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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

Print version ISSN 0101-3289On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.36 no.4 Porto Alegre Oct./Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11.011 

Artigos originais

Licere: uma revista brasileira de lazer

Licere: a leisure Brazilian journal

Licere: una revista brasileña de ocio

Helder Ferreira Isayama a  

Victor Andrade de Melo b   *  

aDepartamento de Educação Física, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil

bDepartamento de Didática, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

RESUMO

“Licere: Revista do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer/UFMG” é um periódico trimestral, lançado em 1998, dedicado a discutir a temática lazer em suas múltiplas dimensões, a partir de uma ótica multidisciplinar. Nesse artigo não pretendemos fazer uma apresentação dos “números” que marcam sua trajetória (acesso, artigos recebidos, artigos recusados etc.), mas sim entabular uma refl exão sobre seus caminhos, que têm relação com a própria conformação dos Estudos do Lazer no Brasil. O olhar que lançamos é fruto não só de nossa experiência como editores, mas também do que observamos como autores e pareceristas de outras revistas, notadamente daquelas relacionadas às Ciências do Esporte, com as quais Licere possui relações em função de coincidências históricas.

Palavras-Chave: Periódico; Estudos do lazer; Ciências do esporte; Ciência

ABSTRACT

“Licere: Journal of the Pós-Graduated Program in Leisure Studies/UFMG” is a quarterly journal, launched in 1998, dedicated to discussing the theme leisure in its multiple dimensions, from a multidisciplinary perspective. In this article we do not intend to make a presentation of the “numbers” that mark his career (access, articles received, rejected papers etc), but engage in a refl ection on the journal trajectory, who are related to the conformation of Leisure Studies in Brazil. The look that we have launched not only is the result of our experience as editors, but also what we observe as authors and reviewers of other journals, especially those related to Sports Science, with which relations have Licere due to historical coincidences.

Key words: Journal; Leisure studies; Sports science; Science

RESUMEN

“Licere: Revista del Programa de Posgrado en Estudios del Ocio/UFMG” es una revista trimestral, lanzada en 1998, dedicada a discutir el tema de ocio en sus múltiples dimensiones, desde una perspectiva multidisciplinar. En este artículo no pretendemos hacer una presentación de los “números” que marcan su carrera (acceso, artículos recibidos, artículos rechazados, etc.), pero hacer una refl exión sobre la trayectoria del periódico, que se relaciona con la conformación de los Estudios del Ocio en Brasil. La mirada lanzada no sólo es el fruto de nuestra experiencia como editores, sino también lo que observamos como autores y evaluadores de otras revistas, en especial las relacionadas con las Ciencias del Deporte, con la que tiene relaciones Licere debido a coincidencias históricas.

Palabras-clave: Periódico; Estudios del ocio; Ciencias del deporte; Ciencia

Introdução

“Licere: Revista do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer/UFMG” é um periódico trimestral “dedicado a discutir a temática Lazer, em suas múltiplas dimensões e a partir de uma ótica multidisciplinar”.1 Dois são seus objetivos principais: “a) registrar, difundir e compartilhar publicamente o conhecimento construído na área do Lazer; b) contribuir com o avanço qualitativo dos estudos e experiências desenvolvidas”.2

Trata-se de um periódico eletrônico,3 que recebe artigos em fluxo contínuo, avaliados no modelo “duplo cego”.4 Até dezembro de 2012, foram lançados 15 volumes e 34 números. O atual conselho editorial e corpo de pareceristas são compostos por reconhecidos pesquisadores, vinculados a 38 universidades diferentes, de cinco países distintos; os brasileiros estão ligados a instituições de 15 unidades da federação. Licere está indexada no Latindex e no Lilacs, bem como catalogada no Sibradid e no Sportdiscus.

No momento em que Licere completa 15 anos de existência, consideramos um presente e uma honra o convite para integrar esse dossiê da Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Mesmo não sendo um periódico exclusivamente dedicado à Educação Física, sentimo-nos confortável em integrar essa iniciativa por pelo menos dois motivos: a) são oriundos dessa área de conhecimento grande parte dos autores dos artigos publicados na revista; b) assim como os Estudos do Lazer, é multidisciplinar a área de Ciências do Esporte (ICSSPE, 2009), ainda que o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte se identifique como uma entidade científica eminentemente ligada à Educação Física.5

Na verdade, um olhar panorâmico para esses anos de existência de Licere nos permite perceber o quanto sua trajetória tem relação com o trato do seu tema central no âmbito das iniciativas relacionadas à Educação Física. Isso se explicita não só na vinculação institucional de muitos dos protagonistas dos Estudos do Lazer no Brasil, como também na presença do assunto em coleções, periódicos e eventos da área, entre os quais o Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, que possui um Grupo de Trabalho Temático específico.6

Tendo em conta que essas ocorrências constituem uma importante parte da história recente dos Estudos do Lazer no Brasil,7 a que corresponde à estruturação de um cenário acadêmico propriamente dito, não seria equivocado dizer, portanto, que, em certa medida, emerge da Educação Física a gestação desse campo relativamente autônomo, que, envolvendo pesquisadores de várias disciplinas distintas, hodiernamente possui seus congressos próprios,8 um programa de pós-graduação exclusivamente dedicado ao tema9 e, entre outras iniciativas, um periódico científico específico, nosso assunto nesse artigo: a Licere.

Como cremos que a motivação desse dossiê é a necessidade de avaliar a trajetória e importância dos periódicos científicos no âmbito da Educação Física, e considerando a já discutida relação da Licere com a área de Ciências do Esporte, nesse artigo não pretendemos fazer uma apresentação dos “números” que marcam seu percurso (acesso, artigos recebidos, artigos recusados etc.), mas sim entabular uma reflexão sobre seus caminhos, que para nós têm relação com a própria conformação dos Estudos do Lazer no Brasil. Estamos considerando que a revista é, simultaneamente, um indicador e um agente desse processo de consolidação (e se há propriedade nessa afirmação, podemos sugerir, desde já, que a publicação tem conseguido alcançar seus objetivos).

Mais ainda, em função de nossa situação “imbricada” (entre a área de Educação Física, cujos parâmetros de avaliação são muito marcados pelas ciências biomédicas, e área de Humanas, no âmbito do campo multidisciplinar ao qual se vincula a revista), pretendemos explicitar o quanto os caminhos (e descaminhos) adotados por alguns periódicos ligados às Ciências do Esporte nos influenciaram (inclusive quando decidimos o que não fazer). Isso é na condição de editores muito nos serviu como parâmetros de atuação as experiências que observamos e vivenciamos como autores e pareceristas de outras revistas.

Iniciemos com uma breve apresentação da trajetória de nosso periódico.

Trajetória

Licere foi lançada em 1998, uma iniciativa do Centro de Estudos de Lazer e Recreação da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo como editores os coordenadores daquele grupo de pesquisa: Christianne Luce Gomes e Hélder Isayama. Na verdade, a trajetória do periódico tem forte relação com as ações dos colegas que se dedicavam ao tema naquela instituição mineira, entre as quais podemos destacar: a criação de um curso de especialização (que funcionou por mais de uma década, responsável por formar uma geração de novos pesquisadores), a organização de um evento científico (o Seminário “O Lazer em Debate”, que hoje ocupa um importante espaço no campo10), o gerenciamento de uma série de projetos (junto ao Sesi, Sesc e órgãos governamentais), o lançamento de muitos livros e a constante publicação dos resultados das investigações realizadas. Tratava-se de iniciativas de estruturação dos Estudos do Lazer, que tem como uma importante marca a criação do já citado Programa de Pós-Graduação, ao qual, nos dias de hoje, Licere se vincula.

Considerando esse processo, o lançamento de um periódico pode parecer uma decisão óbvia. Todavia, não se tratava, naquele momento, de uma iniciativa simples. Para além das dificuldades operacionais e custos, havia uma preocupação central, até mesmo porque poderia ser responsável por inviabilizar a ideia. Teríamos produção suficiente para manter a revista?

Devemos lembrar que o quadro era distinto do atual. Mesmo que já fosse perceptível o aumento da produção no âmbito das Ciências do Esporte e estivessem em curso importantes iniciativas relacionadas à conformação dos Estudos do Lazer, vislumbrava-se que ainda não era seguro contar com um fluxo de artigos de qualidade aceitável para garantir com periodicidade a publicação de uma revista que se pretendia científica e ambicionava contribuir com a consolidação das investigações sobre o tema.

Já havia, é verdade, um campo internacional consolidado, que se refletia, inclusive, na existência de vários periódicos, até mesmo em outros países da América do Sul.11 Entretanto, naqueles tempos em que a internet dava os primeiros passos e ainda eram limitados os contatos acadêmicos, isso não era grande alento para pensar no futuro da Licere.

Assim sendo, optou-se por fazer um primeiro número com convidados, uma expressão do que os editores consideravam assuntos candentes no cenário nacional (inclusive a discussão do conceito de lazer), e por adotar a periodicidade anual. Era um primeiro passo, um modesto passo, o suficiente para lançar o novo periódico brasileiro ligado aos Estudos do Lazer.12

Foi apenas em 2003 que se adotou a periodicidade semestral. Algumas ocorrências foram responsáveis por tal decisão: a) a consolidação do tema no âmbito das Ciências do Esporte; b) a melhor conformação dos Estudos do Lazer, inclusive com a diversificação de grupos nacionais; c) o aumento da presença do assunto em iniciativas de outras áreas de conhecimento; d) um maior contato com pesquisadores de outros países; e) a qualificação dos envolvidos com a produção do periódico, não somente os editores, como também os pareceristas; f) uma maior segurança desses no tocante ao processo de preparação da revista; g) a aprovação de um financiamento, para os anos de 2003 e 2004, por edital específico da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG. Já havia, portanto, simultaneamente, maior demanda de autores que desejavam veicular seus artigos, maior qualidade dessa produção, pareceristas mais capacitados para avaliar e editores mais experientes.

Licere seguiu dando passos curtos e seguros, tendo como estímulos a percepção de que, de fato, circulavam os artigos nela publicados, bem como uma crescente submissão de contribuições, inclusive por pesquisadores que assumiam o protagonismo acadêmico. Esse quadro motivou os editores a promoverem uma nova mudança, dessa vez mais profunda do ponto de vista do projeto editorial.

Buscou-se aperfeiçoar os mecanismos de avaliação, ampliar o número de envolvidos com o periódico (tornando mais representativo o corpo de pareceristas), reestruturar suas seções, atrair autores de outros países e de áreas de conhecimento distintas. Intentava-se aprimorar suas contribuições e referendar seu papel de liderança no âmbito dos Estudos do Lazer.

Do ponto de vista formal, duas modificações marcam essa nova fase: a) a partir do número 1 do volume 9, as capas passaram a explicitar os compromissos e as vinculações que a revista pretendia para os Estudos do Lazer; b) a partir do volume 10, ela passou a ser eletrônica e quadrimestral.13 Nesse momento, também se deu início ao processo de indexação do periódico.

Em 2009, motivados pelas críticas e sugestões dos avaliadores de Lilacs e pelo seguido aumento de volume de artigos recebidos para a avaliação, decidiu-se por editá-la trimestralmente (março, junho, setembro e dezembro). A princípio, havia antigos receios. Seria possível receber artigos de qualidade para tantos números por ano? Conseguiríamos operacionalizar a publicação? Lançar quatro edições anuais significava aumentar o esforço de todos envolvidos, inclusive de pareceristas e de equipes de revisão e produção.

Rápidos e favoráveis foram os desdobramentos: no sistema Qualis/Capes, Licere foi melhor avaliada em várias áreas de conhecimento; jamais tivemos problemas de periodicidade; os artigos nela publicados continuam bem circulando; importantes lideranças do campo seguem para o periódico enviando suas contribuições; os jovens pesquisadores o têm em conta em suas estratégias de publicação

Nos últimos quatro anos é dessa forma que Licere tem sido publicada. Vale destacar que nesse percurso nunca se perdeu de vista os intuitos estabelecidos desde sua criação: a) preencher uma lacuna na área, uma vez que não existiam, em nosso País, publicações periódicas dedicadas exclusivamente ao assunto; b) contribuir para o avanço das discussões ao dar visibilidade à crescente produção acadêmica (seja eminentemente teórica, fruto de discussões conceituais e pesquisas realizadas; ou resultado de reflexões entabuladas a partir de experiências de intervenção), reflexo do aumento do número de teses de doutorado, dissertações de mestrado, monografias de especialização e graduação, assim como da ação de grupos de pesquisas organizados.14

Os editores procuraram sempre dialogar com o que a cada momento se apresentava no cenário acadêmico, sem, contudo, abrir mão de certos princípios (alguns dos quais foram mesmo reafirmados no decorrer do tempo). Mesmo os desafios que se apresentaram, e seguem se apresentando, à manutenção da revista não foram utilizados como justificativas para abalar nossa compreensão sobre o que deve ser um periódico científico, ainda mais um periódico científico no quadro brasileiro, ainda mais um periódico científico brasileiro dedicado aos Estudos do Lazer.

Abordemos esse assunto.

Princípios

Os periódicos científicos brasileiros, quase em sua totalidade (se não na totalidade), são, em maior ou menor grau, publicações artesanais. Quando afirmamos isso, estamos nos referindo ao grau de “profissionalização” do processo editorial. Ao contrário de muitas iniciativas internacionais, no Brasil, como responsáveis pela manutenção das revistas, normalmente não temos uma editora que disponibiliza técnicos para organizar cada número. Nesses casos, tendo em vista a necessidade de remunerar os envolvidos e garantir a manutenção da empresa, o que significa também auferir lucros, o acesso a tais periódicos é pago, seja por meio de assinaturas ou da venda de edições eletrônicas (no caso de nosso país, o governo federal compra alguns desses títulos e disponibiliza na base Portal Periódicos/Capes).

No Brasil, até existem algumas iniciativas de publicação de periódicos com o suporte de editoras, mas essas são responsáveis por apenas uma parte do processo, a etapa final de editoração, recebendo o volume já pronto dos editores, que comumente não são remunerados por essa atividade, assim como ocorre com os pareceristas. Quando há grupos editoriais envolvidos, são remunerados por meio de assinaturas, anúncios, taxas de filiação a entidades científicas ou apoio de órgãos governamentais.

Mesmo esses poucos casos observáveis no cenário nacional têm se reduzido em função da utilização dos recursos da internet. Essas ferramentas tornaram mais ágil o processo de editoração e facilitaram o acesso dos interessados (algo potencializado pelo aperfeiçoamento dos mecanismos de busca). A disponibilização, pelo IBICT, do Serviço Eletrônico de Editoração Eletrônica (SEER) facilitou a manutenção de revistas eletrônicas, que, ademais, acabaram referendadas pela Capes e pelo CNPq, que não só reconhecem a legitimidade dessa forma de publicação, como também estimulam a sua adoção em suas linhas de fomento.

Aperfeiçoou-se o processo de editoração e reduziu-se a dependência financeira dos editores, mas não se eliminou o caráter artesanal das iniciativas. Aliás, devemos lembrar que se ampliou o número de periódicos científicos eletrônicos. Até mesmo em função disso, tornaram-se necessários mecanismos mais complexos de avaliação. Esses interferiram na dinâmica de publicação, inclusive na manutenção de certas revistas.

Tenhamos em conta que os critérios dos editais de fomento acabam por privilegiar os periódicos já consolidados. Pouco incentivo há para a qualificação de revistas que ainda não atingiram um maior grau de desenvolvimento. Se considerarmos que, em geral, os melhores artigos são enviados para as publicações com classificação “superior”, veremos os desafios que cercam a atuação de alguns editores, a tentativa de sobreviver com pouco ou nenhum recurso e com a boa vontade de alguns parceiros.

De toda forma, nesse processo, para todos envolvidos com a organização de revistas ampliaram-se as tarefas. A despeito disso, embora suas funções sejam extenuantes e de grande responsabilidade, editores raramente são remunerados, nem mesmo de forma indireta (p. ex., com a contagem dessas horas de trabalho em sua jornada semanal). Por vezes sequer recebem o devido reconhecimento, tanto de suas instituições quanto das agências de fomento. Pareceristas também são voluntários, e contribuir com os periódicos acaba sendo mais uma entre muitas tarefas acadêmicas. No caso da Licere, devemos ainda ter em conta que estamos lidando com um campo em crescimento, em que ainda é pequeno o número de doutores que podem contribuir com a avaliação das submissões.

Alguns periódicos conseguem manter, ao menos, um revisor e/ou alguém responsável por adequar os artigos às normas bibliográficas, mas a maioria não. Se há o desejo de adotar um design mais bonito e funcional, não é incomum que para tal se conte com alguém que “quebra um galho” e/ ou cobra mais barato o serviço.

Observe-se que não estamos condenando a priori o aumento do número de revistas (uma ocorrência que merece ser analisada com cuidado, sem incorrer em posições maniqueístas), nem dizendo que é bom ou ruim esse aspecto artesanal dos periódicos nacionais. Apenas sugerimos que esses são elementos que não devem ser negligenciados, tanto pelos editores quanto pelas agências governamentais em seus processos de incentivo e avaliação.

Um dos aspectos em que se manifesta de forma mais problemática e explícita esse perfil artesanal é na tensão que, não poucas vezes, se estabelece entre editores, autores e pareceristas. Os primeiros recebem, no caso de revistas consolidadas, um grande número de artigos. A nosso ver, não deveriam ser meros distribuidores das submissões para os pareceristas. Editores devem editar e não somente ser organizadores. Trata-se, desde o início, de uma série de decisões delicadas. O artigo está relacionado ao escopo do periódico? Tem uma qualidade mínima para ser enviado para avaliação, sem o que se corre o risco de desperdiçar precioso tempo de um colega (devemos lembrar que, em função das crescentes pressões acadêmicas, é cada vez mais comum o encaminhamento de artigos sem o devido amadurecimento)? Quais são os avaliadores adequados tendo em vista seu perfil e o volume de tarefas para os quais foram já demandados?

No caso dos editores de periódicos que estão em processo de consolidação ou que não foram bem avaliados no Qualis/Capes, essas questões relacionam-se ainda a outro problema: recebendo normalmente baixo volume de submissões, deve-se desperdiçar uma contribuição, sob o risco de não ter o suficiente para fechar uma edição?

Os autores, pressionados concreta e/ou simbolicamente pelos parâmetros de avaliação, esperam ansiosamente as avaliações de suas contribuições. Nem sempre observam todos os procedimentos de submissão, que são, efetivamente, bastante minuciosos, inclusive no que toca à normatização. Essa não observância acaba por, aliás, aumentar o trabalho da equipe de produção.

Os editores dependem dos pareceristas para dar sequência à tarefa de preparação dos números e dar resposta aos autores, que exigem, em maior ou menor grau, com mais ou menos razão, uma resposta à sua submissão, até mesmo porque, enquanto aguardam, têm seu artigo obliterado de circulação em outros periódicos. Se ele não for aprovado, ter-se-á perdido um grande tempo.

Os pareceristas, voluntários e normalmente sobrecarregados de trabalho, devem conseguir um tempo para realizar sua tarefa. A maior parte dos colegas tem enorme boa vontade, e graças a eles as revistas seguem existindo e podem de fato contribuir com o avanço do conhecimento. Alguns são mais rigorosos, outros menos. Alguns se estendem mais nas suas considerações, outros nem tanto. Alguns demoram mais para devolver seus posicionamentos, outros respondem mais prontamente. Dependendo do quadro, os editores têm que os cobrar, situação sempre delicada. Haja o que houver não nos parece aceitável que simplesmente se envie os pareceres, para os autores, sem ao menos uma avaliação do trabalho executado.

No nosso entender, cabe ao editor fazer uma mediação (e isso significa adotar uma postura ativa) entre autores e pareceristas (preservando obviamente o duplo cego). Deve haver espaço para o contraditório, para que se conteste o ponto de vista dos avaliadores. O editor deve arbitrar esse processo, decidindo até mesmo se é necessário solicitar outro(s) parecer(es) para melhor esclarecer a avaliação de um determinado artigo.

Essa postura é para nós um princípio: deve-se abrir sempre o diálogo, certos de que, frente à complexidade e aos limites desse processo de avaliação, algo acentuado pela falta de completa profissionalização, pode haver falhas de todos os lados. Não se pode considerar qualquer dos envolvidos como se um detalhe fosse: uma revista de qualidade não existe sem bons pareceristas, mas também não sem bons autores, e muitos desses, inclusive, são jovens talentosos em início de carreira que merecem atenção.

É, aliás, com preocupação que vemos o oposto disso em muitas revistas. Editores que são verdadeiros “Pilatos”, lavando suas mãos frente a pareceres de qualidade duvidosa. Mais ainda, editores que aboletados numa boa avaliação Qualis usam seus periódicos como instâncias baratas de poder e não como iniciativas efetivamente acadêmicas, que possam possibilitar o debate e o aperfeiçoamento das investigações.

É possível que na trajetória da Licere tenhamos por vezes falhado nesse princípio de diálogo e respeito com os autores e pareceristas (afinal, nós também temos milhares de tarefas acadêmicas para dar conta), mas sempre reafirmamos esse nosso intuito e sempre o utilizamos como um marco para nossa atuação.

Aliás, a preocupação central que sempre tivemos ao editar a Licere, como já expomos ao falar da trajetória do periódico, foi contribuir para a conformação dos Estudos do Lazer no Brasil, e isso sempre exigiu, a cada momento, uma avaliação do campo. Uma questão sempre nos cercou: uma revista científica deve pautar ou deve ser uma expressão do estágio de desenvolvimento do conhecimento?

Achar que um periódico, na maior parte das vezes conduzido basicamente pelos editores, pode sozinho dizer para onde vai o conhecimento é no mínimo uma pretensão atroz. Corre-se o risco de se desconsiderar as fraturas, a heterogeneidade, o ritmo específico das iniciativas e ações entabuladas pelos agentes que compõe de forma dinâmica o campo. Ninguém desenvolve algo por decreto; trata-se de um longo processo desigual e tenso de amadurecimento.

De outro lado, o periódico pode procurar apontar alguns limites a serem vencidos e as necessidades de aprofundamento. Isso pode ser feito de várias maneiras. Por exemplo, com a eleição de temáticas para dossiê, uma indicação de assuntos urgentes a serem abordados. Outra possibilidade relaciona-se aos critérios de qualidade para avaliação dos artigos. De nada vale estabelecer condições muito exigentes para um campo que está dando os primeiros passos: frustram-se os autores em potencial, afastam-se possíveis futuras lideranças e investigadores. De outro lado, há um ponto ideal que deve motivar os pesquisadores a melhorarem sua produção: uma revista científica não pode ser um mar seguro para a mesmice e a mediocridade.

O equilíbrio entre as duas posturas foi algo que sempre buscamos em nossa trajetória. Isso ficará claro para quem fizer uma análise detida dos volumes de Licere. A cada momento foram sendo modificados o perfil de produção e o grau de exigência para publicação, pari passu com o próprio aperfeiçoamento das iniciativas do campo.

Essa postura balizou até mesmo nossa relação com os indexadores e com os parâmetros de avaliação do sistema Qualis/Capes. Sempre consideramos que tais mecanismos são importantes para o aperfeiçoamento dos periódicos científicos. Todavia, é com grande preocupação que acompanhamos a forma como esse procedimento tem sido entabulado, de maneira que, não poucas vezes, deixa-se de considerar a heterogeneidade das diversas áreas de conhecimento, internamente e entre elas.

Em vários momentos estivemos atentos aos critérios estabelecidos por agências de fomento, bem como às sugestões exaradas pelos indexadores que avaliaram a Licere. Todavia: a) percebemos que alguns analisaram a revista sem ter em conta a especificidade do campo de Estudos do Lazer no Brasil, considerando o periódico de forma absoluta, não considerando sua peculiaridade, potencialidade e os seus compromissos de diálogo e de consolidação da área de investigação; b) observamos que algumas indicações não nos pareciam cabíveis e não deveriam ser seguidas, sob o risco de trairmos o nosso projeto original.

Por vezes preferimos sacrificar a tentativa de alguma avaliação “superior” ou ser aceitos em algum indexador quando consideramos que isso não era adequado para a proposta que construímos e temos tentado implementar. Para nós, essa postura expressava até mesmo um compromisso com os pesquisadores que vêm escolhendo a Licere para veicular sua produção.

Indicadores explícitos dessas escolhas são a língua do periódico e o diálogo com o cenário internacional. Não temos dúvida de que o inglês é o idioma mais utilizado no campo acadêmico mundial, bem como que estabelecer contato com colegas de outros países é uma necessidade. Mas sacrificar um projeto de soberania em nome de certos ditames internacionais parece-nos uma postura acrítica, que não combina com o que se espera de intelectuais comprometidos com a nação.

Além disso, cremos na necessidade de contestar a “naturalização” do uso do inglês. Estamos de acordo com Renato Ortiz (2004), quando critica a excessiva valorização dessa língua e sua adoção como um padrão em disciplinas científicas, lembrando que o impacto disso é ainda maior nas Ciências Humanas e Sociais. De acordo com o autor:

“‘O inglês, em sua presença quantitativa, se insinua pouco a pouco como uma hegemonia qualitativa’ (p. 17). Assim, por sua abrangência, esse idioma adquire a capacidade de ‘pautar’ o debate em escala global. Em jornalismo, ‘pautar’ significa selecionar, entre tantos, alguns problemas existentes, tornando-os relevantes e visíveis. Esse tipo de procedimento favorece a existência de um conjunto hegemônico de representações mundializadas, que passam a ser aceitas como válidas, naturalizando procedimentos metodológicos e diversas problemáticas (p. 18).”

Sua posição é clara:

“No limite, se pensarmos em termos do contexto, deveríamos dizer que o ideal seria o conhecimento de todas as línguas nas quais as ciências sociais se exprimem, para se obter, não uma universalização do espírito, mas uma biblioteca de idiomas a serviço de uma maior riqueza do pensamento. Embora isso seja irrealizável, é importante tê-lo em mente, pois o cosmopolitismo das idéias somente pode existir quando levamos em consideração a diversidade dos contextos e os ‘sotaques’ das tradições sociológicas. Entretanto, o que se observa é um movimento na direção contrária a qualquer tipo de diversidade das interpretações.” (p. 18)

Por fim, Ortiz observa:

“Temos, assim, não apenas uma hierarquia entre os idiomas, marcando a desigualdade existente entre eles, mas um elemento sutil de segregação intelectual que se instaura. A homologia postulada entre local-global/ particular-universal fecha o círculo, rebaixando as outras interpretações à posição subalterna de localismo. Convenientemente se esquece de que o cosmopolitismo não é um atributo necessário da globalidade e que o particularismo do pensamento se enuncia tanto em dialeto como em linguagem global, pois na condição da modernidade-mundo é plausível, e corriqueiro, ser globalmente provinciano.” (p. 19)

Já há autores que, ao contestarem a centralidade da língua inglesa, chamam a atenção para a necessidade de criar novos circuitos de relacionamento acadêmico. Capel (2004), por exemplo, conclama pelo estabelecimento de ações dos países ibero-americanos para valorizar a produção nas línguas-mães. Gorelik (2004) sugere maior número de iniciativas entre pesquisadores da América Latina. Melo e Fortes (2010), falando do campo da História do Esporte, reforçam a ideia de que seria interessante fortalecer os laços entre os investigadores da América do Sul e a comunidade acadêmica de países lusófonos, algo que também chamou a atenção de Melo (2011).

Na Licere, de duas formas atuamos tendo em conta essa reflexões. Passamos a aceitar artigos em quatro idiomas: português, espanhol, inglês e francês. Da mesma forma, procuramos estimular pesquisadores internacionais, notadamente de países ibero-americanos, a enviarem suas contribuições para nosso periódico. Mas isso jamais significou reduzir o espaço de publicação dos brasileiros, nem tampouco eliminar a língua portuguesa das opções dos autores.

Brazilian Journal é, para nós, coisa de gente colonizada, de gente que se envergonha do idioma nacional, que se satisfaz e mesmo se apraz em substituir a língua nativa em nome de exigências que, mascaradas de científicas, mal conseguem esconder os projetos políticos que têm por trás.

Conclusão

De acordo com o artigo de Lazzarotti Filho et al. (2012), que procederam uma interessante análise de oito revistas nacionais, na Licere: quase metade dos artigos é de autor individual, ao contrário de uma tendência geral oposta; a maior parte dos autores dialoga com a produção nacional, na contramão de uma valorização do debate com a literatura internacional; as contribuições usam como referências prioritariamente livros e capítulos de livro, quando existe uma tendência de valorizar a consulta a outros periódicos; a totalidade dos artigos era ligada às Ciências Humanas e Sociais.

Como se pode ver, Licere é claramente uma revista brasileira, que tem em conta o público nacional e as necessidades de consolidação do campo dos Estudos do Lazer no Brasil, tarefa com a qual tem claramente se envolvido desde os seus primeiros momentos. Isso não significou desconsiderar a necessidade de diálogo internacional, mas sim não perder de vista os seus objetivos primordiais.

Na classificação Qualis/Capes, nas áreas de Educação Física e Interdisciplinar, os campos principais de diálogo do periódico, Licere está no estrato B2. Ainda que discordemos de uma série de pontos, parece-nos uma boa avaliação, ainda mais tendo em conta os princípios que nesse artigo procuramos apresentar, a decisão de não macular nossos intuitos em nome de melhor colocação ou de inserção em indexadores.

No início de 2011, fomos convidados pela Pró-reitora de Pesquisa da UFMG para participar de um projeto de incentivo aos periódicos da instituição. As ações vão desde a qualificação dos responsáveis pela publicação, por meio da participação em eventos da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), passam pela realização de debates sobre a valorização do trabalho de editoria na carga horária dos docentes envolvidos, chegam à concessão de apoio financeiro para a criação de um sistema on line único (SEER), dentre outros aspectos. Essa oportunidade tem nos ajudado a melhor dimensionar o nosso futuro.

Na verdade, os desafios que se apresentam para o futuro da Licere são os mesmos que sempre estiveram presentes em sua trajetória: aperfeiçoar seu processo de editoração (minimizando ao máximo os problemas do caráter artesanal com uma clara disposição de diálogo e respeito aos autores, pareceristas e equipe de produção), para, captando o melhor possível o estágio de desenvolvimento dos Estudos do Lazer, dar contribuições para a sua consolidação, a partir da veiculação de resultados das investigações do tema, advindas dos pesquisadores dos mais diferentes perfis e áreas de formação, provocados para que incrementem seus esforços.

Nosso compromisso é com a nação e com a ciência nacional, aquela que, mesmo dialogando com parâmetros internacionais, reafirma as condições, peculiaridades e necessidades do país; não aquela colonizada que se rende sem grande crítica ao que está colocado no mainstream do campo acadêmico mundial.

Licere é, orgulhosamente, uma revista brasileira dedicada aos Estudos do Lazer.

1Política de publicação. Disponível em: <http://www.anima.eefd.ufrj.br/licere/docs/politica.html>. Acesso em: 2 abr. 2013.

2Política de publicação. Disponível em: <http://www.anima.eefd.ufrj.br/licere/docs/politica.html>. Acesso em: 2 abr. 2013.

3Disponível em: <www.eeffto.ufmg.br/licere>. Acesso em: 2 abr. 2013.

4Normas de publicação. Disponível em: <http://www.anima.eefd.ufrj.br/licere/docs/normas.html>. Acesso em: 2 abr. 2013.

5CBCE — Estatuto. Disponível em: <http://www.cbce.org.br/br/cbce/estatuto.asp>. Acesso em: 2 abr. 2013

6GTT Lazer e sociedade. Para mais informações, ver: <http://www.cbce.org.br/br/gtt/recreacao-e-lazer/>. Acesso em: 2 abr. 2013.

7Para uma discussão sobre a trajetória dos Estudos do Lazer no Brasil, ver artigo de Gomes e Melo (2003).

8Vale citar o Seminário Lazer em Debate e o Encontro Nacional de Recreação e Lazer.

9O Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer/UFMG. Para mais informações, ver >https://www.ufmg.br/mestradoemlazer/<. Acesso em: 2 abr. 2013.

10Em 2013, foi realizada a 14ª edição do evento. Somente em cinco ocasiões o Seminário não foi organizado pela UFMG (pela UFRJ, em duas edições, USP, IFES-RN e Unicamp).

11Devemos lembrar, por exemplo, de Cuadernos de Ocio, dirigida pelo colombiano Victor Molina. Já existiam também a Leisure Studies, o Journal of Leisure Research e a Loisir e Societé, entre outras.

12Licere não foi o primeiro periódico nacional ligado ao tema. Devemos lembrar, por exemplo, de Leituras CELAZER, publicado mensalmente pelo Sesc/SP, entre janeiro de 1980 e fevereiro de 1981 (14 números), dirigido por Luis Octávio Camargo (Bickel, 2013). Além disso, o tema já era abordado em algumas revistas da área de Educação Física, como na Revista Brasileira de Ciências do Esporte, tendo sido o assunto central de uma edição (volume 12, número 1).

13A partir de então, passou a contar com a preciosa colaboração de Mônica Carvalho, responsável pelo projeto on line da revista, incluindo o design, e por inserir as informações de todos os números na internet.

14Política de publicação. Disponível em: >http://www.anima.eefd.ufrj.br/licere/docs/politica.html<. Acesso em: 2 abr. 2013.

Referências

Bickel, M. C. P. O Serviço Social do Comércio e a produção de conhecimentos sobre o lazer no Brasil (década de 1970). Dissertação (Mestrado em Lazer) — Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013. [ Links ]

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Received: June 22, 2013; Accepted: October 13, 2013

*Autor para correspondência. E-mail: cleberdiasufmg@gmail.com (V.A. Melo).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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