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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.23 no.59 Campinas Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622003000100001 

Apresentação

 

 

Heloísa Helena Pimenta Rocha; Vera Regina Beltrão Marques

 

 

Febre amarela, gripe, malária. O espectro de doenças consideradas já debeladas pela ciência volta a pairar sobre a nossa sociedade. Miséria, fome, violência e desemprego associam-se para compor o quadro desolador dos tempos que nos cabem viver. Diante desse quadro, os autores deste Caderno assumiram o desafio de lançar um olhar ao passado e indagar sobre as soluções engendradas em outros tempos para problemas tão antigos e, surpreendentemente, tão atuais.

Diante do largo universo de intervenções civilizatórias articuladas pelos grupos sociais investidos de poder, em diferentes momentos históricos, buscamos refletir sobre algumas das facetas do amplo projeto de higienização social, que teve na educação um dos seus principais pilares. Com base na análise de fontes diversas, que recobrem os séculos XIX e XX, os artigos aqui reunidos foram organizados em torno de dois núcleos, de modo que se possa dar visibilidade às nuances que assumiram as "cruzadas de higiene", as quais se revestiram de um caráter regenerador, quase litúrgico, elegendo as camadas populares como o seu principal alvo e materializando-se em intervenções que variavam desde as práticas disciplinares mais ostensivas até prescrições mais sutis, apresentadas em forma de "conselhos".

O primeiro núcleo, no qual procuramos tematizar a higienização da infância e da instituição escolar, constitui-se dos seguintes artigos:

António Gomes Ferreira, a par do exame de um expressivo conjunto de dissertações de alunos da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, assinala os finais do século XIX como o período em que se inicia um maior investimento médico sobre a infância. Ao reclamar para si a legitimidade de uma intervenção científica sobre a infância portuguesa, o corpo médico não hesita em abarcar o fenômeno da escolarização, contribuindo para a produção de representações acerca do caráter doentio da escola. A pretensão de controle do espaço pedagógico responderia por um alargamento do campo da higiene escolar, o qual se desloca da abordagem das condições sanitárias, investindo sobre o trabalho intelectual. Suas análises contribuem para a compreensão dos fundamentos em que se assentou a pedagogia científica.

Recenseando as leituras de formação dos médicos oitocentistas na Corte Imperial, José Gonçalves Gondra procura daí extrair o modelo de intervenção seguido nos trópicos, o qual se ancorava na perspectiva de "reordenação da idéia de medicina e de humanidade", de modo que se produzissem sujeitos higiênicos, higienizados e higienizadores. Configurada como uma "arte de dirigir", a educação traduziu-se, no interior dos manuais de higiene, em conselhos, adágios e máximas dirigidos a sociedade, pais, professores, mães e professoras.

Em seu artigo, Heloísa Helena Pimenta Rocha examina as representações sobre a infância e as práticas higienizadoras que compuseram o modelo de educação sanitária formulado na esteira da ampla campanha de regeneração física, intelectual e moral a que se lançou o Instituto de Hygiene de São Paulo. Dentre os objetivos do artigo, destaca-se o exame das propostas de configuração da escola primária como instrumento de disciplinamento e (con)formação da infância aos imperativos da racionalidade higiênica.

O tema da regeneração também perpassa o artigo de Vera Regina Beltrão Marques, a qual, retomando o discurso higienista elaborado no começo do século XX, busca apreender as matrizes do discurso que atribui ao trabalho o poder de redimir a infância pobre. Em suas incursões pelas páginas das gazetas paranaenses da última década do século passado, a autora apreende os efeitos nefastos do que considera uma higienização às avessas.

O segundo núcleo deste Caderno tem como eixo norteador a higienização social, contemplando artigos que buscam examinar os objetivos de moralização e controle que presidiram as intervenções higienizadoras.

As classes populares têm sido alvo certo das campanhas policiais, especialmente quando se trata de constituir e/ou ordenar espaços públicos de circulação de gentes e de coisas. O Largo do Jurumbeval, na Campinas de meados do século XIX, não fugiria à regra, como assinala o estudo de Valter Martins. Os seus freqüentadores, escravos e libertos, trabalhadores imigrantes e nacionais e toda sorte de pessoas pobres, que teimavam em impor formas de sociabilidade em desacordo com as "regras de bem viver" em sociedade, desde logo foram visados como protagonistas dos empreendimentos higienizadores.

O monopólio das artes de curar por parte dos médicos é bastante recente no Brasil. Amplamente buscado, teve no incremento de associações e periódicos médicos, além da criação da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, importantes veículos para a sua efetivação. Impor-se ante os saberes legitimados de outros terapeutas significou, muitas vezes, desqualificá-los ao buscar substituí-los por portadores de formação acadêmica ou "modernos" equipamentos. Os sangradores não ficariam fora das hostes do movimento higienizador. O artigo de Tânia Salgado Pimenta trata de analisar os expedientes utilizados no intento de substituir sangradores por doutores no Rio de Janeiro dos começos do Oitocentos.

"Isolemos S. Paulo!": mote do desespero que assolava a população da cidade sitiada pela gripe espanhola; o jornal A Gazeta parecia manifestar o desejo de todos. O trabalho de Liane Maria Bertucci-Martins, calcado nos "conselhos ao povo" expedidos pelas autoridades sanitárias enquanto perdurou a epidemia, explicita o que se colocaria como cerne da propagação epidêmica: a higiene e os contatos pessoais. Em sua análise, evidencia os intentos de regulação dos indivíduos que perpassam as práticas higienizadoras forjadas em quadras epidêmicas.

Este número dos Cadernos Cedes toma as "cruzadas da higiene" como eixo articulador, cuidando de analisá-las em diferentes momentos e espaços, tendo na educação seu principal veículo, a "arte de dirigir" por excelência. Fosse na escola, fosse em outros cantos ou antros da sociedade, o movimento higienizador intentou abranger dos infantes às epidemias, das escolas aos mercados, a todos tentando arrastar em suas malhas.