogêneos de desenvolvimento, cultura e classe social. Não se trata, portanto, apenas de uma questão semântica, mas epistemológica, uma vez que, como sabemos, não existe somente uma criança, mas sim crianças. Nesse sentido, refiro-me fundamentalmente à criança-menina, quase que ausente das estatísticas, e não às crianças de forma generalizada; refiro-me, em suma, às crianças cujas trajetórias/histórias de vida também possuem dimensões de classe, gênero, cultura, raça/etnia, religião, de outras perspectivas ontológicas.

Além do exposto, justifico que a princípio não tinha a intenção de separar as meninas dos meninos ou pinçá-las na minha tese, no entanto, motivado pela priorização deste projeto editorial temático sobre as meninas, pela ausência de literatura específica sobre as meninas e as mulheres da Zona Canavieira Pernambucana, priorizei trazê-las para o debate. Nesta perspectiva, durante o trajeto deparei-me com algumas reflexões contidas nos escritos de Felícia Madeira (1997, p. 50-51) sobre as Trajetórias das meninas dos setores populares: Escola, trabalho ou quem mandou nascer mulher? Nestes, entre outros aspectos, a autora adverte para a preocupação específica para com a condição das meninas, tanto na produção acadêmica quanto nos organismos internacionais (exemplo: OIT, UNICEF, entre outros), cujo trato, segundo ela, é recente e raro.

Com base nesses arrazoados, busco não tratá-las simplesmente como crianças, como se todas elas fossem meninos, para, desse modo, não omitir a história e a saga das meninas e mulheres canavieiras. É claro que nessas reflexões sobre elas estão também os meninos e homens no que tange às questões universais relativas à luta pela terra, trabalho digno e políticas efetivamente sociais e públicas. Desse modo, privilegio as práticas sociais laborais e lúdicas das meninas e mulheres realizando, concomitantemente, um exercício de alteridade e crítica social acerca também das deploráveis condições de vida dos meninos e homens trabalhadores canavieiros.

Após essas ressalvas, fica claro, então, que não é possível fazer vistas grossas às lutas feministas em prol da eliminação da desigualdade, seja ela concebida como dominação masculina, patriarcado, desigualdade de gênero e de classe, cujas repercussões possuem dimensões sociais, culturais, econômicas e políticas propiciadas pela diferença sexual.

 

Contando um pouco da história da vida cotidiana das meninas-mulheres da Zona da Mata Canavieira Pernambucana

Os estudos de Dourado et al. (1999, p. 420) mostram-nos que, desde a época da escravidão, a presença de mulheres no processo produtivo da cana-de-açúcar foi sempre intensa, não só para as trabalhadoras adultas, mas também para as mais jovens, cujo salário era pago ao grupo familiar de acordo com o sexo e a idade e a qualidade do trabalho; além disso, era incorporado ao do chefe da família. Dessa forma, meninas e meninos, além de trabalharem no eito (cana) com o pai, aprendiam as bases da cultura agrícola na medida em que a família constituía também uma unidade de produção camponesa. Não obstante, havia a inserção de boa parte delas no trabalho da cana; muitas só trabalhavam no eito de acordo com a necessidade das famílias, principalmente em caso de doença ou morte do chefe da família. Assim, as meninas ajudavam as mães a cuidar do roçado, da criação de animais, bem como do trabalho doméstico.

Na obra de Gilberto Freyre4 Casa-grande e senzala é possível encontrar algumas pistas da história da vida cotidiana das meninas e das mulheres, assim como dos meninos. Segundo o autor, a mulher negra/escrava tem uma importante presença na constituição da raça e da cultura no âmbito da casa-grande e da senzala. As amas-de-leite, por exemplo, tiveram um importante papel na vida social do Brasil nos meados do século XIX.

Quando se fala na presença das mulheres na história da Zona da Mata Pernambucana açucareira, não se pode omitir o papel social e cultural da figura da boa ama negra (ama-de-leite) que, nos tempos patriarcais, criava o menino branco dando-lhe de mamar, lhe embalava a rede ou o berço, ensinava as primeiras palavras de português errado, o primeiro padre-nosso, a primeira ave-maria, o primeiro vôte! ou oxente. Além disso, a ama-de-leite foi responsável por grande parte da cultura lúdica ensinada por ela, como, por exemplo, as canções que eram transmitidas por meio da recriação e adaptação das canções de berço portuguesas, bem como as histórias portuguesas que eram adaptadas às condições regionais e ligadas às crenças africanas e dos índios (Freyre, 1997, p. 319).

Essas mulheres viviam no âmbito do Brasil patriarcal em meio ao ambiente voluptuoso das casas-grandes, repletas de crias, negrinhas, molecas, mucamas, sendo obrigadas pelos senhores de engenho ociosos, indolentes e preguiçosos a conviver num ambiente de depravação sexual e doenças como sífilis, inerente à escravidão, de tal modo que seus corpos eram freqüentemente a morada para as doenças venéreas que se propagavam por meio da prostituição doméstica ¾ sempre menos higiênicas que os bordéis (Freyre, 1997, p. 319-450). Portanto, foram os corpos das negras, por vezes meninas de 10 anos, que marcaram a arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro, na qual foram iniciadas em meio ao trabalho doméstico e escravo, no sexo promíscuo. De fato:

(...) Depois do almoço ou do jantar era na rede
Que eles faziam longamente o quilo
Arrotando, palitando os dentes
Fumando charutos,
Peidando
Deixando-se abanar, agradar e catar piolho pelas mulequinhas (…).
(Fragmentos do poema "Rede" de Gilberto Freyre [1980, p. 22] no livro Poesia Reunida)

Dá para perceber que, a exemplo dos moleques, as jovens escravas ("mulequinhas") também tinham uma vida pautada pela dureza, cujo trabalho cotidiano se constituía, fundamentalmente, nas atividades domésticas ou na lavoura, além de serem vítimas dos desejos sexuais dos senhores de engenho. Dessa forma, muitas delas eram forçadas a se entregar sexualmente aos patrões, a seus filhos ou aos capatazes e, quando apresentavam qualquer sinal de resistência, eram barbaramente castigadas. Assim, os filhos que nasciam dessas relações sexuais às vezes recebiam atenção especial dos senhores, porém podiam ser abandonados nas instituições de caridade5 ou mesmo nas ruas (Dourado e Fernandez, 1999, p. 53).

Grosso modo, pode-se dizer que a história da vida cotidiana rural nordestina, em especial da Zona da Mata, traz em seus caminhos trilhados até os dias de hoje as marcas da história da infância iniciada na casa-grande e na senzala. Há nessa história uma marcante presença do moleque companheiro de brinquedo, do negro velho, contador de histórias, mas também, da moleca, da ama-de-leite, da mucama, da cozinheira. Esta última, provavelmente, deu segmento à história da empregada doméstica dos dias atuais, cujas origens estão hoje fortemente arraigadas na perspectiva do trabalho precoce das meninas das classes populares que migram da Zona da Mata para cidades de porte médio e grande como o Recife.

Acredito que, ao realizar um esforço para recuperar a história do trabalho e do lúdico das crianças canavieiras, não se pode olvidar os filhos dos senhores de engenho ou inhôzinhos e os moleques/leva-pancadas, companheiros de brinquedo desses meninos brancos e das sinhazinhas. Eles tinham como função se prestarem nas brincadeiras "(...) como mané-gostoso, manejado e judiado como se fosse todo de pó de serra por dentro; de pó de serra e de pano como os Judas de sábado de aleluia e não de carne como os meninos brancos". De acordo com Freyre (ibid, p. 336), nas brincadeiras, muitas vezes brutas, dos filhos dos senhores de engenho, os moleques e até as molequinhas filhas das amas serviam-lhes como parelhas para a realização das brincadeiras de bois de carro, cavalos de montaria, carros de cavalo, bestas de almanjarras, burros de liteira.

Como é possível perceber, não escapava ninguém, nem meninos, nem meninas, às iniqüidades da escravidão. No entanto, é preciso que as pesquisas históricas busquem também, em pé de igualdade, recuperar os elementos para a compreensão da história das meninas e das mulheres das classes populares, visando a trazer à tona a reflexão sobre a reprodução dos valores da degradação da condição humana.

 

Sobre as políticas do corpo das meninas e das mulheres

O corpo é, indubitavelmente, um suporte de signos sociais e nele está inscrita a cosmologia da própria sociedade, estão marcadas todas as regras, normas, valores e a cultura de uma determinada sociedade. Isto significa dizer que cada sociedade possui um determinado paradigma de corpo ou, e, ainda, que cada sociedade faz uso de técnicas corporais e políticas do corpo, visando a instrumentalizá-los para a vida cotidiana, economia, cultura e trabalho (Rodrigues, 1980, p. 62-64; Mauss, 1974, p. 79; Da Matta, 1987, p. 79;6 Medina, 1991, p. 84).

Seguindo as trilhas históricas das políticas do corpo, pode-se dizer que no corpo nordestino estão impressas as insígnias da ordem colonial monocultora da cana-de-açúcar e as iniqüidades da propriedade fundiária que, secularmente, têm cunhado a ferro e brasa no corpo social o apartheid e o darwinismo social. No entanto, é sobre o corpo das meninas e mulheres que ainda pesam a culpa e a responsabilidade pela excessiva prole procriada e recaem as críticas, emanentes da burguesia, de as mulheres pobres fazerem sexo de maneira desordenada, compulsiva, leviana e sem nenhum planejamento familiar! Permanece ainda, portanto, fortemente arraigada, em alguns setores conservadores da sociedade pernambucana, sobretudo, nas classes sociais média/alta, a ideologia de que a miséria existe por causa da superpopulação, conseqüentemente, pela falta do controle da natalidade.

Trata-se, pois, de uma visão malthusiana de controle da natalidade para acabar com a pobreza, reduzindo assim o número de pobres e garantindo uma maior distribuição de renda. Tal visão tem muitos adeptos e o seu pano de fundo é de que a fome no mundo é uma conseqüência direta da mesquinhez da natureza e do descontrolado apetite reprodutivo da espécie humana pobre. Neste âmbito e seguindo essa lógica, pode-se perceber que as drásticas medidas apontadas por Malthus, ainda hoje, encontram-se fortemente arraigadas no senso-comum e, até para alguns políticos e intelectuais conservadores, são consideradas como solução, as quais são: a) deixar morrer os fracos e os doentes; b) ajudar os famintos a morrer mais depressa; c)controlar por todos os meios os nascimentos; d) desafogar enfim o mundo desse excesso de gente, a fim de que ele disponha do suficiente para nele viver regaladamente uns quantos privilegiados (Castro, 1959, p. 133).

Durante as visitas aos engenhos e às usinas, pude observar como a cultura corporal se entrecruza com as questões de gênero e religião, tendo como eixo as práticas fundamentalistas da Assembléia de Deus. Estas ingerências sob o corpo social, a meu ver, constituem-se em técnicas ou formas de dominação corporal que terminam por amalgamar no imaginário das meninas e mulheres, assim como dos meninos e homens, formas de comportamento, gestualidades, modos de falar e vestir, cuidados com o corpo etc., forjados na proibição, na imposição e no moralismo exacerbado. Em conseqüência disso, as manifestações da cultura ludo-corporal são construídas à luz da restrição e proibição da prática de alguns lazeres, entre os quais se encontram alguns jogos e brincadeiras populares como: brinquedos cantados, danças, piadas e mitos, e outras formas de manifestação da cultura corporal popular.

A imagem corporal que as meninas e mulheres têm de si é expressa por atitudes corporais de vencidos e perda do orgulho corporal (Moffat, 1983, p. 23-24). Há também impressas nas suas subjetividades as marcas de uma espécie de vergonha do próprio corpo, uma vergonha de classe social (Koffes, 1986, p. 46). Na realidade, há entre elas um misto de vaidade, timidez e vergonha do próprio corpo, principalmente quando na frente do espelho se impõem os sulcos do envelhecimento precoce. As mulheres são da opinião que tanto os homens quanto elas envelhecem prematuramente; elas, em virtude do excesso de tarefas dentro e fora de casa, e os homens, pela própria dureza do trabalho na cana, por acidentes de trabalho, exposição excessiva ao sol etc. Mesmo assim, de acordo com os dados da pesquisa realizada pela Federação dos Trabalhadores da Agricultura de Pernambuco (Fetape) e pelo Centro Josué de Castro, em 1994, os homens possuem uma expectativa de vida de 43 anos e 5 meses e as mulheres, de 45 anos e 7 meses.

Essa questão é muito controversa, pois as mulheres, comparando-se aos homens, dizem que "(...) no rosto da gente mostra mais que ta engiado (enrugado), pois (...) o homem é um serviço só e a mulher faz de tudo". E complementam: "(...) o homem sem mulher não é nada, a mulher é quem sustenta o homem... Eles só têm a obrigação de trazer a comida pra casa". Mesmo com essa posição, aparentemente emancipada ou de uma nova mulher,7 elas afirmam que a maioria dos homens reconhece que o trabalho delas também é pesado e que elas trabalham muitas vezes mais que eles, porém, se eles dizem "'é pra cozinhar', então a gente faz..."

Realmente, se levarmos em consideração as horas excessivas de trabalho realizadas pelas meninas, tais como: cuidados com a casa e com os irmãos menores, buscar água e lenha a grande distância, cuidar de animais de pequeno porte e ajudar na roça, poderemos, então, compreender por que o envelhecimento precoce deixa traços tão marcantes nas suas subjetividades femininas: "(...) aos 35 anos já ficamos assim meio cansadas e acanhadas".8

Nesse sentido, o depoimento de D. Zefinha (50 anos de idade) dá-nos a exata dimensão das conseqüências do trabalho alienado, pesado e insalubre nos canaviais pernambucanos: "(...) Só conheço uma vida de dureza, a gente só trabalhou como escravo, aos 24 anos comecei a pintar os meus cabelos brancos". Talvez seja por isso que, desde cedo, suas infâncias escorrem pelo ralo, conforme expressão utilizada por Iolanda Huzak,9 e suas identidades, considerando as devidas exceções, terminam maculadas pelos signos sociais da economia política do capital. Nesta perspectiva, vale a pena repetir a frase de Victor Hugo, citada pelo poeta pernambucano Marcus Acioly durante as entrevistas: "(...) Quem já viu a miséria do homem, precisa ver a da mulher..."

Em relação à estética do corpo e dos cuidados de si e do embelezamento,10 as mulheres são muito vaidosas, miram-se no espelho e acham-se envelhecidas, muitas vezes feias e acabadas, culpando, por um lado, o sistema capitalista que as degrada corporal e socialmente pela via do trabalho alienado; por outro lado, atribuindo a culpa aos homens pelo enfeiamento delas, pelo fato de serem sovinas e não comprarem um desodorante, um creme e um esmalte para pintar as unhas e cosméticos. Apesar disso, consideram-se mais bonitas que os homens, os quais, pelo desleixo e pela excessiva carga de trabalho, aparentam-se, corporalmente, mais castigados e envelhecidos.

As mulheres e meninas, com as quais confabulei, revelaram uma consciência social sobre as incidências das repercussões do trabalho sob o corpo e o rosto delas. Em vista disso, muitas delas, movidas pela influência da indústria da estética veiculada pela televisão, também têm sonhos desejados de consumo por cremes e técnicas de embelezamento; desejos e sonhos de igualarem-se, do ponto de vista do padrão de beleza, às jovens e mulheres das camadas mais altas; de consumirem aquilo que Boltanski (1989) chamou de cultura somática do corpo ou cultura burguesa do corpo (Medina, 1987). Como se pode perceber, todo esse processo de embelezamento do corpo feminino atinge também o meio rural, verificando-se em virtude da valorização cada vez mais crescente dos produtos e métodos de beleza que são inculcados a partir das imagens da publicidade, cujo interesse mercantil é forjar nas mulheres o sonho histórico e burguês de ser bela! Mas a pergunta que fica ainda sem resposta é: se essas mulheres tão sofridas não teriam também o direito de desconstruírem as suas imagens corporais com seus narcisos e auto-estimas quebrados e marcados na frente do espelho? Será que ser bela e ter bons tratos para com a estética é só um projeto, direito ou atributo essencialmente das camadas sociais das classes mais abastadas?

A propósito de estética, quem a quiser conhecer em suas contradições basta ir, como eu fui, aos engenhos, nos sábados e domingos. Lá poderá ter a dupla sensação de que a vida parece bela, mas que ao mesmo tempo, em verdade, é peremptoriamente bruta. Verá, como eu vi, corpos "buchudos" de doenças e meninas prenhes de futuros filhos/filhas da exploração capitalista.

Poderá, portanto, ver sorrisos estampados no olhar, sorrisos caudalosos sem dentes, a aparente submissão e docilidade expressadas nos gestos lânguidos, mas ao mesmo tempo vigorosos. Mulheres com dupla e tripla 11 jornada de trabalho a assistirem ao futebol dos homens e à panela de feijão-pouco a queimar na dobra do tempo de mínguas e fomes. Verá meninas-mães com as pernas cheias de veias e o corpo de mulherzinha a brincar de roda, carregando nos braços o peso da responsabilidade precoce, o peso da própria meninice dos seus irmãos mais novos, carregando o peso da própria infância não vivida ou experienciada de forma meteórica...

 

O mundo do trabalho das meninas-mulheres e das mulheres-meninas

Há, por um lado, em regra geral por parte das meninas e mulheres, o reconhecimento do valor do trabalho, para elas compreendido como fundamental para a vida, principalmente por causa das condições de penúria em que vivem suas famílias. De um lado, o trabalho é um valor supremo que dignifica o homem, pois, sem ele, não há sobrevivência, há fome e miséria, afirmam elas peremptoriamente. Por outro lado, consideram fundamental a ajuda das meninas e mulheres no provimento da família. De outro lado, reconhecem o teor de alienação contido na exploração do trabalho na cana, na dupla jornada de trabalho ou no próprio trabalho doméstico. As meninas são a favor do caráter educativo do trabalho-ajuda dos meninos, principalmente do trabalho doméstico das meninas. O depoimento de Josiane, 12 anos, ex-trabalhadora mirim da indústria calçadista do Vale dos Sinos (RS), durante a Marcha Global Contra o Trabalho Infantil, corrobora a posição das mulheres canavieiras, solidariamente, defendendo-as: "(...) Só concordo com o trabalho que não seja escravo, que não seja aquele pesado de ajudar em casa, para que tenha muito tempo para as brincadeiras..."

A questão da divisão sexual do trabalho é, nessa região, marcante e controversa, trazendo em seu bojo a problemática da relação entre lúdico e gênero. Há, nesta perspectiva, uma comparação do esforço dispendido nas tarefas domésticas, bem como o tipo de atividades lúdicas vivenciadas por ambos os sexos: "(...) O trabalho acho que é igual. Lavava prato, cuidava dos meninos, fazia comida, às vezes ficava muito cansada. Minha mãe trabalhava no campo" (Janaína, 12 anos). "(...) Os meninos é mais difícil. Levantava de 4 horas e as meninas só acordavam às 6 horas" (Antonio, 13 anos). Continuando a discussão em clima bastante lúdico, surge a voz dissonante de um menino reconhecendo a dureza do trabalho doméstico e levantando "a lebre" sobre a dupla jornada das meninas: "(...) O trabalho das meninas é igual, porque trabalha na cana e ainda em casa. Eu mesmo acho que o trabalho de casa cansa muito, eu ajudo, lavo prato, faço comida, não tenho vergonha de dizer" (Jefferson, 13 anos, citado por Ferreira, 1999, p. 40-49).

O que dá para perceber nesses meninos que entrevistei é que eles, excepcionalmente, possuem uma relação social de alteridade para com as meninas; suas representações sobre a emancipação da mulher pela via do trabalho apresentando-se, dessa maneira, mais avançadas que as dos adultos e anunciando novos papéis sociais masculinos na zona rural. Todavia, na prática, toda essa tolerância e esse reconhecimento para com o trabalho das meninas não é voz corrente, prevalecendo ainda a divisão sexista do trabalho. Nesse sentido, quando se fala no cotidiano em dividir as tarefas domésticas, sobram, na maioria das vezes para as meninas, as atividades e os lugares relacionados tradicionalmente às suas tarefas e funções, localizados nos, denominados por Perrot (1995, p. 167), templos da mulher (cozinha, tanque de lavar etc.).

Contudo, a posição de alteridade dos meninos ante as meninas, os homens adultos e velhos permanecem, ainda, fortemente impregnados pelo imaginário do humor popular: a idéia jocosa da mulher como um ser inferiorizado e desvalorizado. Isso se verifica, sobretudo, por meio de alguns chistes,12 piadas, ditos e expressões populares, pilhérias e gracejos da seguinte ordem, cujas representações sobre o feminino são, por exemplo: (...) Mulher de ponta de rua,13 (...) Mulher e cana só vai no acocho! (legenda de caminhão da Zona Canavieira Pernambucana)14, (...) Mulher é feito cana: só rende apertada;15 (...) Mulher prenha desonera as caldas,16 (...) Mulher de cambiteiro não vive com ele um dia inteiro. 17

 

O futuro do presente das meninas que migram: trabalho infantil doméstico, prostituição infantil, mendicância e catar lixo

Antes mesmo de tratar do trabalho infantil doméstico, da prostituição infantil e da mendicância como conseqüência da migração do campo para a cidade, urge trazer à tona alguns dados mais gerais sobre a exploração do trabalho infantil em todo o mundo. De acordo com a OIT, 250 milhões de crianças entre 5 e 14 anos trabalham em todo o planeta. Desse número, estima-se que 140 milhões sejam meninos e 110 milhões, meninas. Elas, assim como os meninos e as mulheres adultas, continuam sendo exploradas em virtude de custarem menos para o capitalista, sendo, portanto, mais hábeis e por possuírem mãos mais delicadas que os homens, a exemplo do século XIX (Engels, 1985; Nogueira, 1993).

Estas cifras não incluem o trabalho infantil doméstico não-remunerado (trabalho-ajuda) ou de natureza não-econômica, realizado em grande parte por meninas de 8 a 12 anos em suas famílias. Seguindo essa lógica, é de se esperar que, se esse tipo de trabalho fosse computado nas estatísticas, é provável que o número de meninas poderia até superar o de meninos.18

A história das mulheres trabalhadoras da Zona da Mata Canavieira é também a história das sertanejas, nordestinas trabalhadoras e pobres em geral. É a das meninas convertidas desde cedo em mulherzinhas, cuja saga é laborar como trabalhadoras rurais adultas ou empregadas domésticas nas cidades para onde porventura migram.

Na cidade do Recife, por exemplo, constatei, por meio das minhas observações e das notícias de alguns setores da mídia, que a situação das famílias migrantes das diversas regiões do Nordeste é desesperadora, pois estas são obrigadas a conviver com a exploração sexual das crianças no mercado da prostituição infantil para os consumidores do chamado sexoturismo. O êxodo rural leva as famílias a conviverem num constrangedor estado de degradação pessoal e coletivo, no que tange aos aspectos moral, corporal, identitário, político-econômico, cultural, entre outros. O cotidiano das famílias é vivido na perspectiva de desestruturação familiar, analfabetismo, penúria e precarização. Consecutivamente, o quadro é de fome, de abandono e da própria exploração do trabalho infantil no meio urbano, em especial, do secular trabalho infantil doméstico, realizado consubstancialmente pelas meninas.

Em entrevistas realizadas no Evento-Campo 03 (1998), o prof. Manoel C. de Andrade afirmou-me que a crise no campo canavieiro tem gerado desemprego, desestruturação familiar, prostituição e um êxodo para as pequenas e grandes cidades. Em Recife, o mercado de trabalho já congestionado oferece ao cidadão do campo, como alternativa subumana de vida, o subemprego, e o trabalho doméstico quase escravo para as meninas. Os trabalhadores que migram para a cidade viram semi-escravos e na sua opinião:

(...) Tornam-se mercadoria. O sujeito vai trabalhar numa casa de família e, em Boa Viagem, se depara com a prostituição turística e, aí, a menina tem o conceito que é o seguinte: se eu for empregada doméstica eu vou ganhar salário mínimo em dois dias, três dias. Aí ela argumenta: você pode até ter uma vida digna na casa da patroa, mas lá vou ganhar apenas um salário mínimo e ficar sendo objeto de cantada, assim é melhor ganhar mais fácil.19

Esse fatalismo social se manifesta na medida em que os pais são obrigados a mandar seus filhos e filhas para as grandes cidades para não morrerem de fome e terem direito a um minúsculo e insalubre quartinho nos fundos da casa, um prato de comida e sem carteira assinada, como afirma um trabalhador sobre a migração de suas filhas, conforme as entrevistas realizadas por Dourado e Fernandez (1999, p. 427):

(...) Vão embora tudo, as filhas vão embora: às vezes pra cidade, trabalhar nas cozinhas dos outros.(...) Eu tenho duas filhas que são empregadas domésticas, estão para lá, tão empregadas; passam dois, três dias sem vir, trabalham lá por uma bóia, para um casal. Não têm uma hora de serviço na carteira, já faz dois anos que trabalham, não têm uma hora de serviço. E trabalham mais nesta casa do que aqui.

Pelo que pude observar, de fato, o destino das meninas que migram para as grandes cidades como o Recife é, predominantemente, o trabalho infantil doméstico, a prostituição infantil e a mendicância. O trabalho doméstico é historicamente uma forma de exploração da força humana de trabalho que arrebata uma horda de meninas e jovens adolescentes, cujo objetivo é a busca de emprego com segurança, alimentação e uma casa para morar.

Esse tipo de trabalho se tornou uma espécie de exploração invisível, pois, sobretudo nas classes médias e ricas, é considerado como um legado, um presente, um favor dessas famílias para com essas meninas e jovens migrantes da zona rural, que algumas vezes são chamadas eufemisticamente de filhas de criação ou como se fossem da família. O trabalho infantil doméstico caracteriza-se como uma espécie de exploração transgeracional, passando de mães para filhas ¾ constituindo-se, portanto, no sonho desejado de muitas meninas, que não só se vêem pressionadas a migrar em virtude da crise, mas também como perspectiva de realização profissional no futuro, de acordo com Bruschini (2000, p. 67-71). Sua pesquisa sobre esse tema, intitulada Bipolaridade do trabalho feminino no Brasil contemporâneo, aponta, entre outras questões, para uma tendência da exploração do trabalho das meninas e mulheres mais jovens, que se encontram imersas na precarização caracterizada, primordialmente, pela má qualidade das ocupações no que concerne a nível dos rendimentos, formalização das relações e proteção do trabalho.

De acordo com o UNICEF (1997, p. 3.031), trabalham, na obscuridade como empregadas domésticas, em todo o mundo, milhões de crianças em casas de família, por trás de portas fechadas, com salários de miséria ou absolutamente nenhum. No Brasil, essas meninas, em sua maioria analfabetas, são expostas a riscos, revivendo, portanto, as iniqüidades da casa-grande e da senzala, da vulnerabilidade para os maus-tratos físicos e psicológicos, bem como abuso emocional e sexual por parte dos membros da família para a qual trabalham. Além disso, são privadas do afeto e do apoio de seus pais, e sujeitas a humilhações por parte dos filhos de seus patrões, podendo, assim, serem afetadas de maneira indelével em suas auto-estimas, enfim, impactando, do ponto de vista socioemocional, suas subjetividades que, assim, convertem-se em coisa. Esta forma de exploração é considerada uma das formas de exploração infantil mais difundidas e menos pesquisadas, e que envolve muitos riscos para as crianças. Os dados revelam que, em cada dez, nove são meninas, obrigadas a viver em um ciclo de tarefas extenuantes, e um considerável número delas, em regime de escravidão.

Grande parte dessas meninas, reitera o UNICEF, são em número cada vez mais crescente, advindas predominantemente de famílias empobrecidas e negras, sobretudo das famílias que a crise do capitalismo no meio rural, em nível mundial, expulsou para as grandes áreas urbanas à procura de emprego ou lenitivos para a pobreza e até a miséria absoluta. Desse modo, o que se pode concluir, sem generalizar, é que para as meninas da Zona Canavieira só existem duas possibilidades: ficar no campo canavieiro, sofrendo e sem nenhuma perspectiva de cidadania, migrar para os grandes centros e deparar-se com a prostituição, a precarização do trabalho infantil doméstico, a mendicância ou o trabalho informal como catadoras de lixo (latinhas de alumínio, caixas de papelão etc.).

Quando se levam em consideração as relações dialéticas entre campo e cidade,20 entre as pequenas cidades periféricas da Zona da Mata Canavieira e a zona urbana metropolitana da cidade do Recife, percebe-se uma unidade em termos da materialidade da vida cotidiana, no que se refere a um quadro de degradação social. Quanto a essa questão, as imagens de sujeitos que são vistas na cidade do Recife são: meninos e meninas de e na rua, velhos e velhas de rua, pedintes, camelôs, desempregados oriundos da crise nos canaviais e da falência das usinas, subempregados vagando penitentes e insistentes nas avenidas e pontes, por entre os edifícios monumentais e nas margens do belo, fétido e poluído rio Capibaribe. E tudo isso contrastando com a opulência dos condomínios e casarões de estilo colonial. Todo esse quadro é reflexo das políticas recessivas e excludentes neoliberais, cujos impactos sobre o setor sucroalcooleiro operam a partir da combinação entre a monocultura secular do açúcar e, na atualidade, essencialmente, dos planos de ajuste ou reformas, como bem disse Chossudovsky (1999), dos cardápios do FMI e do Banco Mundial.

Recortando o lúdico…

Mesmo com todas as restrições de algumas atividades de lazer para as mulheres, em virtude das duplas jornadas de trabalho, elas também participam das festas do padroeiro, fazendo bordados e desenhos. Além disso, dançam forró em tempos de festas de casamento, São João e batizado, mas isso, é claro, se não forem evangélicas. Usufruem grande parte do tempo residual destinado para o lúdico nas atividades da igreja, incluindo as missas dos finais de semana, ao passo que os homens, às vezes, além de beberem muito, têm a liberdade de se divertir e dançar forró com outras mulheres em outros engenhos e cidades: "(...) Lazer e se divertir é coisa para os homens de engenho. Eles vai pra folia, vadiar com as outras pareceiras. Eles querem ser mais do que as mulheres, isso vem dos antigo, de geração em geração" (entrevista coletiva num engenho nas proximidades da cidade de Ipojuca-PE, dezembro de 2000).

Em contrapartida, o sonho desejado de lazer/lúdico delas é passear no zoológico, olhar os bichos, ir à praia, fazer piqueniques, porque "(...) é bom a gente sair desse buraco, principalmente, no sábado que a gente sai cedinho pra fazer a feira e volta às 11 horas. Para dentro das cavernas".

Quando inquiridas sobre a diferença entre meninos e meninas quanto ao uso do tempo para o lúdico, assim se expressaram: "(...) a vida das meninas é tão dura quanto a dos meninos, às vezes menos às vezes mais. Aqui a vida de criança vai até os 10 anos de idade com brincadeiras e tudo, depois acaba tudo" (entrevista coletiva num engenho nas proximidades da cidade de Ipojuca-PE, dezembro de 2000).

As mulheres e as meninas, conforme ressaltei anteriormente, experimentam, desde cedo, uma vida voltada mais para o também pesado trabalho doméstico, por isso crescem sem as mesmas possibilidades de sociabilidade e educação, consecutivamente com menos opções de vivência do lúdico, que os homens. Quanto a esse respeito, Parker (1978, p. 106-107) nos diz que a divisão social do lazer traz em seu bojo diferenças que refletem a distinção das funções que, historicamente, têm sido atribuídas a homens e mulheres.

De fato, diversos fatores históricos, culturais, econômicos, políticos e sociais têm contribuído para uma divisão sexista no campo do lazer. Talvez isso tenha a ver com a tradicional existência doméstica da mulher, seu nível educacional mais baixo, sua função precípua de dona de casa e mãe, as representações que os homens têm delas, supostamente, como sexo frágil, as diferenças nos padrões relativos à vida sexual, enfim, tudo isso pode ter contribuído para a diferença no lazer entre os dois sexos. Seguindo essa lógica, então, a mulher possui uma certa consciência social acerca da sua interdição e limites ante os possíveis efeitos da divisão sexista no lazer/lúdico, conseqüente do usufruto do tempo para a construção da cultura lúdica:

(...) Os homens têm mais possibilidades de trabalhar fora, tomar uma cervejinha e jogar bola. Quando tem jogo de futebol eles vão sozinhos para o jogo e aí muitas de nós fica em casa para fofocar. Às vezes a gente fica com vontade de ir junto com eles pra assistir e torcer pra eles ganhar. A gente ficando em casa perde porque não vai...

Por sua vez, as meninas, do ponto de vista da relação lúdico e gênero, demonstraram ao mesmo tempo um duplo sentimento de resignação e indignação pelo fato de os meninos, apesar da vida dura, terem mais oportunidades aos jogos e brincadeiras (futebol, andar pelo mato etc.), restando para elas apenas brincar de boneca e as responsabilidades do trabalho doméstico quando sobra tempo. Tal questão merece um destaque, por originar-se de processos culturais inculcados nos meandros da alteridade entre o masculino e o feminino, constituindo-se, portanto, numa luta que ainda não conquistou as justas vitórias na sociedade contemporânea:

(...) Esta luta é por vezes dolorosa para a maioria das mulheres e dos homens submetidos na infância e na adolescência a socializações calcadas em privilégios diferenciados, os quais não conseguem estabelecer pontes entre aquilo que eu chamo de subcultura masculina em contraponto a uma subcultura feminina. (Whitaker, 1995)

As questões acima aludidas estiveram presentes durante vários momentos da pesquisa de campo. Nesse sentido, durante uma Oficina de Arte no I Encontro de Pais e Crianças Trabalhadores Rurais de Pernambuco, os pais e as mães das crianças desenharam no mural coletivo as suas representações iconográficas sobre o tempo destinado ao lúdico: os jogos e as brincadeiras das crianças e dos adultos. Nesses desenhos era possível visualizar, acompanhado de seus relatos, a questão da especificidade e diferenciação entre os lazeres masculinos e femininos. Os homens admitiram jogar futebol, reunirem-se em grupos, principalmente quando estão bebendo suas biritas, para contar suas histórias e "causos", tendo portanto mais liberdade de ir e vir, ir mais à cidade em busca de emprego do que as mulheres. Em contrapartida, ficou evidenciado nos desenhos e nas falas uma maior interdição ou restrição das meninas e das mulheres para o usufruto do lúdico. Quanto a essa questão, D. Zefinha (50 anos de idade) é incisiva ao responder à pergunta: O que fazem em seus lazeres?, e, assim, apoiada por outras que estavam a sua volta, imediatamente detonou: "(...) A mulher faz o que pra se divertir? Se ferrar! Fica em casa pra tomar conta dos filhos, lavar pano, passar, tirar lenha nas matas".

Mas, convenhamos, o que faz mesmo a diferença entre meninos e meninas, em relação ao usufruto do tempo do lúdico, é que elas, como já mencionei anteriormente, carregam nas costas o peso dos condicionantes e constrangimentos históricos e culturais de gênero (preconceitos, assédio, violência sexual, prostituição, violência física/maus-tratos e as opressões de classe). Tal condição torna-as alienadas e excluídas duplamente: no trabalho e no tempo de lazer que, por conseguinte, não é livre!

Em geral, os jogos e brinquedos das crianças são construídos no terreno da adversidade e da penúria, na sucata do tempo residual, em migalhas de tempo conquistadas a duras penas; são tecidos na boca da noite, na boca-de-forno, na natureza quase morta, da maneira mais criativa possível. Apesar dos pesares, nem tudo está perdido, pois na teia das relações alienadas do mundo do trabalho infantil ainda sobrevive o sinal de resistência e de subversão da ordem. Não quero com isso apenas justificar ou mesmo valorizar romanticamente a resistência simbólica meramente enquanto tal, mas sim como dimensão política, uma vez que na resistência simbólica também estão as chaves para a interpretação da resistência real. Isto posto, quero destacar o valor psicossocial, cultural, intelectual, simbólico e político do lúdico para a vida de meninas e meninos, mulheres e homens, enfim, da resistência sociocultural como anúncio de outro projeto de sociedade.

As meninas, com seus jogos e brincadeiras, são as que mais conseguem dar o tom qualitativo, artístico e criativo durante as manifestações da cultura lúdica na vida cotidiana. São elas que, com suas fantasias e mistérios, anunciam possibilidades de novas formas de sociabilidade e resistência à opressão do trabalho alienado, por intermédio de seus cantos, acalantos e brincadeiras de roda tradicionais, tais como: eu fui à Espanha; atirei o pau no gato; pai Francisco entrou na roda; engenho novo e outras. Também as mulheres, à margem das atividades lúdicas dos homens (futebol, forró etc.), conseguem dar um sentido mais humano ao cotidiano com seus cantos durante o trabalho doméstico, com a arte de cozinhar a comida pouca, com as rendas e os bordados e, finalmente, com as fofocas entre elas próprias.

Há no cotidiano feminino, de forma comovente, uma prontidão para as brincadeiras tecidas nos mistérios da arte dos afetos e do esconde-esconde. Há uma enorme prontidão para a delicadeza, sensibilidade e inventividade, em suma, para uma estética diferente da dos meninos e homens. Talvez isso aconteça porque elas, mais do que eles, guardem num cofre quase secreto as chaves para a compreensão dos sentidos ontológicos do lúdico (fantasia, mistério, criatividade), contrapondo-se à lógica da produtividade capitalista, de uma certa forma inculcada em maior pelos homens.

 

Concluindo para começar…

Os depoimentos das meninas, em sua maioria, revelam, ao mesmo tempo, sinais de indignação, denúncia contra a degradação dos seres sociais vitimados pelo sistema capitalista nestes campos doce-amargos. No depoimento a seguir dá para perceber que anseiam por uma vida mais digna para todo o tecido social, para todos os trabalhadores, independente de gênero, anunciando, assim, possibilidades de conquista da cidadania. Percebe-se a presença de uma crítica social, cuja utopia é a conquista de um dos direitos mais fundamentais do ser humano: a liberdade:

(...) Trabalhava na roça e levava comida para os irmãos e me sentia mal de ver eles trabalhando, de ver eles com dor de cabeça. (...) As pessoas em Pernambuco são as que mais sofre trabalhando, cortando cana. (...) O que eu acho ruim é as pessoas morrer de fome... porque todos nós têm seu direito e todo mundo tem que ter a sua liberdade para poder cantar, sorrir e brincar. (Depoimento de Maria José, 13 anos, Evento-Campo 09)

As meninas e mulheres da Zona da Mata Canavieira Pernambucana vivem duas formas de dominação: classe e gênero. Essas duas perspectivas, na minha opinião, imprimem um duplo sofrimento para elas em virtude de acumularem mais responsabilidades, sofrerem o peso da divisão sexual do trabalho, realizarem dupla e até tripla jornada de trabalho. Elas também se referem a esta tripla jornada de trabalho em função não só da excessiva carga horária destinada ao labor, mas, consubstancialmente, em virtude dos múltiplos tipos de tarefas domésticas: cuidar dos filhos (e as meninas, dos irmãos menores), lavar roupa cozinhar, buscar água, cortar lenha, acordar cedo para fazer café, costurar, vestir as crianças, cuidar da roça, além de, muitas vezes, fazer sexo sem vontade etc.

Na maioria das vezes, todas essas tarefas são realizadas abrindo mão do tempo que poderia ser destinado à produção cultural, à ludicidade, à preguiça, ao ócio improdutivo para o capital ou ao ficar à toa, como dizem elas. O tempo restante dessas tarefas faz com que elas terminem o dia e a semana, talvez, tanto ou mais extenuadas pelo trabalho quanto os homens. Entretanto, vale ressaltar que a tendência atual na zona canavieira, em termos de dupla jornada de trabalho, é a mulher realizar múltiplas atividades no âmbito da própria casa: cuidar da roça, segundo elas disseram: trabalhar para os homens e para os filhos, isto é, lavar e passar roupa, cozinhar, limpar a casa, acordar de madrugada para cuidar dos homens, quando estão doentes, entre outras atividades que não revelaram. No caso de trabalharem na parcela (cana), e isso vem sendo reduzido com a falência das usinas, o desemprego no campo, elas voltam para casa tendo à frente todas as tarefas domésticas já aludidas, ao passo que os maridos têm lá seus privilégios e vantagens: ficam contando causos e conversando com os amigos.

Com relação às meninas, o que mais me emocionou foi o fato de elas, apesar de todo o sofrimento, também terem utopia, sonhos e desejos. Seus sonhos desejados contêm, ao mesmo tempo, crítica social, denúncia da realidade e anúncio de possibilidades. Todas, sem exceção, querem escola de qualidade, reforma agrária, emprego para os pais, tempo para as brincadeiras e jogos, terra, saúde, enfim, políticas sociais estruturadoras e não políticas que operem na dimensão do assistencialismo, paternalismo, filantropismo, isto é, segundo Martins (1987), da inclusão precária e marginal ¾ aquela que promete incluir excluindo. Seguindo esse raciocínio e, de acordo com seus sonhos desejados, essas políticas devem incluir não só as crianças e os adolescentes, mas todos os trabalhadores adultos e velhos, na verdade, todos os que queiram progredir, os marginalizados, os esquecidos, os despossuídos e os deficientes que desejem ingressar na corrente principal da vida (Mead, 1982, p. 155).

Em especial, chamou-me a atenção o fato de elas não se resignarem com a mácula de eminência oculta e com os estigmas que carregam, como por exemplo: sexo frágil, pobres, nordestinas, negras, mestiças, pequenas e atarracadas. Ao contrário, anunciam caminhos para um projeto de sociedade, da qual sejam protagonistas e não mais banidas da história. Neste sentido, seus sonhos desejados de profissão dão a demonstração de que o que pedem não é impossível de realização. Assim, querem ser professoras, donas de casa, cantoras, lutadoras de caratê, capoeiristas, caixas de supermercado, bailarinas, jogadoras de futebol, cinegrafistas, empregadas domésticas, jornalistas e deixar de cortar cana, polícias, juízas e advogadas...

Em síntese, todas elas querem tempo para estudar, querem acabar com a fome de comida e de dignidade social, não querem mais apenas programas assistenciais e emergenciais, mas sim políticas públicas efetivamente sociais e vice-versa nos âmbitos acima evocados. Por fim, almejam não só sair do trabalho forçado, mas tempo efetivamente livre para construir suas infâncias com dignidade, desejo, fantasia, mistério, em suma, ludicidade. Além disso, não querem ir para uma escola qualquer, com ambiente insalubre, professores mal pagos e métodos ultrapassados, mas sim para uma escola que rompa com a condição de eternas e seculares deficientes cívicas,21 inspirado na expressão de Milton Santos (1999). Dito isto, acredito ser de suma importância pensar políticas públicas que tenham como epicentro o tecido familiar, as superações das opressões de classe e gênero, visando à revisão e construção de outros caminhos e trajetórias escolares, culturais, lúdicas e laborais para as famílias das classes trabalhadoras rurais.

Essas meninas-mulheres e mulheres-meninas não podem ser compreendidas na condição de frágeis e coitadas, afinal, mesmo com as opressões que ainda sofrem e já sofreram ao longo da história, podem, a meu ver, parafraseando Perrot (1995), ser cognominadas de mulheres populares rebeldes.

Com efeito, considerando as conversas que tive com elas e observando documentos22 sobre o movimento sindical, pude perceber, malgrado o olhar de excluídas que se tem sobre elas, a incisiva presença de algumas delas nos destinos da militância rural. São elas que dão o tempero alegre, sensível e contundente às greves e campanhas salariais, emprestando a esses movimentos o toque de consciência sociopolítica, rebeldia.23 Na verdade, repetindo as lutas, os gestos e os gritos de resistência dos anarquistas e comunistas do final do século XVIII e início do século XIX, contra a exploração do trabalho infantil e feminino e as demais atrocidades do capitalismo industrial insurgente (Perrot, 1988; Rago, 1997; Moura, 1999; Nogueira, 1993).

As reflexões aqui contidas pretendem abrir caminhos para o debate em torno das políticas públicas, visando à inclusão das problemáticas das meninas, mulheres e velhas da Zona Canavieira, naturalmente, concomitante, com as problemáticas dos meninos, homens e velhos.

Para finalizar, deixo para reflexão um trecho dos versos da epígrafe, de João Cabral de Melo Neto, evocados no início deste texto:

O cassaco de engenho
Quando é mulher:
Não é um saco capaz
De conservar, conter.
É um saco como feito para se derramar...

 

Notas

1. Orientadora: Profª Drª Zeila de Brito Fabri Demartini.

2. Esta pesquisa tem como objetivo investigar, no âmbito da exploração do trabalho infantil, o mundo da cultura lúdica das crianças da Zona da Mata Canavieira Pernambucana, cuja questão central é se o capitalismo, com toda a sua carga destrutiva do trabalho alienado, conseguiu suprimir total ou parcialmente o tempo de lazer/lúdico das crianças canavieiras. Para este estudo me inspirei nos pressupostos teórico-metodológicos da "Crítica da vida cotidiana", sustentados por Henri Lefebvre (1958), e da "Sociologia da vida cotidiana", por Agnes Heller (1994). No primeiro, baseei-me nos seguintes aspectos: pobreza (alienação, conformismo) e riqueza (emancipação, resistência) da vida cotidiana; e na segunda, na questão da heterogeneidade universal da vida cotidiana (Luckács apud Heller, 1994, p. 11-12), que traz em seu bojo a compreensão desta na perspectiva dos aspectos macro (generalidades) e microssociais (particularidades) da vida cotidiana. A pesquisa de campo foi realizada nos Eventos-Campos, cujos loci se constituíram, basicamente, da minha participação em eventos de natureza política promovidos por sindicatos, Ongs e movimentos sociais diversos: (tribunais e marchas nacionais [CONTAG] e internacionais contra o trabalho infantil, encontros de crianças e pais trabalhadores rurais [FETAPE]), encontros promovidos por Ongs (Save the Children), visitas ocasionais aos engenhos e às usinas de açúcar. Neste sentido, em razão da complexidade da problemática, foram utilizados vários instrumentos de coleta de dados, a saber: fotografia, poesia, desenho, entrevista, observação, oficina de jogos e brincadeiras e documentos diversos.

3. Segundo Andrade (1999), trata-se da antiga Zona da Mata, hoje denominada Mesorregião da Mata, que compreende a porção oriental do estado de Pernambuco, situada nas proximidades do litoral, onde, secularmente, desenvolveu-se a cultura da cana-de-açúcar.

4. Ver as críticas sobre o dualismo das proposições teóricas do autor, isto é, entre sobrados e mocambos, casa e rua (Marins, Ceru, s/d., mimeo), casa-grande e senzala etc. Além disso, há polêmicas e controvérsias contra o autor em torno de sua visão idílica do passado colonial e da escravatura, culminando com a idéia de que o Brasil vive uma democracia racial, sem conflitos entre negros e brancos (Mário César Carvalho, Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 18/3/2000, p. 4-8). E, ainda, do ponto de vista político, pesa sobre o autor a contradição de ter defendido uma maior distribuição de renda e reforma agrária e, ao mesmo tempo, ter tido uma atitude política conservadora, que o levou a colaborar com o regime militar de 64 (ibidem). Isto posto, fica claro que, de um lado, reconheço os limites dualistas das abordagens freyreanas. Mesmo assim, com base na vigilância epistemológica, busquei em sua obra os aspectos importantes para a problematização das categorias de análise, emergidas das intervenções empíricas.

5. Trata-se da Roda de Expostos da Santa Casa de Misericórdia (Del Priore, 1992).

6. Não concordo com o dualismo do autor estabelecido entre a casa e a rua e, ainda, sobre a afirmação de que o brasileiro tem dois corpos, a saber: um para o trabalho e outro para a festa. Ver, a respeito dessas críticas, Marins (CERU, s/d.).

7. Expressão utilizada por Perrot (1995).

8. Entrevista coletiva realizada após a tese de doutorado num engenho nas proximidades de Ipojuca (PE), dezembro de 2000.

9. Cf. ensaio fotográfico intitulado "A infância escorre pelo ralo" (revista Caros Amigos, Ano III, nº 33, dez. 1999, p. 21-22).

10. Cf. Sant'Anna (1995).

11. Segundo elas a tripla jornada está vinculada ao fato de muitas terem que fazer sexo sem vontade e desejo.

12. Ver, a esse respeito, o texto de Basaglia, 1998.

13. De acordo com Barbalho (1984, p. 290-291), são meretrizes da zona canavieira.

14. Ibid. O termo refere-se à meretriz da zona canavieira nordestina.

15. Ibid. Comparação popular da mulher com a cana na zona canavieira pernambucana.

16. Ibid. Segundo o autor, na zona canavieira nordestina, dizem que a mulher grávida não deve fazer doce, pois, fazendo-o, sua calda não dá ponto, desonera.

17. Ibid. Dito popular dessa região, baseado no fato de que, regra geral, o cambiteiro é o trabalhador encarregado de transportar as canas destinadas à moagem nos engenhos de açúcar, em lombos de animais, usando cambito. Em geral, é gente desbocada, vadia, pobre demais, de palavrão solto pelas estradas, das cantorias pelos partidos de cana, das umbigadas nos sambas-de-matuto, dos relhos de pontaria fina estalando no ar (ibid., p. 98).

18. Cf. Enciclopédia do mundo contemporâneo: Estatísticas e informações completas dos 217 países do planeta, São Paulo: Publifolha, 2000.

19. Ver também Andrade (1998, p. 235).

20. Ver mais amiúde, a respeito desse conceito, em Lefebvre, organizado por Gaviria (1973, p. 15).

21. Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 24/l/1999.

22. Cf. VHS intitulado "Sindicato sim senhor", produzido pela TV Viva, Olinda, Pernambuco, s/d., bem como os documentos sobre as campanhas salariais, produzidos pela FETAPE (1997, 1998, 1999).

23. Vale aqui lembrar a participação da trabalhadora rural Elizabeth Teixeira, liderança feminina de expressão nas Ligas Camponesas nos anos 60.

 

 

CUTTING AND PASTING PICTURES OF THE EVERYDAY LIFE AND OF THE PLAY CULTURE OF THE GIRLS-WOMEN AND WOMEN-GIRLS IN THE ZONA DA MATA CANAVIEIRA PERNAMBUCANA

ABSTRACT: This text deals with various macro-and microsocial aspects of the daily life of the girls-women and women-girls in the Zona da Mata Canavieira Pernambucana. On the one hand, it tries to show the alienation and conformism manifest in these girls and women's arduous and perverse life of precocious work, double workday and housework. On the other hand, it values many aspects related to transgression and resistance of the ludic culture that builds on the sly of their everyday life, beyond alienation and conformism, such as: leisure and the ludic side that develop without the knowledge of the patriarchal system and of the very disaffection of capitalist work in the rural environment.

Key words: Girls. Women. Childhood. Wotk-ludic aspects.

 

 

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* Professor Adjunto III do Centro de Desportos/Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Santa Catarina; membro do Comitê Catarinense Independente contra o Trabalho Infantil. E-mail: mauran@uol.com.br