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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.23 no.59 Campinas Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622003000100008 

"Conselhos ao povo": educação contra a influenza de 1918

 

"Advice to the people": education against the 1918 influenza pandemic

 

 

Liane Maria Bertucci-Martins

Doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professora de História da Educação na Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail: liane@ufpr.br

 

 


RESUMO

Quando os primeiros casos de gripe espanhola começaram a vitimar os paulistanos em outubro de 1918, o Serviço Sanitário do Estado de São Paulo publicou uma série de prescrições com a intenção de esclarecer e instruir os moradores da capital do estado sobre a doença, suas características e algumas formas de combate de uma moléstia também chamada de influenza ou influenza espanhola. Resumidos e reeditados na imprensa, muitas vezes sob o título de "Conselhos ao Povo", os pareceres elaborados pela diretoria de saúde ganharam diferentes nuanças, mas algo permaneceu constante: o apelo à higiene pessoal e ao cuidado com os contatos sociais, como maneiras de se evitar a enfermidade e sua propagação. O objetivo deste texto é recuperar um pouco dessa história, em que as questões de higiene, educação e saúde se mesclavam.

Palavras-chave: Gripe espanhola. Educação. Influenza. Higiene. Epidemia.


ABSTRACT

The first residents of São Paulo to catch the Spanish flu became ill in October, 1918. At that time, the Public Health Services of the state of São Paulo designed a series of prescriptions to inform the inhabitants of the state capital about the disease and its symptoms, and provide information about how to treat it and avoid contamination. Summarized, printed and reprinted by the press, usually under the title "Advice to the People", such information underwent variations even though one thing remained the same: the recommendations to practice personal hygiene and avoid large social gatherings to prevent contamination and the spread of the disease. The present paper attempts to rescue some of this story, which incorporates issues of personal hygiene, education, and health in general.

Key-words: Spanish flu. Education. Influenza. Hygiene. Epidemics.


 

 

Introdução

Em meados de 1918, a cidade de São Paulo contava com mais de 528.000 habitantes (Relatorio, 1919).Em meio aos problemas com a carestia e as informações sobre a Guerra Mundial, poucos desses moradores devem ter lido detidamente as pequenas notícias que havia alguns dias falavam de uma doença que estaria grassando na Espanha, de diagnóstico ainda incerto, mas já classificada de epidêmica, e que mobilizava a atenção das autoridades daquele país. Em junho, de Londres, informavam que a epidemia era de influenza ou gripe e parecia estar atingindo diversos lugares do Velho Continente. Muitos chamavam a doença de influenza espanhola ou gripe espanhola. Será? Mas os paulistanos não pareciam muito interessados em uma enfermidade que, se espanhola ou não, pouco importava, afinal influenza não era uma doença tão perigosa. As atenções estavam centradas nas notícias sobre os problemas na agricultura e a respeito da Missão Médica Brasileira, que se organizava e em breve partiria para prestar assistência aos combatentes aliados (O Estado de S. Paulo,25 e 28/5/1918, p. 4 e p. 2; 1/6/1918, p. 2).

Entretanto, os jornais continuaram publicando notícias sobre a epidemia. Durante o mês seguinte, a maioria das informações falava da propagação da doença justamente nos países não aliados ou em uma nação que se dizia neutra, a Espanha, onde a censura de guerra não existia. Seria apenas coincidência ou estratégia dos combatentes? Impossível saber naquela época.1

Mas, para alívio daqueles que começavam a ficar preocupados, em meio a notícias sobre os banquetes de despedida oferecidos à Missão Médica que estava de partida, informações sobre a influenza espanhola começaram a falar em declínio da enfermidade e explicavam a ocorrência de vítimas fatais da doença em virtude da fraqueza da população européia, por insuficiência alimentar – a guerra, a fome. Mas tudo parecia estar acabando (O Estado de S. Paulo, 18/7/1918, p. 2; 7 e 14/8/1918, p. 3 e p. 2).2

Enquanto isso, o presidente do Estado de São Paulo, Altino Arantes, enviava telegrama ao deputado Nabuco de Gouvêa, com a relação dos médicos paulistas que iriam compor a Missão Médica Brasileira, chefiada pelo deputado. A Faculdade de Medicina preparou-se então para, em sessão solene, homenagear os representantes de São Paulo na importante Missão. Eram eles os doutores: Benedicto Montenegro, Raphael Penteado de Barros, Adolpho Corrêa Dias Filho, Christiano de Souza, Raul Vieira de Carvalho e Baeta Neves. Como adidos seguiram ainda os doutores João Monlevade e Arsênio Galvão Filho (Correspondêcia, 24/7/1918. Missão... Revista de medicina, p. 74). Muitos foram os discursos e vivas calorosos.

E assim, convictos da nobre missão que os aguardava, os médicos paulistas partiram junto com outros doutores brasileiros. A travessia do oceano não foi fácil: um triste presságio do que os esperava.

Desde final de agosto os casos de gripe haviam reaparecido na Europa e alastravam-se rapidamente. Mais uma vez, foi uma notícia sobre a Espanha que alarmou os paulistanos mais atentos. Era 14 de setembro de 1918 quando os moradores de São Paulo leram: "Na Espanha. Rebentou uma nova epidemia de influenza no país. Foram denunciados inúmeros casos na cidade | de Madri | e província de Múrcia. A guarnição inteira de Alicante acha-se afetada do mal" (O Estado de S. Paulo, 14/9/1918, p. 1). Era só o começo. Em Dacar, no Senegal, a enfermidade manifestou-se na primeira quinzena de setembro de forma violenta. Brasileiros adoeceram naquela cidade, vários morreram, inclusive os da Missão Médica, cujo paquete havia ancorado naquele porto francês da África em 5 de setembro. Outros navios do Brasil, da divisão de guerra, que seguiam para a Europa, já estavam no local, depois de realizarem parada para reparos e abastecimento em Freetown, Serra Leoa (Gama, 1982; Moncorvo Filho, 1924).3

Em poucas semanas, notícias de várias partes do mundo anunciavam a presença e as mortes causadas pela violenta epidemia que ficou conhecida como gripe espanhola: dos Estados Unidos (provável local de origem da doença, em campos de treinamento militar) até os confins da Ásia e Oceania, a moléstia fazia suas vítimas, facilitada em grande parte pelo movimento de tropas que iam lutar em solo europeu – apenas algumas ilhas do Pacífico, totalmente isoladas, não foram atingidas (Crosby Jr., 1976).

A maior epidemia da história, uma pandemia. Ao passo que a Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918, matou, aproximadamente, 8 milhões de pessoas, a gripe espanhola foi fatal para mais de 20 milhões de seres humanos em todo o mundo. Nada matou tanto em tão pouco tempo. Quanto ao total de enfermos: para uma parcela significativa de estudiosos, 600 milhões de pessoas teriam sofrido com a pandemia gripal, mas alguns supõem que adoeceram entre 80 e 90% da população do planeta, o que somaria 1 bilhão de pessoas (Bertolli Filho, 1986; Echeverri Dávila, 1993; Oldstone, 1998). O vírus mutante da gripe assumiu características tão singulares em 1918 que a chamada influenza espanhola, até hoje, apavora quem procura entender o que aconteceu naquele ano.4

 

A gripe espanhola no Brasil: breves considerações

Em setembro de 1918, as informações que chegavam para os paulistanos sobre a nova epidemia eram imprecisas. Enquanto isso, o ministro da Marinha do Brasil dava providências para auxiliar os homens que estavam naquele momento na África (reforços humanos e medicamentos seriam enviados) e preparava medidas para o isolamento dos portos nacionais, ameaçados de serem atingidos pelo que já chamavam de "terrível mal" (O Estado de S. Paulo, 22 e 24/9/1918, p .2, 4 e p. 4. A Capital, 24/9/1918, p. 1).

Nos dias seguintes, as notícias sobre a doença ganharam alguns detalhes: mais de 50 brasileiros teriam morrido em Dacar, entre eles pelo menos três membros da Missão Médica. A incerteza e o medo começaram a rondar os moradores de São Paulo (Jornal do Commercio, 24/9/1918, p. 2). Os jornais publicaram então as determinações do Dr. Carlos Seidl, diretor-geral da Saúde Pública (nacional), para evitar que a epidemia se propagasse; era o que chamava de profilaxia indeterminada: "Que sejam rigorosamente desinfectados todos os navios, quer estrangeiros quer nacionais, de procedência suspeita, bem como cuidadosamente examinados todos os passageiros. Esse serviço fica a cargo dos inspetores de saúde do porto desta capital | federal |" (O Estado de S. Paulo, 24/9/1918, p. 4).

E entre votos de pesar, convites para missas pela alma dos mortos em Dacar e festas adiadas, em sinal de luto, cogitava-se no retorno imediato da Missão Médica e da esquadra brasileira para tentar evitar mais mortes (já seriam 89 os falecidos), ao passo que as medidas de vigilância eram estendidas a toda a costa do Brasil. O lazareto da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, começou a ser preparado para receber possíveis enfermos(A Capital, 24 e 25/9/1918, p. 1 e p. 1. O Estado de S. Paulo, 25 e 26/9/1918, p. 3 e p. 5).

Notícias sobre doentes de gripe na Bahia e a passagem por Pernambuco, e em seguida pelo Rio de Janeiro, de mais um navio que havia estado em Dacar (o navio Demerara já havia aportado no Brasil na primeira quinzena de setembro) sobressaltaram ainda mais os paulistanos (Bertucci, 2002). Seidl tomava medidas para tentar impedir uma possível importação epidêmica: proibiu que o navio tocasse o cais e que passageiros em trânsito desembarcassem, determinou o embarque em Recife de um inspetor sanitário que deveria observar os passageiros até a capital federal e a atenção das autoridades sanitárias sobre aqueles que desembarcassem, exigindo inclusive que declarassem onde iriam residir.

Depois das muitas histórias sobre os passageiros do Demerara, que teriam desembarcado (doentes?) no país, escrevendo sobre esse outro navio que chegava, o jornal de São Paulo O Combate não titubeou em anunciar de maneira explosiva: "A 'espanhola' já chegou ao Brasil". Mesmo com texto que colocava em termos relativos a contundente afirmação, o impacto sobre as pessoas deve ter sido grande (O Combate, 27/9/1918, p. 1).

Entretanto, em poucos dias, o número de gripados e mortos realmente cresceu em várias cidades, primeiro as portuárias, como Salvador e Recife, além do Rio de Janeiro. Em algumas semanas o país inteiro estava enfermo. Nos jornais a explicação corrente era uma só: a influenza ou gripe espanhola havia chegado ao Brasil, a mesma que matava na Europa e na África e que avançava pelos outros continentes. Agora, além da guerra e da fome, era a peste: a gripe espanhola, como os paulistanos rapidamente descobriram.

 

Educação e higiene: "remédios" contra a influenza espanhola

Nos primeiros dias de outubro, a cidade de São Paulo vivia atormentada. As notícias sobre a epidemia eram cada vez mais alarmantes e próximas. Dia 10 o jornal O Combate em manchete de primeira página afirmava: "A 'espanhola' em S. Paulo. Numerosos casos suspeitos". A agonia estava apenas começando. Era 13 de outubro quando deu entrada no Hospital de Isolamento o primeiro caso oficialmente registrado de gripe espanhola: um estudante vindo do Rio de Janeiro. Os casos pioneiros de influenza espanhola na cidade estariam, entretanto, ligados a um time carioca de futebol amador que havia visitado São Paulo. Os jogadores adoeceram na capital do estado no dia 9 de outubro e teriam sido os transmissores da moléstia que fez muitas vítimas no Hotel D'Oeste, onde o grupo havia se hospedado. Independentemente da primazia, no dia 15, o Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, então sob a direção de Arthur Neiva, confirmava para a população a existência da doença epidêmica na cidade de São Paulo. No dia seguinte, as manchetes anunciavam: "A 'espanhola' em S. Paulo. Confirma-se a notícia que demos da sua existência"; "A 'influenza espanhola'. A terrível enfermidade faz a sua aparição em S. Paulo". Os comentários variavam, da crítica pela demora no reconhecimento da presença da influenza de 1918 em terras paulistanas ao elogio pelas medidas que anunciaram para seu combate (O Combate, 10 e 16/10/1918, p. 1 e p. 1. O Estado de S. Paulo, 15 e 16/10/1918, p. 5 e p. 5. A Gazeta, 16/10/1918, p. 1).

O Serviço Sanitário do Estado emitiu uma série de considerações para tentar controlar a epidemia (Meyer & Teixeira, 1920). Remédios considerados efetivos contra qualquer tipo de gripe inexistiam; todos eram paliativos (Seidl, 1919, p. 44-45). Os pareceres, chamados de "Comunicado do Serviço Sanitário", foram publicados pela imprensa:

A população, não só de S. Paulo, como do Rio e de todo o Brasil de Norte a Sul, tem estado ultimamente alarmada com o aparecimento da chamada "gripe espanhola", que nada mais é senão a gripe, a influenza comum.

O alarme tem sido infundado, porque a moléstia, apesar de sua grande contagiosidade, tem reinado com caráter muito benigno: os poucos óbitos até hoje registrados são devidos a complicações secundárias, dependentes talvez de condições individuais. Não é a primeira vez que assistimos a tais surtos epidêmicos da influenza.

De 1889 a 1891, toda a Europa foi assolada por uma grande pandemia de influenza de caráter benigno, e que chegou até nós. No Brasil, parece, pelas notícias telegráficas, que os primeiros casos de influenza foram importados pelo "Demerara"; em 26 de setembro surgia na Bahia; em 30 de setembro manifestou-se a moléstia em Niterói, depois de já grassar no Rio; a 8 de outubro, em Pernambuco, a 10 no Pará, sendo que a 12 já estava no Rio Grande do Sul.

Em S. Paulo o seu aparecimento tem sido mais tardio e os primeiros casos verificados foram todos importados do Rio: em Guaratinguetá o primeiro deu-se em pessoa vinda do Rio, onde fora visitar a família atacada pela moléstia; em Lorena existem 90 casos em soldados dos exércitos ali aquartelados; em Santos, nos vapores "Carlos Gomes" e outros deram-se vários casos e na Companhia das Docas deixaram de comparecer ao serviço 80 trabalhadores por se sentirem doentes. Na capital os clínicos começaram a notificar os primeiros casos, apesar da gripe não ser moléstia de notificação compulsória. Desde 1902, em França, a gripe não é considerada moléstia de notificação obrigatória e os doentes não precisam ser tratados nos hospitais de isolamento, dada a insuficiência da medida de profilaxia coletiva e a rapidez com que se faz a propagação do mal. Não pode haver profilaxia eficaz, regional ou local, para a influenza, toda ela deve ser "individual".

Para evitar a influenza todo indivíduo deve fugir das aglomerações, principalmente à noite; não freqüentar teatros, cinemas; não fazer visitas e tomar cuidados higiênicos com a mucosa naso-faringeana que, muito provavelmente, é a porta de entrada dos germens. Tais cuidados devem ser feitos por meios brandos; não devem ser usados desinfetantes enérgicos ou aplicações mecânicas que possam irritar a mucosa naso-faringeana. As inalações de vaselina mentolada, os gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões de plantas contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras, são aconselháveis. Como preventivo, internamente, pode-se usar qualquer sal de quinino nas doses de 0,25 a 0,50 centigramos por dia, devendo usá-los de preferência no momento das refeições para impedir os zumbidos nos ouvidos, os tremores etc. Estas doses,

salvo em casos muito excepcionais, não têm o menor inconveniente. Deve-se evitar toda a fadiga ou excesso físico. Todo doente de gripe, aos primeiros sintomas, deve procurar o leito, pois o repouso auxilia a cura e diminue não só as probabilidades de complicações, como de contágio. Os doentes não devem ser visitados, pois a moléstia se transmite de indivíduo para indivíduo, por contágio direto.

As pessoas idosas devem ser extremadas nestas medidas, não devendo, nem mesmo, receber visitas de simples cortesia, pois a moléstia é nelas mais grave. Os doentes recolhidos a hospitais e casas de saúde não devem ser visitados; as informações poderão ser dadas na portaria ou pelo telefone.

O governo vai determinar o fechamento das escolas noturnas e solicitar providências junto aos poderes eclesiásticos para que os ofícios religiosos cessem à noite. À prefeitura será pedido o fechamento da Exposição [Industrial] à noite. As manobras da Força Pública deverão ser sustadas.

Se todas estas precauções forem adotadas, é muito possível que a duração da epidemia entre nós tenha atingido ao seu auge no fim de seis semanas. A população deverá evitar, mais que tudo, as causas de resfriamento, não só porque abrem a porta à infecção, como as reincidências, como está acontecendo atualmente na Espanha, Portugal e França.

O Serviço Sanitário pediria aos clínicos e diretores de fábricas para informar pelo telefone, à Diretoria, qual o número de atacados, para que ela possa dar publicidade a dados verdadeiros que impeçam os exageros tão comuns nesta época e que levam o pânico à população, como se está observando no Rio. (O Estado de S. Paulo, 16/10/1918, p. 5)

Acusados por alguns de incompetência e de deixar as pessoas à própria sorte ("nada fizeram em defesa da cidade"), Neiva e o órgão que dirigia foram apontados como incapazes de combater a influenza epidêmica (A Nação, 17 e 19/10/1918, p. 1 e p. 3). Para outros, entretanto, o problema era diferente, tratava-se de uma questão eminentemente educacional; instrução e higiene surgiam como dois dos grandes meios para se tentar acabar com a gripe no período crítico da epidemia: "Do nosso lado continuamos a aconselhar à população que tenha confiança na direção do nosso serviço de higiene, e se submeta inteiramente às suas prescrições e avisos. (...)"(O Estado de S. Paulo, 17/10/1918, p. 5). Assim, naquele momento, médicos do Serviço Sanitário e parte da imprensa uniram-se para tentar educar os paulistanos: uns emitindo instruções, outros apoiando e, principalmente, divulgando as medidas propostas pelas autoridades médicas.5

Nessa circunstância, o "Comunicado do Serviço Sanitário" foi resumido pelo jornal O Estado de S. Paulo, sob o nome de "Conselhos ao Povo", e publicado e reeditado por vários jornais nos dias seguintes. Independentemente dos esforços do governo, caberia principalmente às pessoas, com atitudes higiênicas e saudáveis, evitar que a influenza espanhola se propagasse em São Paulo de maneira violenta, como em outras localidades vitimadas pela gripe epidêmica.

A epidemia reinante

CONSELHOS AO POVO

(Extraídos pelo "Estado" do comunicado do Serviço Sanitário, já publicado)

Evitar aglomerações, principalmente à noite.

Não fazer visitas.

Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta: inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras.

Tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições.

Evitar toda a fadiga ou excesso físico.

O doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio. Não deve receber, absolutamente, nenhuma visita.

Evitar as causas de resfriamento, é de necessidade tanto para os sãos, como para os doentes e os convalescentes.

Às pessoa idosas devem aplicar-se com mais rigor ainda todos esses cuidados.(O Estado de S. Paulo, 21/10/1918, p. 3)

O Serviço Sanitário tentou organizar o atendimento àqueles que contraíssem a moléstia e a mobilização social intensificou-se à medida que os dias passavam. Muitos ajudaram: colaborando com o socorro aos doentes e seus familiares, distribuindo comida ou fazendo doações (Bertucci, 2002).

Mas o número de gripados aumentou rapidamente nas semanas seguintes. Alguns falavam que os "conselhos" do Serviço Sanitário não estavam sendo rigorosamente seguidos pela população, principalmente no que dizia respeito à proibição de visitas aos doentes de gripe (A Gazeta, 17 e 19/10/1918, p. 1 e p. 1). Os médicos não sabiam como impedir que seus pacientes, em casa, nas clínicas e até nos hospitais, fossem visitados por familiares ou amigos. Eram as relações sociais, culturais, ainda resistindo ao flagelo desestruturador da gripe espanhola e ao poder médico que, no momento singular da epidemia, buscava se imiscuir de forma avassaladora na vida das pessoas.

O Serviço Sanitário tomava então novas medidas para tentar minimizar a propagação epidêmica: solicitava às sociedades literárias, esportivas e recreativas que suspendessem reuniões e jogos; determinava, em conjunto com a diretoria de Instrução Pública, o fechamento dos grupos (muitos transformados em postos médicos) e das escolas primárias – medida que poderia se estender às faculdades; as visitas aos internatos foram proibidas, proibidos também foram os acompanhamentos de enterros a pé; os externatos foram fechados, como os jardins públicos e os concertos de bandas foram suspensos (Bertucci, 2002).

A capital do estado havia começado efetivamente a parar: seguindo instruções do Serviço Sanitário, as compras de várias famílias passaram a ser realizadas por uma única pessoa, para diminuir a probabilidade de contato/contágio (os "gelados" foram vedados). Para evitar aglomerações que poderiam ser insalubres, missas e orações diurnas nas igrejas católicas foram reduzidas drasticamente e rezas coletivas à noite tornaram-se proibitivas; os cultos noturnos e a escola dominical da Igreja Presbiteriana foram suspensos. Os proprietários do Jardim da Aclimação e do Parque Antárctica foram solicitados a fechar os locais. Teatros e cinematógrafos cerraram suas portas. Todas as reuniões noturnas foram especialmente condenadas: a diferença de temperatura, dentro e fora desses locais já favoráveis à propagação da doença, poderia ser fatal para as pessoas e, assim, para a difusão da gripe espanhola (Bertucci, 2002).

Enquanto isso, o diretor-geral da Instrução em São Paulo, Dr. Oscar Thompson, anunciava que iria tomar "medidas severas a fim de impedir que continuem funcionando escolas particulares depois que o governo entendeu indispensável encerrar instantaneamente as aulas das escolas oficiais". Paralelamente, Arthur Neiva determinava a desinfecção diária de todos os trens que chegassem a São Paulo procedentes da capital federal e de Santos; entretanto, o desembarque de passageiros continuava livre, o que despertava críticas e temores,que se avolumaram à medida que o número de enfermos cresceu (O Estado de S. Paulo, 23/10/1918, p. 3).

"Isolemos S. Paulo!", a frase escrita em 22 de outubro como um grito desesperado estava sob uma das notícias que informavam aos paulistanos as primeiras mortes de influenza espanhola na capital do estado (A Gazeta, 22/10/1918, p. 1). Idéia nada original, que havia circulado discretamente nas semanas anteriores, ela ganhou destaque quando a morte mostrou de maneira contundente que ciência e doutores não eram infalíveis e suas explicações não bastavam para deter a doença. Discutido por aqueles que buscavam um meio de conter a difusão epidêmica, o isolamento, prática sanitária usada há anos para barrar a propagação de moléstias, ressurgiu como uma esperança das pessoas na luta contra a gripe espanhola. Era a vivência de outros períodos epidêmicos, rememorada e atualizada, ditando propostas para o presente.6

Neste contexto, a preocupação com a higiene pessoal expressa nos "Conselhos ao Povo" foi muitas vezes reinterpretada sob o prisma de saberes arraigados na memória popular. A sugestão para a queima de alcatrão, comum no combate à febre amarela no século XIX, e para a limpeza do interior de edifícios pouco higiênicos, bueiros e ruas (para livrá-los de água estagnada, moscas e mosquitos, ratos e fezes de animais) evocavam a peste bubônica de outras épocas e a febre tifóide contemporânea. Medidas discutidas e sugeridas quando o tema era o necessário asseio para tentar barrar a influenza espanhola. Os desdobramentos foram muitos. Ao passo que o arcebispo metropolitano de São Paulo, sempre à disposição de Arthur Neiva, determinava que igrejas e confessionários fossem desinfetados diariamente e que a água benta dos templos fosse trocada todos os dias, propagandas de desinfetantes (como o Creolisol) eram estrategicamente colocadas ao lado das colunas de jornais que traziam notícias sobre a epidemia de gripe de 1918. A preocupação com a instrução cotidiana, e higiênica, das pessoas atingiu detalhes. O Serviço de Saúde da 6ª Região determinou a oficiais e praças que adotassem a continência, deixando o perigoso aperto de mão para ocasiões mais amenas; que falassem o menos possível, especialmente nas ruas e, como se fosse possível, não conversassem sobre a epidemia nem se ocupassem com ela. Entre a população civil, além das visitas proibidas, beijos e abraços passaram a significar, naquele momento, uma grande falta de educação (A Gazeta, 23/10/1918, p. 1. A Platéa,24/10/1918, p. 2. O Estado de S. Paulo, 23 e 25/10/1918, p. 4 e p. 4-5. A Capital, 24 e 25/10/1918, p. 3 e p. 3).

Em uma cidade onde o afluxo de pessoas havia crescido vertiginosamente, alterando de maneira definitiva a paisagem urbana, o povo, como sinônimo de uma multidão poliglota e multirracial de operários, biscateiros, vadios e criminosos, que despertava espanto e medo, foi alvo de atenção, inclusive médica, e diversas tentativas de "educação". Se durante séculos a alguns grupos religiosos ou não, como judeus e leprosos, foi imputada a culpa por catástrofes epidêmicas – muitas vezes, consideradas um castigo divino – (Delumeau, 1990; Duby, 1998; Slack, 1991), no século XX, quando a ciência parecia ter para tudo explicação e solução, a população pobre ocupou em muitos aspectos o lugar antes reservado àqueles grupos. Mas o tempo era outro e o local diferente, naquele momento, ao invés de segregação e extermínio de uma parcela da população, era necessário instruir e socorrer para transformar os que com sua presença, nem sempre agradável, concorriam para a construção da São Paulo metropolitana. Livres da responsabilidade primeira pela existência da "peste", aqueles que eram genericamente chamados na imprensa de pobres, com sua situação de penúria, seus hábitos nada recomendáveis e pouca educação, poderiam concorrer para proliferação da gripe espanhola: "O bairro do Brás, (...) por ser o mais populoso e habitado pelos operários, é o que está mais sujeito a propagação do mal" (O Estado de S. Paulo,17/10/1918, p. 5). Naquele momento, mais do que nunca, eles eram as "classes perigosas" (Chevalier, 1978). Era preciso agir e rápido: educar e auxiliar, para que São Paulo não sucumbisse totalmente à doença epidêmica.

No O Combate, a sugestão para que, resumidas, as instruções médicas do Serviço Sanitário, escritas em português e italiano, fossem entregues de porta em porta chamava atenção para os bairros do Brás, Mooca, Pari, Belenzinho, Bom Retiro, Bexiga, locais que deveriam ser priorizados na empreitada, junto com os subúrbios: Santana, Penha, Lapa, Pinheiros, Quarta Parada e adjacências (O Combate, 24/10/1918, p. 1). Paralelamente, apelo para que todos contribuíssem ainda mais com as subscrições organizadas para socorrer as vítimas pobres da gripe espanhola se intensificaram no final de outubro e durante a primeira quinzena de novembro, na mesma proporção que cresceu o número de vítimas fatais da influenza espanhola.

As "classes pobres" precisavam de médicos, remédios, muita comida e, também, de informação e limpeza. Na luta que a cidade de São Paulo estava travando contra a gripe espanhola e que envolvia, de uma forma ou de outra, todos os seus moradores, instruir, insistindo nas prescrições higiênicas, foi uma das armas para tentar debelar uma doença efetivamente sem remédio e, nesse processo educativo, regulador de hábitos, os mais pobres foram alvos privilegiados, tanto dos doutores do Serviço Sanitário quanto dos próprios jornais. Versos reveladores de Miguel Meira, escritos em novembro de 1918, diziam:

Baratear a vida, eis a primeira

Medida, que ao Governo já propuz...

Obrigar a lavar-se a quem não queira,

No Brás, no Cambuci, na Lapa e Luz!...

Dá fome a Gripe, é filha e da sujeira,

Transmite-se no escarro e pelo pús...

Evitar dar a mão! Desta maneira

É que o mal se propaga e reproduz!

Alimentado o corpo e bem lavado,

A casa varridinha, onde se mora,

Juro! Não haverá um só gripado!...

Sem isso, todo o povo a perna estica,

E com Pão a cada hora,

– Salvo São Paulo inteiro sem botica!... (Jornal do Commercio, 8/11/1918, p. 6)

Semanas depois, passados dois meses de epidemia na cidade, a influenza espanhola havia matado oficialmente 5.331 paulistanos (aproximadamente 1% da população de São Paulo), sem contar as possíveis complicações fatais. Pelo menos, 116.777 moradores da capital do estado adoeceram vitimados pela doença (Meyer & Teixeira, 1920). Em meados de dezembro de 1918, com o declínio da moléstia, os cidadãos de São Paulo começaram a retomar sua vida cotidiana. Sem uma explicação, deixando todos ainda perplexos, de como começou, a gripe espanhola acabou.

 

Notas

1. A denominação "gripe espanhola", segundo alguns autores, surgiu na Inglaterra, em fins de abril de 1918. Duas são as principais hipóteses para essa denominação: a primeira partia do pressuposto errôneo de que a moléstia havia se originado na Espanha e/ou lá fizera o maior número de vítimas. Outra explicação afirmava que a Espanha, país neutro durante a Primeira Guerra Mundial, não censurava as notícias sobre a existência da gripe epidêmica, daí a dedução equivocada de que a enfermidade matava mais naquele país. Cf.: Beveridge, 1977, p. 42; Echeverri Dávila, 1993, p. 22; Murad & Zylberman, 1996, p. 565; Oldstone, 1998, p. 175.

2. A primeira onda mundial epidêmica de gripe espanhola, sem gravidade e de pouca duração, ocorreu entre março e julho; no Brasil, provavelmente, foi confundida com a gripe de todos os anos.

3. O segundo, e terrível, ciclo mundial da gripe espanhola começou em agosto e só terminaria em janeiro de 1919. Uma terceira vaga mundial da epidemia, menos letal que a anterior, iniciou-se em finais de fevereiro e durou até maio de 1919.

4. Em 2001, os cientistas australianos Mark J. Gibbs, John S. Armstrong e Adrian J. Gibbs publicaram na revista Science resultado de novos estudos realizados na Universidade Nacional da Austrália sobre o vírus da gripe espanhola. Segundo os pesquisadores, em 1918 teria ocorrido uma combinação total entre o vírus humano da gripe e o da gripe animal (porcina), daí a virulência da doença, pois a resistência do organismo das pessoas contra esse "novo" vírus seria, em tese, nula.Cf. Gibbs, Armstrong & Gibbs, 2001.

5. Durante o período epidêmico, vários outros clínicos, não ligados diretamente ao Serviço Sanitário, emitiram suas opiniões sobre a gripe espanhola e sugeriram medidas terapêuticas à população. Na imprensa, as opiniões sobre as medidas médico-governamentais variaram em um mesmo jornal, algumas vezes em diferentes artigos de um mesmo dia.

6. Sobre as questões experiência/vivência e memória, ver Benjamin, 1975 e 1987.

 

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Jornais da cidade de São Paulo:

A Capital

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