SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.36 issue2Effects of aerobic exercise on the body composition and lipid profile of overweight adolescentsThe Q angle analysis, during resistance training, on open kinematics chain and intermidiate closed kinematics chain, through photogrametry author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Ciências do Esporte

On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.36 no.2 Porto Alegre Apr./June 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32892014000200003 

Artigos Originais

Detecção e seleção de talentos na ginástica artística feminina: a perspectiva dos técnicos brasileiros1

Talent detection and selection in women's artistic gymnastics: the Brazilian coaches' perspective

Detección y selección de talentos en gimnasia artística femenina: la perspectiva de los entrenadores de Brasil

Myrian Nunomura

Mauricio dos Santos de Oliveira

1Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil) E-mail: mnunomur@usp.br

2Doutorado em Ciências, Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo (São Paulo - São Paulo - Brasil) E-mail: mauoliveira@usp.br

RESUMO

Este artigo tem por objetivo apresentar e discutir a detecção e a seleção de talentos na Ginástica Artística Feminina com enfoque para os aspectos que norteiam as condutas dos técnicos brasileiros. Entrevistamos 34 técnicos de 29 instituições distribuídas no Brasil. Observamos que os meios utilizados para detectar e selecionar os talentos na modalidade privilegiam a idade de ingresso, as características antropométricas e os testes físico-motores. Porém, sabemos que os determinantes do sucesso no esporte são multifatoriais e, por vezes, as avaliações transversais utilizadas não contemplam todos os fatores que contribuem para a obtenção de bons resultados no alto rendimento.

Palavras-Chave: Ginástica artística; seleção de talentos; detecção de talentos; treinabilidade

RESUMEN

La investigación aspiró a presentar y discutir la detección y selección de talentos en Gimnasia Artística femenina centrándose en los aspectos que guían la conducta de los entrenadores brasileños. Hemos entrevistado a 34 entrenadores de 29 instituciones distribuidas en Brasil. Los resultados indican que los medios utilizados para detectar y seleccionar talentos priorizan la edad de ingreso, evaluaciones antropométricas y pruebas físico-motoras. Pero sabemos que los determinantes del éxito en el deporte son multifactoriales y, a veces, las evaluaciones transversales utilizadas no contemplan todos los factores que contribuyen a los buenos resultados en el alto rendimiento.

Palabras-clave: Gimnasia artística; selección de talentos; detección de talentos; entrenabilidad

ABSTRACT

The aim of this article is to present and discuss the talent detection and selection in Women's Artistic Gymnastics considering the aspects that guide these procedures in Brazil. We conducted a field based study and we interviewed 34 coaches from 29 institutions. We find out that the methods used to detect and select talents in Women's Artistic Gymnastics prioritize the initiation age of practice, the anthropometrics characteristics and the physical-motor tests. However, it is known that the determinant factors for success in sports are multifactorial and sometimes the transversal tests used in the assessment can't cover all aspects that have impact on the successful career at sport high level.

Key words: Artistic Gymnastics; Talent Selection; Talent Detection; Trainability

INTRODUÇÃO

Autores como Smoleuskiy e Gaverdouskiy (1996) consideram que a preparação de ginastas de alto rendimento inicia-se com a implementação de programas para detectar e selecionar crianças que apresentam grande potencial esportivo para a modalidade.

Por meio desses programas é possível encontrar, entre a diversidade de crianças, aquelas que quando submetidas ao treinamento sistematizado terão maior probabilidade de êxito, pois possuem características e qualidades que atendem às exigências impostas pela GA (BORRMANN, 1978).

A Federação Internacional de Ginástica (FIG, 2003) considera que os métodos de detecção e seleção de talentos permitem estabelecer certo grau de certeza em relação ao eventual alto nível de rendimento dos indivíduos. Isso contribui para o direcionamento de recursos para um grupo seleto de atletas que apresentam características excepcionais. Assim, é possível melhorar o acompanhamento e otimizar o investimento per capita em indivíduos com potencial esportivo (VAEYENS et al. 2009).

Martindale, Collins e Daubney (2005) afirmam que grande parte dos métodos de detecção e seleção de indivíduos talentosos utiliza indicadores de desempenho, obtidos por meio de testes, para predizer o futuro sucesso dos jovens. Para fundamentar essas avaliações, Russell (1989) cita a necessidade da análise das dimensões de desempenho do esporte em questão, pois somente assim será possível estabelecer quais atributos são necessários e que subsidiarão os procedimentos de identificação de talentos.

A FIG (2003) fornece algumas diretrizes para os técnicos e indica a necessidade da realização de testes com crianças em tenra idade de modo a possibilitar e, também, potencializar o desenvolvimento das capacidades e qualidades que atendem às demandas da GA competitiva. Os testes normalmente aplicados na modalidade consistem em avaliações antropométricas e morfológicas, testes de capacidades físicas, avaliações motoras e de percepção, testes psicológicos e análise situacional/demográfica (RUSSELL, 1989).

Apesar da importância atribuída aos métodos de detecção e seleção de talentos, não há um consenso na literatura sobre como o talento deveria ser definido ou identificado, fato que dificulta a prática desses procedimentos (VAEYENS et al. 2008). Rowley (1994) apud Wolstencroft (2002) constatou que 48% dos técnicos de GA do Reino Unido não utilizam métodos de detecção e seleção de talentos. Wolstencroft (2002) atribuiu isso à falta de conhecimento e de recursos que possam orientar a implementação desses programas.

Brown (2001) acredita que o maior empecilho está na diversidade de aspectos inerentes ao processo de detecção e seleção, pois, além das características físicas, motoras, antropométricas, psicológicas e do desempenho em competições, deve-se considerar o ambiente em que o indivíduo avaliado está exposto e o apoio recebido, o que demonstra que os determinantes de sucesso no esporte são multifatoriais (BÖHME; RÉ, 2009; HOARE; WARR, 2000).

Assim, explica-se a dificuldade de prognosticar os futuros campeões e, por essa razão, o presente estudo visa apresentar e discutir os procedimentos e aspectos que norteiam a prática de detecção e seleção de talentos, segundo a perspectiva dos técnicos que atuam no âmbito competitivo nacional e internacional na Ginástica Artística Feminina (GAF) no Brasil, a fim de oferecer subsídios e direcionamentos na busca por talentos, e que possam contribuir para o futuro desenvolvimento da modalidade no país.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para compreender, analisar e discutir os métodos de detecção e seleção de talentos na GAF brasileira, entrevistamos 34 técnicos da modalidade que estão distribuídos em 29 instituições do Brasil.

Para a seleção dos sujeitos, contatamos as Federações estaduais para identificar as instituições filiadas e com participação regular nos torneios oficiais nas categorias: pré-infantil, infantil, infanto-juvenil e juvenil.

O recorte do estudo ficou restrito ao estado de São Paulo e às cidades do Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre devido à representatividade desses locais no panorama nacional competitivo da modalidade.

Para o tratamento dos dados, utilizamos a Análise de Conteúdo (BARDIN, 2008) como técnica de organização e redução das informações coletadas em campo. Ressaltamos que não intencionamos efetuar uma análise quantitativa dos itens mencionados pelos técnicos, mas dissertar sobre os conteúdos emergentes das mensagens.

O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

CRITÉRIOS DE DETECÇÃO

A detecção de talentos refere-se ao momento em que crianças e jovens, que não estão envolvidos em processos regulares de treinamento, serão avaliados e direcionados para programas esportivos (HOHMANN; SEIDEL, 2003). Farrow, Baker e MacMahon (2007) acreditam que o princípio fundamental no momento da detecção é compreender as demandas da modalidade no alto rendimento com o objetivo de selecionar aqueles indivíduos que apresentam essas características. A FIG (2003) corrobora com essa afirmação e cita que a análise de ginastas que atingiram o alto nível permite estabelecer parâmetros para as avaliações.

Por meio das entrevistas constatamos que os critérios utilizados pelos técnicos, no momento da detecção, foram: idade cronológica, avaliação morfológica e antropométrica, testes físico-motores, observação, avaliação empírica e análise genética. Verificamos, também, que alguns técnicos não aplicam ou não identificaram nenhum procedimento de avaliação para detectar os talentos nas suas instituições.

Ao analisar a primeira subcategoria do Quadro 1, observamos que há ênfase sobre a idade de ingresso na modalidade, o que revela a crença de que seja realmente importante e, por vezes, essencial, iniciar cedo na modalidade para quem visa ao alto nível. Os entrevistados apontaram a idade cronológica, entre 4 e 6 anos, como um fator norteador do processo de detecção, tornando-se um pré-requisito na maioria dos casos.

Quadro 1.  

As idades supracitadas estão de acordo com os parâmetros estabelecidos por autores como Smoleuskiy e Gaverdouskiy (1996). A FIG (2003) estabelece a faixa etária de 5-7 anos na GAF, mesmo afirmando que a detecção prematura do talento não é garantia de sucesso no futuro.

Os técnicos que citaram a idade, como critério de detecção, relacionaram crianças muito jovens e, assim, é cedo para predizer o seu potencial esportivo. Acreditamos que haja influência da literatura que, por vezes, indica o início precoce na GA em comparação às demais modalidades, levando os técnicos a interpretarem que realmente seja necessário iniciar cedo (BOMPA, 2000; LÉGLISE, 1998).

O período ótimo para o desenvolvimento de habilidades técnicas complexas, da coordenação e da flexibilidade (ARKAEV; SUCHILIN, 2004; BOMPA, 2000), assim como as vantagens biomecânicas das proporções corporais menores que facilitam o ensino e a aprendizagem dos elementos (DAMSGAARD, 2001; ARKAEV; SUCHILIN, 2004) são os argumentos mais utilizados no universo da GA competitiva para justificar a necessidade do ingresso na modalidade em tenra idade (NUNOMURA; CARRARA; TSUKAMOTO, 2010).

Apesar dessa delimitação da faixa etária no momento da detecção, podemos encontrar exceções de atletas de sucesso que iniciaram a prática da modalidade em idades superiores àquelas enunciadas pelos sujeitos. Um exemplo seria a ginasta Daiane dos Santos, que foi detectada aos 11 anos de idade. Filin e Volkov (1998) atribuem essas exceções ao fato de que esses atletas, que iniciaram a prática e os treinamentos sistematizados "tardiamente", praticaram outros esportes anteriormente e, por isso, possuíam um bom repertório motor.

Um risco na utilização da idade cronológica como critério de detecção é a individualidade biológica, pois o ritmo e a velocidade de crescimento são individuais e pode ter pouca relação com a idade cronológica da criança. Assim, autores como Filin e Volkov (1998) recomendam que, paralelamente, a idade biológica seja considerada. Isso auxiliaria a evitar dados imprecisos e a discriminação maturacional que ocorre quando indivíduos nascidos nos meses finais do ano estão em desvantagem, pois apresentam um desenvolvimento biológico tardio em relação àqueles nascidos nos meses iniciais (VAEYENS et al. 2008; STARKES, 2000). No caso das meninas, aquelas nascidas nos meses finais estarão em vantagem (VAEYENS et. al, 2009).

Além desses fatores, a prontidão psicológica e emocional também influencia o desempenho esportivo e nem sempre está diretamente relacionada com a idade cronológica. A FIG (2009) ressalta que o fato de ser talentoso, do ponto de vista físico e da velocidade de aprendizado, pode não ser proporcional ao amadurecimento psicológico. Filin e Volkov (1998) atentam para os riscos da ascensão prematura de jovens talentosos às competições e aos treinamentos rígidos, que podem conduzir ao esgotamento físico e nervoso e, consequentemente, ao abandono do esporte. Os autores citam a fala do ginasta Mikhail Voronin que diz:

Uma coisa é quando estas cargas físicas e psicológicas recaem sobre uma pessoa madura, preparada e capaz de receber tais cargas, e outra muito distinta, quando estas cargas, no afã de atingir o "topo" no desporto de alto nível, são impostas às crianças, que naturalmente "queimam-se", sem sequer atingir este "topo", ou deixar sua lembrança desportiva (p.118).

A avaliação morfológica e antropométrica foi outro critério de detecção mencionado na pesquisa. Características como a baixa estatura e o corpo delgado foram citados por alguns sujeitos como fatores determinantes no procedimento de detecção. Russell (1989) enumera outros fatores que podem ser analisados nessa avaliação, dentre eles: massa corporal, circunferências, larguras e comprimentos.

Sabemos que as características morfológicas e antropométricas encontradas nas crianças podem variar conforme elas crescem e maturam. Mas, segundo Carter (1980) apud Russell (1989), os somatótipos identificados em crianças que obtiveram sucesso nas categorias de base são similares às do adulto. Alguns técnicos citaram a procura de um biótipo ideal para a modalidade. Claessens et. al. (1991) apontou que grande parte das ginastas que atingiram o nível internacional estava inserida no somatótipo ecto-mesomórfico. Richards (1999) afirma que:

de todos los deportes para mujeres, la gimnasia es uno de los deportes en la cual la imagen corporal es una marca registrada. [...] las mujeres gimnastas son más dependientes del genotipo, en donde las participantes ya poseen la figura básica que consiste en tener una estatura baja, extremidades cortas, hombros anchos y caderas estrechas.

Por ser um esporte artístico em que o corpo está em evidência e influenciaria a percepção dos árbitros, os aspectos morfológicos e antropométricos podem ser primordiais para a obtenção de uma pontuação superior (CLAESSENS et al. 1999). Borrmann (1978) confirma essa preocupação, pois a estética dos movimentos é essencial no momento da avaliação e está relacionada à constituição física. Ademais, problemas de saúde, como desvios da coluna vertebral, podem ser detectados nesse momento da avaliação antropométrica (BORRMANN, 1978; SMOLEUSKIY; GAVERDOUSKIY, 1996).

Associado à avaliação das características físicas, há o fator genético que foi citado por um dos técnicos. Os dados antropométricos estão relacionados à predisposição genética para determinado perfil morfológico e não devem ser avaliados isoladamente, como alguns técnicos acreditam. Nunomura e Tsukamoto (2003) citam que:

o conjunto de características morfológicas apresentadas pelas atletas é, antes de tudo, determinado pela genética, variável que muitas vezes não é considerada em estudos que se propõem a justificar os caracteres típicos das ginastas (p. 123).

Em complementação a essa afirmação, Arkaev e Suchilin (2004) citam que a altura, as proporções corporais e outros parâmetros antropométricos são condicionados geneticamente e são características determinantes para o sucesso esportivo na modalidade. De acordo com os autores, os indivíduos que possuem os atributos geneticamente estabelecidos e que estão dentro dos padrões da modalidade estarão em vantagem, pois conseguirão passar pelo crivo da seleção natural da GA.

Além das características físicas, o momento da menarca também possui uma predisposição genética e deve ser analisada, pois as mudanças ocorridas nesse período podem dificultar e até mesmo impedir a continuidade da carreira esportiva das atletas com vistas ao alto rendimento (ARKAEV; SUCHLIN, 2004). E, para efetuar a análise genética, os técnicos recorrem à anamnese dos pais.

A realização de testes físicos e motores foi outro critério utilizado no processo de detecção das ginastas. As principais capacidades físicas relacionadas foram: a coordenação, a agilidade, a flexibilidade e a força. Smoleuskiy e Gaverdouskiy (1996) acrescentam outras capacidades que merecem atenção, tais como: velocidade e resistência. Alguns sujeitos relacionaram características associadas à desenvoltura, à coragem e à esperteza no momento dessa avaliação.

Há preocupação excessiva entre os técnicos em avaliar força, flexibilidade e coordenação geral, que são qualidades essenciais no alto nível da GA, mas que, por outro lado, são qualidades treináveis, ou seja, que podem ser desenvolvidas ao longo da carreira esportiva em níveis satisfatórios que atendam às exigências da GA, conforme citam Serrão e Tricoli (2005) e Russell (1987; 1989). Assim, há um equívoco em utilizar tais medidas treináveis como parâmetros para predizer o futuro sucesso das ginastas.

A necessidade de uma análise em longo prazo para fundamentar os procedimentos de detecção dos talentos pode explicar a observação contínua, relacionada pelos sujeitos, como um método de avaliação. Os técnicos explicam que esse procedimento consiste em avaliar aquelas crianças que apresentam bom desenvolvimento nas aulas, durante determinado período de tempo, que pode ser de uma semana até meses a depender da instituição. Esse método permite analisar a treinabilidade, as características volitivas e a adaptação dos indivíduos à cultura da GA.

Outro procedimento utilizado foi a avaliação empírica realizada por meio da observação das crianças nas aulas de educação física com a utilização de critérios subjetivos fundamentados na experiência do técnico. Um dos sujeitos citou o exemplo no qual esse procedimento foi efetuado em visitas às escolas de educação infantil, onde as crianças com potencial foram convidadas para praticar a modalidade. Um dos ícones da GA mundial, Nadia Comaneci, foi identificada dessa forma, sem passar por testes sistematizados de avaliação, pelo renomado técnico Bela Karolyi (KAROLYI; RICHARDSON, 1994).

Alguns técnicos relataram que não realizam avaliações para detectar as ginastas. Eles afirmam que a política e/ou a filosofia de trabalho das instituições nas quais estão vinculados, requerem que todos os interessados possam praticar, independente de ser um talento ou não.

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

Na sequência, abordaremos os critérios relacionados à seleção de talentos que consiste no momento em que os indivíduos, que já praticam a modalidade, serão selecionados para programas superiores de promoção de talentos. No Quadro 2 podemos acompanhar os critérios e métodos utilizados nesta etapa. Algumas subcategorias são congruentes ao processo de detecção.

Quadro 2. 

A idade cronológica volta a ser critério na busca por talentos quando ginastas que praticam a modalidade atendem às seletivas para serem transferidas para equipes que dispõem de melhor infraestrutura, ou quando os técnicos visam classificar as suas ginastas em grupos específicos de acordo com a idade, nível técnico e de desenvolvimento das capacidades físicas.

Assim como no processo de detecção, acreditamos que a idade biológica deveria ser considerada em detrimento da idade cronológica. Opinião corroborada por Vaeyens et al. (2008), que enfatizam que o desenvolvimento biológico maturacional deve receber maior relevância no processo de seleção. Segundo Lanaro Filho e Böhme (2001) isso propiciaria melhor fundamentação e controle do crescimento e do desenvolvimento das ginastas. O procedimento mais preciso para estabelecer a idade biológica seria a radiografia do punho esquerdo (RUSSELL, 1989).

Outro critério de seleção que apresentou maior frequência no discurso dos técnicos foi o uso de testes que avaliam as capacidades físicas das ginastas. Os técnicos relataram a análise das seguintes capacidades: potência, força, flexibilidade e resistência. Embora essas capacidades sejam pré-requisitos no processo de seleção, elas são altamente treináveis. Hohmann e Seidel (2003) afirmam que os estudos atuais atribuem maior relevância à treinabilidade como o aspecto inato mais importante. Russell (1987) sugere que esta treinabilidade seja avaliada, e não apenas a condição atual do atleta.

A análise de habilidades específicas também foi mencionada como critério de seleção. Russell (1989) relaciona esse aspecto na categoria "talento para o desempenho", na qual a execução de habilidades específicas é avaliada. Os técnicos relataram que a realização de elementos básicos, em cada um dos aparelhos, e de exercícios de força, característicos da modalidade, são fatores que norteiam esse procedimento. A FIG (2003) afirma que o estabelecimento de determinados elementos gímnicos acompanhados de séries obrigatórias, para cada nível, servirão como subsídios no processo de seleção. Conforme Russell (1989), essa avaliação pode ser complementada com os resultados obtidos em competições. Contudo, apenas um sujeito citou os resultados competitivos como parâmetros de avaliação no processo de seleção.

Assim como na detecção, alguns técnicos utilizam a observação contínua para selecionar as ginastas talentosas. Lanaro Filho e Böhme (2001) ressaltam que esse método pode originar erros, pois não possui embasamento fidedigno. A experiência acumulada do técnico permite que esta avaliação subjetiva tenha uma maior precisão. Por isso, enfatizamos que esse artifício deveria ser utilizado em combinação com outros critérios de análise do talento, o que poderia elevar a sua credibilidade.

Verificamos que alguns técnicos não realizam ou não identificaram nenhum método de seleção de talentos nos seus locais de trabalho. A justificativa com maior ocorrência foi que todos os ginastas devem ter a oportunidade de demonstrar o seu potencial e que o próprio processo de treinamento seria responsável pela seleção natural dos mais aptos. Além disso, os clubes e as academias necessitam dos sócios para custear os programas e não podem limitar os praticantes apenas aos mais talentosos.

Os prejuízos psicológicos gerados nos indivíduos submetidos aos procedimentos excludentes também foram utilizados como justificativa para a não realização da seleção. Um dos sujeitos acredita que as avaliações frustram as crianças que não são selecionadas e geram o sentimento de medo entre aquelas que almejam continuar na modalidade em níveis superiores.

O ideal para amenizar esses problemas surge no discurso de um dos técnicos que afirma que a sua instituição possui turmas diferenciadas em que todas as crianças terão a oportunidade de praticar a GA independentemente das suas condições físicas, motoras e antropométricas. Outro sujeito acredita que todos podem ter resultados na modalidade e, por isso, não aplica métodos de detecção ou de seleção de talentos. Para ele os técnicos devem trabalhar para que todos possam demonstrar e atingir o seu potencial na modalidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os programas de identificação de talentos podem ser compreendidos como um dos pilares que sustentam o sucesso esportivo de grandes potências internacionais (DE BOSSCHER et al., 2009). E, para obter dados que descrevam as qualidades de um atleta de elite e que fundamentarão o processo de detecção e seleção dos talentos, é necessário desenvolver pesquisas multidisciplinares e longitudinais (FARROW; BAKER; MACMAHON, 2007).

Os estudos devem abranger aspectos sociológicos, psicológicos, fisiológicos, biomecânicos e tecnológicos. Essa abordagem plural permite um avanço no conhecimento e na compreensão do esporte e fornecem dados que orientarão a busca pelo talento.

Apesar do respaldo que as pesquisas científicas possam oferecer, ressaltamos que predizer o sucesso esportivo de crianças e jovens é complexo devido aos diversos aspectos que intervêm no processo de identificação e no posterior desenvolvimento do talento, até que se atinja o alto rendimento. Assim, a detecção de um talento em tenra idade, como ocorre na GAF, não é garantia de sucesso, pois parte-se do pressuposto de que o sucesso é um somatório de características e atributos em que o talento é apenas um dos fatores.

Apesar da importância atribuída aos métodos que visam selecionar os talentos, são poucos os estudos que correlacionam o status de talento na infância com os resultados de sucesso obtido na fase adulta. Algumas pesquisas revelaram que muitos atletas olímpicos não foram considerados talentosos nas categorias de base e de formação (MASSA, 2006; MARTINDALE; COLLINS; DAUBNEY, 2005; HEDSTROM; GOULD, 2004).

Brown (2001) cita que as oportunidades ambientais e situacionais podem desempenhar papel mais importante do que os fatores predeterminados geneticamente. Outras variáveis, como a motivação, o gosto pelo esporte e a capacidade de receber instruções do técnico não podem ser prognosticados na maioria dos testes transversais utilizados para estabelecer os talentos, e são determinantes para o sucesso esportivo. Uma forma encontrada pelos técnicos para contemplar a análise desses fatores foi a observação contínua.

Hohmann e Seidel (2003) ressaltam que os testes que não são específicos e que apenas se baseiam em habilidades motoras gerais e medidas corporais não fornecem informações suficientes, satisfatórias e úteis para predizer o futuro sucesso em alguns esportes. Verificamos que muitos técnicos recorreram apenas a esses aspectos no momento da avaliação, embora esses não sejam suficientes para predizer o sucesso esportivo na fase adulta.

Observamos que, conforme a literatura, há dúvidas e incertezas entre os técnicos sobre os critérios e os procedimentos mais efetivos para a detecção e a seleção de ginastas competitivos, assim como não há um consenso sobre a real necessidade da implementação destes programas. Há prognósticos, mas jamais certezas, pois as variáveis intervenientes no processo de identificação de talentos são diversas (MALINA, 1999; RUSSELL, 1987) e rotular as crianças e os jovens parece não fazer sentido.

O contexto do esporte e, não diferentemente o da GA, pode impor restrições aos atletas como acesso ao local de treino, falta de infraestrutura, de profissionais qualificados, de recursos financeiros, entre outros, que podem dificultar o ingresso ou a permanência na prática esportiva (RUSSELL, 1987). Caso adicionemos a detecção e a seleção nesses obstáculos, poucas crianças e jovens terão oportunidade de revelar o seu potencial no esporte ou de usufruir os benefícios da prática esportiva. Mas será que dispomos de tantos praticantes interessados no alto nível a ponto de exigir seleção ou exclusão? E, Léglise (1996) definiu bem a GA competitiva atual: "an inaccessible dream" (p.5).

Sabemos que a seleção é inevitável, pois nenhum país tem condições de fornecer infraestrutura física e humana para muitos atletas no alto nível. Rütten, Ziemainz e Röger (2003) relatam que os procedimentos de identificação de talentos auxiliam na sustentabilidade do esporte, principalmente quando os recursos destinados são limitados e a competitividade entre os países aumenta a cada dia.

Alguns técnicos mencionaram que o fato de ser sócio do clube seria um critério de detecção/seleção, o que parece coerente para uma instituição privada que é mantida pelo associado, mas essa ação exclui possíveis campeões de demonstrarem o seu potencial no esporte. Observamos, também, essa exclusão por acesso em instituições públicas nas quais os técnicos precisam selecionar por falta de recursos humanos para atender a um grande número de alunos e não comprometer a qualidade do ensino.

Seria ideal que houvesse esforços das instituições esportivas para proporcionar o acesso à modalidade a um maior número de indivíduos possíveis e que fossem oferecidos diversos níveis de prática. E, que a opção de avançar para o setor competitivo fosse do praticante, e não restrição da instituição ou do sistema esportivo em si.

Ainda que a prática de detecção e seleção seja necessária e apresente margem de acerto, deveríamos oferecer oportunidade àqueles que não se enquadram no parâmetro de talentosos, pois, conforme os relatos obtidos no presente estudo, alguns técnicos perderam os ginastas talentosos em virtude de circunstâncias como a falta de motivação, a ausência de apoio familiar, as dificuldades econômicas para subsidiar os treinamentos e a não adaptação à modalidade. Esse fato foi definido pelos técnicos como uma "perda de tempo e esforço".

Assim, incentivamos que os técnicos mantenham aqueles ginastas, rotulados de não-talentosos, em grupos de treinamento paralelos para desenvolver as suas potencialidades e, posteriormente, serem resgatados para as equipes principais, seja pela desistência de um talentoso ou por sua própria evolução. E, da mesma forma que criticamos a especialização precoce, deveríamos refletir sobre a detecção e a seleção de talentos, pois corremos o risco de fechar as portas para muitos potenciais e, talvez, futuros campeões.

REFERÊNCIAS

ARKAEV, L.; SUCHILIN, N. Gymnastics: how to create champions. Oxford: Meyer & Meyer Sport, 2004. [ Links ]

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2008. [ Links ]

BOMPA, T. Total training for young champions. Champaign: Human Kinetics, 2000. [ Links ]

BORRMANN, G. Ginástica de aparelhos. Lisboa: Estampa,1978. [ Links ]

BROWN, J. Sports talent. Champaign: Human Kinetics, 2001. [ Links ]

BÖHME, M. T. S.; RÉ, A. H. N. O talento esportivo e o processo de treinamento a longo prazo. In: DE ROSE JÚNIOR, D. (org.) Esporte e Atividade Física na infância e na adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2009. [ Links ]

CARTER, J. E. The contributions of somatotyping to kinathropometry. In: OSTYNet al. Kinathropometry II. Baltimore: University Park Press, 1980 apud RUSSELL, K. Athletic talent: from detection to perfection. Science Periodical on Research and Technology in Sport, Ottawa, v. 9, n. 1, p. 1-6, 1989. [ Links ]

CLAESSENS, A. L. et al. Anthropometric characteristics of outstanding male and female gymnasts. Journal of Sports Sciences, Londres, v. 9, n. 1, p. 53-74, 1991. [ Links ]

CLAESSENS, A. L. et al. The contribution of anthropometric characteristics to performance scores in elite female gymnasts. The Journal of Sports Medicine and Physical Fitness, Torino, v. 39, n. 4, p. 355-360, 1999. [ Links ]

DAMSGAARD, R. Children in competitive sports: clinical implications. In: FIS Medical Committee Educational Series. Oberhofen am Thunersee: FIS Medical Committee, 2001. Disponível em: http://www.fis-ski.com/data/document/children-competiton-damsgaard.pdf. Acesso em: 20 agosto de 2008. [ Links ]

DE BOSSCHER, V. et al. Explaining international sporting success: an international comparison of elite sport systems and policies in six countries. Sport Management Review, Bundoora, v. 12, n. 3, p. 113-136, ago. 2009. [ Links ]

FARROW, D.; BAKER, J.; MACMAHON, C. Developing sport expertise: researchers and coaches put theory into practice. Nova York: Routledge, 2007. [ Links ]

FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE GINÁSTICA (FIG). Age group development. Montier: FIG, 2003. [ Links ]

FEDERATION INTERNATIONALE DE GYMNASTIQUE (FIG). FIG Academy Level 3: talent identification. Montier: FIG, 2009. [ Links ]

FILIN, V. P.; VOLKOV, V. M. Seleção de talentos nos desportos. Organização e adaptação Antonio Carlos Gomes, Edson Marcos de Godoy e Pedro Lanaro Filho. Tradução Antonio Carlos Gomes e Edson Marcos de Godoy Palmares. Londrina: Mediograf, 1998. [ Links ]

HEDSTROM, R.; GOULD, D. Research in Youth Sports: critical issues status. Michigan: Michigan State University, 2004. [ Links ]

HOARE, D. G.; WARR, C. R. Talent identification and women's soccer: an Australian experience. Journal of Sports Sciences, Londres, v. 18, n. 9, p. 751-758, set. 2000. [ Links ]

HOHMANN, A.; SEIDEL, I. Scientific aspects of talent development. International Journal of Physical Education, Schorndorf , v. 40, n. 1, p. 9-20, 2003. [ Links ]

KAROLYI, B.; RICHARDSON, N. A. Feel no fear: the power, passion, and politics of a life in gymnastics. Nova York: Hyperion, 1994. [ Links ]

LANARO FILHO, P.; BÖHME, M.T. Detecção, seleção e promoção de talentos esportivos em ginástica rítmica desportiva: um estudo de revisão. Revista Paulista de Educação Física,São Paulo, v. 15, n. 2, p. 154-168, jul./dez. 2001. [ Links ]

LÉGLISE, M. Children and High-Level Sport. Olympic Review, Lausanne, v. 25, n. 7, p. 52-55, 1996. [ Links ]

LÉGLISE, M. Limits on young gymnasts' involvement in high-level sport. Technique, Indianápolis, v. 18, n. 4, p. 8-14, 1998. [ Links ]

MALINA, R. M. Talent Identification & Selection in Sport. Technique, Indianapolis, v. 19, n. 3, p. 16-19, mar. 1999. [ Links ]

MARTINDALE, R. J. J.; COLLINS, D.; DAUBNEY, J. Talent development: a guide for practice and research within sport. Quest, v. 57, p. 353-375, 2005. [ Links ]

MASSA, M. Desenvolvimento de judocas brasileiros talentosos. 198 f. Tese (doutorado em educação física), Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. [ Links ]

NUNOMURA, M.; TSUKAMOTO, M. H. C. A Idade e as Competições de Ginástica Artística. Motriz, Rio Claro, v. 9, n. 2, p. 57-60, maio/ago. 2003. [ Links ]

NUNOMURA, M.; CARRARA, P. D. S.; TSUKAMOTO, M. Ginástica artística e especialização precoce: cedo demais para especializar, tarde demais para ser campeão! Rev. Bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v. 24, n. 3, p.305-14, jul./set. 2010. [ Links ]

RICHARDS, J. Talent Identification in Elite Gymnastics: why body size is so important. 1999. Disponível em: <www.coachesinfo.com/index.php?option=com_content&view=articleid=187:gymnastics-isbs-talent&catid=62:gymnastics-isbs&Itemid=108>. Acesso em: 18 fevereiro de 2011. [ Links ]

ROWLEY, S. (1994) The British perspective: talent idetification and selection - the future for British governing bodies, BOA CAG Seminar, Londres apud WOLSTENCROFT, E. Talent identification and development: an academic review. Edinburgh: Sport Scotland, 2002. [ Links ]

RUSSELL, K. The Growing Child in Competitive Sport. Leeds: National Coaching Foundation, 1987. [ Links ]

RUSSELL, K. Gymnastics talent from detection to perfection. Sports Science Periodical on Research and Technology in Sport, Ottawa, v. 9, n. 1, p. 1-6, 1989. [ Links ]

RÜTTEN, A.; ZIEMAINZ, H.; RÖGER, U. A Quality Assured System of selecting and Promoting Athletic Talents. 2003. Disponível em: <http://www.bisp.de/nn_113306/SharedDocs/Downloads/Publikationen/Jahrbuch/Jb__2003__Artikel/Ruetten__etal,templateId=raw,property=publicationFile.pdf/Ruetten_etal.pdf>. Acesso em: 18 fevereiro de 2011. [ Links ]

SMOLEUSKIY, V.; GAVERDOUSKIY, I. Tratado General de la gimnasia artística deportiva. Barcelona: Paidotribo, 1996. [ Links ]

STARKES, J. The road to expertise: Is practice the only determinant? International Journal of Sport Psychology, Roma, v. 31, n. 4, p. 431-451, out/dez. 2000. [ Links ]

SERRÃO, J. C.; TRICOLI, V. Aspectos científicos do treinamento esportivo aplicados à ginástica artística. In: NUNOMURA, M.; NISTA-PICCOLO, V. L. (Org.) Compreendendo a ginástica artística. São Paulo: Phorte, 2005. [ Links ]

VAEYENS, R. et al. Talent Identification and Development Programmes in Sport: current models and future directions. Sports Medicine, Auckland, v. 38, n. 9, p. 703-714, set 2008. [ Links ]

VAEYENS, R. et al. Identification and promotion programmes of Olympic athletes. Journal of Sports Sciences, Londres, v. 27, n. 13, p. 1367-1380, 2009. [ Links ]

WOLSTENCROFT, E. Talent identification and development: an academic review. Edinburgh: Sport Scotland, 2002. [ Links ]

1 O presente estudo contou com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Received: October 09, 2011; Accepted: November 22, 2012

Endereço para correspondência: Myrian Nunomura Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto - USP Av. dos Bandeirantes, 3900 Ribeirão Preto - SP - BRASIL CEP: 14040-907

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.