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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.22 no.57 Campinas Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622002000200001 

APRESENTAÇÃO

 

 

As sociedades modernas são, no dizer de Giddens,1 "sociedades cerradas", sociedades da negação que, enquanto tal, colocam questões de diferentes ordens àqueles que educam e investigam as realidades concretas. Por esta razão, falar de educação e culturas juvenis constitui desafios ao conhecimento, à prática educativa e à compreensão da diversidade social. Compreende-se que não basta reconhecer a existência da diversidade, mas que é preciso ter acesso a ela, aos seus significados próprios e aos significados que se constróem na relação entre indivíduos, grupos e realidades.

Escrita a várias mãos, a presente coletânea, para além de expor os diferentes contextos de construção do modo de ser jovem, revela que a vida não se circunscreve a etapas específicas e lineares, mas que resultam das experiências cruzadas entre o indivíduo e o coletivo. É assim que os vários textos conduzem o olhar para as sociedades onde os sujeitos sociais ¾ jovens e/ou adolescentes ¾ estão e vivem, para compreender, na lógica de suas vidas, o que está em jogo.

O jovem é um sujeito que vive o tempo presente e que, portanto, está entre dois tempos ¾ o ontem e o amanhã. No entanto, há, no tempo dos jovens, muitos tempos sobrepostos que atuam em oposição, complementaridade e conflito, e disso resulta ser o jovem um ser liminar, que desafia a ordem instituída, a ordem da modernidade e do equilíbrio. Nesta conjuntura, a escola como instituição cumpre um papel específico, o de enquadrá-lo a essa mesma ordem. Mas este, como sujeito aberto ao experimento e à experiência, transgride o que dele se espera para dizer o que ele pensa do mundo e, desta forma, expõe o que o mundo pensa e faz dele. Torna-se, então, um problema. Um problema social por suas realidades adjetivadas: favelada, negra, pobre, trabalhadora, urbana, rural... Um problema político a demandar um conhecimento capaz de fomentar práticas de intervenção e embasar políticas públicas. Um problema sociológico e, como tal, uma realidade para ser decodificada, investigada. O jovem é, vive e representa os aspectos diurnos e noturnos da vida social2 e, à medida que se mostra ou busca se impor, transforma sua ambigüidade em ambivalência, plurivalência, "jogando" com os saberes constituídos pela experiência da vida social, a sua experiência, a experiência de seu grupo, do grupo ou grupos a que pertence. Tudo em acordo com suas histórias de vida, nas trajetórias construídas com diferentes agências e agentes presentes na sociedade.

Neste sentido, os artigos aqui reunidos contemplam pesquisas e trabalhos realizados com jovens e adolescentes, nos quais são vistos como sujeitos ativos, produtores de cultura em contextos educacionais variados, das periferias de grandes centros ao universo rural-regional. Pesquisadores em diferentes instituições de educação formal, não-formal e informal, bem como em diferentes estados, enfocam sobre políticas públicas, ações interventivas na área de saúde sexual e reprodutiva dos jovens e noções de adolescência; juventude(s); cultura; relacionamento amoroso e diferenciação sociocultural.

Tais pesquisas foram feitas nos estados da Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Discutem práticas educacionais de formação, intervenção e socialização, entendendo assim a educação como um processo mais amplo, além da escolaridade. Portanto, pensando a educação deste modo, abrimos o debate para a sua compreensão de forma integral, no que diz respeito ao entendimento "(...) da ação educativa proposta e realizada por diversas instituições, cuja ação, enquanto educativa, visaria influenciar o comportamento humano no sentido de sua adequação aos objetivos e valores da sociedade".3

A equipe do Programa de Apoio ao Pai (Papai), do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, coordenado pelos psicólogos Jorge Lyra e Benedito Medrado, apresenta-nos uma experiência de pesquisa-intervenção de educação não-formal com um grupo de adolescentes de camadas baixas, na qual, ao se discutir noções correntes de adolescência, buscou-se uma (re)construção de outros sentidos do que é ser adolescente.

Na tentativa de demonstrar a construção social do relacionamento amoroso dos adolescentes, a mestre em Educação e professora da Secretaria Municipal de Educação de Campinas, Sheyla Pinto da Silva, por meio da convivência em salas de aula, observou atitudes e comportamentos dos jovens hoje e reflete sobre o que cada época histórica proclama como ideais nas artes da sedução e desempenho sexual.

No debate feito pela equipe da Associação Brasileira Interdisciplinar de aids (Abia), Richard Parker, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Escola de Saúde Pública da Columbia University em Nova Iorque, e Luís Felipe Rios, pesquisador do Cepesq/Ims/Uerj, doutorando em Saúde Coletiva no Ims/Uerj, com respeito à adultez, apresentam os resultados de recente análise dinâmica contextual sobre as oportunidades e barreiras para a saúde sexual e reprodutiva dos jovens brasileiros. Identificam algumas lacunas nas pesquisas e intervenções de educação não-formal até a inserção da Educação Sexual nos Parâmetros Curriculares Nacionais na segunda metade da década de 1990.

Em "Adolescentes como autores de si próprios", a psicóloga Viviane M. de Mendonça Magro, doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas, observando como os participantes do hip hop assumem o papel de protagonistas de seu próprio processo educativo, comunica-nos outros modos de ser adolescente que os reconhecem como capazes de construir ações significativas no campo social.

O professor substituto do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia, Ari Lima, observando funkeiros, timbaleiros e pagodeiros da cidade de Salvador, jovens suburbanos, pobres e "negros-mestiços" com baixo grau de escolaridade, rediscute suas notas etnográficas e reflete sobre como, num contexto racializado da associação entre juventude negra e música, surgem experiências que se desenvolvem como marcas identitárias, crítica social e ratificação de hierarquias raciais, de classe e gênero. Seu artigo demonstra a importância da música, um instrumento configurador da experiência juvenil e negra afro-diaspórica que, ao mesmo tempo, acaba repondo antigas dessemelhanças que não estão nos genes.

Por fim, a pesquisadora Vanda Silva, doutoranda em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, chama atenção para os jovens que vivem entre o rural e o urbano na região do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, afetados pelos processos socioeconômicos que dificultam a vida dos que vivem da agricultura. Também reflete sobre a possibilidade de falar em culturas juvenis no rural; projetos que visam diminuir a evasão e repetência escolar da região e o programa de assistência do Fundo Cristão ao trabalhador rural, crianças e jovens.

Este Caderno só vem demonstrar o caráter das múltiplas realidades juvenis e que, sobre os jovens brasileiros, ainda há muito para se conhecer, dizer e refletir.

 

Notas

1. Ver GIDDENS, A. Sociologia. Madrid: Alianza Editorial, l995.

2. Para Cabral, os aspectos diurnos da vida sociocultural correspondem àqueles de maior legitimação na sociedade, enquanto que os aspectos noturnos correspondem àqueles que são reprimidos e não encontram uma forma óbvia de expressão, mesmo fazendo parte da vida sociocultural. Ver CABRAL, J. de P. A difusão do limiar ¾ margens, hegemonias e contradições na antropologia contemporânea. Mana-2, l996, p. 35

3. Ver DEMARTINI, Z.B.F.; LANG, A.B.S.G. Considerações a respeito dos conceitos de Educação e de Rural. Educação e trabalho: um estudo sobre produtores e trabalhadores na agricultura paulista. São Paulo, Ceru e Fflch/Usp, 1983 (Coleção Textos, 6), p. 13-14.

 

 

NEUSA MARIA MENDES DE GUSMÃO
Professora do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas à Educação (Decisae, Gepedisc, FE/Unicamp)

VANDA SILVA
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp