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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.29 no.77 Campinas Jan./Apr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622009000100008 

ARTIGOS

 

Frans Krajcberg e sua contribuição à educação ambiental pautada na teoria das representações sociais

 

Frans Krajcberg and his contribution to environmental education based on the theory of social representations

 

 

Adriana Teixeira de LimaI; Marcos Antonio dos Santos ReigotaII; Andréa Focesi PelicioniIII; Eliete Jussara NogueiraIV

IMestre em Educação e artista plástica. E-mail: adrianateixeiradelima@yahoo.com.br
IIDoutor em Educação e professor da Universidade de Sorocaba (UNISO). E-mail: marcos.reigota@uniso.br
IIIDoutora em Saúde Pública e professora do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). E-mail: andreafocesi@yahoo.com.br
IVDoutora em Educação e professora da UNISO: E-mail: eliete.nogueira@uniso.br

 

 


RESUMO

A Teoria das Representações Sociais (TRS) começou a ser conhecida e divulgada no Brasil principalmente a partir de 1990 no âmbito da Psicologia Social, configurando um movimento que coincidiu com o aumento das preocupações de segmentos da sociedade brasileira com as questões ambientais e a defesa de tese de Reigota no campo da Educação, que articulava essas tendências. Com a publicação dos dois primeiros livros desse autor, a TRS se tornou uma opção às pesquisas em educação ambiental. A aproximação da teoria aos Estudos Culturais, bem como à pedagogia freireana e à pós-moderna, possibilitou a fundamentação de outros trabalhos. Um deles, que originou este artigo, trata da contribuição do sentido político e pedagógico da trajetória e obra de Frans Krajcberg à educação ambiental, enfatizada nas narrativas escritas por componentes do grupo de pesquisa "Perspectiva Ecologista de Educação", da Universidade de Sorocaba, após o encontro com a obra do artista em Curitiba.

Palavras-chave: Frans Krajcberg. Representações sociais. Educação ambiental. Estudos culturais. Práticas pedagógicas.


ABSTRACT

The Theory of Social Representations (TRS) began to be widely known and disseminated after 1990 in the Brazilian field of Social Psychology. This movement coincided with the increasing environmental concern of some Brazilian groups and the defense of Reigota's doctoral dissertation on Education, which articulated those trends. After this author published his first two books, TRS has become an option for research on environmental education. Its approximation to Cultural Studies and both Freire's and post-modern pedagogies allowed to develop further works. One of them, which originated this article, refers to the political and pedagogical contributions to environmental education of Frans Krajcberg's life and work. These are stressed in the narratives some members of the research group called "Ecologist Perspective of Education", from Sorocaba University, wrote after they came to discover this artist's work, in Curitiba.

Key words: Frans Krajcberg. Social representations. Cultural studies. Pedagogical practices. Environmental education.


 

 

A Teoria das Representações Sociais (TRS) tem a sua história iniciada no Brasil com a publicação de um dos volumes, dos dois previstos inicialmente, do livro A representação social da psicanálise (Moscovici, 1978), considerado o marco fundador da teoria, dezessete anos após seu lançamento na França.

As representações sociais constituem formas de interpretar, compreender, categorizar, sentir e ler o mundo. Elas são produzidas nos processos de interação social de comunicação, trabalho, cultura, enfim na vida cotidiana, o que as torna expressões de uma dada sociedade, de um determinado grupo social, em um momento histórico específico, bem como formas de mediação social, pois será por meio delas que os sujeitos se relacionarão e atuarão (Moscovici, 1978).

Elas não se constituem como simples reproduções de comportamentos ou reações a estímulos exteriores. Elas são dinâmicas, recriam comportamentos, sentimentos e relações. Podem traduzir universos de pensamentos solidificados, nos quais podem predominar o pensamento religioso, as ciências, com seu rigor lógico e metodológico, assim como o senso comum. As representações são sistemas de pensamento assentados em valores e conceitos por vezes inconscientes (Pelicioni, 2002).

No Brasil, assim como no exterior, foram necessários vários anos para que a TRS pudesse ser mais conhecida e fundamentar pesquisas a respeito de temas polêmicos que, ao ultrapassarem os limites dos especialistas, ganham os espaços públicos intermediados pelos meios de comunicação, tornam-se temas das conversas do cotidiano, fundamentam e caracterizam práticas sociais. A sua difusão mais ampla no país se deu, na primeira metade dos anos de 1990, com a publicação dos livros O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social (Spink, 1993) e de Textos em representações sociais (Guareschi & Jovchelovitch, 1994).

Esse movimento originado na psicologia social brasileira coincidiu com a intensificação das preocupações de segmentos da sociedade com as questões ambientais, com a defesa de doutorado, em educação, sobre as representações sociais de meio ambiente e as práticas pedagógicas cotidianas dos professores de ciências da cidade de São Paulo (Reigota, 1990) e com a publicação dos livros O que é educação ambiental (Reigota, 1994a) e Meio ambiente e representação social (Reigota, 1994b).

O período de difusão e recepção da teoria não aconteceu sem críticas internas, turbulências e dissidências entre os pesquisadores precursores. No Brasil, elas ocorreram principalmente no Grupo de Trabalho sobre Representações Sociais da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), que se dividiu em 1999, dando origem ao Grupo de Trabalho sobre o Cotidiano e Práticas Sociais.

Sem se afastar da TRS, mas distanciados da tendência que se tornaria hegemônica a partir da segunda metade dos anos de 1990, ligada à identificação do "núcleo central" das representações sociais em situações experimentais (de laboratório), se encontram os livros Elites, intelligentsia e ecologia na América Latina: um estudo de suas representações sociais (Reigota, 1999a), A floresta e a escola: por uma educação ambiental pós-moderna (Reigota, 1999b), Ecologistas (Reigota, 1999c) e Iugoslávia: registros de uma barbárie anunciada (Reigota, 2001). Esses livros são resultados de pesquisas pautadas nos diálogos entre a Etnografia e os Estudos Culturais com a TRS, sendo que os dois últimos foram apresentados como pesquisas em realização no GT sobre Representações Sociais da ANPEPP, em 1996 e 1998, respectivamente.

No encontro da TRS com os Estudos Culturais há uma ênfase metodológica nos discursos (representações) das imagens, narrativas e trajetórias dos anônimos, documentos de domínio público, músicas, filmes, publicidade, literatura, artes plásticas, cinema, pichações. Os Estudos Culturais oferecem, nesse caso, possibilidades políticas, teóricas e metodológicas, mais radicais às pesquisas relacionadas com as experiências e desafios da vida cotidiana contemporânea (Santiago, 2004; Silva, 1999).

Os "espaços" de produção, difusão e consolidação de representações são então considerados, nessa perspectiva, como fundamentais para a educação ambiental, que se quer política e voltada para a identificação, circulação, desconstrução e reconstrução das representações em toda a sua complexidade e amplitude, por meio do processo pedagógico.

Outras aproximações da Teoria das Representações Sociais ocorreram conjuntamente com a pedagogia freireana, relacionada com as noções de "leitura de mundo" e "sujeito da história" (Peliconi, 2002; Reigota, Possas & Ribeiro, 2003) e com a vertente pós-moderna que enfatiza grandes problemas contemporâneos como "a crise ambiental, o problema da colonização, da neocolonização (dominação) e da má distribuição da riqueza e bens nas diferentes regiões do planeta" (Alba, 2004, p. 146).

Nessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a educação é uma forma de intervenção no mundo intrinsecamente política, pois pode contribuir para manter ou transformar a sociedade a partir das práticas sociais dos "sujeitos da história". São eles e elas os/as protagonistas da ação política de transformação coletiva e pessoal (Freire, 1987, 1996; Freire & Faundez, 1985).

Assim, para o/a educador/a ambiental é inerente o compromisso com a instauração de um contexto social, cultural, político e ecológico, que vise à transformação das macroestruturas e das relações humanas e no qual está implícita a perspectiva de uma sociedade justa, democrática e sustentável. A produção teórica brasileira e internacional sobre educação ambiental, que enfatiza essa perspectiva, é intensiva e extensiva e o nosso grupo tem mantido diálogos e cooperações com alguns dos seus mais conhecidos representantes. (Caride & Meira, 2004; Falchetti & Caravita, 2005; Fien, 1995; Huckle, 1996; González-Gaudiano, 1998; Guerrero, 2003; Monte, 1996; Noal & Barcelos, 2003; Orellana, 2005; Pelicioni, A.F., 2002; Pelicioni, M.C.F., 2005; Philippi Jr. & Pelicioni, 2005; Rodrigues, 1997; Salomone, 2005; Sauvé, 2005).

Nesse contexto teórico foram realizadas práticas pedagógicas e pesquisas de mestrado. Exemplificamos aqui a de Lima (2007a), que desenvolveu, com crianças do ensino fundamental I, práticas no ensino de arte com foco político e pedagógico na educação ambiental. Nos conteúdos escolares em arte, na escola onde ocorreu a prática pedagógica, uma das unidades é sobre o artista Frans Krajcberg, e de modo geral eram sugeridas atividades em papel, tinta plástica, enfim, materiais industrializados. O processo pedagógico iniciou com a desconstrução de que toda atividade artística que ocorre com papel e tinta, de maneira generalizada, desconsidera os princípios do artista. Foi construída a idéia de que devemos conhecer melhor a trajetória, a história de vida de Frans Krajcberg, a fim de aproximar e sensibilizar os alunos quanto a sua postura diante do mundo. A atividade proposta para os alunos, consoante com o pensamento do artista, foi a utilização de materiais disponíveis na escola, sem agredir o ambiente. Dessa forma, o olhar do aluno foi aguçado para folhas, sementes, galhos, entre outros elementos, que, por causa do vento, chuva ou outro motivo estavam no chão, com potencial a ser transformado em arte. A prática pedagógica incitou alunos e alunas a criarem outras estéticas, outras posturas frente ao seu ambiente, e o conhecimento sobre a trajetória de Frans Krajcberg teve grande importância nesse processo.

Nascido na Polônia em 1921, filho de um comerciante e de uma militante comunista, Krajcberg participou da Segunda Guerra Mundial e nela perdeu toda a sua família, em campos de concentração nazistas.

Em 1948, veio para o Brasil e se naturalizou em 1957. Um dos seus primeiros trabalhos foi no Paraná, onde presenciou a destruição das florestas e iniciou suas obras denunciando a destruição da natureza. Em Minas Gerais, teve contato com a arte barroca, interessou-se pelos pigmentos naturais e produziu uma série de trabalhos explorando tonalidades e texturas. No sul da Bahia, conheceu o mangue e a mata atlântica, produziu "esculturas-árvores" e instalações com lascas de rochas, galhos queimados, troncos calcinados e cipós retorcidos e, também, começou a elaborar suas próprias tintas com pigmentos naturais.

Juntamente com Sepp Baendereck e Pierre Restany, viajou pela Amazônia em 1978. Indignados com as queimadas que presenciaram e as condições de vida das comunidades indígenas, escreveram "O manifesto do Rio Negro", uma das primeiras e mais severas críticas ao modelo de desenvolvimento que o governo militar implantava na Amazônia.

A obra e a vida pública de Krajceberg passaram a ser marcadas pelas denúncias que fez contra a destruição da natureza e, em várias ocasiões, ele relatou que ver as cinzas das queimadas o fazia lembrar das cinzas de sua família destruída pelos nazistas.

A vivência da guerra e a denúncia da destruição da vida presentes na sua obra o tornaram um dos artistas contemporâneos mais conhecidos e um dos ativistas mais importantes do movimento ambientalista, surgido no Brasil durante a ditadura militar (1964-1984), ao lado de outros precursores como Miguel Abellá, Aziz Ab'Saber, Nanuza Menezes, Fernando Gabeira, José Lutzenberger, Augusto Ruschi e Cacilda Lanuza (Pelicioni, 2002).

A obra de Krajceberg se confunde e se mescla com a sua trajetória e empenho na defesa pública de todas as formas de vida. Nas suas denúncias, não deixa de abordar a desvalorização da cultura brasileira, a violência, a fome, o desemprego e a passividade do povo brasileiro como um dos maiores problemas da atualidade (Lima, 2007b).

Ele se define como um cidadão planetário. Sua existência, obra e militância são marcadas pelo inconformismo e pela ação. Em suas palavras:

O fogo é a morte, o abismo. O fogo continua em mim desde sempre. A minha mensagem é trágica: mostro o crime. A outra face de uma tecnologia sem controle é o abismo. Trago os documentos, os reúno e acrescento: quero dar à minha revolta o rosto mais dramático e mais violento. Se eu pudesse pôr cinzas por toda parte, estaria mais perto daquilo que sinto. Que haja na minha obra reminiscências da guerra, no inconsciente, certamente. Com todo esse racismo, esse anti-semitismo, não podia fazer outra arte. (Krajcberg, 2005, p. 8)

As intervenções públicas de Krajcberg colocam-no como "sujeito gerativo" que transforma o desespero em integridade (Erickson, 1998). O estudo de sua obra e trajetória no grupo de pesquisa "Perspectiva ecologista da educação" e na disciplina "Conhecimento e cotidiano escolar", da Universidade de Sorocaba, começou em 2005. Trabalhos anteriores e a fundamentação teórica e metodológica exposta acima permitiram que esse estudo fosse realizado, ampliando assim nossa argumentação da compreensão da educação ambiental como educação política, pautada na Teoria das Representações Sociais em diálogo com os Estudos Culturais.

Frans Krajcberg passou a ser estudado não só nesses espaços e momentos específicos, mas também nos corredores, nas bibliotecas, nas disciplinas de outros professores, nos jornais da cidade, em escola de ensino fundamental, em diálogos com professores dessa escola, em exposições realizadas, a partir de sua obra, pela artista Adriana Teixeira de Lima, em Sorocaba e em São Roque, em seminários e conferências para professores e estudantes da região, em sessões de vídeos e filmes, cedidos pelo próprio Krajcberg e abertos à comunidade, que contou com a presença de professores, estudantes dos mestrados em educação, de comunicação e cultura e funcionários da UNISO. Além disso, concedeu uma entrevista exclusiva, publicada na Revista de Estudos Universitários (Lima, 2007b). A perspectiva ecológica, estética e política de Frans Krajcberg, profundamente ligada a sua experiência de vida, nos possibilita ter um exemplo concreto para fundamentar, teórica e metodologicamente, as práticas pedagógicas, nas quais a experiência de cada um, os problemas e possibilidades da e na vida cotidiana e a intervenção cidadã são indissociáveis. Por outro lado, o recurso da arte, com tamanha complexidade, provocações e sofisticação estética amplia a nossa percepção e representação do mundo e estimula o aprofundamento teórico e metodológico para a realização de uma educação ambiental que quer ser política, com significado e sentido.

Durante dois anos, Krajcberg impregnou nossas práticas pedagógicas e sociais cotidianas, como pode ser verificado em alguns depoimentos presentes nesse artigo, exemplificando e definindo nossa interpretação a respeito do que entendemos pela pedagogia rizomática (Gallo, 2003), freireana (Freire, 1996) e pós-moderna (Alba, 2004), que podem originar "raízes e opções na tessitura da rede de subjetividades e conhecimentos" (Oliveira, 2003, p. 63).

Essa atividade constante permitiu que os componentes do grupo de pesquisa iniciassem um encontro com Frans Krajcberg, por meio de filmes, fotos, vídeos, entrevistas, livros, artigos e outros materiais didáticos, mas sem o contato pessoal, direto e contemplativo de sua obra. Em outras palavras, o que conseguíamos (des)construir, enquanto grupo, eram outras representações sobre esse homem, sua produção e presença no mundo, representações essas bem detalhadas sobre sua perspectiva estética, política, pedagógica e ecológica, mas estávamos impossibilitados de (des)construir representações a partir do contato direto com o resultado da práxis de Krajcberg, ou seja, com as suas obras de arte.

Essa impossibilidade foi rompida por alguns membros do grupo na visita que fizeram ao Centro Cultural Frans Krajcberg, em Curitiba, quando voltavam do V Congresso Iberoamericano de Educação Ambiental, realizado em Joinville, em abril de 2006. Após o contato com a obra, escreveram narrativas, nas quais enfatizaram as representações que tinham antes e como o processo pedagógico contribuiu para a construção/desconstrução/reconstrução das representações das obras e nas obras do artista, bem como para a modificação de práticas sociais e pedagógicas cotidianas (Lima, 2007a). Algumas dessas narrativas, como as que seguem, exemplificam esse argumento:

(...) as fotos me impressionaram principalmente pelas cores, tinturas da natureza, em troncos queimados, lembram sangue, morte, mas também vida, esperança, ali, naquele espaço. As manchas de, penso eu, mercúrio usado por garimpeiros... o por do sol no rio completamente poluído... lembrei dos versos do Rolando Boldrin "(...) tudo depende do jeito que se óiá" e dos questionamentos no nosso grupo "um tronco queimado lá na floresta significa uma coisa, em uma exposição em São Paulo, na Bienal, em Paris... significa o quê?" Confesso que tudo me fez muitas reviravoltas na cabeça, do belo ao feio, do vivo ao morto e vice-versa (principalmente), do vivo ao vivo (no caso das esculturas e nós juntos), da tinta ao sangue, do olhar ao sentir, do sentir ao viver. Em casa, assistindo a um programa infantil da TV Cultura com minha filha de quatro anos, tive a grata surpresa de ver um programa sobre a natureza em que mostravam algumas obras de Krajcberg e falaram alguma coisa como "esse homem que veio de longe...". Fiquei extasiado e na hora quis explicar à minha filha quem era ele. Terminamos por juntar galhinhos e folhas e desenhá-los e colá-los ao lado... Passei a guardar folhas e sementes diferentes para os nossos encontros. (LR)

(...) escrevo esse texto após uma aluna do cursinho pré-vestibular onde dou aula ter comentado sobre um certo artista que tinha uma casa na árvore que, indignado, falava inúmeras coisas sobre a degradação da Amazônia para a expansão do cultivo de soja e criação de gado, quando apareceu no programa da Ana Maria Braga. Confesso que tomei conhecimento do Frans Krajcberg no nosso grupo. Já havia ouvido falar dele algumas vezes, em programas de televisão, jornais e revistas, mas nunca guardei o nome. Considerava-o mais um europeu excêntrico, que se preocupava com a Amazônia somente para divulgar seu trabalho (...). Não conhecia sua história, muito menos suas obras. Não é para menos que pasmei ao ver não só o tamanho, mas o teor claramente catastrófico das esculturas... A impressão que as esculturas passam é a de projeção de um futuro sombrio. Não só pelo teor quase que cadavérico que aqueles troncos de árvore queimada sugeriram, mas também pelas cores sugeridas pelo Frans, sempre sombrias e mórbidas. E sobre representações mórbidas eu tenho grande experiência (...). Então o que me chamou mais atenção não foram as esculturas em si, ou o detalhismo e perfeição das obras, mas sim a competência com a qual ele passa o sentimento de desesperança e frustração, relativo principalmente à floresta Amazônica. (RB)

Conheci as obras do Krajcberg a partir dos seminários no nosso grupo e pude ter uma visão melhor sobre o que ele denunciava. Eu não imaginava que ele trabalhasse ou pudesse colocar num espaço árvores queimadas. Não há dúvida de que a preocupação com a natureza é um fato alarmante e a arte, sendo um dos veículos para essa denúncia, me fez refletir sobre as queimadas e o que tenho visto no meu cotidiano. A exposição me alertou sobre algumas coisas do meu cotidiano que passaram despercebidos. Assim com o meu olhar de viajante, identifico as queimadas não como contraste da beleza cênica, mas como a realidade de muitos lugares. Em alguns locais percebi que algumas queimadas não eram feitas pelas pessoas, mas pela própria ação da natureza, como os raios que caíam sobre algumas árvores. A exposição trouxe para o meu olhar cotidiano, procurar identificar as queimadas dentro da relação de degradação do meio pelas mãos dos homens e mulheres como também pela própria ação da natureza. (DV)

O Espaço Frans Krajcberg sintetiza um misto de reflexão, admiração, espanto e pensar. O visual nos remete a uma cena futurista, a uma "natureza" ainda não conhecida, não explorada, enquanto que o material, a proximidade com o concreto traz de volta o chão, o real. Um problema ambiental tratado como arte, uma denúncia através da estética das formas e das cores (...). O artista traz uma polêmica sobre uma polêmica, quando traz para o campo da arte o que supostamente, no senso comum, seria uma tragédia, um exemplo do "feio" ou do "não-belo". Cria sobre a morte talvez uma esperança de nova vida, mas não de uma maneira ingênua, mágica, mas sim com um grito pela vida: uma releitura de tudo o que se concebe de humano, natural, não-humano, não-natura. Krajcberg pode ser encarado, talvez, como entusiasta, mais um utópico em meio a tantos ecologistas, ambientalistas, "malucos verdes de plantão". No entanto, ele consegue trazer uma nova linguagem para essa discussão, um novo prisma para um debate que carece a todo instante de novas vias de comunicação. Não como meras informações ou imagens, mas como novos instrumentos que proponham novos diálogos e atinjam os mais diversos públicos, que sentem, vêem e vivenciam de formas diferentes. (AJS)

Diante da trajetória e obras de Frans Krajcberg, é impossível ficar indiferente ou apenas contemplar. Sua postura política, sua linguagem estética, sua vida nos sensibiliza. A contribuição do sentido político e pedagógico da trajetória do artista pode ser interpretada nas narrativas escritas pelos componentes do grupo de pesquisa da Universidade de Sorocaba, que refletem um envolvimento gradativo, cada um a seu tempo, com uma perspectiva ecologista de educação ambiental.

 

Conclusão

Em uma das narrativas acima, lemos que a discussão ambiental "carece a todo instante de novas vias de comunicação" (AJS). Essa constatação nos coloca, como ativistas, pesquisadores/as e educadores/as ambientais frente à necessidade e ao desafio de buscarmos fundamentos aos nossos argumentos, nas mais diversas atividades da vida cotidiana. Por outro lado, nos coloca também a necessidade de explicitarmos, cada vez mais, quais são os fundamentos teóricos em que pautamos nosso trabalho e em qual perspectiva política nos encontramos. Essas constatações exigem e possibilitam diálogos constantes com nossos colegas que trabalham com perspectivas semelhantes às nossas e com os que trabalham com perspectivas teóricas opostas, mas com a mesma preocupação política de construção de uma sociedade justa, democrática e sustentável. Temos um histórico, individual e coletivo, de trabalho relacionado com a educação ambiental, definida como educação política e pautada na Teoria das Representações Sociais, histórico este marcado por uma produção científica inquieta que também está situada no histórico desta Teoria (e da educação ambiental), no Brasil e no exterior. Ao optarmos por aproximar a Teoria das Representações Sociais dos Estudos Culturais, corremos riscos deliberados, ainda mais quando essa aproximação se dá pelas necessidades, desafios e possibilidades da especificidade de nossos trabalhos, relacionada com a pedagogia freireana e tendências pós-modernas de educação. Dessa forma, os discursos e trajetórias dos "sujeitos da história", sua "leitura de mundo" – conceitos caros à pedagogia freireana – e a intervenção cotidiana nos diferentes espaços da vida social – dimensão política da educação pós-moderna – são contribuições teóricas fundamentais e base política de nosso trabalho. Entre os "sujeitos da história" encontram-se os anônimos e aqueles que se tornam publicamente e internacionalmente conhecidos pela pertinência, insistência, coerência e independência de suas práxis. Assim, ao incluirmos e estudarmos a obra e trajetória de Frans Krajcberg na nossa práxis cotidiana, o fazemos com o claro objetivo de ampliar e aprofundar o debate sobre a questão ambiental, sem recorrermos aos mesmos exaustivos recursos e discursos disponíveis entre nós. Fazemos também uma escolha deliberada de aprofundarmos, com nossos limites e possibilidades, a fundamentação teórica que ampara nossas atividades pedagógicas e de intervenção política. Em outras palavras: pretendemos, com e a partir de nossas práticas sociais e pedagógicas cotidianas, produzir teoria que possa contribuir com o aprofundamento e a pertinência de nossas intervenções, pessoais e coletivas, educativas e políticas.

As narrativas dos componentes do grupo de pesquisa "Perspectiva Ecologista da Educação", da Universidade de Sorocaba, são uma amostra de como a trajetória de Krajcberg, seu discurso, a cidadania escolhida (brasileira) e a reivindicada (planetária), as manifestações contrárias à destruição da vida, das pessoas e da natureza "representadas" em suas obras, bem como o impacto cultural, político, pedagógico e ecológico delas, contribuem com a ampliação dos nossos fundamentos e argumentos, à medida que provocam ressignificações, a desconstrução, a (re)construção de outros valores, representações e práticas sociais nos espaços de intervenção cotidiana.

 

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Recebido em janeiro de 2008 e aprovado em outubro de 2008.