SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue81Muito além da especialização regressiva e da doença holandesa: oportunidades para o desenvolvimento brasileiroOrigens do bipartidarismo: uma tentativa de entender as eleições norte-americanas author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Novos estudos CEBRAP

Print version ISSN 0101-3300On-line version ISSN 1980-5403

Novos estud. - CEBRAP  no.81 São Paulo July 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002008000200006 

ARTIGOS

 

Estratégia partidária e preferência dos eleitores. As eleições municipais em São Paulo entre 1985 e 20041

 

 

Fernando LimongiI; Lara MesquitaII

IProfessor do Departamento de Ciência Política da USP e pesquisador do Cebrap
IIPesquisadora do Cebrap

 

 


RESUMO

O artigo reconstitui a história eleitoral da cidade de São Paulo discutindo as eleições para prefeito transcorridas entre 1985 e 2004. Os resultados são explicados com base em um modelo que considera a interação entre as estratégias dos partidos e a transformação das preferências dos eleitores. Partidos de direita e de esquerda foram os grandes vencedores, com vantagem para os primeiros. Contudo, eleitores de centro foram decisivos e sua inclinação, ora à direita, ora à esquerda, explica a alternância no poder entre o PDS-PP e o PT. A exceção fica para a última eleição, em que ocorre uma divisão mais nítida entre um bloco de centro-direita, comandado pelo PSDB, e um de esquerda, liderado pelo PT.

Palavras-chave: eleições municipais; São Paulo; estratégias partidárias; eleitores.


SUMMARY

The paper reconstitutes the electoral history of the mayoral election in São Paulo from 1985 to 2004. Outcomes are explained stressing the importance of two inter-related variables: party strategy and voter's preference. The main winners are the rightist (PDS-PP) and the leftist (PT) parties. However, the leanings of the voters located at the center of the distribution explain the final outcome and the alternation of victories between right and left from 1988 up to 2000. The 2004 election points toward a deeper and clearer division between two distinct blocks: the center-right led by PSDB and the left led by PT.

Keywords:mayoral election; São Paulo; party strategy; voter's preference.


 

 

INTRODUÇÃO

A proximidade das eleições municipais em São Paulo abriu a temporada das especulações. Estimuladas pela data legal das convenções partidárias, quando são definidas as candidaturas e as coligações para as eleições majoritárias e as proporcionais, possibilidades de toda sorte foram consideradas. Paradoxalmente, a estratégia dos partidos parece ter relegado a própria eleição municipal a um segundo plano, já que a eleição de 2010 parece ter ditado os principais movimentos.

Sejam quais forem os interesses em jogo, definidas as candidaturas dos principais partidos, metade ou mais do jogo eleitoral já está jogado. Eleitores só podem votar nas opções que lhe são ofertadas e estas, em geral, não são muitas. Além disso, devem calcular as chances de seus candidatos preferidos e as dos que rejeitam, o que os leva a convergir para as candidaturas viáveis. Assim, o conjunto de alternativas efetivamente disponíveis sofre nova restrição. Para uma boa parte dos eleitores, não há propriamente escolhas a fazer.

Quando a distribuição das preferências dos eleitores é conhecida ou passível de ser estimada com algum grau de certeza, como mostraremos ser o caso da cidade de São Paulo, encerradas as convenções partidárias, é possível prever quem será o novo prefeito ou prefeita com razoável grau de segurança.

Em que pese a alternância entre os partidos que controlaram a prefeitura de São Paulo, com transições seguidas entre a esquerda e a direita, o eleitorado paulistano tem apresentado considerável estabilidade em suas opções. As flutuações das preferências dos eleitores são pequenas e se dão dentro de parâmetros estreitos e conhecidos. Obviamente, estabilidade não é o mesmo que imobilismo. As mudanças, no entanto, são lentas e dependem da capacidade de os partidos mobilizarem o eleitorado.

Os resultados das eleições na cidade de São Paulo pós-redemocratização podem ser interpretados à luz de um modelo muito simples de disputa eleitoral cuja estrutura foi anunciada já nas eleições de 1985. Naquela ocasião, os três pólos clássicos do espectro ideológico - direita, centro e esquerda ó mostraram sua viabilidade eleitoral na cidade. Isto é, os três pólos contam com uma base de apoio que lhes permite pleitear com sucesso a cadeira de prefeito. No entanto, inexiste um bloco hegemônico. Assim, as vitórias passaram a ser ditadas por coalizões entre os eleitores de diferentes blocos.

Na ausência de coligações eleitorais entre os partidos de diferentes blocos, a coordenação ficou a cargo dos eleitores e tendeu, até 1996, a favorecer a direita. O cenário começou a se alterar em 2000, como conseqüência direta da crise do PDS-PP2, cuja débâcle se completa na eleição seguinte. O PSDB ocupa o espaço deixado à sua direita e vence pela primeira vez o pleito. Contudo, dado que o PT tem maior penetração entre as camadas menos escolarizadas e justamente o contrário se dá com o PSDB, paradoxalmente, na ausência da direita, a eleição apresenta uma maior polarização, expressa em uma marcação socioeconômica mais nítida do apoio aos principais contendores.

O argumento será desenvolvido acompanhando os pleitos. Inicialmente, analisaremos as duas primeiras eleições pós-redemocratização, as de 1985 e 1988, buscando estabelecer os parâmetros básicos da disputa eleitoral na cidade. Para esse período, baseamo-nos na relativamente extensa literatura existente, privilegiando as análises dos resultados em que a cidade é distinguida em áreas socialmente homogêneas. Para as eleições de 1992 em diante, contamos com dados próprios, tanto para os resultados eleitorais quanto sobre o grau de instrução dos eleitores. Os dados estão organizados da forma mais desagregada possível, a saber, por seção (isto é, urnas). Sabemos, portanto, o resultado em cada seção assim como a educação de cada um dos eleitores a votar naquela seção. Assim, para esse período é possível descrever em maior detalhe a evolução da competição partidário-eleitoral e a transformação das bases de apoio dos principais partidos.

Recorremos, basicamente, a dois métodos para expor o alcance dos nossos dados. Empregamos, por um lado, técnicas descritivas para precisar o apoio dos candidatos entre os diferentes grupos sociais, usando a educação média na urna como proxi para renda e demais variáveis sociais. Recorremos também ao método desenvolvido por Gary King e associados para inferir o comportamento individual de dados agregados. Usamos este método para saber como os eleitores de um candidato em uma dada eleição votam na eleição seguinte. Este não é o local adequado para explicar o método, basta notar que ele vai muito além de uma simples regressão ao usar as informações determinísticas contidas em cada uma das seções. Por exemplo, se um candidato teve 90% dos votos em t e 15% em t+1, a porcentagem máxima de eleitores que votaram no candidato nas duas oportunidades é de 15% e a mínima é de 5%. O método combina a informação de todas as seções e para todos os partidos para inferir a porcentagem de eleitores que votou no mesmo partido nas duas ocasiões3.

Analisamos os resultados eleitorais, as votações efetivamente obtidas pelos partidos. Interessa-nos o voto dado, a sua distribuição agregada. A exposição acentuará elementos descritivos que permitam caracterizar o apoio aos diferentes partidos ao longo do tempo. Em nenhum momento arriscamos qualquer explicação sobre os determinantes do voto, isto é, a razão por que os eleitores votam como votam. Enfatizamos a estabilidade e previsibilidade da distribuição das preferências partidárias expressas nas urnas.

 

DEFININDO OS JOGADORES: AS ELEIÇÕES DE 1985 E 1988

No Brasil, formar um partido e lançar candidatos é razoavelmente simples, ou pelo menos foi no período da redemocratização. Apresentar candidatos viáveis, isto é, com alguma chance real de competir pelo cargo majoritário, não é assim tão simples. Na primeira eleição na capital após a transição do poder a um civil, a eleição de 1985, doze candidatos disputaram a cadeira de prefeito. Para quase todos, cabe parodiar o refrão: "Onde está você, Rivailde Ovídio?"4. Poucos saberão do destino do candidato. Dele e de tantos outros candidatos de "partidos nanicos" que disputaram esta ou qualquer outra eleição municipal. Em geral, a competição, de fato, ficou restrita a poucos candidatos - sempre os lançados por um partido grande.

Em 1985, os três candidatos mais votados, Jânio Quadros pelo PTB, Fernando Henrique Cardoso pelo PMDB e Eduardo Suplicy pelo PT, foram responsáveis por 95,83% dos votos válidos. As proporções de votos obtidas por cada um deles - 37,5%, 34,2% e 19,7% ó, respectivamente, definem os parâmetros sobre os quais a política paulistana se moveria nas eleições seguintes5. Se estes candidatos, pela ordem, forem associados à direita, ao centro e à esquerda, veremos que a distribuição da força eleitoral entre estes grupos é relativamente equilibrada. A esquerda, está claro, era a mais fraca destas forças, mas este era seu segundo teste eleitoral em que lutava para atrair os eleitores mais pobres, justamente aqueles que até então haviam mostrado grande fidelidade ao PMDB6.

A eleição de um candidato representando as forças de direita e a derrota do até então imbatível PMDB surpreenderam a maioria, senão a totalidade, dos analistas. A lógica da disputa eleitoral reinante no período da abertura e da transição do regime autoritário foi subvertida. Desde pelo menos a eleição paradigmática de 1974, o eleitorado urbano, sobretudo o mais carente, havia dado provas repetidas de sua rejeição aos candidatos de direita. A direita venceu justamente onde sua vitória parecia mais improvável: no maior e mais moderno centro urbano do país.

Para entender estes resultados e seu significado, o primeiro passo é analisar as estratégias seguidas pelos maiores partidos. Quanto à direita, cabe notar que disputa a prefeitura unida em torno da candidatura do PTB, ao contrário do que ocorrera nas eleições para o governo estadual em 1982, quando se dividira, apresentando dois candidatos (Reynaldo de Barros pelo PDS e Jânio Quadros pelo PTB). Como argumentam Lamounier e Muszynski, a união da direita representou uma estratégia eleitoral consciente traçada por suas lideranças:

A diferença entre 1982 e 1985 foi que desta vez os conservadores uniram suas forças. Veja-se o caso do PDS. Cientes de que a força de seu partido seria insuficiente para a vitória - lembre-se que no pleito de 82 não conseguiram nem mesmo superar a votação janista na capital ó, os dirigentes pessedistas deram seu apoio a Jânio Quadros. A coligação recebeu ainda o aval do PFL, cuja contribuição em votos era uma incógnita, mas que contava com ministros de grande prestígio, como Olavo Setúbal. A eficácia dessa aliança não é surpreendente, se considerarmos que a candidatura de Jânio Quadros em 1982, apoiada por um PTB muito débil, somada à de Reynaldo de Barros, que representava naquele momento todo o desgaste do PDS, chegou à marca de 33% dos votos7.

A estratégia deu resultados garantindo que o "candidato único das direitas" arrebatasse para si o conjunto dos votos obtidos três anos antes. A continuidade é corroborada por Meneguello e Alves8, que analisam dados desagregados por unidades administrativas no interior de cada uma das oito áreas homogêneas da cidade. As correlações encontradas variam entre 0,97 e 0,68.

As análises de Lamounier e Musynski e de Meneguello e Alves mostram ainda que a votação dos candidatos de direita não estava confinada às áreas mais ricas da cidade. Na realidade, nem sequer estavam correlacionadas positivamente à renda da área homogênea. O fato é que em ambas as oportunidades, mesmo nas regiões homogêneas sete e oito, as mais pobres e carentes, a direita obtém votações expressivas, sempre na casa de um terço dos votos de cada área homogênea.

À luz destas informações, o desempenho posterior do PDS-PP capitaneado por Paulo Maluf deixa de ser tão extraordinário. Não pede, ao menos, referência a uma nova base de apoio9. Vista em perspectiva, a votação da direita nas eleições municipais de 1985 a 1996 chama atenção por sua relativa estabilidade. Em face da divisão da centro-esquerda, tomando a força eleitoral de cada grupo isoladamente, a direita passa a ser o pólo mais forte.

A presença de uma votação tão expressiva para a direita não é de fácil digestão em função da presunção de que as bases sociais do voto na direita estariam, com a modernização do país, condenadas ao desaparecimento. Como notou Bolívar Lamounier:

O contraste entre cidade e campo, ou até mais toscamente, entre capital e interior, adquiriu entre nós uma conotação inconfundível, traduzindo-se para o léxico político-eleitoral como autonomia versus submissão, oposição versus coronelismo10.

Dito de outra forma, a análise política brasileira não encontra lugar para o voto urbano de direita entre as camadas mais carentes. Urbanização redundaria em autonomia do eleitor, e o voto na direita entre os mais pobres só pode ser entendido como manifestação da sua sujeição e subordinação. A tese, cujas raízes na literatura sobre o período 1946-1964 são conhecidas e suficientemente exploradas11, teria sido referendada de forma cabal pelo crescimento do PMDB ao longo dos anos 70.

O fato é que, a despeito das previsões de definhamento, a direita mostra sua força em São Paulo. Já nas análises da eleição de 198212 se encontram referências à recuperação eleitoral do PDS-PP na capital. Na realidade, a curva descendente de apoio à direita é exagerada pelo pífio desempenho do PDS na eleição de 1978. Se esta eleição for tomada como atípica, veremos que o declínio do suporte à direita, mesmo entre os mais carentes, não é assim tão pronunciada. Assim, a tão esperada inviabilidade eleitoral da direita em um contexto urbano-industrial nunca chegou a se manifestar.

Não é nosso objetivo explicar o voto de direita13. Queremos apenas deixar estabelecidas a sua força e a sua consistência ao longo do período sob análise. Cabe frisar também um ponto adicional e pouco notado, o fato de este eleitorado na cidade (na verdade, no estado de São Paulo) ter se tornado cativo do PDS-PP. Não era necessário que assim fosse. Na realidade, 1985 foi a única eleição em que os "dirigentes pessedistas reconheceram sua fraqueza" e não apresentaram candidatura própria. Em todas as oportunidades disponíveis no futuro, o PDS-PP pôs-se em campo.

O fato de Paulo Maluf ter se lançado candidato em praticamente todas as eleições, a despeito das seguidas derrotas que colheu, tende a ser visto como uma manifestação de uma obstinação pessoal. No entanto, ser um eterno candidato pode ser interpretado como parte de uma estratégia consistente e de longo prazo para preservar seu controle sobre o eleitorado de direita14. Deste ponto de vista, a cartada decisiva para Paulo Maluf foi jogada em 1986, primeiro ao inviabilizar a candidatura de Olavo Setúbal pelo PFL e, depois, ao longo da campanha, ao atacar seguidamente o também empresário Antônio Ermírio de Moraes, candidato pelo PTB que até então liderava a disputa segundo as pesquisas de opinião15. Paulo Maluf matou as esperanças de uma direita renovada e mais organicamente vinculada ao mudo empresarial.

Fora 1985, o PDS-PP não aceitou qualquer apelo em favor de um acordo no interior da direita e, muito menos, com forças de outro campo. Paulo Maluf construiu a reputação de um candidato obstinado, aguerrido e radical. A estratégia surtiu efeito, garantindo para seu partido o controle sobre o eleitorado de direita.

Não foi outra a estratégia perseguida pelo PT para conquistar o voto até então controlado pelo PMDB. O partido apresentou candidatos em todas as oportunidades16. Tanto em 1982 como em 1985 deixou claro que recusaria qualquer apelo em favor do voto útil. O partido construiu sua reputação a duras penas. Em 1985, os votos que roubou do PMDB, sobretudo na periferia da cidade, foram fundamentais para que Jânio sobrepujasse Fernando Henrique Cardoso. A estratégia, assim como se verificou com o PDS-PP, foi recompensada no longo prazo. Na verdade, em um prazo não tão longo assim, já que na eleição seguinte, em 1988, o partido conquistou a prefeitura. Mas venceu, como os líderes do partido e a própria prefeita eleita reconheceram no dia seguinte à eleição17, com o apoio decisivo dos eleitores do PMDB e do PSDB. Como notam Pierucci e Lima:

É sabido que a surpreendente vitória de Luiza Erundina (PT) ocorreu graças a uma ponderável migração de votos de outros candidatos - principalmente José Serra (PSDB) e João Leiva (PMDB) - acompanhada da adesão daqueles que sempre se decidem no último momento: os mais pobres, menos escolarizados e do sexo feminino [...]. A virada petista se deu literalmente na boca da urna. Pesquisa realizada pelo DataFolha em 19 de novembro, quatro dias depois da eleição, mostra que 25% dos votos de Erundina vieram dos eleitores que se decidiram por ela no próprio dia 1518.

Analisando os resultados por cinco áreas homogêneas da cidade para duas pesquisas do DataFolha, a prévia do dia 12 e a de boca-de- urna do dia 15/11, Pierucci e Lima19 notam que Erundina não foi a única beneficiária do voto estratégico de última hora:

Mas esta virada pró-Erundina não aconteceu de modo igual pela cidade, nem foi somente o voto petista que se expandiu na última hora. O malufista também. [...] Maluf mantém nestes três dias um total geral inalterado na marca dos 26%, porém no interior de cada Área Homogênea o tamanho de seu eleitorado se altera sensivelmente. Na AH 1, a mais rica, ele salta de 26% para 36% (10 pontos a mais) e sobe de 22% para 27% na AH 2, que engloba os bairros do Centro Velho (mais 5 pontos). Permanece estável na AH 3, solo de predileção do voto direitista. E a partir daí, caminhando em direção aos bairros da periferia, começa a perder votos20.

A polarização ocorrida nos últimos momentos da eleição de 1988 esvazia o centro e fortalece as alternativas polares do espectro político. A decisão final coube aos eleitores que por meio da coordenação de seus votos, ou voto útil, para usar o vocabulário consagrado na eleição de 1985, decidiu a eleição em favor de Luiza Erundina.

A incapacidade do centro em se constituir em uma força viável na cidade, um pólo de atração para a convergência dos eleitores, é uma conseqüência direta do esboroamento do PMDB paulistano. A eleição de 1988 é a última em que o candidato do PMDB, no caso João Leiva, teve alguma chance de vitória, ainda que remota, ao ensaiar uma arrancada no início da campanha.

Para afastar interpretações equivocadas e apressadas, cabe ressaltar que as dificuldades do PMDB não decorreram da criação do PSDB. Por importantes que fossem os quadros que o formaram, nas primeiras eleições que disputa na cidade, o PSDB não colhe resultados, para colocar de forma gentil, dos mais auspiciosos. O partido lançou candidato próprio em todas as eleições municipais, todavia, até 2000, seus votos oscilaram entre 4,5% e 15,7%. O PSDB, portanto, não herdou ou mesmo conquistou parte do eleitorado urbano do PMDB21. Para adiantar um ponto a ser mais bem desenvolvido adiante: o PSDB penou para conquistar seu lugar ao sol na cidade e só o fez após a o desmoronamento do PDS-PP.

Nestes termos, a força relativa da direita e da esquerda deve ser entendida em conjunto com as dificuldades do centro em mostrar sua viabilidade eleitoral. A implosão do PMDB deixa um vácuo que o PSDB não ocupou. Por isto mesmo, a polarização entre esquerda e direita, que ganhou corpo em 1988, repetiu-se nas eleições seguintes. A diferença é que em 1992 e 1996 o pêndulo se inclinou à direita. Com a vitória do PDS-PP em 1992, o controle sobre a prefeitura voltou à direita. Se analisarmos apenas os resultados finais, isto é, se olharmos apenas para o partido vitorioso, poderíamos concluir que o eleitorado paulistano estaria oscilando entre os extremos. No entanto, a inferência não é correta, uma vez que uma pequena margem separa ganhadores de perdedores.

O PDS-PP bateu o PT em 1992 em toda a cidade. E o fez porque, entre uma eleição e a outra, o voto no partido cresceu. Contudo, este crescimento não deve ser exagerado. Em 1988, o voto em partidos de direita, isto é, a soma dos votos no PDS e no PL, chegou a 29,9% dos votos na cidade. Em 1990, no primeiro turno da eleição para o governo estadual, já sem concorrentes no interior da direita, Maluf atingira a casa dos 37,9% dos votos, a mesma votação que recebeu em 1992. Há um crescimento entre 1988 e 1992, mas nada de fantástico.

Boa parte deste crescimento pode ser creditada à capacidade de o PDS-PP atrair eleitores deixados sem opções em virtude da rápida decadência do PMDB. Antigos eleitores do partido, especialmente os situados no centro do espectro ideológico, não contaram com opções viáveis. A fragilidade das candidaturas de centro em 1992 foi patente. O candidato de um PMDB já muito enfraquecido não conseguiu decolar, apesar de ter crescido um pouco no início da campanha22, enquanto o PSDB, combalido pelas seguidas derrotas, deixou as suas lideranças de peso fora da disputa, apresentando um candidato desconhecido e sem maior apelo. De fato, as alternativas disponíveis se reduziram ao PDS-PP e ao PT.

A votação no PT caiu entre uma eleição e outra. Erundina foi eleita com 29,8% dos votos enquanto Suplicy passa ao segundo turno com 23,3% dos votos. Uma perda considerável e significativa, sobretudo quando se leva em conta, como notam Pierucci e Lima23 a partir da comparação dos resultados das duas eleições por área homogêneas, que estas foram maiores nos estratos mais pobres da população. De acordo com estes autores, a administração voltada para a periferia não teria trazido consigo o esperado "reconhecimento dos moradores dos bairros mais pobres e carentes"24. Ou seja, se a derrota do PT em 1992 pode ser creditada à deserção de seus eleitores de 1988, esta ocorreu mais fortemente nas camadas mais baixas, contrariando a tese de que a vitória do PDS-PP se deveu a uma reação das classes altas e médias ao PT.

Entre 1985 e 1992, definem-se os principais contendores. Nenhum "nanico" arranha o controle dos maiores partidos sobre o eleitorado. A disputa fica restrita a poucos partidos, praticamente a dois, PDS-PP e PT. E assim ficou até 2000. O PDS-PP comandado por Paulo Maluf vence o embate no interior da direita, inviabilizando a renovação pretendida por setores empresariais e se consolida como a maior força eleitoral da cidade. Em vista dos resultados anteriores, o sucesso da direita, a maior e mais consistente força eleitoral na cidade nos anos 1990, não deveria surpreender. Ainda que tenha crescido, a chave para suas vitórias foi dada por sua capacidade de reter seus eleitores. A coalizão de centro-esquerda se desfaz sem que se constitua uma alternativa capaz de se contrapor e derrotar a direita. O capital eleitoral do PMDB, após sua derrota em 1985, evapora-se da noite para o dia. O PT qualifica-se como o principal herdeiro da coalizão de centro-esquerda, mas o perfil do seu eleitorado oscila nas eleições seguintes. Seu contorno mais claramente popular e oposicionista se define ao longo dos anos 90.

 

AS ELEIÇÕES DE 1992 E 1996: A SUPREMACIA DA DIREITA

A dinâmica da campanha de 1992 é bem mais simples do que a verificada quatro anos antes. Das candidaturas lançadas, só as do PDS-PP e do PT contam com um patamar inicial de votos que as viabiliza, constituindo-se assim em pólos de convergência para a coordenação dos eleitores dos demais partidos. O PDS-PP, alavancado pelos eleitores tradicionais da direita, venceu a eleição para a prefeitura contando com o apoio crucial dos eleitores do centro.

Recorrendo a nossa própria base de dados, temos condições de caracterizar de forma mais precisa os contornos e as bases da competição eleitoral naquela oportunidade. O Gráfico 1 sumariza a relação entre voto e características sociais dos eleitores. Usando os dados do Cadastro Eleitoral, calculamos os anos médios de educação por seção e calculamos os resultados das eleições de acordo com esta variável25. Como se vê, a vitória do PDS-PP se deveu a um apoio disseminado e majoritário entre todos os grupos. Maluf venceu em toda a cidade26. A margem de vitória se amplia conforme as seções são compostas por eleitores mais educados, mas não foi o voto dos mais ricos ou educados que garantiu a vitória ao candidato do PDS-PP. Quanto ao PT, chama atenção o fato de o apoio a Suplicy não apresentar uma relação forte com a educação média da urna. O controle da prefeitura, corroborando as conclusões de Pierucci e Lima citadas acima, não trouxe os votos almejados pelo partido na periferia.

 

 

Cabe um alerta quanto à interpretação do Gráfico 1 e dos demais a serem apresentados. A distribuição dos eleitores de acordo com educação média da seção não é uniforme. Antes o contrário. Há uma forte concentração de seções com educação média entre seis e oito anos. Na realidade, 50% dos eleitores votam em seções cujo grau de instrução médio está entre 6,2 e 8,7 anos de educação. Por estes dados, fica patente que a educação média do eleitor paulistano é baixa. Se recorrermos aos dados individuais de educação, teremos que mais do que 40% dos eleitores informam não ter completado o primeiro grau, enquanto apenas 26% afirmam ter concluído o segundo grau.

Para melhor caracterizar o eleitor de Paulo Maluf em 1992, sobretudo para legitimar a interpretação de que venceu graças ao apoio de eleitores de direita e de centro, recorremos à técnica desenvolvida por Gary King e associados para estimar o voto dos eleitores do PDS-PP e do PT em 1992, na eleição presidencial de 1994. Em que candidato à presidência votou o eleitor do PDS-PP em 1992? Como se comportou o eleitor do PT? Votaram em Fernando Henrique ou em Lula? Nestas duas oportunidades, a esquerda é representada pelo PT, enquanto a centro-direita é representada por partidos distintos, PDS-PP na eleição para prefeito e PSDB na presidencial. Os resultados obtidos confirmam nossas expectativas no que se refere ao PDS-PP: 99% dos eleitores de Maluf votaram em Fernando Henrique Cardoso para presidente. Contudo, não deixa de trazer algumas surpresas no que se refere ao PT: dos eleitores de Suplicy, apenas 56,8% votaram em Lula, enquanto 35,1% optaram pela candidatura tucana27.

A eleição de 1996 transcorre no interior do mesmo quadro. As candidaturas viáveis são as mesmas de quatro anos antes: a do PDS-PP e a do PT. Uma vez mais, como pode ser visto no Gráfico 2, o PDS-PP vence em todas as faixas educacionais. A comparação entre os gráficos mostra que o partido ganhou votos em todos os grupos. A exceção, ainda que não muito expressiva para o resultado final em virtude do pequeno número de eleitores ali concentrados, fica para o topo da pirâmide social. Com isto, a relação positiva entre apoio e educação é levemente atenuada. Mas o ponto fundamental a reter é que o partido venceu e cresceu de forma uniforme em todos os grupos sociais.

 

 

Comparando os gráficos 1 e 2, é possível notar uma alteração significativa nos contornos do apoio ao PT. Este cresce nas seções com educação média mais baixa e cai nas mais elevadas. Assim, a relação entre voto no partido e educação se aproxima mais da esperada para um partido de trabalhadores. Não deixa de ser paradoxal que este avanço se dê não quando o partido exerceu o poder, mas sim quando na oposição. Ainda assim, não se deve perder de vista que, em função da adoção da urna eletrônica, ocorreu uma forte queda na proporção de votos brancos e nulos entre os dois pleitos. Nossas estimativas indicam que boa parte dos votos inválidos em 1992 se deu entre os analfabetos e os que declaravam apenas saber ler e escrever e que o PT recebeu a maioria destes votos em 199628. Em outras palavras, há indicações de que a maior penetração do PT entre os menos escolarizados se deu por meio da mobilização de novos eleitores.

Tanto o PDS-PP como o PT - mais este do que aquele ó perdem votos no topo da pirâmide social para o PSDB. Quanto a este partido, o Gráfico 2 deixa patente sua dependência do voto dos mais escolarizados. O partido manterá esta característica nos demais pleitos e é esta base sólida que lhe permitirá reivindicar com sucesso a herança do voto no PDS-PP quando este se desestrutura.

A análise da votação dos partidos em 1996 levando em conta o voto em 1992 não deixa de trazer algumas surpresas. O eleitor do PDS-PP manteve-se fiel ao partido: 66,10% dos eleitores de Pitta votaram em Maluf. O valor pode parecer baixo, mas não se deve esquecer que a votação do partido cresce. Assim, se esta proporção tiver como numerador os eleitores de 1992, veremos que a taxa de fidelidade entres estes é de 86,5%29. Chama ainda mais atenção o fato de esta taxa ser estável nas diferentes regiões da cidade e de acordo com a educação média da seção. O partido cresce, agregando novos votos sem perder os eleitores da eleição anterior. Rouba uma proporção considerável de eleitores do PT; algo como um quarto dos eleitores do PT em 1992 vota, em 1996, em Celso Pitta, o que não deixa de ser surpreendente, dados os estereótipos acerca do voto no partido. De fato, a contribuição dos petistas de 1992 sobre a votação de 1996, 40,40% de acordo com os dados reproduzidos na tabela 1, indica que o PT reteve uma proporção menor de eleitores do que o PDS-PP. Algo como 39,3% dos que votaram em Suplicy em 1992 votaram em Erundina em 1996. As estimativas para áreas específicas da cidade, no entanto, mostram variações significativas. A taxa de fidelidade do PT é maior nas áreas mais carentes, chegando aí a 56,1%. O partido perde eleitores tanto para o PSDB como para o PDS-PP, mas ganha eleitores, sobretudo nas áreas mais carentes da cidade, do PMDB, dos partidos menores e entre os votos inválidos. Fica claro que as bases do recrutamento do PT estão se alterando e que o partido está ganhando uma cara mais nitidamente popular.

Perante o sucesso das candidaturas do PSDB ao governo do estado e à presidência em 1994, quando os candidatos do partido são os mais votados na cidade de São Paulo, nas duas disputas, o mau desempenho do partido em 1996 pede uma discussão mais detalhada, oferecendo uma ótima oportunidade para esclarecer os parâmetros assumidos pela competição eleitoral no município. Fica claro que a fragilidade do centro a que nos referimos acima deve ser contextualizada e relacionada à estratégia dos demais jogadores. Em 1994, tanto Mário Covas quanto Fernando Henrique Cardoso não têm competidores de peso à direita. Paulo Maluf, acontecimento raríssimo, ficou de fora do pleito. Exercendo a prefeitura, nem sequer se empenhou em transferir sua força eleitoral aos candidatos que apóia. Ou seja, o sucesso do centro em 1994 esteve diretamente relacionado à ausência de competidores à direita. Na verdade, esta ausência é praticamente total no que se refere à presidência. Não será outra a razão do sucesso do partido nas eleições municipais de 2004.

Em 1996, o contexto da disputa foi radicalmente diverso. Ante a indecisão de José Serra em abandonar o ministério, o PSDB acabou por encontrar o espaço literalmente ocupado. A hesitação custou caro. Quando efetivamente entra na competição, o PSDB encontra as "tradicionais" candidaturas do PDS-PP e do PT consolidadas. Como mostra a pequena variação do apoio ao candidato do partido nas pesquisas de opinião, não havia mais espaço para a viabilização da sua candidatura.

A comparação entre o apoio recebido pelo PDS-PP em 1992 e 1996 e a candidatura presidencial do PSDB em 1994 e 1998 permite uma melhor caracterização das linhas do embate eleitoral na cidade. Nesses quatro episódios, eleitores de centro-direita se agruparam em torno de uma candidatura enquanto os de esquerda, representados pelo PT, ficam do lado oposto. Assim, se construirmos gráficos análogos aos gráficos 1 e 2 para as eleições presidenciais, veremos que as curvas para o PDS-PP e o PSDB, por um lado, e as para o PT, por outro, são paralelas quando não se sobrepõem30.

A evolução da disputa ao longo dos anos 1990 leva a uma demarcação cada vez mais clara entre uma coalizão de centro-direita e uma de esquerda. Inicialmente, o PT conta com o apoio de parte do centro, mas este, com o tempo, pende para a direita. A clivagem PSDB-PT na política nacional, com certeza, contribui para esta depuração da esquerda e maior identificação do PSDB com o PDS do ponto de vista de seu apoio eleitoral. O cruzamento dos votos entre os segundos turnos de 1992 e 1996 deixa patente esta evolução. O PDS-PP retém praticamente a totalidade de seus eleitores nestes dois pleitos (80,2% dos seus votos em 1996, para sermos precisos), sem deixar de ganhar uma parcela considerável de eleitores do PT (15,4% dos seus votos). Um quarto dos eleitores do PT no segundo turno de 1992 deixa de votar no partido na eleição seguinte, mas estas perdas são compensadas entre os votos inválidos31.

 

AS ELEIÇÕES DE 2000 E 2004: A REDEFINIÇÃO DA DISPUTA

O quadro se altera em 2000. O PDS-PP enfrenta uma grave crise por causa das denúncias de corrupção no interior da máquina administrativa. O resultado é a erosão do apoio ao partido que, do ponto de vista da eleição, redundou na abertura de um espaço para que outros partidos desafiassem sua hegemonia sobre o bloco de votos da centro-direita na cidade. A evidência mais patente desta fissura é dada pelo lançamento de uma candidatura própria do PFL, ausente das demais disputas, representado então pelo senador Romeu Tuma. No outro lado do espectro, ainda que pela primeira vez, com o lançamento da ex-prefeita Erundina pelo PSB, o PT tenha enfrentado alguma competição efetiva pelo domínio sobre o eleitorado de esquerda, este se mantém, basicamente, sob o controle do partido. Em resumo, o que estava em jogo é quem se habilitaria a enfrentar o PT no segundo turno, e três partidos disputam esta vaga: o próprio PDS-PP e os "desafiantes" PFL e PSDB. Que o PDS-PP tenha vencido esta disputa em condições tão adversas é a prova de sua força entre o eleitorado deste bloco.

As estimativas dos votos em 2000, dado o voto em 1996, são apresentadas na tabela 2 abaixo. Sabemos que o PDS-PP perdeu votos. Ainda assim, o que lhe restou de apoio deveu-se a eleitores fiéis. Os eleitores do partido em 1996 migram e favorecem fortemente o PFL, cuja votação, praticamente, se resume a ex-eleitores do PDS-PP e para o PSDB. Mas cabe notar: estes eleitores não cruzaram a linha que os separa da esquerda.

A votação no PT cresceu, recebendo novos eleitores de todos os grupos, exceção feita ao PDS-PP. Não deixa de ser considerável a contribuição relativa ao PT dos votos dados anteriormente a pequenos partidos, correspondendo a algo como um quarto do voto do partido em 2000. Note-se ainda que, de fato, o PSB conseguiu roubar eleitores do PT, na realidade, a sua única fonte de votos.

Por último, cabe frisar a composição do voto no PSDB. As estimativas apresentadas indicam que, ainda que tenha tido votação muito similar nos dois pleitos, o partido alterou sua base de apoio. Mais da metade de seus eleitores em 2000 são ex-eleitores do PDS-PP. Uma parcela de seus eleitores na eleição anterior vota no PT e outros tantos buscaram alternativas em outros partidos.

Sabemos que o PDS-PP, apesar das baixas sofridas, conseguiu resistir ao ataque, passando ao segundo turno. Contudo, a comparação entre o Gráfico 2 e o Gráfico 3 indica que cada um de seus "desafiantes" roubou eleitores em faixas diversas. Paradoxalmente, as baixas da disputa no interior da direita são maiores entre os eleitores menos educados, enquanto o PSDB continua a minar a força do PDS-PP entre os mais abastados.

 

 

Contudo, o maior beneficiário desta disputa renhida pelo passivo do PDS-PP é o PT, que, como mostra o mesmo Gráfico 3, registra um crescimento expressivo em todas as camadas. O desempenho do partido nas seções com educação média e alta situa-se bem acima do verificado nas eleições anteriores. Entre os eleitores com esta característica, o apoio ao PT em 2000 só é comparável ao que recebera no segundo turno de 1992. Com isto, da mesma forma como se dera em 1992 e 1996 com os candidatos do PDS-PP, a candidata do PT é a mais votada no primeiro turno em praticamente toda a cidade. A exceção fica por conta das seções em que se concentram os eleitores com maior educação, mais precisamente nas seções em que a educação média excede dez anos de estudos, seções que correspondem a apenas 10% dos eleitores, onde a vitória coube ao PSDB.

Quando estimamos o destino dos eleitores dos partidos derrotados no primeiro turno, encontramos os resultados esperados. Na esquerda, como seria de se esperar, os eleitores do PSB "voltaram" ao PT, enquanto, na direita, os eleitores do PFL "voltaram" para o PDS-PP. De interesse para a análise, na realidade, foi o comportamento dos eleitores do PSDB. De acordo com nossos resultados, 52,1% deles votaram no PT e 28,4% votaram no PDS-PP. Ou seja, as evidências apontam que o eleitor do centro, dessa feita, mostrou maior apoio à esquerda, sobretudo quando lembramos que, em 1996, 51,7% dos eleitores do primeiro turno no PSDB haviam vindo do PDS-PP. Nem todos os eleitores que trocaram o PDS-PP pelo PSDB em 2000 voltaram para o PDS-PP no segundo turno32.

Em 2004, ainda que o PDS-PP volte a apresentar sua candidatura, o processo de desarticulação das suas bases eleitorais já se encontrava em estágio avançado. A candidatura Paulo Maluf, em nenhum momento, teve qualquer chance real de decolar. Na realidade, dessa feita, não há no interior da centro-direita. Dentre os grandes partidos, apenas o PSDB lançou candidato. A disputa municipal reedita a disputa de 2002 no plano nacional e estadual. É interessante notar que, naquela oportunidade, o PT, na eleição presidencial, bateu o PSDB na cidade, enquanto as posições se inverteram na eleição para o governo estadual.

O crescimento do PSDB, como mostra a Tabela 3, se deveu a um recrutamento de eleitores de todos os partidos. Em primeiro lugar, o partido reteve integralmente seus eleitores do último pleito. Outra fonte importante de votos são os eleitores que haviam votado no PT em 2000, seguida de um contingente significativo de eleitores do PDS-PP. A análise conjunta destes dados com os do Gráfico 4, inserido abaixo, indica que a perda de votos do PT para o PSDB se deu entre os eleitores mais educados. A composição do voto petista em 2004 se resume fundamentalmente a duas origens: eleitores do PSB e do próprio PT. Com isto, acentua-se a penetração do partido entre as camadas menos educadas.

 

 

O Gráfico 4 mostra que a polarização PSDB-PT é evidente. O PSDB confirma sua maior presença entre os mais educados, enquanto o PT acentua sua entrada entre os eleitores de mais baixa renda. Em 2000, as curvas de apoio ao PSDB e PT cruzavam no quartil das seções com educação média mais elevada. Em 2004, a força dos partidos se equilibra nas seções com seis anos e meio de educação média, sendo que 40% dos eleitores votam em seções com educação média abaixo deste valor. O PSDB, portanto, se comparado ao seu desempenho em 1996, avança sobre o eleitorado com educação média, como mostra o Gráfico 4, e ganha uma cara mais popular do que nos pleitos anteriores.

Contraditoriamente, do ponto de vista do apoio dos eleitores aos partidos, o conflito PSDB-PT é mais polarizado do que fora o PDS-PP-PT. E isto se deve a uma conjunção de fatores. De um lado, a penetração do PSDB entre os eleitores mais educados é maior do que a do PDS-PP, tendência que já havia se manifestado na eleição de 1996. O mesmo pode ser dito de outra forma: a contrapartida do enraizamento do PSDB é a maior dificuldade para o crescimento do PT entre estes eleitores. Na outra ponta da distribuição, temos o outro lado da moeda. A retirada do PDS-PP de cena reverte em um aprofundamento da penetração do PT entre os eleitores de baixa renda e em uma maior dificuldade do PSDB em crescer entre estes.

Cabe relembrar que o gráfico distorce o quadro na medida em que nos seus dois extremos, tanto nas seções com educação média mais baixa quanto nas com mais alta, o número de eleitores é menor. Se organizarmos os mesmos dados de forma diferente, acumulando eleitores e votos das seções com educação média mais baixa para a mais alta, veremos que o PT mantém a dianteira sobre o PSDB em uma parcela considerável das seções. A distância que separa os dois partidos é da ordem de 20% no início da distribuição e diminui para menos de 10% somente ao se atingirem as seções com 6,5 anos médios de estudo, quando a votação do PSDB, seção a seção, ultrapassa a do PT. No entanto, há uma considerável desvantagem a ser descontada. A força dos partidos só se equilibra nas seções com 8,7 anos de educação média e, a partir daí, cresce a diferença em favor dos tucanos. Assim, nos quatro decis iniciais, o PT vence; o PSDB recupera-se e tira a diferença nos quatro decis seguintes e, após equilibrar a disputa, dá uma arrancada nos dois decis finais. O cenário não foi muito diverso no segundo turno. Assim, ainda que o PSDB vença, sua vantagem está longe de ser folgada.

 

CONCLUSÃO

A alternância no poder entre a direita e a esquerda, verificada entre 1988 e 2000, foi ditada pelo fortalecimento concomitante destas duas forças, cuja resultante é a incapacidade do centro em apresentar candidaturas viáveis após o esfacelamento, já em 1988, do PMDB paulistano. Ainda assim, são os eleitores de centro que decidem as eleições, inclinando-se ora à direita, ora à esquerda.

Na realidade, não é correto falar em fortalecimento da direita, uma vez que sua força eleitoral manteve-se relativamente constante entre 1982 e 1996. É certo que o controle sobre este eleitorado foi objeto de disputa após a redemocratização. O PDS, comandado por Paulo Maluf, se mostrou capaz de vencer os desafiantes. Quanto ao PT, de fato, verifica-se um crescimento e um aprofundamento da sua penetração junto ao eleitorado de mais baixa renda. No que tange ao centro, seu esvaziamento e fragilidade relativa se deram como conseqüência da perda de força do PMDB e a incapacidade do PSDB, espremido pelas estratégias bem-sucedidas de seus opositores, de se estruturar na cidade. Uma alternativa a partir do centro só se mostrará viável na última eleição do período, em 2004, quando já ia bem avançado o declínio do PDS-PP. Nestes termos, a última eleição para a prefeitura da capital de São Paulo discrepa das demais. O enfraquecimento do PDS-PP é a causa desta transformação. Resta saber se a direita encontrará outra liderança capaz de organizar seus eleitores.

Considerando as seis eleições em conjunto, a direita e a esquerda foram as grandes vencedoras. Candidatos de partidos de direita (PTB e PDS-PP) vencem três das sete eleições disputadas. O PDS-PP é o segundo mais votado em outras duas eleições. O PT, representante hegemônico da esquerda, obtém duas vitórias e participa de todos os segundo turnos. O centro, representado inicialmente pelo PMDB e depois pelo PSDB, é o mais fraco dos competidores. Vence apenas a última eleição, aproveitando-se do espaço deixado pelo esfacelamento do PDS-PP.

A ascensão do PSDB é uma conseqüência direta da retirada de cena do PDS-PP. Na disputa entre PSDB e PT, o primeiro tem levado vantagem sobre o segundo, tendo sido derrotado em um confronto direto apenas na eleição presidencial de 2002, quando José Serra perde de Lula nos dois turnos na cidade. Nos demais embates, o PSDB derrotou o PT na cidade. O rol de vitórias inclui a de Alckmin sobre José Genoíno (nos dois turnos) em 2002, a de Serra sobre Mercadante na eleição para o governo do estado em 2006, e também nos dois turnos da eleição presidencial do mesmo ano. No entanto, a maioria destas disputas tem mostrado um equilíbrio de forças. Ou seja, a vantagem do PSDB não lhe garante a vitória de antemão, sobretudo porque a competição PSDB-PT é mais equilibrada nas seções em que se concentra a maioria dos eleitores. Uma pequena perturbação na distribuição das preferências das seções com educação mediana pode decidir a eleição.

 

 

Recebido para publicação em 28 de junho de 2008.

 

 

[1] Texto desenvolvido no interior do Centro de Estudos da Metrópole, financiado pela Fapesp. Agradecemos a Ivan Borin, que gentilmente nos cedeu os dados da eleição de 1992, e a Angela Alonso, Rogério Schlegel e Fernando Guarnieri pela atenta leitura. Contamos com o auxílio de Sérgio Simoni Júnior e Andreza Davidian na organização dos dados.
[2] Para evitar problemas com as metamorfoses do PDS, rebatizado de PPR, PPB e PP, de agora em diante o chamaremos convenientemente de PDS-PP.
[3] Para uma exposição e discussão do método empregado, ver King, Gary. A solution to the ecological inference problem. Princeton: Princeton University Press, 1997;         [ Links ] e Tanner, Martin T. e outros. Ecological inference. New methodological strategies. Nova York: Cambridge University Press, 2004.         [ Links ]
[4] Bordão usado por Ernesto Varela (Marcelo Tas) na ocasião em que o candidato Rivailde Ovídio não compareceu, no dia da eleição, à entrevista agendada com ele. Somente para avivar a memória dos mais velhos, o programa na TV do candidato Rivailde se resumia à pergunta: "Onde está você, Franco Montoro?" .
[5] Para não truncar o texto, dados de referência foram deixados de fora da versão final do artigo. O leitor interessado encontrará dados completos em www.centrodametropole.org.br/comportamentoeleitoral.htm.
[6] Eduardo Suplicy obteve, respectivamente, 13,6% e 24,4% na região mais rica e na mais pobre da cidade. (Ver Lamounier, Bolívar e Muszynscki, Judith. "A eleição de Jânio Quadros". In: Lamounier, Bolívar (org.). 1985: o voto em São Paulo. São Paulo: Idesp, 1986, tabela 4, p. 10).         [ Links ] Rachel Meneguello nota que a votação do PT em 1982 foi maior na Zona Leste da cidade, mais especificamente nas regiões fronteiriças com o ABC (PT: A formação de um partido [1979-1982]. São Paulo: Paz e Terra, 1989, p. 157).         [ Links ]
[7] Lamounier e Muszynscki, op. cit., p. 9.
[8] Meneguello, Rachel e Alves, Ricardo M. Martins. "Tendências eleitorais em São Paulo (1974-1985)". In: Lamounier, B. (org.). 1985: o voto em São Paulo, op. cit., p. 98.
[9] Reproduzimos aqui o argumento desenvolvido por Figueiredo, Argelina e outros. "Partidos e distribuição espacial do voto na cidade de São Paulo". Novos Estudos Cebrap, nº 64, pp. 153-160.         [ Links ]
[10] Lamounier, B. "O voto em São Paulo, 1970-1978". In: Lamounier, B. (org.). Voto de desconfiança. Rio de Janeiro: Vozes, 1980, p. 16.         [ Links ]
[11] Carvalho, Orlando de. "Ensaios de sociologia eleitoral". Revista Brasileira de Estudos Políticos, Belo Horizonte, 1958;         [ Links ] e Soares, Gláucio A. D. Sociedade e política no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973.         [ Links ]
[12] Ver, por exemplo, Lamounier, B. e Muszynscki, J. "São Paulo, 1982: a vitória do (P)MDB". Textos Idesp, nº2, 1983, p. 14.         [ Links ]
[13] Lamounier recorre à marginalidade objetiva para explicar o voto de direita em 1978 entre os mais pobres ("O voto em São Paulo, 1970-1978", op. cit., p. 79). Para Lamounier e Muszynscki, a marginalidade subjetiva explicaria o apoio à direita em 1985 ("A eleição de Jânio Quadros", op. cit., p. 21); ao passo que para Pierucci e Coutinho o anti-petismo irradiado a partir dos bairros mais abastados explicaria o voto de direita em 1990 e 1992 (Pierucci, A. F. e Lima, M. C. de. "A direita que flutua". Novos Estudos Cebrap, nº 29, 1991, p. 23;         [ Links ] idem. "São Paulo 92, a vitória da direita". Novos Estudos Cebrap, nº 35, 1993, pp. 96).         [ Links ]
[14] Em um calendário eleitoral que prevê eleições a cada dois anos, Maluf só não se candidatou duas vezes, em 1994 e 1996, sendo que nesta última oportunidade colou-se ao candidato que lançou. Venceu na cidade em 1990, 1992, 1996 e 1998. Para estes números, consultar a página do artigo citada na nota 5.
[15] Para os detalhes desta campanha, consultar Ferrari, Levi e Costa, Vicente da. "Uma análise da Campanha". In: Sadeck, Maria Tereza. Eleições 1986. São Paulo: Vértice, 1989.         [ Links ] Só para avivar a memória: partiu de Maluf a acusação de que Ermírio recorria a trabalho escravo em suas fazendas.
[16] A diferença com o PDS-PP é que a estratégia do PT foi nacional e não estadual. O PT lançou sistematicamente candidatos ao governo estadual em todos os estados, mesmo onde suas chances eram mínimas.
[17] Ver Folha de S. Paulo, 16/11/1988, p. A2.         [ Links ]
[18] Pierucci e Lima, "A direita que flutua", op. cit., p. 21.
[19] Ibidem, pp. 21- 22.
[20] A seguinte observação dos autores (ibidem, p. 22) não deve ser perdida: "Aliás, nas duas Áreas Homogêneas mais pobres, todos os concorrentes perdem votos para Erundina nos instantes finais da decisão, menos o PMDB de Quércia, que na AH 5 se mantém com 21%, sua taxa mais alta em toda a cidade na eleição de 1988".
[21] Na eleição presidencial de 1989, Mário Covas é o mais votado no primeiro turno na cidade, mas esta é uma eleição com alta fragmentação em São Paulo. Além disso, o seu apoio é mais forte nas áreas mais ricas da cidade (Ver Singer, André. "Collor na periferia: a volta por cima do populismo?". In: Lamounier, B. (org.). De Geisel a Collor: o balanço da transição. São Paulo: Sumaré, 1990, p. 143).         [ Links ] Deve ser notado ainda que, mesmo tendo vencido as eleições para o governo estadual em 1994 e 1998, o partido teve desempenho sofrível na capital.
[22] Ainda assim, o seu apoio entre os eleitores mais pobres não deixa de ser considerável, rivalizando com o PT.
[23] Pierucci e Lima, "A direita que flutua", op. cit., p. 22; e idem, "92, a vitória da direita", op. cit., p. 97.
[24] Idem, "92, a vitória da direita", p. 98. Se a base de comparação forem os resultados da eleição para o governo estadual, então se deve falar em recuperação do partido. A votação de Plínio Arruda Sampaio na cidade não passou de magros 10,1%. Os resultados das eleições para o governo estadual na cidade podem ser encontrados na página citada na nota 5.
[25] Os dados foram agregados para cada 0,1 ano médio de educação.
[26] A afirmação se sustenta por todos os critérios de agregação que testamos, sejam geográficos, sejam socioeconômicos.
[27] Os resultados completos desta análise estão disponíveis na página citada na nota 5.
[28] Uma vez mais, deixamos os detalhes de lado. Os resultados podem ser consultados na página do artigo citada na nota 5.
[29] As estimativas da Tabela 1 e as demais do mesmo tipo foram obtidas por meio do modelo desenvolvido por Gary King e associados, usando o pacote Zelig (Imai, King and Lau e Jason, disponível em <http://gking.havard.edu/zelig>, acessado em 30/ 06/2008) em R.
[30] Consultar a página citada na nota 5 para os dados completos.
[31] Uma vez mais, o leitor interessado em detalhes e informações suplementares deve consultar a página citada na nota 5.
[32] Uma vez mais, o leitor interessado em consultar a tabela completa deve acessar a página citada na nota 5.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License