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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.24 no.62 Campinas Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622004000100001 

Apresentação

 

 

Newton Duarte

 

 

Este número dos Cadernos Cedes, intitulado "A psicologia de A. N. Leontiev e a educação na sociedade contemporânea", reúne artigos de pesquisadores da USP, UNESP, PUC-SP e UEM. A psicologia de A. N. Leontiev é ainda relativamente pouco conhecida entre educadores e psicólogos brasileiros, pois freqüentemente esse autor é apenas mencionado de passagem como sendo, juntamente com L. S. Vigotski e A. R. Luria, um dos fundadores de uma corrente da psicologia soviética conhecida como psicologia sócio-histórica, ou histórico-cultural, ou ainda como teoria da atividade. Os artigos aqui reunidos objetivam, neste sentido, contribuir para uma maior divulgação das idéias de A. N. Leontiev entre professores do ensino fundamental e médio, entre estudantes e professores de cursos de graduação e pós-graduação em educação e psicologia, bem como entre pesquisadores das ciências humanas em geral.

Com esse espírito, o primeiro artigo, de minha autoria, intitulado Formação do indivíduo, consciência e alienação: o ser humano na psicologia de A. N. Leontiev, apresenta algumas das principais idéias desse psicólogo soviético, quais sejam: a diferença entre a formação do indivíduo humano e a ontogênese animal; a relação entre a estrutura da atividade e a estrutura da consciência e, por fim, o tema da alienação como um fenômeno histórico e social, tema esse que, sem dúvida, é dos mais importantes e atuais tanto no campo da psicologia como no da educação.

O segundo artigo, de autoria de Lígia M. Martins, intitulado A natureza histórico-social da personalidade, focaliza as contribuições de A. N. Leontiev e Lucien Sève para uma abordagem materialista, historicizadora e dialética da personalidade, com ênfase nas relações entre atividade, consciência e personalidade no interior da sociedade capitalista contemporânea, geradora de processos intensos de alienação do ser humano. Nesse contexto, ganham especial significado estudos voltados para uma análise aprofundada tanto dos processos que produzem e reproduzem a personalidade alienada como também das possibilidades existentes no interior dessa própria sociedade capitalista, de construção consciente de atividades que revertam esse quadro de profunda alienação.

O terceiro artigo, de autoria de João H. Rossler, intitulado O desenvolvimento do psiquismo na vida cotidiana: aproximações entre a psicologia de Alexis N. Leontiev e a teoria da vida cotidiana de Agnes Heller, também focaliza o tema da alienação da individualidade humana, mas o faz por meio de uma fértil aproximação entre os trabalhos do psicólogo soviético e os trabalhos do período em que a filósofa húngara também se fundamentava em Karl Marx. Assim como Leontiev defendeu a tese da existência de uma relação essencial entre a estrutura da atividade humana e a estrutura da consciência, Heller analisou as relações entre a estrutura da vida cotidiana e as formas de pensamento e de conhecimento próprias do sujeito da vida cotidiana. Rossler então explora a hipótese da existência de um psiquismo cotidiano e analisa a questão da alienação desse psiquismo.

O quarto texto, de autoria de Marilda G. D. Facci, intitulado A periodização do desenvolvimento psicológico individual na perspectiva de Leontiev, Elkonin e Vigotski, aborda as contribuições desses três psicólogos soviéticos para a psicologia do desenvolvimento e para a psicologia da educação, analisando a questão dos estágios ou períodos do desenvolvimento humano a partir do conceito de atividade principal ou atividade dominante.* Trata-se de um aspecto da psicologia de A. N. Leontiev que não tem sido objeto de maior atenção por parte de psicólogos e educadores a despeito de suas importantes implicações para a educação. Ao formular as bases de uma psicologia do desenvolvimento que estude o tipo de atividade que desempenha o papel principal em cada estágio do desenvolvimento do indivíduo, Leontiev e Elkonin deram uma grande contribuição à superação da naturalização tão fortemente enraizada nas teorias mais influentes nesse campo da psicologia. Infelizmente tal contribuição ainda está por ser explorada de forma mais sistemática e detalhada, possibilitando assim a elaboração de uma psicologia do desenvolvimento que se mostre mais adequada ao caráter social e histórico da individualidade humana.

O quinto artigo, de autoria de Alessandra Arce, intitulado O jogo e o desenvolvimento infantil na teoria da atividade e no pensamento educacional de Friedrich Froebel, também aborda o conceito de atividade principal em Leontiev e Elkonin, focalizando especificamente o jogo (ou brincadeira de papéis) como a atividade principal na idade pré-escolar, comparando os estudos realizados por Leontiev e Elkonin com os textos de um clássico da pedagogia e, mais especificamente, da educação infantil, Friedrich Froebel, o criador dos jardins-de-infância. Em certo sentido Froebel pode ser considerado um precursor dos estudos no campo da psicologia do desenvolvimento que seriam realizados no século XX. E essa condição de precursor aparece, inclusive, no fato de que, como mostra o artigo em pauta, já em Froebel se fazia presente a abordagem naturalizante do desenvolvimento humano. A análise feita por Alessandra Arce, embora não tenha esse objetivo, pode ser lida como uma crítica às teorias psicológicas naturalizantes e à sua influência na educação em geral e mais especificamente na educação infantil.

Fechando esta coletânea, o sexto artigo, de autoria de Ana M. B. Bock, intitulado A perspectiva sócio-histórica de Leontiev e a crítica à naturalização da formação do ser humano: a adolescência em questão, aborda e exemplifica um tipo de abordagem da formação do ser humano que encontra terreno fértil no que poderíamos chamar de "senso comum acadêmico" de educadores e psicólogos: trata-se da abordagem naturalizante. Naturalização nesse contexto não significa o necessário reconhecimento da materialidade biológica do ser humano, mas sim uma determinada atitude para com as questões concernentes à individualidade humana, uma atitude que transforma a individualidade num dado natural que antecede todo e qualquer processo sócio-histórico. Exemplificando essa atitude nas concepções de um grupo de psicólogos sobre a adolescência, o artigo contrapõe a esse tipo de abordagem a psicologia sócio-histórica de A.N. Leontiev. Não é demais enfatizar que a crítica às concepções naturalizantes do indivíduo e da sociedade, tanto no campo da educação como no da psicologia, é uma tônica comum aos seis artigos.

Por fim, algumas palavras sobre os autores dos artigos aqui reunidos, o quais são pesquisadores que atuam em diferentes áreas e em diferentes grupos de pesquisa cadastrados no diretório nacional de grupos de pesquisa do CNPQ. Ana Bock é pesquisadora na área de psicologia social e membro do Grupo de Pesquisa "Adolescente: Concepções e Questões Emergentes", do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da PUC de São Paulo. Marilda Facci é pesquisadora na área de psicologia escolar e coordenadora do Grupo de Pesquisa "Psicologia Histórico-Cultural e Educação", na Universidade Estadual de Maringá. Alessandra Arce é professora da USP, campus de Ribeirão Preto, pesquisadora nas áreas de história da educação, educação infantil e política educacional, membro do Grupo de Pesquisa "História, Sociedade e Educação no Brasil". Lígia Márcia Martins, pesquisadora da área de psicologia da personalidade na UNESP, campus de Bauru, e João H. Rossler, psicólogo, doutor em educação pela UNESP, campus de Araraquara, são integrantes do Grupo de Pesquisa "Estudos Marxistas em Educação", por mim coordenado, do qual também participam Marilda Facci e Alessandra Arce.

Agradeço a Antonella Ferlito, da Universidade de Toronto, Canadá, pela sua cuidadosa ajuda na revisão da versão em inglês dos resumos dos artigos.