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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

versão impressa ISSN 0101-3289

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.34 no.4 Porto Alegre out./dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32892012000400017 

RESENHA

 

O esporte pode tudo: o livro Síntese do Intelectual Vitor Marinho

 

 

Dr. André MalinaI; Dra. Ângela Celeste Barreto de AzevedoII

IDoutor em educação física pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro (UGF/RJ). Professor Adjunto II da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Curso de Educação Física (Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil). E-mail: andremalina@yahoo.com.br
IIDoutora em educação física pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro (UGF/RJ). Professor Adjunto II da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Curso de Educação Física (Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil). E-mail: angelaestagio@yahoo.com.br

Endereço para correspondência

 

 

MARINHO, Vitor. O esporte pode tudo. São Paulo:
Cortez, 2010. (Coleção questões da nossa época, v. 3).

O debate sobre o papel atribuído ao esporte na sociedade, associado a uma ideia de que o esporte pode tudo, está atualmente em foco com a proposta de realização dos chamados mega-eventos no Brasil. O esporte faz parte de um programa estratégico de governo com pretensões de redimensioná-lo como política de Estado, com certo anacronismo. Vale lembrar que a ideia de utilizar o esporte como afirmação de uma nação forte não é nova, e foi atrelada a governos conservadores e/ou reacionários, como foi o caso da Ditadura Militar no Brasil. O debate e as pesquisas sobre esporte são muito recorrentes e atrelados à área de Educação Física no Brasil e, portanto, um tema retratado por diversos autores desta área.

No livro "O Esporte Pode Tudo", prefaciado por Lino Castellani Filho, observamos, entretanto, a trajetória intelectual de Vitor Marinho, um dos principais autores e atores da Educação Física, protagonista da principal época de modificação e dos novos rumos da Educação Física, os anos de 1980, e a consequente ressignificação da atuação dos professores dessa área a partir de então. Apesar do título, o livro traz, assim, uma seleção de textos que expressam essa trajetória, e tem como eixo principal a Educação Física, em vez da temática do Esporte.

A trajetória de Vitor Marinho mostra-o como um intelectual orgânico1 da Educação Física e, por conseguinte, da nossa sociedade. Atualmente já existem pesquisadores com interesse em desenvolver trabalhos acadêmicos versando sobre seu pensamento pedagógico, conforme pode ser visto em Pires (2009). Nessa perspectiva, apresentamos a resenha do livro "O Esporte Pode Tudo" que retrata suas ideias a respeito da Educação Física, da sociedade e, especialmente, do homem.

Nesses termos, o livro traz nove textos referentes às suas publicações desde os anos de 1980. A exposição das ideias nesses textos demonstra a transição que viveu ao longo dos anos: ao invés de refluir e relativizar sua radicalidade (ir à raiz), com o tempo, ao contrário, radicalizou seu pensamento. Atualmente e, desde o início dos anos de 1990, suas análises e concepções ideológicas são de corte marxista.

A perspectiva marxista aduz a uma forma de exposição na ótica do materialismo histórico. Nessa ótica, o momento mais complexo é o atual e recorre-se à História para compreensão dos problemas vividos hoje. Nesse sentido, passado, presente e futuro estão entrelaçados e não obedecem, necessariamente, à sucessão linear dos fatos que delimitam o processo histórico. (GOLDMANN, 1980).2

Assim, nessa lógica do materialismo histórico e dialético de pensamento, Vitor Marinho adota uma ordenação para exposição dos textos no livro "O Esporte Pode Tudo", partindo de suas reflexões escritas na atualidade para a mais antiga, nas quais passado, presente e futuro se apresentam entrelaçados. Desse modo, o autor considera o marco inicial da sua produção o último texto apresentado no livro, publicado em 1984 - embora este texto se refira às preocupações estudadas em sua dissertação de mestrado, publicadas somente em 1985, na primeira edição do livro "Educação Física Humanista". Este texto de 1984 demarca uma visão humanista existencialista do autor na época, de corte fenomenológico, a qual ele próprio supera e critica atualmente. Da mesma forma, cabe esclarecer que o segundo texto apresentado no livro, embora sintetize o referencial teórico da tese de doutoramento de Vitor Marinho, publicada em 1994 no livro "Consenso e Conflito da Educação Física Brasileira", foi escrito após a publicação da segunda edição deste livro, em 2005. Trata-se de uma reflexão inédita e atual que demarca sua lógica de compreensão atual de mundo articulada teoricamente ao primeiro texto apresentado no livro "O Esporte Pode Tudo".

Em relação ao seu conteúdo, esse primeiro texto que dá título ao livro foi escrito em 2009.3 Nele, Vitor Marinho problematiza uma noção salvacionista de esporte, e tão alienante como em diversos outros momentos da história. Utilizando-se de um percurso histórico, demonstra como hoje e ontem o esporte foi usado de diversas formas, mas com finalidades parecidas: atualmente ancorando uma ideologia liberal.

O segundo texto, "Consenso e Conflito", é inédito, e Vitor Marinho nos mostra uma síntese da parte teórica da sua tese de doutorado, publicada em 1994 e reeditada em 2005, fundamentada nas Pedagogias do Consenso e do Conflito. Para amalgamar a Pedagogia do Consenso, apresenta a filosofia política de John Locke, a economia política de Adam Smith e a matriz sociológica de Emilé Durkheim. Em contraposição ao Consenso, apresenta ideias de Antonio Gramsci e de Bernard Charlot4 para apresentar a Pedagogia do Conflito.

Em seguida, no texto três, publicado em 2000, Vitor Marinho olha prospectivamente sobre a pesquisa e a pós-graduação. A partir da apresentação das correntes do pensamento contemporâneo, discute o modelo atual de pesquisa e da forma de pesquisar do professor de Educação Física, questionando a relevância dos trabalhos acadêmicos. Traz, no seu escopo, a noção de método, de totalidade social e de história, pautado especialmente em Lucien Goldmann e em Karel Kosik.

No texto quatro: "Ideologia: pontos para reflexão", publicado em 1993, é discutido a questão da ideologia. Passeando pelos clássicos, Vitor Marinho expõe o desenvolvimento do conceito de ideologia em Marx e em autores posteriores. Assim, aparece com simplicidade, mas sem simplismos, o conceito de ideologia em Lênin, Luckács, Gramsci e Althusser. Nesse texto, sem ser gramsciano, destacou a positividade e a importância central da ideologia em Gramsci.

O texto seguinte, também publicado no ano de 1993, está baseado nas Pedagogias do Consenso e do Conflito, e é intitulado "Pedagogia do Esporte". A partir de dados nacionais sobre questões econômicas que desembocam em questões sociais, como desnutrição e baixa estatura da população, Vitor Marinho expõe uma das faces da orientação teórico-metodológica que viria a referenciar sua tese de doutorado.

No texto seis, publicado em 1989, é a questão da ideologia que novamente o move a escrever. A perspectiva, entretanto, dá-se com uma visita à discussão sobre a reprodução em Bourdieu e Passeron. Nesse texto, a teoria marxista está agora em estado bruto. Por um lado, expressada na formulação tese-antítese-síntese, e por outro, concordando com os autores que está analisando.

O próximo texto foi publicado em 1988. O tema deste texto guarda similaridade ao texto anterior, de 1989, mas discute essencialmente a categoria/teoria da Reprodução, em cotejo com os aparelhos ideológicos de Althusser. A questão da reprodução aparece aqui analisada à luz dos limites dessa categoria/teoria, incorporando sua potente criticidade ao sistema capitalista. Destacamos ainda, nesse texto, que o conceito bourdiesiano de habitus é discutido en passant no texto de Vitor Marinho5 e difere de outros pesquisadores do campo da Educação Física.

Os dois últimos textos do livro são sínteses da produção que projetou Vitor Marinho. A síntese trazida no texto oito, publicada em 1984, marca a fase do autor na perspectiva humanista-existencialista e se refere ao livro "O que é Educação Física" - publicado em 1983 e um dos mais lidos na área da Educação Física. A perspectiva histórica adotada no livro "O que é Educação Física" foi retirada da síntese desse texto oito em favor da discussão do papel do professor.6 Já o texto nove, publicado também em 1984, retrata o humanismo rogeriano em contraponto ao comportamentalismo, advindos dos estudos da Psicologia da Educação, e traduz preocupações oriundas da sua dissertação de mestrado, publicada como livro em 1985, intitulado "Educação Física Humanista".7

Os textos de Vitor Marinho trazidos no livro "O Esporte Pode Tudo" representam sua trajetória intelectual. O título escolhido, no entanto, não remete especificamente a esta representação dada pelos textos apresentados no livro. Por outro lado, vale também observar que os textos trazidos no livro são curtos e mostram densidade teórica. Desse modo, o livro poderia ter trazido também uma introdução, elucidando aspectos teóricos e elementos importantes para uma melhor interlocução da profundidade que os textos retratam e da articulação que eles representam na trajetória intelectual do autor.

Assim sendo, o livro "O Esporte Pode Tudo", publicado pela Editora Cortez, pode ser referenciado como um livro síntese da história de um pensador, tal como um prisma no qual sobrepõem-se todas as cores. É um retrato da produção de conhecimento do Professor Vitor Marinho, especialmente rico na sua história e na relação com os acontecimentos e modificações da Educação Física. O livro está na coleção certa: "Questões da Nossa Época".

 

REFERÊNCIAS

GOLDMANN, L. Ciências humanas e filosofia. São Paulo: Difel, 1980.         [ Links ]

MALINA, A.; CESARIO, S. Esporte: fator de integração e inclusão social? Campo Grande: Ed. da UFMS, 2009.         [ Links ]

MARINHO, V. O que é Educação Física. São Paulo: Brasiliense, 2011.         [ Links ]

______. Educação Física humanista. Rio de Janeiro: Shape, 2010.         [ Links ]

______. O Esporte pode tudo. São Paulo: Cortez, 2009.         [ Links ]

______. O esporte pode tudo! In: MALINA, A.; CESARIO, S. Esporte: fator de integração e inclusão social? Campo Grande: Ed. da UFMS, 2009. p. 121-128.

PIRES, A. G. M. Vitor Marinho: um mergulho no pensamento pedagógico da Educação Física brasileira. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 9.; ENCONTRO SULBRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA, 3., Curitiba, 2009. Anais... Curitiba, 2009. p. 8990-8999. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/3674_2080.pdf Acesso em: 05 nov. 2010.

 

 

Endereço para correspondência:
André Malina
Cidade Universitária, s/n Curso de Educação Física
Campo Grande - MS CEP: 79070900

Recebido em: 18 out. 2011
Aprovado: 8 jun. 2012

 

 

1. Referimo-nos a uma aproximação com o intelectual orgânico gramsciano na ação de organizador da cultura.
2. Autores marxistas como Louis Althusser e Étienne Balibar, dentre outros, não compreendem o materialismo histórico dessa forma. A opção de compreensão do materialismo histórico e dialético via Goldmann (1980), encontra convergência com o humanismo concreto que o autor expressa na sua trajetória intelectual narrada nos textos apresentados no livro resenhado, a partir dos anos 1990.
3. Publicado primeiro em Malina e Cesário (2009).
4. No livro, trata-se da visão do Bernard Charlot, datada dos anos de 1980.
5. Destacamos aqui um ponto de inflexão, no qual não estarão mais presentes as aproximações dos textos de Vitor Marinho para uma linha marxista de análises e proposições.
6. Importa saber que a editora Brasiliense publicou uma segunda edição (MARINHO, 2011), com um posfácio feito pelo autor em forma de ensaio, com sua visão atual, e possivelmente vai merecer novos comentários e estudos.
7. O livro Educação Física Humanista foi republicado pela Shape em 2010. Cabe ressaltar que, antes da publicação do Coletivo de Autores, em 1992, a abordagem pedagógica humanista da Educação Física presente no livro "Educação Física Humanista" era uma referência no pensamento "crítico" expressado nos fóruns de debate na Educação Física brasileira.

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