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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.22 no.56 Campinas Apr. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622002000100006 

MEMÓRIAS DE MENINA*

RENATA SIEIRO FERNANDES**

 

 

Sua distração maior é cortar e recortar trapos e sobras de pano que ninguém mais quer, na perspectiva de conseguir fazer roupas, que sonha para si, pra a bonequinha de pano, já ensebada, desbotada, recosturada e recheada de palha de milho que Vó Dindinha lhe fizera ao completar quatro anos. Tão querida, tão companheira, como jamais o foram as irmãs e coleguinhas da escola da velha mestra!

Às vezes deixa que a irmãzinha caçula participe da sessão do "faz-de-conta" das costuras, tirando o velho vestidinho para experimentar o novo que nada mais é do que pedaços de pano com abertura para passar a cabeça, dois furos para os braços e, se tiver sorte, uma cinta passada por cima, de velhas fitas que tia Lucinda tem nos guardados e que, vez ou outra, passa pela limpeza e lhe parecem sem serventia, guardadas há tempo que já nem cor têm, definida. Mas como é bem recebida pela menina!

(...) Idéias mil surgem na sua cabecinha para aproveitar as fitinhas. E lá vai para um cantinho da copa, onde pode se refestelar com o novo tesouro, sem incomodar os adultos que transitam pela casa (...). (Tahan, 1989, p. 13-4)

 

 

RESUMO: As narrativas de infância de três educadoras são o ponto de partida para discutir as relações dessas mulheres com aspectos de sua meninice, de sua experiência escolar, profissional, de maternidade e com o grupo social dos bairros em que cresceram e, posteriormente, os efeitos e as interferências dessas vivências em suas práticas educativas com crianças e jovens de baixo poder aquisitivo, freqüentadores de um projeto de educação não-formal.

Palavras-chave: Memórias de infância. Formação profissional. Educação não-formal.

 

 

Pedir aos adultos que, por meio da utilização da memória, contem ou narrem suas lembranças, principalmente de infância, não é pedir para reviverem esse período, significa "um trabalho de pensar, refletir sobre o seu significado hoje e no passado" (Setúbal e Silva, 1989, p. 41). Esse sentido pode, ainda, ser enfatizado pela observação de Meneses (1988), ao dizer que a memória ¾ Mnemosyne ¾ sendo filha do Céu e da Terra ¾ da junção de Urano e Gaia ¾, é irmã do Tempo e do Espaço ¾ de Chronos e Okeanos ¾, "todos eles metáforas de infinitude".

A possibilidade de evocar imagens significativas vivenciadas no passado e de relacioná-las com o que é vivenciado no tempo atual revela um processo de ressignificação das vivências, tanto das passadas como das presentes e futuras, ou seja, do que se viveu, do que se vive, do que se procura manter ou experimentar futuramente. Segundo Setúbal e Silva (1989), lembrar não significa reviver fatos acontecidos tais quais aconteceram, mesmo porque isso está perdido, mas evocar fatos e situações que adquiriram significado particular, é "rememorar fatos esquecidos, guardados na memória e que podem ter um significado para o momento atual" (p. 33).1

O trabalho da memória é indissociável da organização social da vida e por ele se dá a construção de coerência e de continuidade da própria história da pessoa; nas palavras do autor, "a reconstrução a posteriori da história da vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência" e, "através desse trabalho de reconstrução de si mesmo, o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros" (Polak, 1989, p. 13).

A possibilidade de falar e de ser ouvido pode auxiliar no processo detonador das lembranças. O narrador não utiliza a rememoração apenas como processo de nostalgia de um tempo vivido, mas como possibilidade de aprofundamento da consciência histórica e, portanto, como possibilidade de modificar o presente, agindo nele de maneira semelhante ou diferente da vivida anteriormente, porém como ação ou sentimento consciente de algo carregado de significação. Entende-se, então, que os três tempos: passado, presente e futuro, estão interligados e que o sentido de reconstrução do passado é dado pelo presente (que o reinterpreta) e essa reconstrução vai reorientar futuras ações. Assim, esses três tempos não são simplesmente continuidades cronológicas, mas se auto-influenciam em um encadeamento de sentidos e significados.

Neste sentido, as memórias de infância, dos tempos de menina de três mulheres-educadoras, com idades variando entre 30 e 45 anos, que atuam na área da educação não-formal, permitem conhecer uma parte daquilo que cada uma delas percebe como importante de ser evocado e narrado e, também, como essa representação de infância aparece orientando práticas educativas.

Contextualizando o local onde passaram e viveram sua infância, elas dizem o seguinte:

Então... minha infância, eu morava em Campinas, desde pequenininha e o bairro era de classe média não muito alta, [chamava-se] Vila Pompéia. Supergostoso lá. E a gente não brincava muito na rua não, porque eu era muito pequena; então, a gente fazia assim, como eu não tinha irmão, então minhas amiguinhas vinham em casa, traziam os brinquedos que elas tinham, de casinha, tal e eu também tinha os meus. Não tinha muito brinquedo não porque a gente não tinha muito recurso, então nossos brinquedos eram o quê, latinha de leite, era potinho que a mãe da gente dava, era colherinha e tal. E os brinquedos de uma amiga minha é que eram mais sofisticados, que ela trazia e tudo. Mas eu não tive muitos amigos, era mais assim, cada um na sua casa. E, agora, quando eu mudei pra cá, em Paulínia, eu mudei com 10 anos, então eu era criança ainda. Foi mais aqui que eu brinquei, mais na rua, então era tudo quanto é brincadeira: beijo, abraço, aperto de mão; corre; pega-pega; esconde-esconde; de super-herói; cada um era um herói [risos]. E era uma delícia! A gente ficava até às 10 horas da noite na rua. E era mais eu de menina que ficava na rua...

Passei toda a minha infância em São Caetano, numa vila que chamava Vila Maria, então era uma vila, uma vila de casas populares e com rua de terra, isso é superimportante dizer. Não passava ônibus [enfática], não tinha ônibus, essas coisas. Tinha uma jardineira que passava assim de vez em quando. E a minha casa era uma casa que tinha um quintal bem grande, então... São dois marcos muito grandes na minha infância: essa casa com quintal e a rua de terra. Então isso possibilitava pra gente uma série de aventuras. Então no quintal da minha casa, por ser bem grande, meu pai plantava, então tinha milho, cada época era uma plantação. Tinha milho, laranjeira, goiabeira, horta. Outro lance assim superssignificativo é o poço porque não tinha água encanada, então fazia-se o poço. E na minha casa tinha um problema, no quintal... tinha um problema, o poço precisava ser muito fundo, não tinha veia d'água, veio d'água, não sei como é que chama. Então, cavava o poço... e eu participava. Pra mim era uma coisa mágica; imagina assim... o Seu Chico Poceiro era um senhor negro que cavava o poço de toda a vila e ele, meu pai chamava, ele ia lá cavar o poço e a gente acompanhava esse cavar poço, só que não dava água, daí enterrava-se esse poço e abria-se em outro lugar, e aí esse poço soterrado virava um elemento de brincadeira também. Ficava a laje em cima e tinha um buraco que dava pra gente entrar, então isso era um objeto de brincadeira. Ah! As brincadeiras de pega-pega que a gente fazia em época de milho... que o milho cresce e ficava assim bem fechado...

Eu vim pra cá [Campinas], minha mãe conta que eu vim do Paraná... eu tenho imagens do trem, mas é aquela coisa assim, aquele pedaço, a gente no trem, uma coisa ruim. Nossa! De trem de lá até aqui [risos]... um castigo; mas só que a gente não foi pra Campinas, a gente parou em Ribeirão Pires. Meu pai deixou eu, minha mãe, meu irmão e veio pr´aqui arrumar casa e tudo. Nós ficamos na casa da minha tia e eu lembro de imagens de lá. Eu lembro de um gato, lembro que ela tinha fogão a lenha. Eu nunca tinha brincado com um gato até então. Eu tinha 1 ano e pouquinho. (...) Lá em Ribeirão Pires era mais rural. Eles tinham uma olaria e eu brincava lá. Eles faziam os tijolos e deixavam secando para depois colocar no forno, daí tinha aquele monte de tijolo, acendia lá, fechava e assava os tijolos. E eu pisava em cima deles e eles quebravam porque eles estavam moles, iam desmanchando, eu estava estragando o trabalho delas. Aí, elas me chamaram a atenção, eu parei. Daí elas falaram o que era aquilo, que elas iam pôr no forno. Daí... corta essa imagem. Parou aí. Daí, eu lembro, nessa mesma olaria, já num outro dia, o meu tio passeando... porque era uma casa enorme, eram duas casas só que separadas, era um negócio esquisito, sabe, e moravam duas famílias lá, tinha muita criança brincando. Tinha 1 ano e pouquinho, depois não lembro de mais nada. Daí me lembro de Campinas, num bairro próximo ao Jardim Europa, é o Jardim Leonor. Era uma casa de fundos, eu não tinha ninguém com quem brincar, só tinha o meu irmão, que é mais novo que eu um ano, e a gente brincava um com o outro. Brincava, brigava, brigava mais que brincava e a dona da casa... porque nós morávamos na casa dos fundos; era uma casa de aluguel e a filha da dona da casa morava na frente, ela era assim, tinha uns 12 anos. Sabe, essas coisas malucas que às vezes dá nas crianças e a gente fala: por que você fez isso? A gente, eu e meu irmão, catamos dois pintinhos e pusemos uma tábua em cima e pulamos em cima. Foi uma briga danada! Sem contar a surra que eu levei da minha mãe [risos]...

Tuan (1983), preocupado em entender o que dá identidade e "aura" a um lugar, pergunta-se "de que maneira as pessoas atribuem significado e organizam o espaço e o lugar?" (p. 4-5). Para o autor, isso depende da tomada de um referencial ou de uma perspectiva "experiencial", ou seja, as maneiras pelas quais as pessoas tomam contato e constroem a realidade são orientadas pelas sensações (por intermédio dos cinco sentidos) e pelos sentimentos. Lima (1995) diz que é

indiscutível que a apropriação do espaço pela criança se faz pelo jogo, pela brincadeira, pela simulação e encenação que ela inventa e vive, e que através deles vai desenvolvendo o seu conhecimento sobre o mundo concreto, a realidade social e seus papéis. (p. 183)

Continuando,

na experiência humana, o espaço nunca é um vazio. Ele é sempre o lugar repleto de significados, lembranças, objetos e pessoas, que atravessam o campo de nossa memória e dos nossos sentimentos, despertam tristezas e alegrias, prazeres e dores, tranqüilidade e angústias. (...) é o lugar de reconhecimento de si e dos outros, porque é no espaço que ele (o ser humano) se movimenta, realiza atividades, estabelece relações sociais. (p. 187)

Bachelard (s/d.) diz que o conhecimento da intimidade pessoal, por meio das memórias, dá-se pela recordação dos espaços em que se passaram as vivências e não do tempo. Nas palavras dele: "Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso" (p. 24).

Aqui o espaço é tudo, porque o tempo não anima mais a memória. A memória ¾ coisa estranha! ¾ não registra a duração concreta, a duração no sentido bergsoniano. Não se podem reviver as durações abolidas. Só se pode pensá-las na linha de um tempo abstrato privado de toda intensidade. É pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de uma duração concretizados em longos estágios. (p. 25)

Os espaços da casa, o quintal, a rua e os momentos de brincar aparecem com marcas muito fortes nessas rememorações de quando se era menina. As narrativas de vida, especialmente voltadas à infância das três educadoras, permitiram a elas narrar a infância, "que permanece viva em nós e poeticamente útil", como diz Bachelard (op. cit.), e promover uma compreensão maior do momento presente.

As relações pessoais estabelecidas com aqueles elementos variam nas experiências de cada uma dessas mulheres, aproximando-se e afastando-se, dependendo de variáveis como a qualidade dos espaços ¾ principalmente os públicos ¾ e de elementos culturais que orientam as vivências. Para uma delas, a vila onde viveu era um espaço bastante comunal, mas o quintal grande da casa, com árvores frutíferas e possibilidades de exploração sensorial da natureza e de construção imaginária para as brincadeiras, é o espaço (privado, mas público ao mesmo tempo) de mais forte lembrança, onde as brincadeiras de casinha, escolinha, cabaninha, de fazer pocinho aconteciam. O quintal outra vez aparece na fala de outra narradora como sendo um espaço marcante nas lembranças. Era um quintal grande onde o pai cultivava uma horta, o que permitia oportunidades de manter contato com a natureza; esta conta da feitura de uma casinha no milharal e de atear fogo nas buchas que ainda estavam no pé, mas os pais, principalmente a mãe, reprimiam esse tipo de brincadeira por classificarem-na como muito perigosa.

Ah! Eu aprontava nele (no quintal) também porque ele era grande..., meu pai adorava fazer horta, então tinha um monte de canteiros, tinha laranja, tinha limão, tinha alface, tinha um monte de coisa, tinha milho... lembro uma vez, sabe quando já tá tudo alto, com espigas... eu já tinha uma outra irmãzinha... eu e meu irmão brincava de fazer cabaninha, amassamos todos os pés de milho que estavam no meio pra fazer chão, os do lado virava parede e fizemos o teto assim "póf", dobramos. Ai! Outra confusão, então foi briga pra todo lado, apanhei outra vez. Tava sempre apanhando. Eu lembro que tinha um pé de bucha, essas buchas de metro, e quando secava a gente punha fogo. Minha mãe brigava: isso daí é pra tomar banho!, ela falava. Imagina e a gente estragava...

Então, a gente brincava [no quintal] e era o melhor local pra se esconder e tenho assim na memória até hoje o barulho [fala pausadamente] do milharal quando passa um ventinho noturno. Então, eu ouço aquele barulhinho assim e me lembro das brincadeiras de infância. E tinha muita criançada, a vizinhança. Tinha meninos e meninas e a gente brincava no entardecer, geralmente era no período da tarde. E aí vem também aquela lembrança assim: era prazerosa e triste, do final da tarde porque a gente, no auge da brincadeira, e a mãe chamando pra ir tomar banho, pra ir jantar... Isso era um horário sofrido e a gente sempre prolongava um pouquinho esse horário. (...) Nessa idade, de 4 anos, a gente fazia muita cabaninha, então... tudo no quintal. A gente pegava uns pedaços de pau e punha assim entre a parede, o muro, a cerca e a árvore e pegava colcha velha, cobertor e cobria e ali virava nossa cabaninha. Isso é assim, uma lembrança bem antiga que eu tenho. Daí tinha as brincadeiras de médico [sorrisos], nessas alturas... dentro da cabaninha [risos]... inevitável...

As condições e os aspectos do bairro, da cidade, a distribuição territorial (urbana, rural, central, periférica), os elementos culturais dos grupos sociais influenciam nas relações mantidas com a rua, espaço público por excelência. Pelos discursos, notam-se dois tipos de relação da população com a rua, tanto dos adultos quanto das crianças: a rua como possibilidade de vivência lúdica e de lazer (inclusive pela possível exigüidade dos espaços privados) e a rua com função única de circulação e, portanto, de afastamento das crianças e de encerramento nos espaços internos. Garcia (1994) define o espaço lúdico "como aquele em que é possível brincar com um alto nível de interatividade" (p. 22), e em alguns casos e para algumas pessoas a rua pode adquirir esse sentido.

Depois, mais tarde, eu lembro das brincadeiras mais de grupo, já feitas na rua, que era brincadeira de pega-pega, brincadeira de mãe-da-rua, que a gente aproveitava aquela ruona de terra pra ficar brincando mesmo. E já vinha os meninos maiores também pra brincar [pausa longa]. (...) Até tem um lance interessante depois, quando o asfalto chegou [risos]... quando o asfalto chega... não veio o asfalto, primeiro eles fizeram... sabe essa louça de banheiro? Eles primeiro jogaram cacos dessa louça, fizeram... a rua ficou todinha... não sei como é que chamam isso... eles botaram isso aí, cascalho, cascalho de louça. E antes de [inaudível] eles despejaram com o caminhão aquelas pilhas de louça e depois passava o trator. E isso virava brincadeira para a gente também, as pilhas. A gente ficava brincando atrás, se escondendo. E... só que depois, isso significou a perda da rua, na medida em que a rua ficou melhor aí já começava a passar carro, então a gente deixou de freqüentar tanto assim a rua, se bem que demorou um tempo. Mas eu também fui crescendo, acho que foi uma coisa que aconteceu ao mesmo tempo.

(...) tinha tudo a mesma idade, todos. Tudo uns 10 anos, 11, até mais novo, que eles eram às vezes até mais novos que eu. E eu era muito ágil, muito assim viva, tal, muito forte, chegava até a bater neles [risos], parecia a Mônica [do gibi do Maurício de Souza] com os amiguinhos; então a gente... e eles tinham medo de mim, sabe! Tinha um que a gente batia muito nele, mas era assim, não era briga feia, era esses empurrão, era coisa de puxar, eu era forte, eu era... queimada eu ficava por último, sabe, era supergostoso. Então eu era respeitada, então eles gostavam de mim [os meninos]. Eu nunca cheguei a brincar de futebol; na rua a gente quase não brincava de futebol porque a rua era descida e sempre sobrava pra um ir buscar a bola, então... [risos]. E, agora, essas coisas de vôlei de rua a gente também não brincava; a gente brincava de bobinho e aí, quem ficava embaixo que se danava [risos]. (...) Então, na minha rua quase não tem mais esse lance de brincar na rua, assim, tem uma turminha que se reúne hoje em dia pra conversar, pra bater papo, pra paquerar, tem umas mocinhas, umas crianças, pra ver os carros passarem... Não tem mais aquela, sabe, aquela brincadeira gostosa que a gente... olha, a gente desmaiava, chegava em casa, tomava um banho, e nem jantava às vezes, desmaiava. Mas é porque antigamente, era... não tinha tanta violência, não tinha tanto trânsito, a gente fechava até a rua de vez em quando; tinha umas placas de impedimento, de trânsito impedido, que você pedia licença, ficava no sábado todinho fechada a rua e a gente fazia vôlei, fazia... brincava de tudo, de amarelinha. E agora não tem mais, sabe...

(...) Só que daí, pra baixo da minha casa, tinha uma que era chamada favela naquele tempo. Eu sei que era um lugar que eu falava assim: que a polícia vivia lá, todo dia tinha polícia pra baixo da minha casa. Eu lembro que o pessoal, as crianças [inaudível]. E minha mãe não me deixava ir brincar na rua porque... eu não podia ir brincar com eles porque eles falavam palavrão, eles batiam, aquelas coisas lá... E minha mãe não me deixava ir. Na rua não brincava, ficava só no quintal. Ela [a mãe] falava: mas como? Você tem um quintal tão grande, brinca aqui. E novamente, só eu e meu irmão. Então, não tinha graça realmente?

A rua ocupada com função social pode ser explicitada nas comemorações coletivas de festas. Em épocas do ano bem definidas e específicas como Natal, Ano-Novo, Festa Junina e Copa do Mundo a vizinhança se reunia para comemorar datas católicas ligadas às festas populares, por meio da ritualização do preparo destas, dos passos a serem seguidos e do desfrute coletivo e individual.

(...) é interessante porque existia, assim, uma amizade muito grande entre toda a vizinhança... com todos os vizinhos ali. E era, eu acredito, que era até uma maneira de segurança, se bem que naquela época não se falava em insegurança. (...) E uma coisa assim marcante pra falar dos adultos é que, por exemplo, em grandes comemorações: Natal, Ano-Novo, Festa Junina... aí é muito forte a presença dos adultos. As crianças junto contribuindo... Festa Junina pra mim era uma coisa fantástica. [Fazia Festa Junina] na casa do Seu Luís, que também era uma casa semelhante à minha. Que a casa pertinho... a estrutura da casa, do quintal, facilitava muito. Tinha... a casa ficava mais do lado direito do quintal, então tinha uma lateral bem grande. E lá no fundo o quintal todo aberto. Então, as brincadeiras aconteciam nessa lateral esquerda, a fogueira... Na minha época de Festa Junina, as crianças iam catar madeira. O trabalho das crianças era esse, recolher madeira pra fazer aquela pilha enorme pra fogueira. O Seu Luís era o sanfoneiro, que era o dono da casa, as mães faziam as comidas e a gente curtia, até ajudava a mãe a fazer comida e tal, e depois levava todo mundo naquela mesona que ficava lá. E aí, rolava a festa a noite toda. Na Festa do Ano-Novo também era a mesma coisa. Todo mundo comemorava na sua casa mas depois que fazia a ceia saía todo mundo de casa em casa, e aí uma família ia se juntando com a outra e passava por todos. Iam se cumprimentando e comia, bebia, cantava, brincava. Então, era uma coisa de integração muito grande, crianças e adultos. Quando tinha Copa do Mundo também era a mesma coisa. Era uma comemoração coletiva mesmo.

Lima (1994) citando Ariès, comenta que na utilização dos espaços pelas crianças e adultos, "aos poucos, ruas e praças deixaram de ser o lugar de encontro e de aprendizado coletivo para se tornarem simples passagens ocupadas por desconhecidos, de cujo perigo era preciso afastar as 'crianças de família'". Ainda segundo Lima, "até o século XIX, as crianças foram gradativamente sendo alijadas do convívio com os adultos e do espaço urbano. As ruas passaram a ser vistas como local de perdição da inocência, de vadiagem e risco", o que acaba provocando "uma disciplina rigorosa dentro das habitações e instituições" (p. 184). Outro relato mostra isso:

Naquela época a gente vivia muito preso, aprontava adoidado. As colegas, às vezes, elas vinham em casa, a gente brincava. Eu sei que nessa época eu era muito "cagona", medrosa.

E era mais eu de menina que ficava na rua, então meus pais... tinha mais meninos. Então, eu era até malvista na rua, sabe: ó, essa daí só brinca com moleque e tal. E eu tinha minhas amigas mas era assim, pessoal muito, brigava muito, tinha muito ciúme, sabe, uma da outra, aqueles lances. E as mães não gostavam muito que a gente brincava junto, porque eu brincava com menino, entendeu, então era mais assim: ela é muito assim, fica só com menino e tal, então ela não é bem-vista. Tanto é que eu fiquei até com um pouco de trauma até hoje. É porque não era costume! E acho que até hoje tem um pouquinho disso ainda. As meninas brincavam mais dentro de casa, de casinha...

Para a criança prevalece o desejo de poder avançar para o espaço da rua, o espaço comunal onde as pessoas e os acontecimentos estão presentes, e que são atrativos. Os adultos, no caso os pais, vêem a rua como local mais ameaçador e fora do controle do adulto, onde se aprendem "maus modos" e palavrões, além do medo da violência que provoca a guarda e reclusão dos filhos, especialmente das meninas. Tal situação provoca a manutenção e a contenção das crianças nos limites da casa ¾ própria e/ou dos vizinhos ¾, em segurança, em um universo privado, na companhia de irmãos, amigos ou solitariamente.

Apesar de estarem dentro do ambiente familiar, os adultos não necessariamente participam das brincadeiras e dos jogos infantis. Em alguns momentos, o adulto aparece com o intuito de impedir comportamentos e brincadeiras, para chamar a atenção das crianças, bater, pôr limites, recriminar... Entretanto, em outros momentos, também participam junto com as crianças e/ou investem no andamento da brincadeira.

Lembra aquele vidrinho do Xarope São João? Não sei se é da sua época. A gente tomava muito. Toda infância da minha época tinha o tal do Xarope São João. Era um vidrinho magrinho com um gargalo mais fininho. Gostoso que só vendo! Docinho; parecia um licorzinho. Era xarope pra quando a gente tava com tosse. Quando essa garrafinha esvaziava eu pedia pra guardar e aí, de lanche, eu levava essa garrafinha cheia com leite com açúcar. E minha mãe fazia, preparava isso pra eu brincar de escolinha! Ovo frito, no meio do pão, daí a gente ia brincar de escolinha e tinha uma hora lá que parava pra tomar o lanche. (...) Sabe que é interessante [as brincadeiras e os grupos se concentravam na casa dela]! Nunca tinha pensado nisso [risos]. Não sei... não sei se era porque minha mãe também acolhia. Acho que tem um pouco disso, ela não impedia. Todas as casas tinham o mesmo quintal, eram iguais. Tinha assim... eu lembro da minha casa, depois um pouquinho mais pra frente tinha a casa da Brígida [sorriso], era uma família portuguesa. A gente ia às vezes lá também. Teve uma época que era muito na minha casa mesmo. Não sei se também... por exemplo: uma das vizinhas tinha bastante crianças também e, não sei... acho que era uma questão de acolhimento. Tanto eu chamava pra vir pra lá, minha mãe chamava também, deixava. Acho que era por isso.

Não lembro de nenhum adulto junto, só pra chamar pra você vir pra dentro, pra jantar, pra tomar banho. Depois eu falo uma coisa da minha avó que eu lembrei agora, mas assim. Eu aprendia muito com os meninos mesmo, a agilidade, essas coisas que eles têm mais, porque eles desenvolvem mais essa parte, não que a gente não seja ágil, mas eu aprendia mais com eles mesmo.

No Jardim Nova Europa, esse pessoal que eu conheci, que a gente brincava, a gente brincava na rua, no domingo. Até minha mãe entrava, ia brincar de pular corda, ia brincar de esconde-esconde. Eu até falava assim: Meu Deus!... porque minha mãe, ela era gorda e na minha cabeça não conseguia, uma pessoa assim, com o corpinho dela não ia conseguir pular corda e ela pulava [risos]. Então, ela e minha tia, pulava também. A gente ficava lá, às vezes até escurecer, pulando corda, brincando de esconde-esconde, fazendo essas coisas, então essa parte foi uma parte superboa da minha vida, foi uma coisa assim simples, a gente não tinha recursos nenhum, éramos assim, paupérrimos. Era muito gostoso, sabe... a gente estar junto... Eu lembro que minha mãe fazia bonequinha de pano pra gente... Então teve muita coisa boa. Tinha muita coisa que eu olhava, queria e não podia, sabia que não podia, mas... tinha outras coisas que eram boas.

Sabe, assim... matamos [o pintinho], acabou.. Aí levamos uma surra, levamos bronca, a mulher chamou a atenção da gente, minha mãe me bateu.… aquelas coisas. Outra coisa que eu me lembro é que... a gente era superpobre, eu não tinha nem boneca. Meu pai trabalhava de empregado e a oportunidade que eu tinha pra brincar de boneca era com a boneca da filha da dona da casa. E eu tinha umas manias de ficar arrancando olho, sabe, umas coisas assim... Era boneca de borracha. Naquele tempo tinha umas bonecas de borracha que tinha os olhinhos que mexia, abria e fechava; tá, e eu arranquei o olho da boneca dela e engoli [risos]... outra confusão. Aí minha mãe brigou comigo, me bateu de novo, falou que eu não ia mais brincar. Acabou! Não brinquei mais com a menina. Daí eu ficava em casa e acabava estragando as coisas dela. Ela brigava comigo... eu brigava com o meu irmão. Era uma casa pequena; minha avó veio morar com a gente também.

O adulto também participa ensinando e incentivando atitudes, hábitos e outros repertórios, e provocando admirações na criança:

Meu pai não [ensinava brincadeiras], minha mãe, ela sempre levou mais pro lado dos livros. Desde criança eu sempre ganhei livro, livro infantil, tenho até hoje meio capengando mas tenho. Tenho uma coleção de livrinhos do La Fontaine que eu guardo que nem relíquia; eu quero deixar pro meu filho. Então, e antes de ficar grávida, eu já comprei livro pro meu filho também, pensando nele. Então, acho que foi uma coisa muito importante dela, ela não teve muita estrutura, teve uns problemas familiares, tal, ela conseguiu se equilibrar há um tempo atrás quando eu já era adolescente. Então, minha infância... minha mãe nunca teve uma influência muito forte na minha vida, quem mais teve foi meu pai, meu pai sempre incentivou tudo até o balé; eu pedi pra ele, ele me matriculou. Mas ela foi mais, assim, de livro. Eu lembro, assim, de cada livro que ela comprava, maravilhoso! Agora, minha avó... tinha uma avó que eu morava... que a gente ficava junto, que naquela época parquinho infantil era difícil conseguir vaga, em Campinas... até hoje, mas... Aí eles saíam, iam trabalhar e deixava eu com a minha avó, uma senhora, assim, muito judiada da vida e tudo mais, era muito bacana. Então, ela me ensinou as cantigas de ninar que até hoje eu sei, umas brincadeiras de "pinhé, pinhé, pinhé" e ficava [faz gestos com as mãos], sabe, então, aquilo lá eu acho que me relaxava e eu acabava dormindo. Então ela brincava comigo por causa disso. E tudo quanto é coisa cantada foi ela que me ensinou, então foi assim, cada pouquinho uma pessoa. E depois eu fui ao parque [infantil] e não lembro muito do parque mesmo, sabe, lembro muito pouco. Mas lembro mais dessas pessoas que me influenciaram: minha avó, minha mãe com os livros, e agora com as crianças..., a rua também.

E você falou dos adultos. Eu tinha, não sei se era uma particularidade minha, tinha umas amigas da minha mãe que eu era assim, muito ligada então... de ir na casa delas, de conversar horas e horas com elas, uma coisa assim: eu com elas e de gostar muito disso, da conversa, da conversa com os adultos também. De 'tar sabendo, de 'tar vendo elas lidando ali com as coisas da casa. Então, tinha a Dona Adélia, ela fazia presépios. Pra mim, era uma coisa fantástica! O presépio da Dona Adélia! Ela que comprava as pecinhas, que eram pecinhas de barro, e montava. Mas era uma coisa assim... que eu ficava ansiosamente esperando dezembro. Ela pegava a parede toda da sala, ela construía... era um lugar alto... ficava na altura da criança e botava matinho, pozinho de serragem, botava espelho ou papel-espelho pra parecer que era água, fazia as grutas, as coisas de pedra... E era um fascínio [ênfase]! E as crianças iam visitar. Então, acho que é assim, a gente participava muito desse mundo adulto também [pausa longa]. Eu falei da Festa Junina, tinha o papo dos balões também, da construção dos balões. Os homens [ênfase] ajudavam a construir os balões...

Quanto à participação dos adultos, nos diversos papéis sociais assumidos dentro e fora da esfera familiar, a ênfase recai sobre as mulheres no que diz respeito ao incentivo e a eventuais participações em brincadeiras e jogos; nas falas, o homem ou o pai não aparece tão referendado, apesar de o seu papel ser bastante significativo. Nos momentos de brincadeiras, o homem, geralmente o pai, estava ausente e, aparentemente, não se cogitava a presença ou a participação deste. Quando em casa, o tempo era usado para outros afazeres ou para descanso.

(...) os homens ficavam em casa descansando. Meu pai... ele tentou fazer a vida dele. Então, ele trabalhava feito um louco e, chegava no fim de semana, ele descansava. Ele era comerciante, como eu te falei, se tornou comerciante, tinha uma mercearia grande lá no Nova Europa e ele trabalhava até o meio-dia no domingo, então domingo à tarde ele ia dar uma ajeitada nas coisas, ia descansar um pouquinho pra na segunda-feira começar tudo de novo. E a educação da gente acaba ficando, acabou ficando mais na mão da minha mãe mesmo que... ela ficava em casa, mas às vezes ela também tinha que ajudar lá na mercearia... coisas assim. Mas centralizava a educação dos filhos mesmo era na mulher, a mãe. E os homens não; eles trabalhavam... Até aqui, às vezes hoje fala assim, a gente vê muitos casos de família que, chega no fim de semana, o marido bebe. E o meu pai... muitos colegas, os pais dos meus colegas, eu não lembro deles, assim, falando de cair, falando deles que eles tinham bebido, não! Não tinha isso, tava descansando mesmo porque o pessoal trabalhava feito doido a semana inteira. Então, eu acho que tive uma infância assim, boa... pobre mas foi boa.

Não me lembro muito bem [onde ficavam os homens], acho que eles ajudavam também nessa parte da fogueira, de botar a lenha no forno, de botar as batatas pra assar, sabe, essas coisas assim, paralela, que acontecia [pausa longa].

Os momentos de brincar alternam situações de grupo e situações solitárias, da criança consigo mesma, reelaborando, ao brincar, aspectos tomados do real que são significativos, apreendendo-o e, simbolicamente, representando-o. A improvisação de materiais é apontada, pelas narradoras, positiva e enfaticamente.

(...) eu brincava em casa de casinha com elas [as meninas] e a gente comprava doce no bar, cortava, falava que era comidinha, todos esses rituais. Boneca a gente tinha bastante, tal. Mas eu era muito solitária, eu sempre fui solitária, também, eu era filha única, e tinha aquele lance de briga, então ela falava: olha, se você brigar comigo, nunca mais eu venho, ou eu nunca mais trago meus brinquedos pra brincar com você, e eu abria o bocão, pra fazer o desejo delas eu abria o bocão. E aí, no fim, minha mãe falou, outro dia ela escutou e falou: olha, deixa que vá, deixa que vá, você tem que aprender, e elas também que não é pra fazer o gosto dela só por ser filha única.

Morava a minha avó, meus pais, eu e meu irmão, duas crianças. Lembro muito bem que eu ficava chateada porque não tinha ninguém pra brincar. Na casa da frente tinha um menino com quem eu brincava. Ele brincava de casinha com a gente. Ele tinha problema no coração e um dia ele morreu e essas coisas me marcaram muito. As coisas [nessa época] não tinham tanta graça. Eu tinha 6 para 7 anos.

Outra brincadeira mais solitária era de subir em árvore. Tinha a goiabeira que era minha amiga íntima, tá. Uma goiabeira... o tronco da goiabeira era liso de tanto que a gente subia, e era minha árvore preferida. Então, eu subia e ficava lendo ¾ isso já na fase da escola ¾, ficava lendo em cima da goiabeira ou, quando eu tava triste, a gente ficava em cima da goiabeira, tinha... tava com raiva de alguma coisa ia lá em cima e ficava... conversando com a goiabeira. Então é assim... era minha grande companhia aquela goiabeira.

A relação criança-criança, conforme as narrativas, passava pelo intermédio dos irmãos e das demais crianças, mais velhas ou de mesma idade, mostrando o contato com diferentes faixas etárias, mesmo que, às vezes, não brincassem juntas. Os menores sentem-se atraídos pelo grupo dos mais velhos, situação acentuada pela proximidade de parentesco, ou seja, o irmão. Depois que adquirem mais idade já é permitido participar do grupo de brincadeiras dos maiores porque os interesses convergem e se estabelece um forte sentimento de pertencimento ao grupo, que possui o status de ser formado pelos mais velhos. As "aprontações" e brincadeiras de faz-de-conta equivalem às atividades não condicionadas pelos adultos e revelam que não havia, ainda, tão fortemente incorporada nas crianças a presença do adulto centrado nas regras, nas cobranças rígidas em função daquilo que é permitido e proibido; tal fato se dá durante as repreensões, reprovações de atitudes indesejáveis, castigos físicos, aliado a uma forte relação de poder que perpassa os laços afetivos.

Eu tenho um irmão que é quatro anos mais velho do que eu, mas ele não participava das minhas brincadeiras, era outra "tchurma" que ele tinha, tá. Aí, meu irmão... eles iam jogar futebol num campinho que ficava... tinha um nome... bem, bem típico... lixão. Tinha o lixão e aí, perto do lixão, tinha um terreno muito grande, não era no lugar do lixo, e aí, eles iam jogar bola lá. E também ficava assim, até tarde... Daí a mãe desesperada porque o filho não chegava, porque tava lá no campinho. Então, eu tive assim... tinha o paralelo: eu com as crianças da minha idade brincando e vendo o meu irmão com os mais velhos brincando de futebol e outras brincadeiras de rua. E, depois, tinha... teve uma outra fase que a gente brincava muito de casinha, de fazer comidinha. Então... era fazer..., fazia fogão, foguinho, botava fogo, botava dois tijolos, botava umas madeirinhas ali. Primeiro pegava papel-jornal, amassava bem, punha um pouquinho de álcool ou só pra queimar, punha uns galhinhos secos de árvore e aí, punha a panela. Tinha uma panela que a mãe sempre... ou uma latinha... e a gente levava, punha, fritava, picava cebola ou cebolinha (atenta para isso!) que no quintal tinha [risos] horta, pegava cebolinha e punha com água e sal e comia o arroz. Aí, o arroz ficava com aquele "gosto" [risos]... com gosto de papel queimado e madeira queimada, mas a gente comia [risos]. E dessa época é também os batizados de boneca que a gente fazia e o lanche do batizado era água com açúcar, acho que era água com açúcar mesmo... Então a gente combinava, tinha as madrinhas, os padrinhos das bonecas e bonecos. Os meninos também participavam, mesmo na comidinha também, da construção da casinha, das brincadeiras de casinha. Tinha momentos de brincadeiras mais solitárias assim, no quintal. Eu falei do poço... mas era tão significativo que o meu brinquedo, um dos brinquedos preferidos era fazer pocinho [risos]. Eu molhava, molhava a terra do quintal, cavava, fazia um buraquinho, botava... eu não sei se eu punha plástico, acho que eu botava um plástico pra terra não chupar a água... e aí punha uma cobertura, fazia o sarilho ¾ aquilo era uma coisa que me chamava a atenção, tem aquela forquilha, pauzinho com cilindro que a corda enrola e que o balde vai lá dentro e pega a água [explica pausada e enfaticamente]. E pra mim era mágico. Eu fazia isso com os pauzinhos. Punha o pauzinho atravessado aqui [mostra gestualmente no espaço], enrolava o barbantinho e arranjava um jeito lá... não me lembro com o que que eu pegava água lá dentro. Esse era mais solitário em alguns momentos, e eu ficava brincando com isso.

Ah, sim! Brincadeira também que a gente brincava era pular corda também, a gente brincava muito, com as meninas. [Os meninos participavam] mais ou... um pouquinho só, quase não brincavam. Então, era muito assim mesmo: brincadeira de menina [era só de] menina e brincadeira de menino era só de menino, eu é que fugia à regra na época.

Até então eu não ia na escola. Eu fiz algumas colegas na escola, tinha algumas meninas que moravam pra cima da minha rua, então elas desciam a rua, brincavam... daí, eu aprendi a brincar de roda, de pega, corda... basicamente de roda, pega e casinha, era sempre isso.

Bom, teve... ah! Lá no Nova Europa também... aquele lugar foi tão bom [risos]... tinha um seminário lá perto, o dos [inaudível]. Eles tinham um pomar grandão e no fim de semana a gente brincava, brincava, brincava e, às vezes, a gente pegava e ia pra lá, ia brincar no pomar; tinha manga; a gente comia manga... ficava bagunçando por lá e tinha uns balanços, tinha uns brinquedos, lá a gente ficava. E a gente ia tudo junto pra lá, era superbom. E eu lembro de uma vez, aquelas coisas de criança, de aprontar, de catar coisas. A gente resolveu que... que ia pegar umas frutas lá. A gente fala tanto (hoje): olha, se você não vai comer não fica estragando, mas eu fazia isso quando era pequena, então a gente catou, catou, catou e íamos levar pra casa, então eu ficava tomando conta pra ver se vinha alguém e tinha uma prima no meio, a Deise, hoje a gente se dá superbem, mas eu não gostava da Deise, eu tinha raiva da Deise, não gostava da Deise de jeito nenhum, achava ela muito chata... Ela também me achava e, ela era mais nova que eu e daí, nós pegamos umas frutas e não tinha onde carregar, levar pra casa. Naquele tempo as meninas usavam combinação [risos] e como eu era bem maior que a Deise, eu briguei com a Deise e... eu fiz uma coisa que eu penso: Meu Deus! Que coragem! Meus Deus! [risos]. A Deise tava de vestidinho, andava toda bonitinha, de vestidinho, combinação, meinha e sapato. A gente andava de chinelo, descalça, tudo... E a Deise, coitada, pela minha força, eu fiz a Deise descalçar as meias pra encher de laranja dentro pra carregar... tirar a combinação, amarrei assim, aqui em cima da combinação [aponta em volta do pescoço], amarrei, enchi de frutas lá dentro e fechei a parte de baixo da combinação pra carregar. A Deise chorou e eu falava... se você contar você vai apanhar! Sabe umas coisas assim que... poxa vida, hoje eu fico tentando corrigir isso com todo mundo, [com] as crianças, mas eu também fazia isso, eu me valia do meu tamanho, da minha força e tudo. Então, sabe... umas coisas assim. A gente tava sempre lá brincando, uma vez levamos um "carreirão" do cachorro nesse lugar... Foi umas coisas doidas. E outra vez, com esse mesmo lugar, eu saí e juntei o grupo, fomos todos brincar nesse lugar e minha mãe... eu esqueci de avisar minha mãe e levei minha irmãzinha que era de colo, levei junto, não avisei, ai [risos], coitada da minha mãe, ficou desesperada, procura, procura, procura e não acha. Quando a gente chegou em casa eu levei uma surra, ela [a mãe] falou: eu tava quase louca! Eu falei: poxa, ficou por conta da loucura sua. Ai, mas eu apanhei tanto naquele dia! Porque a gente brincou bastante aquele dia; eu reconheço que eu deveria ter avisado, 'inda mais que eu levei a outra, pequenininha, e não demos satisfação pra ninguém. Então, foi um lugar bom, foi muito gostoso.

Na fala de uma delas a igreja aparece ligada ao divertimento, como possibilidade de espaço lúdico:

Tinha uma igrejinha pequena e o que que o padre e o pessoal lá fazia pra ajudar... era a título de ajudar a conseguir fundos para construir [inaudível]. De dia rezava as missas, à noite tirava o santo, tirava o altarzinho de lá e fazia cinema [risos]. Era desse jeito. Só que eu nunca cheguei a ir nesse cinema. Domingo, depois da missa, eu lembro que ele sabia tocar violão, então, aos domingos depois da missa, sabia tudo o que tinha que fazer. Depois da catequese ele fazia um tipo de programa de auditório com as crianças. A igreja ficava cheia de criança... não tinha aonde ir, ia tudo pra lá. Ah! Tinha as minhas primas que adoravam cantar... eu, como sempre fui muito tímida, ficava só na platéia, ajudando, fazendo torcida, aquelas coisas. E elas cantavam, ficavam cantando, o seminarista tocava violão, elas cantavam. E eles sempre tinham um brinde. Brinde? Uma coisa simbólica, uma bala, um brinquedinho. Então a gente juntava o nosso grupo e fazia aquela torcida, e gritava e batia, batia palma, assoviava; elas sempre ganhavam e dividiam o prêmio com a gente. Então foi mais ou menos assim a infância.

Aparece nas falas a importância dada à escola pela sociedade, em qualquer época, como local de construção de socialização, vivência da sociabilidade e do aprendizado. A rua, o quintal, a casa são encarados como locais informais de educação, pelas possibilidades de congregar pessoas de diversas gerações, de troca de experiências, de aprendizagem de conteúdos socioculturais, nem sempre intencionais. A escola aparece como local educativo organizado formal e intencionalmente. Nas falas aparecem referências à pré-escola, ao primário e ao ginásio, este como marco do fim da infância2 e dos tempos de meninice.

Na 1ª série foi a primeira repetência que eu tive. Eu fiz a 1ª série novamente e... caí de cama de novo, quase que eu perco o ano outra vez. Era escola pública. Depois, eu já tinha 8, 9 anos e fui morar no Jardim Nova Europa, era bem periferia, era quase rural. Não tinha polícia, aquelas confusões, era tudo assim, gente muito simples. Eu tive bastante colega lá. Era bem gostoso. Meu pai comprou uma mercearia, eu ajudava a fazer conta, mexia com os moleques. Lá foi muito gostoso. Lá não tinha escola, então, uma pessoa cedeu um barracão pra funcionar a escola e puseram um... era um barracão comprido, como é que chama aquele negócio dividindo as salas? Divisória é muito chique, sabe essa placa de compensado? Era uma coisa bem grosseira, bem rústica mesmo, ficava assim, quase 30 centímetros acima do chão, e chegava em cima, às vezes a gente escutava tudo que falava do outro lado. Era bem assim, sabe? E lá eu conhecia todo mundo também. E terminei o primário. Nessa época eu gostava muito de pular de corda, a gente falava pular de corda, pular corda, meninos e meninas... aquelas brincadeiras de bater cara. Mas foi muito gostoso nessa época. A gente era criança, a gente ia... Nessa época também a gente morava longe de tudo, pegava ônibus que passava assim, acho que, de hora em hora, que ia pro centro da cidade, sabe umas coisas assim? [risos]. Era superdifícil. A molecada ficava tudo dentro de casa, não podia sair ninguém pra rua... Nessa época tinha bastante marginal [na região], era um bairro novo, tinha uns bairros que estavam crescendo. Agora é um bairro mais classe média, hoje longe da cidade. Era gostoso, eu brinquei bastante, brinquei de carrinho de rolimã. É! Foi mais ou menos isso... jogava queimada. Não tinha divertimento nenhum lá.

A escola onde eu estudava era muito [enfática] longe e a gente ia em grupo para a escola. A pé... era uma coisa assim, eu até queria voltar pra contar, acho que era coisa de... devia dar uns três, uns cinco quilômetros. Porque eu morava quase que na parte plana da rua daí virava, ia fazendo curva até chegar no lugar da escola. Ah! Isso foi no ginásio, o grupo escolar era mais perto, devia dar uns dois quilômetros e a gente ia junto. O grupo escolar era uma casa, uma casa que eu me lembro nitidamente, as salas eram os cômodos da casa, quintal... tinha quintal, só que não era cheio de árvore não, já era cimentado. Mas depois, quando eu fui pro ginásio... o ginásio já era um prédio maior, já era uma estrutura mais oficial... mas, o caminho também era muito gostoso, era de terra e a gente ia nos bandinhos conversando, parando no caminho pra chutar pedra. Então, tudo isso foi muito... acho que foi muito... foi muito coerente. Era a casa, o quintal, a rua, a escola, tudo foi uma extensão natural e tudo muito em grupo, tudo muito construído em grupo, muita convivência. Foi algo assim, muito bom.

Depois, na adolescência eu já quase não brincava mais. O pessoal também, porque eles iam parando de estudar... A maioria fazia o primário e parava pra ir trabalhar em fábrica, coisas assim. E eu fui pro ginásio. Acho que eu tinha... porque eu repeti no primário... acho que eu devia ter uns 11 pra 12 anos quando eu fui pro ginásio. Até, naquela época, tinha.... eu lembro que fui fazer umas aulas particulares porque tinha aquele tal de exame de admissão. Faz tempo! (estala os dedos). Tinha exame de admissão e eu estava morrendo de medo de não passar, estava supernervosa. E daí, quando foi no dia do exame, veio a notícia que não ia ter mais exame de admissão. Eu fui lá toda feliz, fiz a matrícula. Não tinha mais o exame. E fizemos a matrícula... e daí já fui pro ginásio. Como eu disse, no bairro não tinha o ginasial ¾ naquele tempo era ginasial ¾ então, daí eu fui pro Jardim Leonor. Só que o Jardim Leonor, na escola que chamava Prof. Nilton de Tolose... só que aí já era um bairro de classe média e eu me sentia assim muito... tinha até medo de abrir a boca porque as meninas falavam que a gente era índio, que a gente vinha do meio do mato, sabe aquelas coisas? Eram as meninas do bairro. Então eu fui ficando cada vez mais parando de brincar, cada vez mais quieta, cada vez mais "na minha" e... não tenho assim boas lembranças dessa coisa de brincar. Eu começo a me lembrar mais de eu sozinha lá com meus livros, minhas coisas, ajudando a cuidar das minhas irmãs, porque eu era mais velha, depois tinha um irmão que é um ano mais novo do que eu e mais duas que eu vi nascer e então... é mais assim. Então, de brincadeira mesmo, foi até o início do ginasial, depois separou todo mundo, acabou, o pessoal que brincava comigo teve que trabalhar...

Depois eu comecei a fazer dança, a fazer datilografia, fazer violão, tudo ao mesmo tempo junto com a escola, então eu não brinquei... a partir daí eu parei de brincar um pouco na rua eu comecei a ter mais atividades. Não sei como eu agüentava, mas eu gostava. Daí, foi indo, foi indo, eu terminei a datilografia que eu tinha começado com... acho que era 7 anos, em Campinas. Mas eu não consegui, não cheguei a terminar por causa de má companhia, tinha uma moça que ia comigo [risos] e a gente, ela me levava pro centro de Campinas, pra gente passear depois da datilografia, e era no São Bernardo, e aí minha mãe descobriu [risos] e ela tirou. E eu ia superbem na datilografia, já era alfabetizada e tudo. Mas ela me tirou [risos] e aí eu vim terminar aqui. Então, e as brincadeiras depois foram acabando, fui mais pro balé, pro violão, tava na datilografia, aí terminei a datilografia, parei o violão, só fiquei com a dança que pra mim era mais importante.

A infância vivida, para as três, é qualificada como boa e satisfatória embora com poucos recursos e poucas posses (apesar de perspectivas de mudanças e melhoras), às vezes frustrante pela falta de companhia de pares. No caso específico de uma delas, o pesar deve-se às brigas frequentes com a mãe (hoje consegue entender a posição desta no passado, mas nem sempre a aceita) e ao fato de viver aprisionada e isolada dentro de casa e sem amigos para brincar (o que ocasionava as "aprontações", como ela denomina suas atitudes naquela época: bagunças, desarrumações, estragos, aos olhos dos adultos).

[Qualifico minha infância como] superpositiva! É algo assim que... quando eu te falo, quando eu ouço o vento batendo no milharal me vem assim uma... toda essa cena, todas as cenas, de que foi muito bem aproveitada mesmo por ter esse lado muito coletivo, muito criativo, de tá em contato com as coisas, de estar me utilizando das coisas que estavam por ali pra 'tar fazendo, de ter a opção de 'tar sozinha fazendo, de ficar junto com as crianças, mesmo na escola, que também foi superpositiva a época da escola... Eu acho que... toda a estrutura física e geográfica da minha infância também possibilitou muito isso, a vila, a terra... (...) Era tudo muito mágico! Era uma coisa assim... que eu tenho até hoje, talvez porque eu sinta falta de 'tar vendo mais essas coisas, que era muito... de preencher demais assim, com as crianças [pausa].

Olha, eu tenho muito positiva [as lembranças da infância] porque, tudo o que a gente faz hoje, que a gente cria, que a gente vai atrás, eu acho que eu devo a isso, de eu ter brincado porque, se eu brinquei, eu usei muita coisa, não só o físico usei muito a minha mente, muito mais. Então, você não tem [inaudível] você vai fazer o quê, a gente pegava tijolo, cortava o tijolo e riscava. Olha, a gente não tem uma rede pra brincar de bola, a gente não chamava nem de vôlei, bola ao alto, ou então passava do barbante. Que que era? Era um barbante, era um elástico, acho que nem elástico não tinha porque era caro, a gente tinha um barbante lá ou fio de náilon. Que mais? Tudo, acho que até bola se a gente não tinha a gente tinha que improvisar com alguma coisa, mas sempre teve assim. É... inventava, então eu acho que a brincadeira, se você não tem muito recurso é melhor ainda porque você cria. Agora, se você tem recurso também é bom, claro, se você tem um computador pra brincar nele, por meia hora, quarenta minutos, tudo bem. Então, acho que foi muito bom, porque a brincadeira é que faz eu pensar nas coisas agora com as crianças, quer dizer, eu às vezes trago uma brincadeira com eles... eu 'tou muito preocupada com isso, depois eu te falo, mas assim, a gente faz uma brincadeira com eles, a gente enxerga as coisas na brincadeira. Por exemplo, na minha época a gente brincava de queimada; o trunfo é de quem ficava por último mas, o trunfo era aquele trunfo, era uma delícia, sabe, ficar por último era assim, demais! A gente se sentia no auge...

No geral, o aspecto social é bastante enfatizado, principalmente o ato de brincar (com brincadeiras e/ou jogos convencionais/tradicionais e inventados); a convivência com a coletividade representada pelas interações adultos-crianças e crianças-crianças, universos que divergiam ou convergiam em interesses em determinados momentos; o espaço físico (na fala delas os espaços, tanto públicos quanto privados, possibilitavam a vivência do aspecto lúdico: a rua de terra, o asfalto, a vila, o quintal); a dependência em relação ao social notada pelo aprender com os que sabem mais (sejam eles adultos e/ou as próprias crianças), juntamente com a reconstrução imaginária de aspectos do real por meio de recursos simbólicos; a quase ausência de violência social; a criatividade estimulada pelas poucas condições materiais, contribuindo para a invenção de brinquedos e de soluções para situações-problema e o pouco contato com a tevê.

As ênfases recaem sobre o ato de brincar, o espaço destinado a tal atividade e a relação com os pais, parentes e vizinhos, ou seja, os momentos de contato e de ausência com estes e com o grupo de brincadeiras. Para Marcellino (1990),

freqüentemente os adultos sentem necessidade de retorno a uma espécie de felicidade infantil, a uma época de suas vidas onde a razão e a emoção, o corpo e a alma, o lúdico e a vida não se encontravam separados. É um certo tipo de nostalgia reconfortante, cujo apelo, de modo invariável, acaba no mundo do brinquedo, do jogo, da brincadeira ¾ do lúdico. (p. 73)

O contato com outros grupos de meninos e meninas propiciado, também, pela entrada na escola favorece o aprendizado e a divulgação de repertórios de brincadeiras e/ou jogos; entretanto, a tradição também é passada pelos adultos diretamente quando participam, incentivam e desenvolvem atividades lúdicas como as festas, a montagem de presépios, as próprias brincadeiras, a leitura de histórias etc.

O contato com a natureza, aspecto marcante na fala de uma delas, oportunizou e contribuiu sobremaneira para o repertório de brincadeiras e para o imaginário infantil por meio das relações e dos contatos íntimos com árvores, plantas, água, cheiros etc. O exemplo da amizade com a goiabeira reflete isso, tida como companheira de bons e maus momentos, semelhante ao que ocorre na história do livro Meu pé de laranja lima, escrito por José Mauro de Vasconcelos. A árvore era um personagem real, que fazia companhia e era confidente, não apenas coadjuvante; a narradora tinha-a como "amiga íntima", com quem dividia alegrias e tristezas. Era refúgio e local de segurança. Tanto para ela quanto para as demais crianças essa era uma prática corriqueira, e influenciou seu jeito de ser até hoje, o que pode ser sentido pela vida aventureira que teve, por um estilo mais naturalista de viver, na busca de formas diferentes de autoconhecimento, conforme foi relatado ao final da narrativa, em "off".

Para duas das narradoras, a proximidade com a vizinhança e a vivência dos/nos espaços públicos são apontadas como fator fundamental das lembranças positivas da infância. Segundo Simson (1995), a participação na vida do bairro influencia na construção de uma "identidade de bairro".

O tempo de "antes" aparece como sendo melhor que o atual, pois o rememorar tem como parâmetro de referência as reflexões provenientes do imaginário adulto que se possui hoje. Heller diz que "(...) o significado de nossas vidas não está dado socialmente. Cada indivíduo busca esse sentido para si mesmo, e desse modo reconstrói o social" (apud Setúbal e Silva, 1989, p. 42). Para Setúbal e Silva (1989),

(...) Narrar significa intercambiar experiências e o trabalho da memória é exatamente o de resgatar essas experiências e transmiti-las (...) não com a intenção de revivê-lo (o passado) mas de fazer com que ilumine o presente. (...) A memória não se mantém intacta. Ela sofre a ação do tempo e da experiência vivida. Portanto, esses relatos vêm acompanhados de uma reflexão sobre o significado desses acontecimentos para essas pessoas. (p. 32-33)

Embora as experiências das três educadoras sejam distintas, podem-se buscar referências na vivência da infância de cada uma delas, embasando sua prática cotidiana e profissional com crianças e jovens.

Nesse sentido, é possível dizer que os adultos que tiveram uma infância marcada pela vivência em grupos de brincadeiras e forte sentimento de coletividade, e que a qualificam como positiva, tendem a tentar reproduzir no presente aquilo que entendem como sendo mais positivo para oferecerem às gerações mais novas com as quais convivem, por meio de sua prática como educadoras e mães e no oferecimento de condições de experiências semelhantes (na medida do possível), orientados pela imagem que fazem de criança e de infância. Os adultos que tiveram uma infância não tão fortemente marcada por essas características tendem a assumir duas posturas: procuram projetar no presente, principalmente para com as crianças com as quais se envolvem, aquilo que gostariam de ter vivido e experimentado (guiado pelos desejos e frustrações) no passado; tendem a dar continuidade ao tipo de vivência que tiveram, talvez não acreditando na sua participação como agentes de possíveis mudanças (embora seja necessária uma mudança na situação social e econômica mais ampla), experimentando a falta de motivação ou o não-reconhecimento do processo histórico (baseado na inter-relação do indivíduo com o social ).

A possibilidade de contato com crianças e jovens em um espaço educacional não favoreceria isso, por meio do exercício do olhar adulto para com a cultura e o universo infantil e de sua participação nela? Marcellino (1990) também faz pergunta similar:

(...) a saudade do prazer e da alegria sentidos na infância, ou nela não devidamente saboreados e suas conseqüências no adulto; a lembrança, a procura do refúgio para a recuperação que possibilite o prosseguir da caminhada, mudar os rumos, trilhar novos caminhos; onde buscá-las? (...) Quais as oportunidades de vivências lúdicas que os educadores têm no seu cotidiano? (p. 74 e 110)

A partir dessas perguntas, pensar nas vivências particulares e socializadas ajuda o adulto a se conhecer e a conhecer outro, na busca de uma relação adulto-criança ¾ exterior ou interior ¾, a definir e dar sentido ao seu lugar e papel social e às relações com os outros, de diferentes idades.

Aninha sugere outro brinquedo ¾ brincar de casinha. Vão buscar as panelinhas de barro, como são as da casa feitas por Mãe Preta ou Lucinda que buscam argila boa pros lados do pasto da chácara de Dona Filó e as fazem com perícia e depois as cozinham no forno de barro que fica no quintal.

Canecas de ágata, sem o cabo ou furadas, já sem uso, com os quais podem brincar. Comidinha de mentirinha... Se têm sorte, Lucinda arruma um pouquinho de farofa ou arroz já pronto. Matinhos também são cortados e viram comidinha.

Às vezes, buscam na cerca que fica ao fundo do quintal, separando do beco, favas de olho-de-cabra, que dão sementes vermelhas com mancha preta ao lado e que, depois de furadas, passando-se um cordão, tornam-se pulseiras e colares. (Tahan, 1989, p. 23)

 

Notas

1. Brandão (1993) usa, para isso, a denominação de "ficção".

2. Esses aspectos e outros relacionados às experiências escolares, de formação profissional e de vivência da maternidade e relação com os filhos foram aprofundados no capítulo 4 da dissertação já citada.

 

 

GIRL'S MEMORIES

ABSTRACT: The story of three educator's childhood are the starting point to discuss the relationship of these women to their girlhood, their schooling experience, their professional life, their motherhood and the social groups of the districts they were raised in and, later, the effects and interference of those real-life experiences on their educational practices with low purchasing power children and youngsters who attend an informal schooling project.

Key words: Childhood memories. Professional training. Informal education. Girls.

 

 

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* Texto reformulado a partir de capítulo da dissertação de mestrado intitulada "Entre nós o sol: Um estudo sobre as relações entre infância, cultura, imaginário e lúdico em atividades de brincar em um programa público educacional não-escolar, na cidade de Paulínia-SP", defendida em 1998, pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas(UNICAMP). Agradeço as sugestões e idéias de Margareth Brandini Park, que contribuíram para a elaboração deste texto.

** Doutoranda pela Faculdade de Educação da UNICAMP e pesquisadora do Centro de Memória da mesma instituição.