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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.25 no.66 Campinas May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622005000200007 

O ofício, a oficina e a profissão: reflexões sobre o lugar social do professor

 

Occupation, workshop and profession: considerations on the social place of teachers

 

 

Manoel Fernandes de Sousa Neto

Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: poesiamano@uol.com.br

 

 


RESUMO

Este breve ensaio discute o papel social do professor buscando compreender a dimensão social e histórica da profissão, uma vez que articula a relação entre os ofícios que se executam e a dimensão pessoal e política das escolhas pela profissão de professor.

Palavras-chave: Ofício. Profissão. Professor. Educação e lugar social.


ABSTRACT

This short essay explores the social place of teachers to understand the social and historical dimension of this profession, since it relates the occupation to the political and personal dimension of choosing this profession.

Key words: Occupation. Profession. Teaching. Education and social place.


 

 

A palavra ofício deriva de officiu que no latim significa dever, naquele sentido de cumprir com dada obrigação e a partir de um ritual determinado (Ferreira, 1986). Entre nós, o dever da palavra ofício representa ainda um certo saber-fazer àqueles que comungam do mesmo conjunto de conhecimentos e habilidades, e são capazes de reproduzir certos objetos e/ou objetivos com base nos mesmos rituais. O exercício de qualquer ofício, nesse sentido, pressupõe que o seu realizador domine os processos que lhe são inerentes e seja capaz de executá-los de maneira a observar como cada momento, cada detalhe por diminuto que seja, cada gesto ainda que automático, resulta de uma unidade em que os fragmentos só justificam sua existência por fazerem parte do todo.

E os ofícios, como decorrentes de um dado ritual, requerem oficinas, lugares onde se deve encontrar os artefatos para o trabalho – a matéria-prima que se manipulará, as ferramentas de que se disporá para a tarefa, os espaços em que o corpo se flexionará assumindo várias formas para o uso da força e da delicadeza em diferentes medidas.

Bem, sendo a oficina o templo em que os rituais de um dado ofício se realizam, poderíamos então dizer que certos fazeres e saberes estão sempre situados quando se conjugam enquanto aquela ação consciente que produz objetos materiais e imaterialidades simbólicas. Ao dizer situados, pressupõe-se a perspectiva de um lugar de onde, a partir desse processo que inclui rituais constitutivos de coisas e idéias, instituem-se regras, códigos, relações que identificam, naqueles que fazem a oficina funcionar, os sujeitos que são feitos pelo ofício que executam.

Em outras palavras, a realização de um ofício no interior de uma dada oficina cria, dentre outras coisas, uma identidade entre os indivíduos e os objetos que estes manipulam, as ferramentas que manuseiam, os processos com os quais interagem. E ainda mais, cria uma identidade entre os indivíduos que são parceiros de rituais comuns, realizadores de um dado ofício e situados no ambiente da mesma oficina.

Essa identidade entre pessoas a partir de fazeres e saberes é algo que permite situar no interior das sociedades os papéis que executam e ao mesmo tempo suprir a sociedade daquilo que ela necessita em dado momento histórico. Poderíamos aqui lembrar diversos ofícios de mulheres e homens, uns necessários à humanidade desde as mais primitivas épocas, e outros de que só viemos a necessitar muito recentemente.

Poderia aqui falar de quem trabalha com a criação de programas para computadores, ofício daqueles que têm por tarefa imaginar a partir de determinadas demandas, às vezes bastante antigas, como fazer funcionar um sistema binário que nos ajudará a editar um texto na língua, cor e formato que quisermos. Um texto com imagens que podem ser de mapas, fotografias, abstrações surrealistas, desenhos rupestres. Um texto com referências cruzadas, como número de página, título da obra, nome do autor, índice onomástico, notas que ajudem a melhor degustar o escrito.

Ao manusear um desses programas, feitos por alguém que não necessariamente conhecemos, me dou conta de que as palavras são mais antigas que a imprensa, e que as palavras primeiro tinham apenas asas e voavam ao sabor do vento e duravam pouco tempo. E penso agora que as palavras escritas que arrumo em um programa de computador podem voar entre lugares longínquos, cruzar hemisférios e serem grafadas com tintas em papéis que sobrevivam a muitos dos séculos que virão.

E, fazendo recuar as ampulhetas da memória, lembro de um tempo de máquinas de escrever e de datilógrafos, dos sons ritmados desse piano rústico de notas no mesmo tom. Lembro dos linotipistas que arrumavam letras e palavras em chapas de ferro para a impressão ao calor do fogo e sob a urgência das horas diárias dos folhetins e jornais. Lembro dos escribas que copiavam livros, sob a calmaria das horas sem fim das abadias e o faziam com os dedos de caliça e a paciência de Jó. E fico a imaginar o que não fora essa profissão desdobrada em muitas, do escriba ao digitador, que me possibilita ler Hesíodo em português e quase ouvir o canto das musas no Olimpo.

Papiros, papéis, pagemaker, tintas de extrato de raízes de árvores vermelhas, nanquim, penas, canetas, tinteiros, impressoras, prensas, palmtop, escrivaninhas, e-books. Objetos que se ligam quase imediatamente aos ofícios de dadas profissões, às suas oficinas, a certos rituais por vezes religiosos, às sociedades de seus tempos e a espaços geográficos diversos.

 

O contexto social e histórico dos ofícios – escribas, cozinheiros, malabaristas

É impossível, ao pensar esse arsenal de objetos e suas oficinas, não pensar que os ofícios de datilógrafos, gráficos, linotipistas, escritores e escribas estiveram a seu tempo e dentro de uma certa sociedade, ligados a essa coisa fascinante que é a palavra escrita. A palavra escrita que é para Rubem Alves (1992) como um bando de pássaros selvagens que a tinta aprisiona ao papel para que a luz dos olhos lhes possa libertar e fazer voar.

Poderíamos dizer que dessa mesma argila básica da linguagem, composta de muitas grafias, arrumada de forma variada, dita de maneira diversa, escrita em línguas que sequer muitos de nós conhece – a palavra foi, e é e será, essa matéria bruta que o pensamento ao mesmo tempo cria e recria para continuar dando-lhe as formas a partir das quais nomeia e pensa o mundo. Logo, todas as profissões que em torno da palavra escrita existiram, de algum modo, a evocam para situá-la no interior de um tempo e para falar de uma dada sociedade.

Imaginemos, entretanto, outros ofícios e suas oficinas. O (a) cozinheiro (a) que não pôde existir antes do domínio do fogo pela humanidade, que a partir de então começou a brincar com os muitos sentidos que o corpo tende a traduzir de modo instantâneo. Os cheiros que anunciam as coisas que se irá degustar, as sensações táteis que tocam quem manipula alimentos de texturas diferentes, o colorido que anuncia aos olhos a combinação estética da comida, o paladar que as saboreia enfim.

E o que é a cozinha senão o lugar de alquimistas e feiticeiros, avós de alguma maneira dos químicos, que realizam coisas mágicas quando recriam a natureza e a reinventam em seus laboratórios? Hoje manipulam-se genes onde se manipulavam extratos de algumas raízes selvagens, mas a química que nasceu da alquimia, misturada às grandes panelas e ao fogo intenso das feitiçarias, repousa sobre outras bases e princípios, tem novas técnicas, vê de forma diferente o mundo, embora o mundo só seja diferente nos modos como a sociedade o fez e o vê. Poderíamos falar brincando que mudaram os formatos e materiais das panelas, as formas de controlar o fogo, a multiplicidade dos materiais que se fundem entre si, porque outros os tempos e outra a sociedade, mas os princípios que visavam de algum modo imitar Deus e decifrar ou recriar o mundo, estavam já naqueles que ensinaram Paracelso a manipular o fogo.

Imaginemos agora o ofício do malabarista que usa o próprio corpo como ferramenta sobre a qual se desenvolve o seu trabalho. A mulher que se contorce colocando os calcanhares na nuca, o equilibrista que passeia de monociclo no arame fino a muitos metros de altura, a trapezista que voa por alguns segundos sob os olhares atônitos da platéia de respiração aprisionada, o homem que atira facas no tablado circulante em que está preso o corpo da mulher amada. Vê-los em seu ofício na oficina do circo ou da praça aberta para o mundo, é ao mesmo tempo misturar emoções muitas e sentir frio na barriga, suar com os calafrios, rezar baixinho para que tudo corra bem, perder o fôlego por alguns segundos que parecem séculos e sorrir de intensa satisfação quando se fecha à nossa frente o desafio que a vida faz à morte.

Palavras, alimentos e malabarismos, têm em comum muitas coisas, ainda que possamos pensá-las apenas do ponto de vista das metáforas. Em princípio são coisas que a humanidade criou e cultiva, embora transformadas com o tempo, sabemos que elas nutrem o corpo e a alma, dando sustentação à nossa vida, tornando-a mais leve, mais prazerosa. Depois sabemos que elas desempenham um certo papel social, porque precisamos nos comunicar, comer, sorrir e isso solda uma identidade entre aqueles que desempenham um dado ofício e a sociedade na qual esse ofício é desempenhado. Por fim poderíamos dizer que toda profissão – escritor, cozinheiro, malabarista – exige um lugar para realizar-se e esse lugar, que poderíamos chamar de oficina, é um pouco aquele templo em que se realiza o culto e o cultivo (Bosi, 1992), a manutenção de um certo saber-fazer que atravessa séculos e se modifica cotidianamente.

 

A lugaridade do ofício – andar em círculos, saltar sobre a própria sombra

Os ofícios requerem sempre e de maneira inexorável, um lugar que lhes identifique. Se dizemos escritor, imaginamos a sala em que elabora sua escrita. Se dizemos cozinheiro, a ele associamos o ambiente em que prepara alimentos. Se dizemos malabarista, os nossos pensamentos nos levam ao picadeiro do circo. Entretanto, mais que isso, para que esses lugares existam e essas profissões possam ser reconhecidas como necessárias, é preciso que elas tenham um lugar social – sem isso não haveria escritórios, cozinhas e circos. Em outras palavras, o objeto geográfico (Santos, 1994) onde um dado ofício se exerce só existe à medida que a sociedade o faz, o considera importante, reconhece nele um valor, faz dele algo necessário.

Não por acaso é que muitas profissões já existiram e desapareceram completamente – condutores de bonde puxados a burro, linotipistas, turmeiros. Outras tantas estão prestes a desaparecer – trocadores de ônibus, frentistas, datilógrafos. E várias são aquelas que terão de se adaptar a novos parâmetros técnicos e demandas sociais. Daí podermos dizer que as profissões se mantêm e se modificam, desaparecem ou passam a existir mediante as necessidades reais ou imaginárias que as sociedades historicamente datadas têm ou criam.

O lugar social das profissões, nesse sentido, está diretamente ligado à história da humanidade e às metamorfoses no mundo do trabalho, proporcionadas pela própria complexificação da sua divisão social. E, em sendo assim, pensar qualquer ofício fora disso é pensar, para lembrar o Marx de Ideologia Alemã, como uma espécie de Robson Crusoé perdido em uma ilha, isolado do mundo, perdido no tempo e ausente de qualquer convívio em sociedade.

Ao dizer isso, estamos a afirmar que as profissões não são coisas isoladas. Sua existência não se dá apenas como uma espécie de artefato individual, mas muito mais que isso, resulta de uma série de relações sociais com estatuto identitário. Não por acaso as pessoas tendem a perguntar umas às outras o que fazem, que ofício exercem, como se inserem nessa complexa teia em que mesmo aqueles que estão desempregados compõem sua intricada tessitura.

Identidade inclusive no sentido de alteridade, uma vez que a humanidade precisa de muitas coisas e ninguém pode realizar todas as coisas de que necessita. Assim, a partir de um dado ofício que é diferente de outros as pessoas se reconhecem, estabelecem relações e se sabem porque fazem coisas diferentes.

É claro que, por amadorismo, um escritor de profissão possa cozinhar uma vez ou outra e até, quem sabe, brincar com alguns malabares com seus filhos – mas isso não o faz cozinheiro, isso não o faz malabarista. Dizendo de outro modo, os escritores vivem do que escrevem e não de outra coisa que possam, vez ou outra, fazer.

Por isso o ofício é antes de tudo um dever e exige uma certa disciplina, uma dose de trabalho, ao ponto de se esperar que o profissional seja melhor que o amador, porque não faz apenas uma vez ou outra, quando deseja ou quando lhe convém. Por ofício temos a obrigação de fazer o melhor que pudermos aquilo que nos identifica como profissional em uma determinada área.

Assim não o fosse e imaginemos os riscos que não correria um malabarista descuidado? A trapezista cairia, a contorcionista teria torcicolos, o atirador de facas se transformaria em uma espécie de assassino em série. E o que dizer de um cozinheiro desatento? De um escritor que não dominasse a língua materna?

Por isso tudo a profissão que ocupa um lugar social e histórico é derivada também de um acordo ético, quer dizer, a sociedade não pode permitir que certas profissões sejam exercidas por pessoas que não possuem certos valores para desenvolvê-las. Poderíamos aqui imaginar inúmeros casos – o psicanalista fofoqueiro, o músico plagiador, o advogado estelionatário, o ginecologista tarado. Não é que esses profissionais não existam em todas as profissões, mas como já lhes disse os ofícios exigem que haja certos códigos e rituais comuns, a partir dos quais se constituem juízos de valor moral e se estabelece aquilo que é bom e ruim para todos e para cada um. Não por acaso as profissões têm um conselho e estes conselhos possuem comissões de ética que podem cassar o direito de algumas pessoas de exercerem certas profissões – quer dizer, não basta um saber-fazer, é preciso também um saber-ser cultural, social e historicamente situado.

Para além de tudo isso, entretanto, poderíamos nos perguntar: o que faz de alguém bom naquilo que faz? Quer dizer, o que faz o bom músico? O malabarista que toca a nossa alma? O cozinheiro que acaricia o nosso estômago? O escritor que nos faz ler todo o livro de um único fôlego? O que faz, como diz um certo filósofo, alguém saltar sobre a própria sombra?

Bom, estas perguntas só se respondem quando sabemos as razões pelas quais as pessoas escolheram para suas vidas dadas profissões, certos ofícios e suas oficinas, seus rituais, valores e códigos, enfim um dado lugar na sociedade que os torna identificados e os marca para a vida inteira.

 

Não se trata disso, muito menos daquilo ou da importância de saber do que se trata

Por que um dia nos tornamos professores?

Por isso a pergunta inicial que lhes faria, depois de ter andado tantas vezes sobre o mesmo círculo, é: por que um dia nos tornamos professores? Quer dizer, o que nos levou a escolher essa profissão e não outra? Essa escolha foi produto de que processo histórico?

Vamos tentar responder isso voltando ao círculo inicial, para perguntar qual o papel social dessa profissão que é ensinar aos outros aquilo que eles ainda não sabem, ou ainda não sabem que sabem, ou apenas sabem de modo a-sistemático ou que temos de aprender com eles o que sabem? Ou, dizendo de outro modo, qual o lugar social dessa profissão responsável por educar os outros para serem, saberem e fazerem de maneira universal na diversidade certos procedimentos comuns a toda a humanidade? Ou ainda, para fazer a mesma indagação de outra maneira, qual a importância dessa profissão para a sociedade em que vivo e para aquelas que virão?

Bem, para não ir logo respondendo as coisas assim de chofre, podemos ir pensando alguns elementos que nos ajudem nisso. A escola, que é nossa oficina de trabalho por excelência, foi o lugar por onde passou a totalidade dos profissionais de curso superior nesse país e no resto do mundo durante pelo menos o último século. Os professores e professoras que atuaram nessa oficina quase completamente fordista, que foi a escola do século XX, formaram médicos, psicanalistas, padres, advogados, biólogos, historiadores. Mas não só os de curso superior passaram pela escola – qual o professor que nunca encontrou um de seus ex-alunos ou ex-alunas no caixa do banco, na máquina registradora do supermercado, no balcão da farmácia, como garçom em algum restaurante?

Pode-se dizer que a maior parte das pessoas que nos últimos cem anos aprendeu a ler, escrever e contar passou pela escola, foi assistida por um desses profissionais cujo ofício é ensinar. Mesmo em países com baixas taxas de escolaridade, os profissionais do ensino foram mais presentes nas vidas das pessoas que quaisquer outros profissionais, chegando em certos casos a ter um papel na educação de crianças, adolescentes e jovens que superava o das famílias.

Pensando por esse viés pode-se dizer que os profissionais da educação, nomeadamente os professores e professoras, por intermédio da sala de aula, tiveram e têm grande responsabilidade sobre os destinos que a sociedade tomou e toma.

Ademais, poderíamos dizer que essa é uma das profissões que mais tem crescido nesses anos ora considerados como os da sociedade do conhecimento. Em todos os setores e situações o processo de formação permanente tem se tornado uma necessidade ao exercício de qualquer profissão, por isso poderíamos até dizer que para as milhões de coisas que há para fazer com os novos artefatos técnicos e científicos é preciso que haja professores.

Esse fenômeno fica claro quando analisamos a força social e política dos profissionais da educação no Brasil dos dias de hoje. Para isso bastaria dizer que no momento histórico que vivemos o maior sindicato filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT) – é a Associação dos Professores do Estado de São Paulo (APEOESP), único sindicato fora o dos Metalúrgicos do abc Paulista a ter tido um presidente da CUT.

Isso significa dizer que os educadores têm um papel formador direto que se dá dentro e fora da sala de aula, na escola e na rua, no pátio e nas praças. Um papel que é de formação para aquilo que se aprende no âmbito dos diversos saberes, sejam eles disciplinares ou não, e da educação para a política como espaço de disputa de projetos de mundo. Por isso talvez precisemos fazer uma outra pergunta: Por que continuamos a ser professores?

Por que continuamos a ser professores?

O que nos leva a permanecer exercendo o ofício de professor, considerando que poderíamos mudar de profissão, fazer uma outra coisa, exercer um outro ofício?

Muitos professores alegam que não há como abandonar a carreira em decorrência da idade, dos poucos recursos de que dispõem, das responsabilidades que assumiram durante suas vidas. E, por fim, que em uma época de tanto desemprego é melhor ter algum salário do que salário nenhum.

O centro da insatisfação daqueles que permanecem no ofício passa pelos salários que remuneram mal a profissão, uma profissão em que certo dia se percebeu não salários, mas proventos que se igualavam aos ganhos de desembargadores. E assim, aos salários aviltantes se credita a idéia de que ser professor é uma coisa menor, desqualificada e desqualificante, podendo-se exercer o ofício de qualquer modo, como se ganhar pouco justificasse ao fim e ao cabo o descompromisso e a apatia.

Esse olhar depreciativo da profissão proporciona uma certa desidentificação com o que se faz e gera, não raro, a elaboração de uma identidade negativa. Na desidentificação o processo é de estranhamento, posto que as pessoas ao não se verem no que fazem, não o fazem como sendo coisa sua. Na elaboração de uma identidade negativa gesta-se um autopreconceito vitimador, como se ser professor fosse a última maneira de garantir uma sobrevivência indigna.

Essa postura de desidentificação e identidade negativa gera um enorme enfraquecimento da comunidade profissional e, ao mesmo tempo, compromete sobremodo o exercício coletivo da profissão e suas mais justas reivindicações. Em princípio porque só defendemos aquilo com que nos identificamos de maneira positiva. Depois porque o elemento de coesão identitário muitas vezes utilizado para soldar ações comuns nada tem a ver com a profissão, já que os baixos salários não são privilégio apenas dos que exercem o ofício de professor.

O fato é que a sociedade continua a precisar desses profissionais nas mais distintas áreas do conhecimento, sem o que os empregos que ocupam sequer existiriam, muito menos os salários que atam suas vidas econômicas a uma certa função social. E daí é preciso que se pense para além da própria condição individual, para dar à profissão o lugar social que ela de fato merece e, em decorrência, tornar melhor a qualidade de vida dos que a exercem.

A questão, portanto, está na necessidade de os professores se verem como trabalhadores, e como trabalhadores que têm compromisso com o que fazem. E aí, adianta pouco desvalorizar o ofício e permanecer nele de modo descomprometido. Em realidade, a permanência descomprometida acaba sendo uma opção política de grande envergadura, porque enfraquece sobremodo a profissão, a luta dos trabalhadores em educação e as transformações que se pode operar.

E isso levanta uma última indagação.

Por que muitos morrerão como professores?

A dialética nos ensina que se começa a morrer desde o primeiro choro, assim que nascemos, ou para dizer como o poeta: um dia a mais é sempre menos. Por isso passamos a vida fazendo as escolhas que nos são possíveis e dentre elas geralmente escolhemos uma profissão ou várias.

Ao escolhermos um ofício, podemos fazê-lo e sermos feitos por ele, ao ponto de ser difícil, em alguns casos, dissociar os nomes das profissões. Fulano ferreiro, médico sicrano, professor beltrano.

E aí entra uma questão que tudo tem a ver com o modo como passamos pela vida e que compreende muita opções, pessoais e coletivas. Dentre as pessoais está aquela de realizar com prazer um dado ofício. Dentre as coletivas está a de ver o ofício como contido em uma totalidade social e lê-lo politicamente.

Aos que morrem como professores, resta a lápide cotidiana da repetição tristonha dos mesmos ritos e a angústia de um velório antecipado.

Aos que optaram por ser e/ou continuar professores por prazer, a vida na profissão é uma celebração diária, pessoal e coletiva, que transforma cada ato, mesmo nos dias mais difíceis, em uma reafirmação da escolha feita em certa altura da existência. E é essa mesma opção que leva os professores às ruas, que engravida as greves, que educa no sentido lato a sociedade por dentro e por fora da escola.

Ao fim de tudo, a luta parece dança, a palavra carne, a utopia realização.

 

Referências bibliográficas

ALVES, R. O poeta. O guerreiro. O profeta. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1992.         [ Links ]

BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.         [ Links ]

FERREIRA, A.B.H. Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.         [ Links ]

MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.        [ Links ]

 

 

Recebido em maio de 2005 e aprovado em julho de 2005