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Cadernos CEDES

versão impressa ISSN 0101-3262versão On-line ISSN 1678-7110

Cad. CEDES vol.37 no.101 Campinas jan./abr. 2017

https://doi.org/10.1590/cc0101-32622017168676 

APRESENTAÇÃO

Performance e Escola

Gilberto Icle 1  

Mônica Torres Bonatto 2  

Marcelo de Andrade Pereira 3  

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação - Porto Alegre (RS), Brasil. E-mail: gilbertoicle@gmail.com

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Colégio de Aplicação - Porto Alegre (RS), Brasil. E-mail: mo.bonatto@gmail.com

3Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Educação - Santa Maria (RS), Brasil. E-mail: doutorfungo@gmail.com


A noção de performance, entendida tanto como linguagem quanto como ferramenta de análise da ação humana, possibilita a reflexão sobre alguns aspectos da educação escolarizada e, a partir daí, pode nos levar a experiências diferentes daquelas proporcionadas por práticas tradicionais de ensino. Nesse contexto, ganham espaço temas que, muitas vezes, são marginais ao conjunto de valores e objetivos que regem a organização das instituições de ensino, dentre os quais: a centralidade do corpo nos processos de ensino-aprendizagem; o caráter de invenção e de intervenção na realidade; a possibilidade de pensar além da demarcação de saberes; a valorização dos processos vividos e não apenas dos resultados obtidos; o reconhecimento da potência das investigações de caráter autobiográfico.

A interseção da performance com a educação nos possibilita pensar para além daquilo que tem sido tematizado como fracasso ou sucesso escolar, sugerindo uma forma de organização pautada pela experiência coletiva. Nesse sentido, somos convidados a questionar as estruturas cristalizadas da instituição escolar, o pensamento hegemônico, pois na performance não há conteúdo predeterminado, nem programa ou currículo que se sustente sem os participantes do processo de ensinar-aprender.

Mas como esse conceito - que circula por diversas áreas do conhecimento, que gera práticas extremamente provocativas e que se realiza justamente (e necessariamente) nas fronteiras de diferentes campos do conhecimento - pode contribuir para a educação?

Em diálogo com a necessidade de estabelecermos novos marcos para as nossas instituições de ensino, as pesquisas que abordam a relação entre performance e educação apontam para diferentes e instigantes caminhos de reflexão e ação, configurando-se como uma importante arena de discussão sobre questões relacionadas aos processos de ensino-aprendizagem que têm lugar na educação escolarizada.

Nos marcadores teóricos e metodológicos dessa discussão, apresentamos aqui um conjunto de artigos de diferentes pesquisadores que se propõem a discutir aspectos específicos à escola sob a lente da performance.

Com efeito, este caderno temático procura dar visibilidade a um campo em emergência no Brasil, qual seja, o das pesquisas em performance na escola. Contudo, é preciso lembrar - e isso ficará mais claro com a leitura dos artigos aqui apresentados - que não se trata de uma problematização da performance como forma de arte a ser ensinada na escola, tampouco da inserção de práticas artísticas na educação básica. Mas, sem eliminar tais possibilidades, as relações entre performance e educação nos possibilitam circunscrever a escola, o trabalho do professor e dos alunos, o comportamento cotidiano, os rituais escolares, as construções sociais e os marcadores de gênero, classe social, raça, etnia, entre outros, como performance.

Pensar a escola sob o ponto de vista da performance não elimina pensar sua performatividade (e talvez essa seja a acepção de performance mais conhecida na pesquisa em educação no Brasil), porquanto a pensemos como desempenho (do aluno, do professor, da escola, da avaliação, dos sistemas etc.). Entretanto, as acepções aqui empregadas não se sustentam apenas no diagnóstico que desenha a educação como campo de performatividade no qual a escola performa a si mesma para atender a determinadas políticas; elas se estendem muito além, para nos ajudar a compreender como todos nós, na escola e fora dela, performamos a nós mesmos e ao outro de modo a repetir comportamentos que se tornam rituais de contínua constituição de sujeitos.

E se a performance é isto também - a repetição de comportamentos determinados socialmente -, ela é, ainda, a possibilidade de deles derivar, de contra eles trabalhar e de romper com tudo aquilo que é programado, preparado, repetível.

Os textos aqui elencados fazem - de diferentes maneiras e por distintas abordagens teóricas - o esforço de mostrar as possibilidades dessa ruptura e sua potência para compreendermos a escola como lócus da performance (repetição), como operação performática (ruptura) e como construção performativa (reconstrução) de sujeitos.

O primeiro deles, Por uma pedagogia performativa: a escola como entrelugar para professores-performers e estudantes-performers, é assinado por Mônica Torres Bonatto e Gilberto Icle. Nele, os autores descrevem três experiências performáticas na escola de educação básica para com elas construírem duas noções de uma pedagogia performática: a escola como entrelugar e o professor-performer e o aluno-performer.

Pedagogia crítico-performativa: tensionamentos entre o próprio e o comum no espaço-tempo escolar, de Marcelo de Andrade Pereira, discute, por intermédio dos conceitos de próprio e de comum, os processos de interação entre educadores e educandos. Com acento filosófico, o ensaio prospecta nas obras de Todorov, Agamben e Rancière um conjunto de argumentos para pensar (e propor) uma pedagogia crítico-performativa.

Em Desafios da diversidade em sala de aula: um estudo sobre performance narrativas de crianças imigrantes lê-se um estudo etnográfico-propositivo no qual a autora, Luciana Hartmann, trabalha com crianças imigrantes em duas escolas francesas. Nesse trabalho, tomando como base os estudos da performance, a antropóloga produz com as crianças performance narrativas com o intuito de verificar as possibilidades transformativas (performativas) dessas narrações.

No artigo seguinte, Guerra de maçãs e seus desdobramentos: a escola como paisagem performativa, a autora Marina Marcondes Machado narra um episódio acontecido em sala de aula (guerra de maçãs) e o analisa à luz das teorizações performativas, procurando compreender (e mesmo propor) a escola como espaço convivial.

Carminda Mendes André, por sua vez, em O que pode a performance na escola?, expõe o resultado de três pesquisas que promovem a inserção da arte contemporânea em projetos pedagógicos de escola de educação básica. As pesquisas relatadas servem como alinhavo para a discussão sobre ética e política no seio da escola, em especial no ensino de arte.

Com ênfase nas questões relativas ao corpo, Paulina Caon problematiza o jogo, a performance e a performatividade como modulações de corporalidade com o intuito de analisar o cotidiano escolar. O texto, intitulado Jogos, performance e performatividades na escola: das experiências corporais à problematização de discursos, propõe tais marcadores como possibilidade de reordenar, suspender e subverter os discursos hegemônicos sobre e na escola.

Por fim, Aportes de perspectivas analíticas sobre performance, performatividad, cuerpo y afecto para la comprensión de la producción de sujetos generizados en la escuela, único texto em espanhol, de Ana Sabrina Mora, discute as performance de gênero na escola, compreendendo-as como construções paulatinas incrustadas na constituição cotidiana dos sujeitos. Esse marcador se faz na análise de diferentes modelos teóricos como a antropologia da performance, a análise da performatividade de gênero, a socioantropologia do corpo e a perspectiva do chamado giro afetivo.

Temos em mente que esses textos ajudarão os leitores a reconfigurarem o que sabemos sobre as relações entre performance e escola. Desejamos uma leitura entusiasmada como foi a nossa.

Recebido: 04 de Outubro de 2016; Aceito: 23 de Fevereiro de 2017

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