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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

Print version ISSN 0101-3289On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.37 no.1 Porto Alegre Jan./Mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2013.09.001 

Artigos originais

Relação entre a prática de atividade física no lazer dos pais e a dos filhos

Relationship between the practice of physical activity during leisure time of parents and their children

Relación entre la práctica de actividad física en el tiempo libre de padres y sushijos

Mathias Roberto Loch1  * 

Roberto Henrique Porpeta1 

Bruna Camargo Brunetto1 

1Departamento de Educação Física, Centro de Educação Física e Desportos, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina, PR, Brasil

RESUMO

O objetivo do estudo foi verificar a associação entre a prática de atividade física no lazer (AFL) dos pais e a dos filhos em uma amostra de adolescentes escolares. Participaram do estudo 630 sujeitos (224 adolescentes, 222 mães e 184 pais). Para a coleta das informações usou-se questionário. Verificou-se associação significativa entre a AFL dos pais e a AFL dos adolescentes. Ao estratificar por faixas etárias, observou-se associação significativa entre a AFL dos pais e a AFL dos adolescentes mais velhos. Conclui-se que a AFL dos pais associou- -se moderadamente à AFL dos filhos, especialmente na relação entre pai e filho. Estratégias de promoção da atividade física poderão ser mais bem-sucedidas se enfatizarem a abordagem familiar.

Palavras-Chave: Saúde da família; Relações familiares; Relações pai-filho; Saúde do adolescente

ABSTRACT

The purpose of this study was to examine the association between physical activity during leisure time (PALT) by parents and children in Londrina, PR. The study included 630 subjects (224 adolescents, 222 mothers and 184 fathers). A questionnaire was used. A significant association between the PALT of the father and the PALT of the adolescents was found. When the age groups were separated, a significant association between the PALT of the father and the PALT of the older adolescents was observed. The conclusion is that the PALT of parents had a moderately association to the PALT of their children, especially in the relationship between father and son. Strategies to promote physical activity should get a family approach.

Key words: Family health; Family relationships; Parent-child relationship; Adolescent health

RESUMEN

El objetivo del investigación fue verificar la asociación entre la práctica de actividad física en el tiempo libre (PAFTL) de padres y sus hijos adolescentes estudiantes. Fueraninvestigados 630 personas (224 adolescentes; 222 madres y 184 padres), que respondieranun cuestionario. Hubo una asociación significativa entre la PAFTL de los padres con de losadolescentes. Cuando estratificamos por edad, observamos asociación entre la PAFTL delos padres con la de sus hijos de mayor edad. Concluimos que en las personas investigadas,hube una relación moderada entre la PAFTL de los padres y de sus hijos, sobre todo en la relación entre padre e hijo. Las estrategias para promover la actividad física pueden tener máséxito si tuvieren un enfoque familiar.

Palabras-clave: Salud de la familia; Relaciones familiares; Relación padres-hijo; Salud del adolescente

"Minha dor é perceber

Que apesar de termos

Feito tudo o que fizemos

Ainda somos os mesmos

E vivemos como nossos pais"

(Belchior)

"Você diz que seus pais não te entendem

Mas você não entende seus pais"

(Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá)

Introdução

A prática de atividade física habitual tem sido indicada por diferentes órgãos de saúde do Brasil e do mundo como um importante comportamento relacionado à saúde (World Health Organization, 2003; Ministério da Saúde, 2008; Ministério da Saúde, 2010). Além disso, a atividade física pode apresentar importante significado cultural, visto que alguns aspectos de nossa cultura se expressam por meio dos esportes, das lutas, dos exercícios físicos e da dança (Alves e Carvalho, 2010; Da Matta, 2006).

É importante considerar que a adoção ou não da prática de atividade física é influenciada por diversos fatores, inclusive de ordem social e cultural, entre os quais se encontram as experiências anteriores, o apoio social de parentes e amigos, a disponibilidade de espaços e instalações e o gosto pela prática, entre outros (Hallal et al., 2006; Nahas, 2013; Reichert et al., 2007).

A adolescência é um período considerado complexo e marcante no ciclo de vida da maioria das pessoas, particularmente pelas importantes transformações biológicas, psicológicas e sociais que acontecem nessa fase da vida. Cronologicamente, a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2003) considera a adolescência o período compreendido entre os 10 e os 19 anos. Mesmo havendo algumas divergências quanto à definição de adolescência, esse é um período fundamental para a aquisição de valores, atitudes e hábitos que de algum modo estarão presentes nas demais fases da vida (Ministério da Saúde, 2008; Horta e Sena, 2010).

Com esse entendimento, vários estudos têm procurado investigar aspectos dos comportamentos relacionados à saúde de adolescentes, entre eles o nível de atividade física habitual, os fatores associados a essa prática e as barreiras percebidas para a prática de atividade física, entre outros (Silva et al., 2008a; Gonçalves et al., 2007; Farias Júnior et al., 2012).

Não obstante, poucos são os estudos que investigaram a influência dos pais na prática de atividade física dos filhos. Além disso, alguns que o fizeram enfocaram uma categoria específica da atividade física, que é a prática esportiva, especialmente no contexto do treinamento e do desempenho esportivo (Simões et al., 1999; Seabra et al., 2004; Vilani e Samulski, 2002; Moraes et al., 2004).

Em relação a outros indicadores de saúde, algumas investigações procuraram avaliar a influência dos pais no comportamento dos filhos e observaram que hábitos considerados negativos para a saúde, como o uso de álcool e tabaco pelos pais, estão associados ao consumo dessas substâncias pelos filhos. Filhos que tinham pais fumantes ou pais que consumiam álcool apresentavam maior chance de ser fumantes e de já ter experimentado bebida alcoólica (Moreno et al., 2009; Malcon et al., 2003).

Dado esse contexto, o objetivo do estudo foi verificar a associação entre a prática de atividade física no lazer dos pais e a dos filhos em uma amostra de adolescentes escolares de uma região de baixo nível econômico em Londrina (PR).

Métodos

A população alvo deste estudo transversal foi constituída por 253 adolescentes escolares de ambos os gêneros e por seus respectivos pais. Os adolescentes tinham entre 12 e 18 anos e estavam matriculados entre a 7ª série do ensino fundamental e o 3° ano do ensino médio em uma escola estadual de Londrina (PR). A escola sede do estudo foi escolhida de maneira intencional e os dados sobre a quantidade de alunos foram fornecidos pela direção da escola. A escola fica na região norte de Londrina, considerada a de menor nível econômico do município.

Para a coleta dos dados dos adolescentes usou-se um questionário do tipo recordatório, aplicado em sala de aula de forma dirigida por um único pesquisador, o qual explicava cada uma das questões e esclarecia eventuais dúvidas no momento da coleta. A primeira parte do questionário continha informações sobre idade, sexo, feitura ou não de trabalho remunerado e prática de atividade física no lazer. Essa última questão (variável dependente no presente estudo) foi avaliada por meio de pergunta contida na versão longa do Questionário Internacional de Atividade Física (Ipaq), especificamente: "Nos últimos sete dias, você fez alguma atividade física por pelo menos dez minutos seguidos durante o seu tempo livre?" Foram considerados fisicamente ativos no lazer aqueles que responderam sim a essa questão. Vale mencionar que no presente trabalho foi adotado um entendimento operacional do lazer como o tempo livre de que os sujeitos dispunham, tempo esse em que o sujeito não está em atividades de trabalho ou em outras obrigações.

A reprodutibilidade do instrumento foi testada em uma turma de 7ª série (n=27), que era, teoricamente, a que apresentaria maior dificuldade de compreensão das perguntas do questionário. Sete dias após a data da primeira coleta, os sujeitos dessa série foram mais uma vez solicitados a responder as mesmas questões. Verificou-se alta consistência nas respostas entre as duas medidas nas variáveis usadas no presente estudo. Em relação à atividade física no lazer nos últimos sete dias, todos os estudantes referiram a mesma resposta em ambas as ocasiões.

Para os pais, também foi aplicado um questionário do tipo recordatório, enviado por meio dos adolescentes, com instruções prévias do pesquisador. O questionário da mãe continha informações sobre idade, escolaridade e quantidade de pessoas que moravam no domicílio. Para a avaliação da atividade física no lazer, foi feita a mesma pergunta do questionário do adolescente. O questionário do pai era semelhante ao da mãe, exceto a pergunta referente à quantidade de pessoas que moravam no domicílio.

Para a inclusão na amostra, foram adotados os seguintes critérios: a) estudantes que concordaram, juntamente com pelo menos um dos pais, em participar do estudo e; b) estudantes que devolveram o questionário dos pais respondidos por pelo menos um deles (pai ou mãe).

O início da coleta de dados ocorreu somente após o recebimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido enviado para os pais ou responsáveis. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos da Universidade Estadual de Londrina (parecer n° 143/08) e seguiu as normas da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Durante a apresentação do estudo foi usado o termo pai para o sujeito paterno e mãe para o sujeito materno.

Os dados foram tabulados no Programa Excel para Windows por um único digitador e conferidos posteriormente. A análise dos dados foi feita no programa SPSS para Windows versão 19.0. A estatística descritiva foi usada para a caracterização da amostra. Para se avaliar a associação entre a prática de atividade física no lazer dos adolescentes e a dos pais usou-se o teste do qui-quadrado e adotou-se p<0,05.

Resultados

A amostra final foi composta por 630 sujeitos, dos quais 224 eram adolescentes, com média de 14,6±1,43 anos. Entre os pais (n=406), 222 eram mães e 184 eram pais. As mães apresentaram média de 41,6±7,14 anos e os pais de 43,8±7,27 anos. A tabela 1 apresenta algumas características dos adolescentes que participaram da pesquisa. A maior parte dos adolescentes foi composta por moças (55,4%) e informou não ter trabalho remunerado (80,8%) e ter praticado atividade física de lazer na última semana (73,2%).

Tabela 1 Sexo, feitura de trabalho remunerado e de atividade física no lazer na última semana – Adolescentes 

Variável n %
Sexo
Masculino 100 44,6
Feminino 124 55,4
Trabalho remunerado
Sim 43 19,2
Não 181 80,8
Atividade física no lazer na última semana
Sim 164 73,2
Não 60 26,8

A tabela 2 apresenta algumas características das mães e a tabela 3 apresenta as mesmas características (exceto número de residentes na casa) dos pais. Quase metade das mães investigadas (48,6%) referiu não ter o ensino fundamental completo. A maioria informou morar em residência com até quatro pessoas (66,2%) e não ter praticado atividade física de lazer na última semana (67,6%).

Tabela 2 Escolaridade, número de pessoas na residência e prática de atividade física no lazer na última semana – Mães 

Variável n %
Escolaridade
Fundamental incompleto 108 48,6
Fundamental completo e médio incompleto 45 20,3
Médio completo e superior incompleto 53 23,9
Superior completo 16 7,2
Número de pessoas na residência
Até quatro pessoas 147 66,2
Cinco ou mais pessoas 75 33,8
Atividade física no lazer na última semana
Sim 72 32,4
Não 150 67,6

Tabela 3 Escolaridade e prática de atividade física no lazer na última semana – Pais 

Variável n %
Escolaridade
Fundamental incompleto 82 44,6
Fundamental completo e médio incompleto 48 26,1
Médio completo e superior incompleto 45 24,4
Superior completo 9 4,9
Atividade física no lazer na última semana
Sim 63 34,2
Não 121 65,8

Um elevado percentual de pais informou ter o ensino fundamental incompleto (44,6%) e a maioria relatou não ter praticado atividade física de lazer na última semana (65,8%).

A seguir, são apresentados os resultados das associações entre a prática de atividade física no lazer dos pais e a dos filhos. Para fins de análise dos dados, quando examinados de maneira combinada pai e mãe, foram considerados apenas dados dos adolescentes que tinham informação de ambos.

Na tabela 4, considerando todos os sujeitos, observou-se associação significativa entre a prática de atividade física no lazer do pai e a prática de atividade física no lazer do adolescente.

Tabela 4 Proporção de adolescentes ativos no lazer segundo características da prática de atividade física no lazer dos pais 

Variável Todos   Rapazes   Moças
  n % p   n % p   n % p
Pai ativo 51 81,0 0,04   27 87,1 0,15   24 75,0 0,19
Pai inativo 81 66,9     37 74,0     44 62,0  
Mãe ativa 57 79,2 0,18   25 78,1 0,95   32 80,0 0,09
Mãe inativa 106 70,7     52 77,6     54 65,1  
Pai e mãe ativos 23 79,3 0,12   13 81,3 0,63   10 76,9 0,18
Um dos pais ativo 48 78,7     21 84,0     27 75,0  
Pai e mãe inativos 60 65,2     29 74,4     31 58,5  

Ainda de maneira geral, não foi constatada associação significativa entre a prática de atividade física no lazer do adolescente e a prática de atividade física no lazer da mãe. Resultado semelhante foi observado quando a atividade física foi avaliada de maneira combinada: ambos os pais.

Ao estratificar a amostra por gênero, não foi observada associação significativa com a atividade física dos pais, nem entre os rapazes nem entre as moças. Entretanto, numericamente algumas diferenças merecem ser destacadas. Por exemplo, entre as moças que tinham mães ativas, 80% referiram praticar atividade física no lazer. Já entre aquelas com mães não ativas no lazer, a proporção de prática de atividade física foi de 65,1%.

Vale também mencionar a diferença numérica entre a proporção de adolescentes ativos no lazer quando tinham os dois pais ativos e os dois pais inativos. Considerando todos os adolescentes, 79,3% daqueles que tinham os dois pais ativos também eram ativos no seu tempo livre, enquanto que entre aqueles adolescentes com os dois pais inativos a prevalência de atividade física no lazer foi de 65,2%.

De maneira geral, a tabela 5 demonstra que não foi constatada associação significativa quando avaliada a prática de atividade física no lazer do pai, da mãe ou de ambos e a prática de atividade física no lazer dos adolescentes mais jovens. Entretanto, entre os adolescentes mais velhos (15 a 18 anos), aqueles com pai ativo no lazer apresentaram maior proporção de prática de atividade física no tempo livre.

Tabela 5 Proporção de adolescentes ativos no lazer segundo características da prática de atividade física no lazer dos pais, estratificado por faixas etárias 

Variável Mais jovens (12 a 14 anos)   Mais velhos (15 a 18 anos)
  n % p   N % p
Pai ativo 24 80,0 0,56   27 81,8 0,02
Pai inativo 44 74,6     37 59,7  
Mãe ativa 31 79,5 0,71   26 78,8 0,17
Mãe inativa 52 76,5     54 65,9  
Pai e mãe ativos 15 83,3 0,72   8 72,7 0,01
Um dos pais ativo 16 72,7     32 82,1  
Pai e mãe inativos 36 76,6     24 53,3  

Observou-se também associação significativa entre os adolescentes do grupo etário mais velho e seus pais quando avaliados de maneira combinada. Daqueles com pai e mãe ativos no lazer, 72,7% referiram praticar atividade física no tempo livre. Entre os adolescentes que tinham um dos pais classificado como ativo, 82,1% referiram atividade física no lazer, enquanto que entre aqueles em que o pai e a mãe referiram não praticar atividade física no seu tempo livre, somente 53,3% eram ativos.

Interessante ressaltar que embora não tenha sido observada associação significativa entre os adolescentes mais velhos que tinham mães ativas no lazer, 78,8% referiram atividade física no lazer. Já entre aqueles com mães inativas no lazer, a proporção de adolescentes mais velhos ativos no lazer foi cerca de 20% inferior (65,9%).

Discussão

Este trabalho teve por objetivo verificar a associação entre a prática de atividade física no lazer dos pais e a dos filhos, tema ainda pouco investigado na literatura brasileira. Considerando que a adoção de determinados comportamentos relacionados à saúde, entre os quais se encontra a prática regular de atividades físicas, depende de uma complexa interação de fatores, conhecer melhor alguns desses aspectos é fundamental, no sentido de se proporem ações que sejam mais efetivas para promover a prática de atividade física, até para se superar a lógica que atribui a cada indivíduo isoladamente a responsabilidade pelo seu comportamento. Além do mais, vale citar que uma das principais estratégias de promoção da saúde/prevenção de doenças do Brasil, que é a Estratégia de Saúde da Família, propõe justamente uma abordagem familiar.

De maneira geral, os resultados demonstraram associação significativa especialmente entre a prática de atividade física no lazer do pai e a prática de atividade física no lazer dos adolescentes. Quando a amostra de adolescentes foi estratificada por faixas etárias, acreditávamos que os adolescentes mais jovens teriam maior relação com a prática de atividade física do pai, justamente por serem teoricamente mais dependentes desses. No entanto, associação significativa apenas foi constatada entre os adolescentes com maior idade. Possivelmente a elevada proporção de adolescentes ativos no lazer entre os mais jovens influenciou essa não associação no caso da menor faixa etária, uma vez que foi pequeno o número de adolescentes entre 12 e 14 anos que referiu não praticar qualquer tipo de atividade física no lazer.

O mesmo ocorreu em relação à atividade física no lazer de ambos os pais de forma combinada, ou seja, quando pai e mãe responderam o questionário, verificou-se associação significativa somente na relação entre a atividade física no lazer de ambos os pais e a dos adolescentes mais velhos. É importante destacar que em todas as relações analisadas o percentual de adolescentes ativos no lazer foi numericamente superior entre aqueles que tinham pais ativos no lazer.

Assim, o estudo parece demonstrar que apesar de serem múltiplos e complexos os fatores que influenciam a prática de atividade física no lazer, a prática desse comportamento por parte dos pais pode ser considerada um fator importante. Segundo Raudsepp (2006), a influência dos pais nos comportamentos dos filhos acontece de diferentes formas, pode assumir dimensões logísticas (por exemplo, levar os filhos até um local apropriado para a prática de atividades físicas), financeiras ou mesmo pessoais, por meio do estímulo ou ao ser identificado como um modelo de prática.

Estudo de base populacional, feito em Pelotas (RS) (Silva et al., 2008b), não encontrou associações evidentes entre a prática de atividade física de pais e filhos. Entretanto, na ocasião, o indicador usado foi diferente daquele adotado no presente trabalho. Enquanto o presente estudo considerou a prática de atividade física de lazer em pelo menos uma ocasião, na última semana (tanto para os adolescentes quanto para as mães e os pais), o estudo citado considerou como indicador para os adolescentes somente a prática de atividades orientadas por profissional e para os pais a prática suficiente de atividade física no lazer (considerando a prática de 150 minutos semanais como ponto de corte).

Já estudo de Fernandes et al. (2011) observou que o envolvimento dos pais foi associado a um maior engajamento por parte dos adolescentes em atividades esportivas. Havia importantes diferenças sobre como se dá o efeito em relação ao gênero dos pais e dos adolescentes, o que é consistente com os achados do presente estudo, apesar das diferenças metodológicas dos estudos, especialmente no que se refere à característica dos indicadores usados.

Recente revisão conclui que não há consenso quanto à influência dos pais na prática de atividade física dos filhos, apesar de a maior parte dos estudos identificar uma associação positiva (Seabra et al., 2008). Entretanto, outra revisão (Newman et al., 2008) aponta influência dos pais em diversos comportamentos relacionados à saúde (no caso: atividade física, consumo de álcool, tabaco e outras drogas, envolvimento em eventos violentos, comportamento sexual de risco e hábitos alimentares não saudáveis). Essa mesma revisão discute diferentes "modelos de pais" (mais ou menos autoritários) e destaca que a qualidade da relação entre pais e adolescentes tem impacto importante no desenvolvimento dos comportamentos relacionados à saúde pelos adolescentes. De maneira geral, a revisão demonstrou que filhos criados em uma lógica mais autoritária apresentam menor incidência de comportamentos de risco à saúde do que filhos criados de maneira mais liberal. Evidentemente, outros aspectos devem ser considerados na definição dos aspectos da educação dos filhos. Assim, os autores salientam a importância de se avaliarem de maneira cuidadosa as características e a qualidade das relações entre pais e filhos.

Considerando a delimitação do estudo, há de se ter cautela na generalização dos resultados. Por outro lado, vale ressaltar que a dificuldade de acesso aos pais pode dificultar a feitura de estudos com maior abrangência. Estudos futuros poderiam investigar amostras mais numerosas e filhos com outras faixas etárias e abranger outras realidades, por exemplo, estudantes de escolas particulares. Uma maior aproximação com métodos qualitativos, que permitiria uma melhor compreensão do fenômeno (influência dos pais na prática da atividade física dos filhos), também seria recomendável, até para se avançar no sentido de compreender como se dá essa influência a partir da qualidade da relação que é estabelecida. Por outro lado, Lago et al. (2010) mencionam que ainda existe necessidade de feitura de estudos de adaptação ou de construção de instrumentos nacionais para melhor se entender as relações entre pais e filhos, até em função do crescente número de configurações familiares.

Conclusão

Considerando os resultados do estudo, bem como suas limitações/delimitações, observou-se uma relação moderada entre a prática de atividade física no lazer de adolescentes e a dos pais investigados. Mesmo havendo algumas relações distintas, conforme o gênero e a faixa etária dos adolescentes, reforça-se a ideia de que adolescentes cujos pais são fisicamente ativos no lazer têm maior probabilidade de ser também ativos nesse contexto do que seus pares cujos pais não praticam atividade física no tempo livre.

Essa observação é coerente com a concepção da Estratégia Saúde da Família, que busca focar a família em vez do indivíduo. Nesse sentido, a recente criação do Núcleo de Apoio à Saúde da Família, que prevê até a possibilidade de inserção do profissional de educação física, pode ser importante para proporcionar estratégias que enfatizem uma abordagem familiar para a promoção da atividade física. Nesse sentido, sugere-se que as intervenções envolvam diferentes setores (por exemplo, por meio de parcerias entre escolas, unidades básicas de saúde, fundações municipais de esporte etc.).

Referências

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Recebido: 12 de Julho de 2012; Aceito: 06 de Setembro de 2013

Autor para correspondência. E-mail: mathias@uel.br (M.R. Loch).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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