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Cadernos CEDES

Print version ISSN 0101-3262

Cad. CEDES vol.32 no.86 Campinas Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622012000100009 

CALEIDOSCÓPIO

 

No centenário de Astrid Lindgren: a gaveta secreta de Píppi Meialonga*

 

 

Emy Beseghi

Professora de Literatura Infantil da Faculdade de Ciências da Formação, da Universitá degli Studi di Bologna. E-mail: beseghi@scform.unibo.it

 

 

A escandalosa Píppi, a irredutível moleca, a irreverente, irônica e contestadora Píppi, é sempre atual. De fato, é um clássico ao qual se retorna continuamente. Depois de haver assinalado um decisivo divisor de águas na história da representação das meninas, a quem ofereceu novas e libertárias fantasias das quais se alimentar, Píppi permanece um exemplo a ser seguido para explorar recursos desconhecidos, para contagiar os leitores com sua força vital e pela sátira que dirige ao sistema de proibições do mundo adulto.

Píppi não conhece o desgaste do tempo. Cria ressonâncias novas, estabelece preciosas alianças com as suas leitoras, é um potente imã que, num crescendo de identificação empática, projeta-as com sua fértil fantasia em aventuras irresistíveis, com surpreendentes reviravoltas simbólicas. A originalidade e efervescência da trama, as desconcertantes invenções narrativas, a fonte inesgotável de criatividade, a incontrolável espontaneidade da personagem, tudo isso torna Píppi um ícone do imaginário infantil. Sua aventura é aquela de tantas meninas decididas a não abdicar de sua coragem ou de sua força inventiva, meninas intrépidas, prontas a desafiar as convenções, a desmascarar preconceitos e lugares-comuns.

De geração em geração, de país em país, de 1945 - data de sua primeira publicação na Suécia - às manifestações estudantis, ao feminismo de 1968 e até hoje, a voz de Píppi permanece um ponto de referência significativo, uma voz legitimada pela literatura infantil e, sobretudo, pelas meninas que demonstram compreender e seguir o chamado redentor da menininha com as meias compridas. Nascida como "Conto-Presente de Natal" para a filha doente, a história de Píppi torna-se uma preciosa herança para tantas outras filhas e sobrinhas de todo o mundo, transmitindo os valores próprios de uma genealogia feminina. Fiel ao seu "ser menina", hilária mas também melancólica, menina diferente, com um jeito verossímil de tocar a verdade, a pequena heroína sueca recusa o crescimento, o teme, não se submete à natureza e tenta manter-se na infância, engolindo as famosas pílulas "Cunegandi",1 de forma a nunca tornar-se... "gandi" enquanto "o truque está exatamente aqui: quase todo mundo diz 'grande', e não se pode cometer erro pior, porque então se começa a crescer e não se para mais".

A vivíssima Píppi Meialonga vive plenamente os territórios sempre pouco explorados da literatura infantil, mas realiza muitíssimas incursões na literatura popular. A dívida de Lindgren em relação aos grandes narradores orais é clara, a sua é uma declaração de poética decisiva e consciente. O vínculo com o próprio microcosmo rural, ligado à infância feliz da autora, se manifesta em toda a sua produção literária, mas é justo no seu romance mais célebre que ressoam mais fortemente os ecos do vínculo da feminilidade com sua terra, na qual o sentimento de sacralidade faz lembrar as antigas crenças panteístas da natureza. É exatamente a natureza, então, que se torna cenário e recipiente dos percursos iniciáticos por excelência da literatura escandinava, de Selma Lagerlof a Karen Michaelis: ela representa uma importante função social, cultural e psicológica, território onde tudo é possível, onde dominam as fantasias mágicas e onipotentes do pensamento infantil.

As ilustrações de Elza Beskow, artista muito apreciada por Astrid Lindgren e Tove Jansson, parecem colocar-se como emblema desta natureza hiperidílica, de gosto iconográfico minimalista e representante de um mundo em miniatura, teatro ideal das aventuras de Píppi Meialonga e de suas "irmãs" do mundo literário, mas também ilha sonhada pelas leitoras de todos os tempos.

Os desenhos de Ingrid vang Nyman aludem a uma incrível árvore genealógica, tão relevante que impressiona quem a contempla. Píppi, de fato, parece descender do pequeno militante descamisado das barricadas, Gavorche,2 parece remeter aos góticos moleques Max e Moritz,3 reencontrar todos os amigos de Yellow Kid,4 misturar-se às magras crianças errantes da Grande Depressão, aproximar-se das indefesas criaturas dos cartazes espanhóis da Guerra Civil, não descolar-se dos orgulhosíssimos órfãos dos quadrinhos americanos.

O fascínio duradouro de Píppi está, de fato, segundo Faeti, na sua constante referência à literatura infantil, onde o Sr. Nilson, macaquinho "do bem", parece colocar-se como sobrinho que agrega todos os macaquinhos, de Collodi, de Robida, de Yambo. E onde Píppi parece evocar aquele mundo iluminado de sol que desperta Tom na ilha de Jackson, mas também do luar que permite ao Gato Félix fazer cambalhotas dançando. Píppi vai à escola? Poderia estar na classe de Max e Moritz, conhecer e admirar Lucignolo, apreciar Franti.5 Nela, sueca em tudo e por tudo, ressoa o humor potente, as zombarias de época, os sutilíssimos e quase proverbiais truques de Bertoldo;6 revive a eterna aurora dos "Sobrinhos do Capitão", de Popeye, o encanto de uma subalternidade burlesca e "clownesca", repleta de delicadíssima poesia.

Com uma ótica feminina, as ilustradoras italianas contemporâneas que revisitaram Píppi - numa mostra pela cooperativa cultural Giannino Stoppani (de Beatrice Alemagna a Chiara Carrer, de Nicoletta Ceccoli a Francesca Ghermandi, Octavia Monaco, Grazia Nidasio, Chiara Rapaccini, Serena Riglietti, Pia Valentinis, Vanna Vinci, entre outros) - parecem olhá-la como encantadora irmãzinha do Puer Aeternus, pequena deusa de um Olimpo secreto que contém sempre a força silenciosa das crianças, o gosto por uma alteridade não capturável, onde macacos e cavalos falam de liberdade.

Heroína de mil faces, segundo os diferentes códigos visíveis, novos e provocadores, Píppi, como todo o clássico, resiste, se amolda, se prolonga no sonho feminino. Coloca-se visivelmente ora na histórica ascendência das meninas passionais, historicamente contestadoras, que tanto espaço tiveram na história da sátira em quadrinhos, ora se torna o duplo onírico de si mesma na multiforme Píppi, ora se abre àquela dimensão lunar de uma personagem em equilíbrio entre estradas, noites, espíritos, danças e sonhos. Píppi dialoga com as ilustradoras de hoje, estimula-as, se oferece a novos campos de experimentação visual. Propõe um desafio efetivamente grande.

Píppi parece ser a resposta feminina a tantos livros que narram histórias de moleques. Todos do sexo masculino. E nasce da pena inspirada e inventiva de Astrid como um tipo de alteridade ingovernável ou de alter ego: "(...) não sou eu quem decide como devem ser minhas meninas. Elas fazem como querem, e sou eu quem devo me adaptar (...)" e, ainda, "muitas meninas dos anos 40 me escrevem, depois, já adultas, para me contar sobre o sentimento de libertação que experimentaram ao ler Píppi, e o quanto era importante que fosse uma menina (...)".

As mulheres fortes, sábias e corajosas da infância de Astrid retornam como modelo positivo a se atingir, para renovar mensagens de liberdade. Píppi terá outras "irmãs" da literatura, independentes e capazes de indignar-se frente às injustiças: Ronya, Martina, Britta.7

A unidade dessa criação literária torna Píppi sempre nova, portadora de uma alternativa salvadora para tantas meninas: o poder e a força de serem elas mesmas. Píppi encarna sempre uma possibilidade: na sua maravilhosa Vila de Villekula, mostra que a diversidade, tão penalizada no nosso mundo, é possível. Mais ainda, pode transformar-se em autonomia, felicidade, força prodigiosa. Píppi infunde coragem. Sabe que, na falta de apoio seguro, pode-se crescer com a própria capacidade. Do olhar livre de Píppi, capaz de subverter o juízo sobre as situações e as coisas, evidenciando os macroscópicos defeitos, sempre necessitaremos.

Os personagens de Astrid Lindgren - de Píppi a Lena ou Karlson - amam ir ao alto, talvez voar em um balão e, mais simplesmente, subir sobre as árvores e os telhados. São frequentemente acrobatas, patrões inconscientes do próprio corpo - como só as crianças às vezes sabem ser -, bem como malabaristas da linguagem, como Píppi, capaz até de demonstrar à professora a inutilidade de frequentar a escola.

Píppi se presta a uma multiplicidade de chaves interpretativas: modelo sueco de rebeldia, pedra fundamental do pensamento de gênero, pacifista, aventureira, antiautoritária. Mas está, sobretudo, dentro de cada menina que escuta a história. "Sou uma achadeira", diz de si mesma. "O mundo é cheio de coisas que estão esperando ser encontradas". Ela faz isso, sem medo, com a sorte dos audazes, a generosidade dos puros, a alegria dos inocentes, a sabedoria absurda das crianças.

Uma sabedoria temida pelos adultos, mas procurada pelas crianças como uma fonte que não vai se esgotar ou secar. Uma fonte a se bus-car. O centenário de Astrid Lindgren é uma ocasião para reabrir a gaveta secreta de Píppi.

 

Notas originais da autora

A. Faeti, Molto vicina, molto lontana, in: A. A. V. V. Pippi Calzelunghe nelle figure, Giannino Stoppani Bologna, 2007, p. 4.         [ Links ]

A. Faeti, E'arrivata una strega bambina con certificate di garanzia, Mille Libri, n. 7, 1988, p. 108.         [ Links ]

A. Faeti, Molto vicina, molto lontana, cit. p. 5.         [ Links ]

B. Masini, Cara Pippi, in: A. A. V. V., Astrid Lindgren, Giannino Stoppani Bologna, 2007, p. 25.         [ Links ]

G. Zoboli, Astrid l'eretica, in: A. A. V. V., cit. p. 27.         [ Links ]

D. Marceschi, Sull'albero della poesia, in: A. A. V. V., cit. p. 30.         [ Links ]

C. De Gregório, Pippi Calzelunghe, La Repubblica, 18-12-2005, p. 51.         [ Links ]

 

Notas da tradução

1. Na tradução em português, as pílulas não foram nomeadas. No livro Píppi nos mares do Sul, lançado em 2003 pela editora Companhia das Letrinhas, elas são apenas descritas como "uma coisa exatamente idêntica a três grãos de ervilha amarela".

2. Personagem de Os miseráveis, de Vitor Hugo.

3. Personagens criados e ilustrados por Wilhelm Bush, considerado o precursor da história em quadrinhos. Sua história, em sete capítulos, foi publicada em 1865. Foi traduzida no Brasil por Olavo Bilac, que nomeou os garotos como Juca e Chico.

4. Personagem principal de Hogan's Alley, pioneira tira em quadrinhos desenhada por Richard Outcault a partir de 1894.

5. Personagens de Coração, de DeAmicis.

6. Bertoldo é um personagem tradicional, meio atrapalhado, mas que sempre se dá bem.

7. Outras personagens femininas de Astrid Lindgren não traduzidas para o Brasil.

 

 

* Tradução do original em italiano de Adriana Lech Cantuária, com revisão técnica de Ana Lúcia Goulart de Faria, docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O texto original encontra-se em Rivista Infanzia: mensile di esperienze e discussioni sull'infanzia e le sue scuole (Bologna, n. 12, p. 515-517, 2007).

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