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Revista Brasileira de Ciências do Esporte

Print version ISSN 0101-3289On-line version ISSN 2179-3255

Rev. Bras. Ciênc. Esporte vol.37 no.2 Porto Alegre Apr./June 2015

http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11.017 

Artigos originais

Georges Demeny e Fernando de Azevedo: uma ginástica científica e sem excessos (Brasil, França, 1900-1930)

Georges Demeny and Fernando de Azevedo: a scientific gymnastics and without excesses (Brazil, France, 1900's to 1930's)

Georges Demeny y Fernando de Azevedo: una gimnasia científica y sin excesos (Brasil, Francia, 1900-1930)

Edivaldo Góis Junior1  * 

1Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

RESUMO

Este trabalho teve como objetivo comparar textos produzidos no Brasil e na França sobre os métodos da ginástica. Para isso, foi feita uma pesquisa histórica limitada às décadas de 1900 a 1930. As fontes analisadas foram os textos de Georges Demeny e Fernando de Azevedo. Concluiu que nas produções textuais dos dois escritores existia a defesa de uma ginástica científica por meio de uma prática controlada e moderada. Contudo, o debate com outras tradições produziu uma cultura de ginástica eclética nos dois países.

Palavras-Chave: Ginástica; História; Brasil; França

ABSTRACT

This study objective was to compare texts produced in Brazil and France about the methods of gymnastics. For this, it performed a historical research limited in the 1900's to 1930's, where the sources were the writings of Georges Demeny and Fernando de Azevedo. It concluded that in the textual productions of the two writers existed the defense of the scientific gymnastics through a practice controlled and moderate. However the debate with other traditions has produced an eclectic gymnastics in both countries.

Key words: Gymnastics; History; Brazil; France

RESUMEN

El presente estudio tuvo como objetivo comparar los textos producidos en Brasil y Francia sobre los métodos de gimnasia. Para ello, se realizó una investigación histórica que se limita en el 1900 hasta 1930, donde las fuentes fueron los escritos de Georges Demeny y Fernando de Azevedo. Llegó a la conclusión de que las producciones textuales de los dos escritores abogó por una gimnasia científica por medio de una práctica controlada y moderada. Sin embargo, el debate con otras tradiciones ha creado una gimnasia ecléctica en ambos países.

Palabras-clave: Gimnasia; Historia; Brasil; Francia

Introdução

Durante o século XIX os exercícios ginásticos feitos pela mocidade francesa foram criticados pelos médicos. Eles eram praticados de uma forma irracional, que mais poderia debilitar o homem do que prepará-lo fisicamente. Segundo os médicos era necessário metodizar a ginástica, torná-la contemporânea das teorias da fisiologia, que refutavam o valor do desgaste físico e defendiam uma economia e um desenvolvimento da energia no treinamento. Com esse argumento, no fim do século XIX na França ganha importância uma representação de ginástica caracterizada pela racionalidade científica (Soares, 2001). São adeptos desse movimento Philippe Tissié, Fernand Lagrange, Georges Demeny, Etienne-Jules Marey e Angelo Mosso. Esses cientistas da fadiga condenaram o esgotamento e o descuido do ritmo do corpo, inerente às práticas corporais não sistematizadas.

Essas novas práticas corporais do século XIX tiveram uma lenta difusão na França, mas possibilitaram novas formas de pensar o exercício físico e o corpo. Cresce o interesse em movimentos calculados, produtores de resultados mensuráveis que aos poucos transformaram práticas na escola e no exército. A influência dessas representações francesas sobre a educação física brasileira pode ser pautada por textos de Fernando de Azevedo. Desse modo, este trabalho tem como objetivo comparar textos produzidos nos dois países que têm como tema os métodos da ginástica científica, sobretudo escritos por Georges Demeny e Fernando de Azevedo, para compreender o ensino da ginástica nos dois contextos.

Para isso, foi feita uma pesquisa documental que adotou um recorte historiográfico, por certo arbitrário, das décadas de 1900 a 1930. As fontes primárias analisadas foram os textos de Georges Demeny e Fernando de Azevedo, produzidos em contextos culturais diferenciados no início do século XX. Com isso, poderemos identificar proximidades, mas também distanciamentos, entre as visões de ginástica nos dois países. Em termos metodológicos, objetiva-se a construção de uma história comparada entre a ginástica do Brasil e da França. A opção pela ginástica francesa se justifica pela crescente influência no Brasil a partir do início do século XX.

A pertinência da história comparada no campo da historiografia do esporte e da educação física reside não em uma justaposição de contextos nacionais diferenciados, mas na busca sistemática por semelhanças e diferenças entre diferentes culturas. Assim, a comparação tem a interessante característica de possibilitar problematizações originais, transnacionais, que podem nos dar indícios sobre o que é comum e o que é específico (Melo, 2007).

Do contexto francês

No fim do século XIX, para o médico francês Fernand Lagrange (1846-1909) a higiene nos exercícios não residia em esforço extenuante, mas, ao contrário, era trabalho contínuo e calculado. No livro Physiologie des exercices dus corps, ele afirma: "A partir disto chegamos necessariamente à conclusão de que todos os exercícios não são também aconselháveis para tudo e para todos os sujeitos. Temos que fazer uma escolha entre diferentes formas de ginástica, a depender do resultado que queremos obter, e não há absolutamente algum exercício que é melhor do que todos os outros: o melhor exercício é aquele que produz os efeitos fisiológicos mais consistentes com o resultado desejado" (Lagrange, 1889, p. VII).

Para esse cientista a prática dos exercícios estava atrelada à especificidade de seus objetivos. Assim, não bastava simplesmente se movimentar, era preciso erigir a prática de forma racional, compreender suas especificidades por meio de um conhecimento próprio, cada vez mais próximo da ciência em voga no período.

Para Vigarello e Holt (2008), ao descreverem o contexto francês, a ginástica seria uma cultura regular do corpo. Nela todos os exercícios higiênicos definiam o que era racional e científico. Podemos, então, perceber que os objetivos higienistas criaram a possibilidade de organização de uma ginástica científica que se deu dentro de instituições militares, mas, de acordo com os ideais higienistas de alcance da saúde, com base no utilitarismo e em estudos fisiológicos, que consolidaram essa mentalidade como uma forte tradição da educação física. Para Vigarello e Holt (2008), os novos ginásios em Paris tinham como característica o interesse em movimentos calculados, produtores de resultados mensuráveis que se colocaram no campo cultural francês sem alarde, mas aos poucos transformaram práticas na escola e no exército.

A intervenção do governo francês nesse sentido foi mais incisiva ao financiar ginásios que se disseminaram nas escolas primárias a partir da década de 1850, na organização de uma Escola Normal Militar de Ginástica, no crescimento do serviço militar entre os jovens e em uma legislação que permitisse uma maior inserção da ginástica nas escolas, como o decreto de 3/2/1869, que tornou a ginástica oficializada em todos os níveis de ensino nas escolas francesas (Vigarello e Holt, 2008).

Já no início do século XX foi proposta a organização de um método francês de ginástica unificado para a aplicação em todas as escolas do país. Para essa tarefa foram convidados nomes importantes da ginástica francesa, como Fernand Langrage, Georges Demeny, Etienne-Jules Marey e Georges Hébert. A característica principal desse novo método era um ecletismo, que incorporou o método sueco (mecânico), a ginástica de Demeny (economia das energias), o método natural de Hébert e a introdução dos jogos escolares (Gleyse et al., 2002).

O chamado método francês de ginástica por influência de Georges Demeny (1850-1917) ganha critérios de cientificidade. Demeny foi um biólogo e pedagogo francês (Soares e Fraga, 2003) que era assíduo praticante de ginástica e se destacou nos estudos de análise dos movimentos por meio da invenção de uma câmera cronofotográfica (Baker, 2007). Além de ter fundado a Sociedade de Ginástica Racional, trabalhou na Station Physiologique e na Escola de Ginástica Joinville-Le-Pont (Melo, 2005).

Demeny colaborou na organização de um método que se baseava na economia de esforços. Assim, os exercícios eram prescritos a partir de orientações higiênicas para não estafar (fadiga mental) e fatigar o praticante, assim como controlar o tempo de duração da atividade, o horário, a temperatura climática ideal, o uniforme adequado e o local.

Gleyse e Soares (2012), ao estudar os manuais escolares e de higiene na França, descrevem que no fim do século XIX e início do século XX, especificamente nos anos de 1880 até os anos de 1940, o único exercício físico que os manuais consideravam bom era aquele feito com moderação e equilíbrio.

Demeny ocupou-se nos estudos sobre energia e eficiência dos movimentos. Preocupava-se com os malefícios da prática desmedida de atividades físicas sem sistematização. Importava naquele momento consolidar uma prática de ginástica sobre os auspícios das ciências físicas e biológicas e opô-la aos exercícios espontâneos. Para isso era preciso construir um discurso de alerta sobre os benefícios de uma ginástica racional e os perigos de uma atividade física não sistematizada. Em um guia para mestres de ginástica, intitulado Guide du Maitre: chargé de l'enseignement des exercices physiques dans les écoles, ele enfatiza: "Os exercícios ginásticos, assim como os esportes e jogos ao ar livres, podem deixar de ser benéficos para tornar-se um perigo se não forem cercados por precauções e se o mestre que ensina não é informado sobre as regras da higiene que devem ser observadas antes, durante e após a aula. Ele deve seguir algumas recomendações e conselhos práticos baseados na experiência, a fim de obter a máxima eficácia em tempo mínimo" (Demeny, 1904, p. 10).

Contudo, o discurso da ginástica racional não era isolado, ancorava-se em um saber médico e nos princípios da higiene. Relacionava-se com essa mentalidade o conceito de energia individual, expressado nas condições para a prática dos exercícios. Em suas palavras: "O efeito do exercício higiênico depende da quantidade de tempo de trabalho despendido, das condições sob as quais o trabalho é feito, ou seja, da dose do exercício e de sua violência. O efeito higiênico também depende do espírito, da alegria, da energia que o mestre pode comunicar aos seus alunos; o efeito da higiene é o mais importante para se alcançar e não tem nada a ver com a força absoluta ou com o tamanho do músculo, é o equilíbrio das funções que levará ao vigor e à resistência" (Demeny, 1904, p. 11).

Para Demeny, os objetivos higiênicos só seriam alcançados a partir dos princípios científicos. Ele defendia, assim, uma formação específica para mestres de ginástica. Com a criação desse novo mercado, os praticantes sem uma formação específica passam a ser criticados em seus métodos. Consequentemente, seria necessária a unificação de um método de ginástica, bem como a formação de mestres de ginástica dentro da norma. Consciente dessas necessidades, Demeny dedicou parte de sua vida ao ensino de fisiologia aplicada na Escola de Ginástica Joinville-Le-Pont e envolveu-se na sistematização do Método Francês de Ginástica (Melo, 2005). Mais ainda, era preciso ratificar a cientificidade da ginástica. No livro Les bases scientifiques de l'éducation physique, editado pela primeira vez em 1903, afirmava: "A educação intelectual ainda tem alguma base psicológica, mas a educação física pode ser praticada agora com bases nas leis físicas e biológicas. Essa evolução é fatal, a menos que seja condenada a permanecer indefinidamente nas mãos dos práticos" (Demeny, 1931, p. II).

A diferenciação entre uma ginástica científica e outra não sistematizada residia em uma classificação que separava a "boa educação física" das demais. A boa era caracterizada pela moderação, pelo equilíbrio, pela eficiência dos movimentos controlados e medidos. Demeny critica: "O sujeito não educado pode ser reconhecido pela imperícia e falta de segurança dos seus movimentos. Se caminha, corre ou salta, faz contrações inúteis; não consegue economizar a sua força e não sabe medi-la, assim o faz sem resistir à fadiga. Se entra no ginásio, se joga nos maiores halteres, se quer aumentar a força dos braços, luta desesperadamente, faz movimentos desodernados com caretas e contorções, desperdiça sua energia sem obter qualquer resultado útil. Mesma desordem na respiração e circulação: a falta de ar, palpitações, tonturas e incapacidade de continuar um trabalho sustentável" (Demeny, 1931, p. 8).

Além do praticante desavisado, de maneira mais sutil algumas práticas eram criticadas, como, por exemplo, os espetáculos e a competição desmedida e violenta. Não que Demeny fosse contra o esporte, como seu contemporâneo Georges Hébert (1875-1957), muito mais crítico (Hébert, 1925, 1941). Ao contrário, Demeny via na prática esportiva uma aliada na disseminação cultural dos exercícios físicos. No livro Evolution de l'éducation physique: l'ecole française, de 1909, Demeny propõe a construção de uma história da educação física francesa no século XIX e não silencia sobre a disseminação dos esportes naquele contexto. Em suas palavras: "As sociedades de esportes são criadas em seguida, próximas às sociedades de ginástica, e fizeram um grande serviço, dando destaque aos exercícios naturais e ao ar livre. Pascal Grousset havia publicado um livro sobre a vida universitária na Inglaterra e artigos no Le Temps, que foram muito notados. O barão Pierre de Coubertin publicou ao mesmo tempo o seu trabalho sobre educação física na Inglaterra e abriu aos jovens franceses novos horizontes e prazeres viris nos jogos escolares e nos esportes utilitários. Várias sociedades esportivas contribuíram para esse grande movimento regeneração" (Demeny, 1909, p. 37).

No mesmo texto, Demeny compara a tradição francesa de ginástica à sueca e evidencia o caráter eclético das práticas corporais francesas. Assim, a ginástica científica poderia preparar as crianças e os jovens para o serviço militar e também para as práticas esportivas. Em seus termos: "A escola francesa se distingue das outras escolas por sua tendência de se livrar dos preconceitos e das convenções. Sua superioridade reside na clareza de sua finalidade e na precisão de seus meios. Seu espírito é amplo e evolutivo; com constante preocupação em adaptar seus procedimentos à pesquisa do aperfeiçoamento da natureza humana em seu meio particular: a França, tendo em conta as necessidades sociais. A parte educacional, como o nome sugere, prepara o corpo diretamente para a prática de esportes e exercícios de serviços públicos. Ela fez toda a higiene alimentar, dieta, limpeza, formação. Ela também inclui a educação de nossos movimentos, como eles serão usados no aprendizado com o mestre, aprender melhor execução, ele tenta nos fazer flexível, inteligente e elegante no verdadeiro sentido da palavra. Ela percebe esse plano com os mais variados meios de aceitar tudo o que pode usar, que se reuniram para um ecletismo sábio e fundamentado" (Demeny, 1909, p. 226-227).

Mas é inegável a centralidade da ginástica como prática educativa e utilitária em suas proposições. Em seu Guide du Maitre, a ginástica ocupava papel central. Já as danças, as lutas e os jogos ao ar livre apareciam brevemente nesse manual (Demeny, 1904). Ainda no Les bases scientifiques de l'éducation physique, ressalta: "Todos os dias a oportunidade se apresenta para aproveitarmos os benefícios de uma boa educação física. Não é para competições atléticas ou espetáculos acrobáticos que precisamos exercê-la. A luta pela vida já é amarga o suficiente, nossas forças nos traem muitas vezes porque sentimos a necessidade de nos preparar para o esforço" (Demeny, 1931, p. 2).

Talvez as competições e os espetáculos não tivessem como característica o desejado equilíbrio, não favorecessem um desenvolvimento físico harmonioso, não possibilitassem a economia das energias individuais. Demeny descreve: "Uma boa educação física não deve forçar, não deve ir contra a natureza, deve sim procurar um equilíbrio saudável entre as funções do organismo. O papel da educação física é considerar toda uma economia, ou seja, do ponto de vista da harmonia geral das funções em relação a cada órgão ou sistema em particular" (Demeny, 1931, p. 26).

Esse debate chegou ao Brasil ainda no início do século XX, mas tem maior repercussão à medida que a área, na constituição de um novo mercado, se organizava em torno da escolarização da ginástica e da sistematização de aulas particulares em sociedades, associações e clubes. É importante destacarmos que desde o século XIX a ginástica se estabelecia no país a partir de uma influência europeia. Contudo, no início do século XX, sobretudo nos anos de 1920 e 1930, a educação física brasileira se estruturou em escolas de formação específica de origem civil e militar. Mostrar como essa mentalidade europeia se apresentava no Brasil, mediante apropriações, é nosso objetivo neste momento.

Apropriações brasileiras

A influência da tradição francesa de ginástica, bem como a influência cultural da França sobre grandes cidades brasileiras, era patente no contexto do fim do século XIX e início do século XX. Contudo, essas apropriações da ginástica francesa não ocorriam de forma mecânica, pois havia outras influências. No Brasil das quatro primeiras décadas do século XX, o debate em torno do melhor método de educação física ocupou boa parte dos textos sobre o assunto. Defensores da ginástica sueca, alemã, francesa e dos jogos e esportes anglo-americanos se dividiam sobre o caráter educativo de suas proposições.

Ao observar publicações de jornais do fim da década de 1920 e início da de 1930, podemos considerar o ecletismo das posições descritas em torno do conceito de gymnastica scientifica. Exemplos são significativos a esse respeito. O jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1931 publica artigo de Luiz Furtado Coelho, intitulado "A educação physica: ramo da educação integral": "Vê-se, pos que, por uma bem orientada gymnastica scientifica, se pode atingir os dois fins principais deste ramo de educação: o physico e o moral. O único methodo de gymnastica, por nós conhecido, que está orientado no sentido que vimos de indicar, é o de Ling, de ha muito adoptado na Suécia e ultimamente em todos os países mais avançados. Na maneira de executar quase todos os exercícios preconizados por este methodo, ha sempre que atender aos dois fins principais, o desenvolvimento da energia moral e o da energia physica, podendo, assim, desenvolverem-se essas duas estratégias simultaneamente. A primeira pelo desenvolvimento da atenção e da vontade e a segunda pela mecânica da execução" (Coelho, 1931, p. 1).

Se Coelho defendia uma ginástica sueca como a única científica, o mesmo não se pode observar em outros documentos. Para o jornal carioca O Paiz, em 1929, no artigo "A prol do Brasil futuro", o exemplo de ginástica científica era a França: "Demasiado já se dissera, já se escrevera em torno ao magno assumpto. Nada mais ignorávamos das ideais que a esse respeito preponderam no seio das outras nações, nem da sábia maneira por que em vários países, onde era imprescindível a iniciativa, a ação coordenadora e mesmo compressiva do Estado, se legislou sobre tal matéria. E, dado o contacto direto e ininterrupto que entre brasileiros e franceses mentalmente existe, conhecíamos bem a vasta obra que a França está realizando, com o intuito de generalizar systemas de gymnastica racional, de gymnastica scientifica" (A prol, 1929, p. 3).

Outro artigo do Diário de Notícias, de 1932, com o título "A educação physica ramo da educação integral", fazia referência direta a Philippe Tissié: "Até hoje, diz Tissié, só se considerou esta educação como função de certos e determinados exercícios physicos, que se dizem tendentes a desenvolver os músculos, os pulmões etc., sem se reparar que é principalmente o sistema nervoso, psicomotor, que funciona em absoluto, porquanto os músculos, os pulmões, o coração não são mais que escravos do 'senhor' que se chama 'cérebro'. A educação physica deve ser baseada nas leis naturais da biologia humana. Deve ser baseada rigorosa e 'precisa', em virtude, principalmente, da sua influência sobre o sistema nervoso e o cérebro. O seu método deve, por conseguinte, ser essencialmente científico para evitar perigosos e nefastos resultados" (A educação, 1932, p. 17).

Na década de 1930, na cidade do Rio de Janeiro, além do espaço institucional das escolas, a ginástica ocupava o espaço de institutos e clubes esportivos, como o Instituto Feminino de Cultura Physica, que oferecera, segundo o jornal O Paiz, no artigo "Mens sana in corpore sano," de 1931, uma estrutura que concorria com os estabelecimentos europeus. Nele a referência de ginástica citada era a Alemanha: "O instituto feminino de cultura physica, instalado à Rua Uruguaiana n° 9, é uma dessas obras que merece toda a incentivação e todos os aplausos dos que compreendem a necessidade da gymnastica scientifica na educação do povo e no progresso da nação. As senhoras Accioly e Kretzschmar organizaram um estabelecimento, nos moldes dos reputados institutos alemães, aparelhado, portanto, para o bem estar da família carioca" (Mens, 1931, p. 5).

Ainda sobre a ginástica feminina, a influência da ginástica rítmica de Dalcroze também era citada e até enaltecida. O Paiz comemora a nomeação de uma professora de Curitiba para a cadeira de "gymnastica" da Escola Normal da capital do Paraná, no artigo "Pela victoria da eugenia". Em seus termos: "Ora, cremos de toda a evidência que entre os de execução menos complicada, mais fácil, figuram os systemas de gymnastica moderna, fundamentalmente scientifica, e cujo objetivo é promover o desenvolvimento equilibrado, racional, harmonioso, de todas as partes do organismo do homem. Compreende-se que a vitória integral e imediata desses ideais não seja fácil. Elas impor-se-hão, todavia, pouco a pouco, como estão a indicar os factos que de quando em quando a imprensa registra. Haja vista a recente nomeação para reger a cadeira de gymnastica, na Escola Normal de Coritiba, da senhora Oleuka Mikoszewska, sabidamente partidária do methodo de gymanstica rhythmica, do qual se assenhoreou na frequência do Instituto de Gymnastica Rhythmica de Genebra, dirigido pelo afamado professor Jacques Dalcroze' (Pela, 1928, p. 3).

A saída para o embate foi um ecletismo conciliador e defensor da racionalidade científica. Antes de tudo era primordial dar à educação física uma base científica que sempre era referendada pelas experiências europeias de diversos países, mesmo que com características opostas. Assim, a ginástica estabelecia-se no Brasil como uma prática racional, sistematizada, propícia para o disciplinamento da população, e amalgamava proposições diferenciadas.

Nesse contexto viveu Fernando de Azevedo (1894-1974), importante educador brasileiro, que tem seu nome ligado a muitas instituições educacionais, como o Gymnasio Mineiro, a Escola Normal da Capital Federal, a Universidade de São Paulo, em que ocupou cargo como docente e gestor, além de ter sido membro da Academia Brasileira de Letras. Enfim, Azevedo foi um educador de grande influência e defensor da educação física nas escolas. Chegou a concorrer à cadeira de Gymnastica do Gymnasio Mineiro com a tese Poesia do corpo ou gymnastica escolar, escrita em 1915.

Linhales (2009), ao analisar as relações entre esporte e escola no início do século XX, faz referência à obra desse educador e identifica no autor um posicionamento conciliatório entre a ginástica e o esporte. Mesmo crítico de uma adoção imediata e mecânica dos esportes nas escolas, ele parece influenciado pelo crescimento do fenômeno esportivo nas principais cidades brasileiras.

Ainda assim, Azevedo, inserido no debate da época, tinha algumas restrições ao esporte como principal prática de educação física. Em Da educação physica, o que ela é, o que tem sido, o que deveria ser, uma reedição revista e ampliada de Poesia do corpo ou gymnastica escolar (Azevedo, 1915), foi bastante influenciado pelas ideias francesas. Nos seus escritos, "o atletismo, no sentido de 'cultura da força pela força', nos parece tão condenável com a cultura exclusiva do aparelho muscular por meio de exercícios violentos que é um crime na ginástica educativa. 'A criança não é um pequeno homem', dizia Georges Demeny; se lhe exigem muito exercício, será sempre em prejuízo de seu crescimento e do seu desenvolvimento físico; a única ginástica que lhe convém, longe de ser atlética, não pode senão se constituir de jogos e exercícios corretivos" (Azevedo, 1920, 1960, p. 73).

A referência de Azevedo diretamente a Demeny revela uma tentativa de aproximação por parte desse educador das ideias francesas sobre educação física, o que levou Azevedo a criticar o método inglês, baseado exclusivamente em jogos e esportes, sem valorizar a ginástica. Azevedo enfatiza: "Assim, não nos pode servir de paradigma uma educação em que a prática intensiva de exercícios físicos seja simultânea com a aplicação de um programa pletórico, ou em que, por uma preparação exagerada de preparo atlético, como na educação inglesa, se relegue para segundo plano a organização de um ensino, não árido e formalista, mas orientado de maneira a formar o espírito do aluno, armá-lo para a vida e prepará-lo para a carreira que escolheu, por uma cultura mais sólida do que variada, mais técnica do que decorativa" (Azevedo, 1920, 1960, p. 27).

No periódico Educação Physica, Fernando Azevedo publicou dois artigos intitulados "Escola anglo-americana: predominância esportiva" e "Os esportes e sua justa situação num programa escolar" (Azevedo, 1938, 1939), em que procurou apontar os limites dos sports na educação de crianças. Sua preocupação primeira foi com a necessidade de organização de métodos de educação física conforme a idade do aluno. Na sua visão seria impreterível que os jogos infantis precedessem a ginástica científica, que por sua vez precederia a prática esportiva. O momento ideal para a prática esportiva seria a vida adulta, que pode ser iniciada na adolescência, segundo a opinião médica. Em contrapartida, a ginástica seria insubstituível.

Azevedo demonstrava preocupações com o uso desmedido da força, a especialização precoce e o caráter seletivo do esporte mal orientado. Percebe-se, de fato, a influência da cultura ginástica francesa no pensamento de Azevedo.

Ele, a exemplo de Demeny, estava preocupado com os limites, os cuidados higiênicos, o equilíbrio e moderação dos exercícios pelo controle atento dos métodos científicos. A educação física deveria controlar os dispêndios excessivos de energia para corpos ainda não robustos, objetivos esses que poderiam ser alcançados pela ginástica científica. Em seus termos: "É um erro palmar admitir-se que os jogos esportivos representam o mesmo papel que os movimentos gymnasticos no desenvolvimento physico do menino e do adolescente. Não exercendo senão certos músculos, e especialmente os dos membros, sendo irregulares, não podem favorecer, como os movimentos regulados, o desenvolvimento do tronco e a capacidade respiratória; além do que muitos d'elles, como os jogos da palma, o foot-ball, o cyclismo e outros, na opinião geral dos médicos, são mais próprios dos adolescentes e dos adultos do que dos meninos. A educação physica, pelos esportes, não pode substituir a gymnastica scientificamente administrada" (Azevedo, 1938, p. 10).

Essas passagens podem nos levar a pensar que Azevedo era contra os sports, mas isso seria uma interpretação apressada. Como aludimos, ele e alguns contemporâneos estavam preocupados com uma educação física exclusivamente esportiva, sem preocupação com adaptações pertinentes à idade do educando. No capítulo "Os esportes e sua justa situação num programa escolar", publicado no livro Da educação physica, o que ela é, o que tem sido, o que deveria ser, de 1920, ele demonstra, sim, desejo de conciliar a ginástica ao esporte em uma proposta educacional mais ampla. Em suas palavras: "A educação física integral é constituída pela ginástica, pelos jogos e exercícios esportivos. Por si só, nenhuma dessas modalidades pode reunir todas as condições exigidas num método completo de educação física" (Azevedo, 1920, 1960, p. 77).

Essa posição conciliatória era coerente com o debate brasileiro do início do século XX e também com a organização do método francês de ginástica que não se opunha ao esporte, mas defendia a ginástica como prática impreterível de preparação da criança. Esse panorama pode ter influenciado a escolha do método francês como o oficial nas escolas brasileiras na década de 1930, pois o argumento de relevância para sua adoção era o ecletismo. Em 1960, Fernando de Azevedo retomou a memória dessa polêmica no prefácio do livro Da educação física. Dizia ele que 40 anos depois tinha a consciência de que naquele cenário de 1920 alguns intelectuais estavam preocupados com o crescimento da prática esportiva entre os jovens. Em seus termos: "Em poucos anos o desenvolvimento que então adquiriram os esportes foi tal que educadores e escritores entraram a preocupar-se com suas possíveis consequências e seus aspectos negativos" (Azevedo, 1960, p. 12).

Os especialistas brasileiros mais influentes, como Américo Netto, Coelho Neto e o próprio Fernando de Azevedo, colocaram-se então em uma posição conciliadora entre esportes e ginástica. Em contraposição, destacou-se como opositor o médico Carlos Sussenkind de Mendonça, no livro O sport está deseducando a mocidade brasileira, de 1921 (Mendonça, 1921).

Considerações finais

Tanto no Brasil como na França, a mentalidade de sustentação da ginástica em conhecimentos científicos foi defendida por Fernando de Azevedo e Georges Demeny. Essas prerrogativas construíram uma mentalidade de defesa de uma ginástica moderada, sem excessos. As produções textuais dos dois escritores defendiam uma ginástica controlada e moderada. Contudo, o debate com outras tradições produziu uma cultura de ginástica eclética nos dois países.

Vislumbramos nos escritos de Azevedo referências diretas aos sistematizadores da ginástica, educadores e intelectuais franceses. Desse modo, a Europa e especificamente a França eram vistas como modelos de desenvolvimento cultural. Mas no Brasil outras influências se faziam presentes, colaboravam para uma tendência de debate e ecletismo em relação aos métodos ginásticos. Por outro lado, também na França a partir do século XX a ginástica era considerada eclética, o que colaborou ainda mais para a ideia de que o método francês seria o mais condizente com a cultura brasileira. Esse argumento foi usado para a adoção oficial pelas instituições brasileiras na década de 1930 do método francês nas escolas do Brasil.

Portanto, mediante defesas, ataques e diversas posições, a ginástica francesa ganhou espaço no cotidiano escolar. Espaço sempre dividido com os jogos ao ar livre e paulatinamente, no decorrer do século, com os esportes cada vez mais influentes nas práticas corporais brasileiras.

Financiamento

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Auxílio à Pesquisa, Projeto de Pesquisa Regular, Processo n° 2013/15043-7.

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Recebido: 1 de Agosto de 2014; Aceito: 28 de Novembro de 2014

* Autor para correspondência. E-mail: edivaldo@fef.unicamp.br

Conflitos de interesse

O autor declara não haver conflitos de interesse.

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