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Novos estudos CEBRAP

Print version ISSN 0101-3300

Novos estud. - CEBRAP  no.87 São Paulo July 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002010000200010 

ARTIGOS

 

O show de Darwin*

 

Steve Shapin

Tradução: Otacílio Nunes

 

 


RESUMO

As comemorações dos 200 anos de nascimento de Charles Darwin revelaram menos sobre a figura histórica do cientista vitoriano do que sobre o lugar da ciência e do cientista na cultura moderna. O artigo explora os eventos do "Dia de Darwin" e a produção recente sobre o "pai da teoria da evolução" com a intenção de ligá-los à recepção contemporânea da obra (e da figura) de Charles Darwin.

Palavras-chave: Charles Darwin; teoria da evolução; darwinismo;história da ciência moderna.


ABSTRACT

The celebrations of the 200th anniversary of Charles Darwin's birth were less about the historical figure of the Victorian scientist than about the place of science and the scientist in modern culture. The article explores the "Darwin Day" events and recent books on the "father of the theory of evolution" in order to relate them to the contemporary reception of Darwin's life and work.

Keywords: Charles Darwin; theory of evolution; darwinism; history ofmodern science.


 

 

Foi a maior festa de aniversário da história. Só no dia 12 de fevereiro ou próximo dele — o aniversário de duzentos anos do nascimento de Charles Darwin, ou "Dia de Darwin" — houve mais de 750 eventos comemorativos em pelo menos 45 países, e no dia 24 de novembro ou em dias próximos houve outra enxurrada de celebrações para marcar o 150º aniversário da publicação de A origem das espécies por meio de seleção natural, ou A preservação de raças favorecidas na luta pela vida. Em Mysore (Índia) o Dia de Darwin foi celebrado por uma exposição "proclamando a importância do dia e a grandeza do cientista". Em Charlotte, na Carolina do Norte, houve apresentações de um musical, de um único artista, Charles Darwin: live & in concert (A irradiação adaptativa produziu a enorme baleia;/Suas mãos viraram guelras/E ela tem rabo de sereia). Em Harvard, as celebrações incluíram "bebidas grátis, bandas de rock interpretando canções tendo como tema a ciência, bolo, decoração e um golira dançarino" (estudantes de biologia se revezavam na fantasia de gorila). Voluntários, tanto estudantes como professores, circulavam pela universidade declamando o texto integral da Origem.

Nas ilhas Galápagos, turistas em peregrinação científica eram obsequiados com "um relato ativo e revelador da vida deste magnífico cientista", e um grupo de ex-alunos da Stanford University refez a viagem de circunavegação do HMS Beagle em um Boeing 757 bem equipado, na companhia da mais respeitada biógrafa acadêmica de Darwin. O aniversário foi comemorado ao redor do mundo — em Bogotá, Cidade do México, Montevidéu, Toronto, Toulouse, Frankfurt, Barcelona, Bangalore, Cingapura, Seul, Osaka, Cidade do Cabo, Roma (onde foi patrocinado pelo Conselho Pontifício de Cultura, como parte de uma iniciativa reconciliadora do Vaticano) — e em todos os cenários metropolitanos e científicos imagináveis. Desde 2000, a nota de 10 libras inglesa traz no verso o retrato de Darwin (substituindo o de Dickens), mas em 2009 selos postais especiais e uma nova moeda de duas libras o homenagearam, como moedas e selos de pelo menos dez outros países.

No Facebook foi criado um grupo para a comemoração: sua meta era ter 200 mil mensagens de Feliz Aniversário postadas até 12 de fevereiro e 1 milhão de "amigos" no aniversário da Origem, em novembro. O grupo também planejava cantar em massa o "Parabéns a você" para Darwin, mas acho que isso acabou não acontecendo. E foram feitas camisetas, ursinhos de pelúcia, bonequinhos, sacolas, canecas de café, imãs de geladeira, mousepads, almofadas e vasilhas para animais de estimação; adesivos para carro com os dizeres "Darwin te ama", broches estampados com "Darwin é meu companheiro" e calcinhas tanga com a inscrição "Eu darwinismo". A primeira frase da contribuição histórica mais substancial do ano, o livro Darwin's sacred cause1, de Adrian Desmond e James Moore, é: "As marcas globais de produtos não são muito mais famosas do que Charles Darwin". Verdade.

Darwin confessou livremente um filistinismo tardio: "Minha mente parece ter se tornado uma espécie de máquina de moer que produz leis gerais a partir de grandes coleções de fatos". Ele acabou achando Shakespeare "tão intoleravelmente entediante que me dava náuseas". Mas as artes imaginativas não deixaram de prestar seu tributo. Em Cambridge, Ian McEwan e A. S. Byatt falaram sobre sua "relação literária com Darwin". A homenagem conjunta dos museus de Yale e Cambridge, Formas infinitas: Charles Darwin, a ciência natural e as artes visuais (no Fitzwilliam, em Cambridge, e no Yale Center for British Art), chamada com razão "a melhor exposição do ano", foi uma exploração brilhante do impacto das idéias evolucionistas na pintura, na fotografia e na ilustração, e da fecundidade da receptividade de Darwin ao impacto visual da riqueza, diversidade e complexidade da natureza. O Natural History Museum em South Kensington abrigou o evento inteligentemente chamado Depois de Darwin: expressões contemporâneas — instalações, vídeos, filmes e obras literárias inspiradas pela obra tardia de Darwin A expressão das emoções em homens e animais. E Ruth Padel, trisneta de Darwin, publicou Darwin: a life in poems, evocando o nexo emocional do qual surgiu a Origem:

"Jamais sonhei
que ilhas separadas por sessenta milhas, feitas da
mesma pedra,
de altura quase igual no mesmo clima,
pudessem ter habitantes diferentes." Avance
vinte anos
e o verá escrever sobre uma explosão dispersa de
rocha em mar aberto,
"Parece que somos trazidos diante desse mistério dos
mistérios,
o primeiro aparecimento de novos seres na
terra."

A Rambert Dance Company deu sua contribuição produzindo um novo trabalho, The comedy of change. A consultora científica do balé "fez uma palestra sobre idéias darwinianas", após a qual ela e o coreógrafo "dançaram alguns passos de tango" para evocar as danças de acasalamento dos pássaros. A Universidade de Birmingham comemorou com The rap guide to evolution, apresentando o "Rapper Afro-Americano Ateu Greydon Square'", o "autodenominado 'Walking Stephen Hawking'". Em Manhattan, o Ensemble Theater produziu Darwin's challenge ("Em sua viagem a bordo do HMS Beagle, Charles Darwin entra em uma caverna nas ilhas Galápagos e se vê em um cenário de reality-show de TV do século XXI... No Segundo Ato ele é chutado para fora") — uma peça que a revista Scientific American resumiu acidamente como "talvez a primeira tentativa já feita de se apossar da vida do teórico da seleção natural para fazer piadas escatológicas".

O programa Something understood, transmitido pela Radio 4, discutia se os gênios eram inatos ou fabricados, tomando como exemplos Darwin e Mozart e sublinhando o caso de Darwin com uma canção chamada "Charlie", de autoria do grupo anarco-punk Chumbawamba: "Toda a natureza está em seu lugar/Pela mão do criador/Vem o nosso Charlie, roda o mundo/Daqui até a Ásia Menor/Entre o Ornitorrinco/E a perfeita Afrodite/Vem Charlie com o polegar opositor/Questionar o Todo-Poderoso". E, numa iniciativa inclassificável, o Burning Man Festival de 2009, no vasto deserto de Black Rock, em Nevada, teve como tema a "Evolução": uma figura humana de doze metros — queimada até se extinguir no fim do festival — erguia-se

[...] sobre uma "ribanceira emaranhada" constituída de triângulos de madeira irregulares [...]. À noite a ribanceira emaranhada entrava em atividade com formas de vida luminosas que se deslocavam por ela arranhando, rastejando e derrapando [...]. Estranhas criaturas primordiais espreitavam da superfície de uma sopa primal. A árvore central que sustenta o Homem Ardente, envolvida em uma dupla hélice, existia em fluxo: ligando-se e desligando-se, mudando de cor inesperadamente.

A instalação, que pretendia simbolizar o mecanismo da evolução, exemplifica a trajetória histórica da evolução de uma contracultura a outra, com apenas uma breve parada para recolher passageiros.

E houve as conferências nacionais e internacionais (científicas, históricas, filosóficas e literárias), as edições especiais de periódicos acadêmicos ou de interesse geral, programas de rádio e televisão e, é claro, os livros, entre os quais pelo menos quatro novas biografias voltadas para crianças. O Ano Darwin celebrou algo muito mais difuso, mais geral e com mais conseqüências do que a vida e a obra do grande naturalista vitoriano. Darwin escapou dos limites disciplinares, e até dos acadêmicos, porque o que ele fez parece ter mudado "o modo como pensamos" — muitos de nós, se não todos — a respeito do mundo, de nós mesmos e de como conhecemos o mundo. É a celebração — mais uma — de um momento que supostamente "criou o mundo moderno", de forma definitiva, exaustiva, irreversível.

O New York Times anunciou que "a teoria da evolução de fato explica tudo no campo da biologia", mas mesmo isso parece bastante modesto no contexto do clima celebratório corrente. Em versões agora canônicas, a concepção de Darwin da evolução por meio de seleção natural — sua "idéia perigosa" — foi, na declaração famosa de Daniel Dennett, "a melhor idéia que alguém jamais teve". Melhor do que qualquer idéia de Newton ou de Einstein, e melhor do que qualquer pensamento de Jesus, Aristóteles ou Hume, ou daquele outro grande garoto nascido em 12 de fevereiro de 1809, Abraham Lincoln. Ela "unifica a esfera de vida, significado e propósito com as esferas de espaço e tempo, de causa e efeito, de mecanismo e lei física". Se T. H. Huxley foi o "buldogue de Darwin", o professor emérito para o entendimento público da ciência de Oxford, Richard Dawkins, foi chamado de seu rottweiler sem focinheira; segundo Dawkins, a idéia de Darwin não foi só grandiosa ("a mais poderosa idéia revolucionária já apresentada por um indivíduo"), ela é essencialmente a única idéia que explica a vida e todos os seus fenômenos: "Charles Darwin realmente resolveu o problema da existência, o problema da existência de todas a coisas vivas — seres humanos, animais, plantas, fungos, bactérias. Tudo que conhecemos sobre a vida foi essencialmente explicado por Darwin". Uma espécie de loja de conveniência onde a mente inquisitiva pode comprar de tudo, apesar de podermos nos perguntar por que uma idéia de força inquestionável e tão abrangente precise — um século e meio depois — de todo esse marketing agressivo.

Embora Dawkins admita que Darwin "cometeu alguns erros" — por exemplo, suas noções de genética estavam completamente erradas, mas no fim das contas todo mundo cometeu esse erro no século XIX, antes que a genética estivesse suficientemente desenvolvida para que pudesse ser entendida corretamente —, o sociobiólogo E. O. Wilson não aceita nada disso: "O cara estava sempre certo". Num exemplo singular entre as ciências, a biologia evolutiva tem um patronímico, e portanto outra esquisitice é por que — se tomarmos literalmente alguns dos floreios literários mais amplos — se fala da teoria da evolução como se nada de importante tivesse mudado na ciência desde os tempos de Darwin. Os cientistas não se referem rotineiramente à física como newtonismo nem afirmam que "tudo que sabemos sobre a física foi essencialmente explicado por Newton".

Deixe de lado por um momento a questão de se qualquer dessas afirmações extravagantes sobre a criação da modernidade está sequer aproximadamente correta: não se as idéias evolucionistas específicas de Darwin eram poderosas e amplas (sem dúvida eram), mas se elas marcaram o mundo de forma indelével e se, de fato, são a ferramenta explicativa universal que alguns afirmam que sejam — se, como diz Dawkins, nós "não temos escolha" senão admitir a supremacia darwiniana, e se a evolução darwiniana tem o poder de resolver quase todos os problemas que têm ocupado os pensadores em todas as disciplinas e áreas da cultura. O biólogo evolucionista Theodosius Dobzhansky afirmou certa vez que "nada em biologia faz sentido exceto à luz da evolução", e agora um antropólogo afirma que "nada nos seres humanos faz sentido exceto à luz da evolução" (Nada). Da influência de uma excitação científica resulta algo que soa como uma recomendação de que todos os modos de investigação que não sejam a biologia evolucionista e suas disciplinas aliadas devem encerrar suas atividades e ir embora para casa. Assim, diz o antropólogo evolucionista Robert Foley: "Durante séculos, os seres humanos se perguntaram por que são como são, e recorreram à filosofia e à religião para responder a essa pergunta". Mas os seres humanos devem parar de fazer isso: Darwin nos autorizou a deixar de lado a filosofia e a religião e ver que ou essas perguntas deviam ser respondidas pelos biólogos evolucionistas, ou eram absurdas. Mas esse é um passo grande demais para alguns cientistas que em outros aspectos são simpáticos à causa. Como disse o geneticista Steve Jones, o Ano Darwin encorajou "darwinistas vulgares" em sua tendência já exgerada de tratar de forma enganosa a biologia evolucionista como "um solvente universal que pode esclarecer os problemas mais recalcitrantes da sociedade, da consciência, da política, da literatura e outras coisas mais".

Mesmo aceitando as caracterizações mais superlativas do gênio e da influência de Darwin, ainda estamos longe de entender qual foi o objetivo das festividades. Há outros concorrentes ao prêmio de "gênio científico maior", e de "criador do mundo moderno", mas nenhum deles foi objeto de festividades globais nessa escala. O 400º aniversário do nascimento de Galileu foi em 1964, o de Descartes, em 1996; os Princípios de Newton completaram trezentos anos em 1987; e os textos Wunderjahr de Einstein nos Annalen der Physik, que mudaram o modo como os físicos pensam sobre tempo, espaço e matéria, tiveram seu centenário em 2005. Todos foram devidamente assinalados, principalmente por historiadores, filósofos e físicos, mas não houve nada nem de longe parecido com "Darwin 200". Mesmo que tivéssemos uma métrica definitiva para classificar o gênio científico e a criação da modernidade — pela qual, comparados a Darwin, Galileu, Newton e Einstein seriam figuras menores —, nem o gênio nem a influência seriam uma explicação suficiente para os eventos de 2009.

A própria idéia de prestar homenagem aos grandes cientistas do passado é problemática. Em geral, não se espera que cientistas sejam ou tenham heróis. A sensibilidade moderna insiste na equivalência moral dos cientistas com qualquer outra pessoa, e a idéia de um método científico impessoal, que ganhou dominância oficial sobre idéias mais antigas de gênio científico, transformou as características pessoais dos cientistas em algo em princípio irrelevante. Honrar cientistas do passado é portanto diferente de, digamos, prestar homenagem a generais e políticos — ou mesmo a artistas. Não é preciso endossar uma forma rigorosa da teoria da história de Pascal (se o nariz de Cleópatra fosse...) para aceitar, de alguma forma, que indivíduos e circunstâncias podem fazer diferença no curso dos acontecimentos. Não tivesse Lincoln sido presidente, a Guerra Civil norte-americana muito provavelmente teria uma trajetória e um desfecho diferentes; se Bush e Cheney não tivessem no comando, seria plausível pensar que o Iraque talvez não tivesse sido invadido em reação ao "11 de Setembro", ou que uma invasão teria tido um resultado diferente; e se Mozart não tivesse vivido não existiria o Figaro. Mas é difícil aceitar que se Watson e Crick — por mais inteligentes e ambiciosos que fossem — não houvessem descoberto a estrutura de dupla hélice do DNA, ninguém mais o teria feito.

Artistas criam; cientistas descobrem. É essa a nossa concepção usual, e os cientistas — junto com alguns de seus aliados na filosofia — estiveram na vanguarda da defesa dessa idéia. (Essa é uma das formas de opor "relativismo" a "construtivismo social"). Se ciência é descoberta e não invenção, segue-se que a relação dos descobridores com o que revelam é diferente, tanto em textura intelectual como em ressonância moral, da relação de Mozart com suas óperas, de Shakespeare com suas peças e de Bush com suas guerras. Não se poderia dizer de Figaro, de Rei Lear ou da guerra do Iraque que elas estavam esperando para ser "descobertas". "Algo desse tipo" pode muito bem vir a existir, mas um exemplo de "algo semelhante" a Figaro é Axur, Re d'Ormus, de Salieri, ou até "Waterloo" do Abba. Não é preciso necessariamente construir histórias contrafactuais para sustentar esse tipo de sensibilidade. Costuma-se dizer que os cientistas chegam "à mesma" (ou "quase à mesma") idéia mais ou menos "no mesmo" momento: Galileu, Scheiner e vários outros sobre manchas solares; Leibniz e Newton sobre o cálculo; Priestley e Scheele sobre o oxigênio; Steven Weinberg e Abdus Salam sobre a teoria eletrofraca de gauge; e, é claro, Darwin e o subcelebrado Alfred Russel Wallace sobre a evolução por seleção natural. Todo exemplo do que foi chamado de "descoberta simultânea" dá crédito à noção de que o indivíduo não tem importância no curso da ciência, ou tem importância de uma forma muito diferente da importância autoral nas artes criativas. A homenagem feita ao cientista e ao artista situam-se em lados opostos de uma de nossas grandes fronteiras culturais. O que se deve à realidade e o que se deve ao trabalho criativo — mesmo o trabalho imaginativo, literário e político — daqueles tidos como os que levantam o véu dos segredos estruturais e dinâmicos da realidade?

Ainda é possível dizer, com perfeita precisão, que Origem é muito mais que sua teoria "essencial" de seleção natural: é um livro, um magnífico teatro de persuasão, "um único longo argumento" (como Darwin o chamava), sustentado por massas de evidências arduamente compiladas, organizadas de forma engenhosa e endossadas por um indivíduo especial, com virtudes e capacidades especiais reconhecidas. (As reações históricas diferiram até no reconhecimento das qualidades literárias da Origem: George Eliot considerou acidamente o livro "mal escrito e tristemente carente de fatos ilustrativos", desprovido de uma "apresentação luminosa e ordenada", e Karl Marx se queixou do "estilo ingês desajeitado".) Como observou Richard Horton em um número especial da revista Lancet, a fama de Darwin, diferentemente da dos cientistas de hoje, se baseava "em livros [...]. Seus livros não eram sumários nem simplificações: eram o cerne de sua originalidade". Para Darwin, escrever livros não era uma obrigação irritante de relatar descobertas: relatar e persuadir, para ele, eram atos criativos reunidos harmoniosamente. Ele gostava de escrever e se dedicava muito à redação; importava-se profundamente com o poder e o efeito que ela exerceria sobre os leitores. O que quer que se possa entender como "essência" da evolução por seleção natural é algo que se pode dizer que foi descoberto: o texto chamado Origem foi composto exatamente no mesmo sentido em que Figaro foi composta, montada de forma engenhosa, inventada. O texto de 1858 em que Wallace "descobre" a evolução por seleção natural atiçou Darwin a lançar-se num frenesi de composição que ele contivera por muito tempo, portanto é plausível identificar pelos menos dois descobridores da teoria, mas apenas um autor de Origem. O próprio Wallace estava bem ciente de que uma coisa era aparecer com uma teoria, outra, muito mais grandiosa, era torná-la crível: ele se via como um mero "chefe de guerrilha" da evolução, enquanto Darwin era "o grande general", planejando minuciosamente a grande estratégia literária e política para fazer a seleção natural fincar-se na cultura.

Paradoxalmente, os eventos deste ano foram uma celebração de uma figura histórica e de sua obra histórica na qual interesses especificamente históricos apareceram de forma notavelmente marginal. Trata-se de uma festa em que o presente, com suas preocupações presentes e prementes, processa fragmentos do passado mais ou menos da mesma forma como blocos de diferentes tipos de peixe branco, engrossados com recheio, são processados para formar tirinhas de peixe empanado. Os mitos têm seu mercado; a destruição de mitos tem um mercado pequeno; a contextualização intelectual e social de Darwin na era vitoriana não tem praticamente mercado nenhum.

Em Banquet at Delmonico's — um ótimo livro popular sobre o sucesso norte-americano de Herbert Spencer que foi quase soterrado pela darwinmania em 20092 — Barry Werth sublinha o fato de que, por maior que tenha sido o sucesso de Origem, muitos leitores do século XIX obtiveram suas noções de "evolução" das obras de Spencer, muito diferentes das formulações de Darwin e com orientação teleológica. Inúmeras pessoas adquiriram seu evolucionismo do progressista Vestiges of the natural history of creation, uma "sensação vitoriana" publicada anonimamente em 1844 pelo jornalista escocês Robert Chambers e abominada por Darwin por a considerar exatamente o tipo de coisa que tendia a vulgarizar a teoria da evolução e prejudicar sua reputação científica. Como mostra James Secord na introdução à sua edição de Evolutionary writings, na época em que Darwin escreveu, Vestiges era "o único livro evolucionista que seria possível supor que todos os leitores de língua inglesa conhecessem".

A estrada histórica do reconhecimento da importância e poder da seleção natural darwiniana não foi reta nem suave. Logo depois das comemorações em torno de Darwin em 1909, o New York Times anunciou friamente que a seleção natural

[...] deixou de ser considerada a chave para todas as biologias; de forma que é provável que a fama dele nesse aspecto tenha alcançado o apogeu no ano passado [...]. A atitude geral dos biólogos contemporâneos em relação ao grande feito de Darwin difere consideravelmente do coro de aceitação universal corrente nas décadas de 1870 e 1880. Longe de ter resolvido o problema da origem das espécies, Darwin, agora o reconhecemos, apenas levantou a questão.

Isso quer dizer que a seleção natural como "a chave" para a mudança orgânica precisava ser sintetizada com a genética mendeliana, e essa foi uma realização do período entre o final da década de 1920 e os anos de 1950, para a qual foram dadas contribuições vitais pelo estatístico inglês R. A. Fisher, um eugenista e cristão devoto que via o progresso biológico como prova do papel ativo e permanente de Deus na natureza, e cujo centenário, em 1990, não foi um evento importante de mídia.

Poder-se-ia observar que Darwin teria sido considerado um naturalista excelente e um geólogo considerável mesmo que não tivesse publicado Origem, dadas a extensão e a meticulosidade de sua obra sobre, entre outras coisas, cracas, recifes de coral e ilhas vulcânicas, insetívoros e plantas trepadeiras, a vida sexual das orquídeas, a função das minhocas na formação do bolor vegetal, plantas e animais domésticos, a expressão das emoções nos animais e no homem e espécies botânicas polimorfas (sobre as quais Darwin disse que nada em seu mundo científico lhe deu "tanta satisfação"). Nas atuais comemorações, todas essas coisas foram colocadas em segundo plano. Poder-se-ia dizer também que havia muito mais em Origem do que as versões da "seleção natural" celebradas por evolucionistas de hoje e seus fã-clubes. E isso também estaria correto. No Ano Darwin, mal se ouviram as vozes de historiadores da ciência, que organizaram suas próprias conferências, mas foram no mais das vezes levados ao palco por aqueles que tinham outras agendas, como "lordes assistentes [...] para ver surgir algum progresso, iniciar alguma cena [...]. Respeitosos, contentes de serem úteis"3.

Quem se interessa por história poderia achar interessante o fato de que, embora as vendas de Origem no primeiro ano tenham sido boas — 1.250 exemplares da primeira tiragem (esgotada no primeiro dia) e 3 mil da segunda edição, de 1860, rodada às pressas —, entre os livros postos à venda no mesmo momento pelo editor John Murray estavam 7.600 exemplares de um relato do explorador do Ártico Sir John Franklin e 3.200 exemplares de Self-help, de Samuel Smile. De 1860 a 1865, as vendas mensais do "livro que criou o mundo moderno" ficaram abaixo de trinta exemplares, embora uma edição barata do livro tenha empurrado o total de suas vendas no Reino Unido para 16 mil na metade da década de 1870. "Levando em consideração que se trata de um livro caro, é uma venda grande", observou Darwin. Dito isso, no momento em que Origem foi publicado, Vestiges havia vendido 24 mil exemplares; o volume de Darwin de 1881 sobre minhocas foi um sucesso editorial inicial muito maior do que Origem; e entre 1833 e 1860 tinham sido vendidos 60 mil exemplares dos tratados de teologia natural que formavam os Bridgewater Treatises — cujo argumento criacionista Darwin procurava destruir.

Poder-se-ia também observar que o livro histórico, em contraste com as versões resumidas de livros didáticos modernos ou com sua celebrada suposta "essência", apresentava a seleção natural como um motor, reconhecidamente poderoso, de mudança orgânica, mas também admitia de forma bastante explícita o papel da "ação direta" das "condições externas de vida" e dos "efeitos de uso e desuso" herdados (isto é, o que se conhece comumente como forças "lamarckianas"), e o que Darwin chamava de "leis do crescimento" (ou restrições desenvolvimentais ligando de forma causal mudanças em uma parte a outra parte de um organismo): "Estou convencido", escreveu Darwin, "de que a seleção natural é o principal meio de modificação, mas não o exclusivo".

Um homem considerado avatar do ateísmo em 2009 pretendera inicialmente tornar-se um clérigo e, mesmo depois de ter perdido qualquer resquício de ortodoxia anglicana, concordava com o reverendo Charles Kingsley e o reverendo William Whewell, reitor do Trinity College, de Cambridge, em que a idéia de um Deus que opera por meio de leis naturais instituídas divinamente era tão "nobre" quanto a de um Deus que usa diretamente seus poderes para criar cada uma das espécies. Quatro anos depois da publicação de Origem, Kingsley escreveu que "nunca havia entendido tão bem a grandeza, a bondade e o cuidado perpétuo de Deus quanto a entendi desde que me converti às visões do sr. Darwin". Darwin afirmava não ver nenhuma boa razão para que a evolução por seleção natural fosse um "choque [para] os sentimentos religiosos de qualquer pessoa". E aqueles que agora usam Darwin como combustível para o secularismo tampouco dão atenção para a figura histórica, cujo funeral na abadia de Westminster serviu de ocasião para o arquidiácono elogiar Darwin por ter lido "muitas passagens até então indecifradas no grande épico do universo de Deus". A descrença, escreveu Darwin, por fim "se insinuou" nele, mas é menos exato classificar essa descrença como ateísmo do que como uma mistura instável de agnosticismo e uma forma robusta de deísmo que não era incomum entre os clérigos da Igreja da Inglaterra vitoriana. Mesmo nos Estados Unidos, muitos teólogos protestantes do final do século XIX não tinham muito problema em conciliar a evolução com um cristianismo racional e purificado. (A forte assimilação de seres humanos e suas capacidades mentais ao modelo animal era um entrave para muitos — mas ainda hoje é.) E o fundamentalismo bíblico também não era uma característica tão forte da oposição vitoriana a Darwin quanto no começo do século XXI. É quase certo que há hoje mais "criacionistas da terra jovem" — aqueles que afirmam que o mundo foi criado em exatamente seis dias de 24 horas em algum momento entre 5.700 e 10 mil anos atrás — entre as classes instruídas e semi-instruídas do que havia na época de Darwin.

O Darwin histórico é só uma presença espectral em sua própria festa. O entendimento de Origem como performance literária e científica complexa não foi um dos focos das festividades globais, nem o entendimento do próprio Darwin do que havia e não havia realizado, muito menos a gama inteira de seus interesses científicos. O que acaba de ser celebrado não é a especificidade histórica de um texto de meados do século XIX, nem o autor vitoriano de obras sobre minhocas, orquídeas e plantas insetívoras, mas a fundação de uma linhagem intelectual particular, que levou, a partir de 1859, a uma versão da "síntese moderna da evolução", aumentada pela teoria do gene, que é valorizada hoje. Darwin não descobriu nem inventou a biologia evolutiva moderna e seus companheiros de viagem intelectual; no máximo, ele estava em uma das extremidades de uma genealogia cujos membros mais recentes ele mesmo teria dificuldade em reconhecer.

Mas não precisamos ser pedantes. Se o que aconteceu tem pouco a ver com o Darwin histórico, tem muito a ver conosco, e com o que alguns de nós escolhem construir e celebrar como o "darwinismo" de hoje. Esses são fatos por si só relevantes. Um fenômeno tão difundido como as comemorações de Darwin certamente tem muitas causas e servem a muitos propósitos. "Cada época molda Charles Darwin a suas próprias preocupações, mas é difícil resistir à tentação", observou Philip Ball no jornal Observer:

No começo do século XX, ele foi transformado em profeta da engenharia social e do livre mercado. Com a sociobiologia na década de 1970, o darwinismo tornou-se uma teoria comportamental, enquanto a genética neodarwinista suscitou uma visão sombria da humanidade como máquinas de genes impulsionadas por imperativos egoístas de nosso DNA.

Nossa inescapável preocupação presente, é claro, é o ressurgimento do fundamentalismo bíblico. Pesquisas e surveys de opinião podem oferecer todos os tipos de resultados, a depender de como as perguntas são elaboradas e feitas, mas em 2008 uma pesquisa Gallup concluiu que 44% dos adultos nos Estados Unidos aceitavam que "Deus criou os seres humanos quase exatamente em sua forma atual em algum momento dos últimos 10 mil anos, aproximadamente", enquanto só 14% concordavam que "os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas, mas Deus não teve nenhuma participação nesse processo". Os Estados Unidos estão em uma posição extrema entre os países desenvolvidos — 62% dos egípcios e 73% dos sul-africanos aparentemente nunca ouviram falar em Darwin ou em sua teoria —, mas a Grã-Bretanha também tem muitos que duvidam: Dawkins afirmou que quatro de cada dez bretões acreditam em criacionismo, embora em junho de 2009 um levantamento do Conselho Britânico tenha chegado à conclusão, menos alarmante, de que quase 25% dos londrinos eram criacionistas, enquanto pouco menos da metade concordava que havia provas científicas suficientes para sustentar a teoria da evolução de Darwin. Não está claro, porém, o que essa resposta significa à luz da descoberta de que só 45% dos adultos britânicos afirmaram ter ouvido falar de Darwin e conhecer "pelo menos um pouco" sobre sua teoria.

O centro de gravidade do Ano Darwin foi uma celebração do secularismo, uma cruzada contra o escalada da religiosidade e a "ignorância da ciência pelo público". Darwin foi apresentado como o Flagelo dos Devotos. A National Secular Society observa que "o ducentésimo aniversário de Darwin tornou-se um ponto de aglutinação para cientistas que se opõem ao criacionismo". "É importante celebrar Darwin hoje?", perguntou o jornal Independent, respondendo que "o legado de Darwin está ameaçado por proponentes do criacionismo. Ao comemorá-lo nós defendemos esse legado [...] Nenhum avanço alterou tanto nossa visão de mundo desde a percepção de que o mundo não era plano" — uma afirmação que parece fora do lugar quando colocada ao lado de queixas quanto à influência limitada do darwinismo sobre a "visão de mundo" coletiva da modernidade. Dawkins, que liderou a saída das tropas das trincheiras na guerra contra a ignorância científica e a credulidade religiosa, tem uma resposta notavelmente tautológica para isso: Darwin é "controvertido entre pessoas que não sabem nada, mas se você falar com pessoas que são realmente instruídas, ele não é realmente controvertido". E: "Para não acreditar na evolução você tem de ser ou ignorante, ou estúpido, ou louco". Em The God delusion (2006), de Dawkins4, o agnosticismo declarado pelo próprio Darwin não era nem de longe suficientemente bom: o Deus do Velho Testamento — um daqueles que não existem — é descrito como "um brutamontes misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo". "Meu sonho", disse Dawkins, era que sua obra "ajudasse as pessoas a 'saírem do armário' com seu ateísmo". Encarregado de The genius of Charles Darwin, do Channel 45, Dawkins recrutou o grande naturalista agnóstico como um paladino do ateísmo, menos parecido em termos de teologia e em ciência com o Darwin histórico do que com o próprio Dawkins.

A International Darwin Day Foundation, agindo como publicista e central de informações para centenas dos eventos globais do ano, é administrada pela American Humanist Association, um grupo de pressão secularista norte-americano que defende as liberdades civis da espécie ameaçada de extinção dos ateus americanos, e distribui prêmios anuais para o "Humanista do Ano" (entre os já agraciados estão Richard Dawkins, Daniel Dennett, E. O. Wilson e Steven Pinker). Para a Darwin Day Foundation (de cujo conselho consultivo fazem parte Dawkins, Dennett, Wilson e Pinker), como para outros patrocinadores, o Dia de Darwin é menos um evento sobre uma figura histórica do que uma ocasião para propagar versões de materialismo e racionalismo científicos para domínios culturais sempre novos, estimulando uma apreciação da "ciência e do papel dos seres humanos no desenvolvimento do Método Científico que permitiu a aquisição de um enorme estoque de conhecimentos científicos verificáveis, agora disponível aos seres humanos modernos".

A ofensiva contra os atavicamente religiosos e os equivocados talvez não seja bem o que parece, ou pelo menos talvez não tenha um alvo tão definido como parece. De fato, a teoria da evolução não é adequadamente compreendida pelo público leigo, mas isso vale também para a físico-química, a termodinâmica ou a bioinformática. Seria ótimo se houvesse mais instrução científica — assim como seria ótimo se mais ingleses e norte-americanos soubessem uma língua estrangeira —, mas o desconhecimento da teoria da evolução não é indício de hostilidade à ciência, que continua sendo notavelmente valorizada a despeito da ignorância pública de seu conteúdo e de seus métodos. Seja qual for a hostilidade pública existente em relação à teoria da evolução, é plausível vê-la como um lamentável caso especial, com pouca repercussão sobre outras formas de ciência. E se os eventos em torno de Darwin são de fato uma defesa da ciência contra os ignorantes, há uma evidência visivelmente inconveniente que foi pouco mencionada pelos celebrantes. Um levantamento publicado na revista Nature em 1977 concluiu que 40% dos cientistas norte-americanos professavam a crença em uma alma imortal e em um Deus que atendia a preces, um número basicamente inalterado desde 1916. Outro levantamento, ainda mais revelador, concluiu que quando era apresentada a eles a afirmação "O homem se desenvolveu ao longo de milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas, e nenhum Deus participou desse processo", só uma escassa maioria (55%) dos cientistas norte-americanos concordava, e que 40% acreditavam que um Criador estava envolvido na mudança evolucionária.

Dizer que nada em biologia faz sentido exceto à luz do darwinismo não pode ser o mesmo que dizer que ser um biólogo competente é conhecer, ou concordar com, alguma versão específica de teoria da evolução, como aquelas defendidas por Dawkins e Dennett. Fui professor de muitos estudantes de biologia talentosos, tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, que não conseguiam apresentar uma explicação coerente da evolução por seleção natural — a teleologia continua a ser surpreendentemente popular —, e embora possa ser ou não o caso de a evolução fornecer o "fundamento" conceitual da ciência da vida, certamente não é o caso de os biólogos precisarem ter conhecimento de qualquer teoria desse tipo para fazer um trabalho competente, por exemplo, sobre a vida sexual de vermes marinhos, sobre a fotossíntese das algas, ou sobre a seqüência de nucleotídios em genes de câncer do seio. Muitos praticantes de muitas práticas especializadas modernas revelam-se incapazes de enunciar os supostos fundamentos de suas práticas.

Há, portanto, alguma base para ceticismo sobre se o único alvo, ou mesmo o alvo principal, das polêmicas do Ano Darwin são de fato os devotos e os ignorantes. Os ataques acadêmicos aos bárbaros de fora da universidade dirigem-se também aos heréticos do departamento de quem ataca. As carroças acadêmicas são posicionadas em círculo mais para controlar a batalha interna do que para repelir ataques de fora. Considere as tensões internas à teoria da evolução. A teoria da evolução moderna leva vantagem quando contrastada com o criacionismo e o design inteligente, mas os próprios biólogos não estão hoje todos cantando do mesmo hinário evolucionista, e é possível que você não fique sabendo disso pelos relatos entusiásticos do darwinismo como "fato".

Os "adaptacionistas" consideram seguramente estabelecido não só que a mudança orgânica procede pela seleção natural de traços individuais, cada um dos quais melhorando as chances reprodutivas do organismo, mas também que cada ponto de chegada da evolução representa um ponto ótimo e que nenhum outro processo é necessário para que uma linhagem evolutiva continue ao longo do tempo. Mas o adaptacionismo tem críticos eminentes nos departamentos de biologia — entre eles Richard Lewontin, Niles Eldredge e o falecido Stephen Jay Gould. Eles argumentam que há uma diferença entre afirmar a adaptação como um meio possível de ir sem sobressaltos do ponto de evolução A para o ponto B e estabelecer que foi assim que a mudança orgânica de fato ocorreu. Talvez haja restrições desenvolvimentais ao modo como as características mudam, e como mudam em relação a outras características; talvez algumas características sejam subprodutos acidentais de mudanças em outras características; talvez a mudança evolucionária seja de fato descontínua; talvez haja uma relação causal dialética entre organismos e os nichos ambientais aos quais eles "se adaptam"; talvez processos outros que não a adaptação estejam operando, mas nós simplesmente ainda não sabemos muito sobre eles. O campo adaptacionista inclui Dawkins, Dennett e Pinker — alguns dos mais entusiásticos celebrantes do Ano Darwin. Os adaptacionistas tendem a apresentar aos espectadores um quadro enganoso do pé em que está o jogo científico, ao mesmo tempo em que reivindicam um pai fundador que, na verdade, tinha reservas quanto ao poder e à suficiência da seleção natural. Há uma luta entre cientistas pela alma de Darwin. É compreensível que os evolucionistas modernos configurem a história da forma que mais bem atenda a propósitos presentes, mas a preocupação com a verdade deveria fazer parte desse exercício de publicidade.

O Ano Darwin foi também um momento de endurecimento das ciências humanas e mesmo das humanidades, especialmente nos Estados Unidos. Tome-se o que ficou conhecido como "darwinismo literário". "Não há obra de literatura escrita em nenhum lugar no mundo, em qualquer momento, por qualquer autor, que esteja fora do escopo de uma análise darwiniana", escreveu Joseph Carroll em sua contribuição para The literary animal (2005). Orgulho e preconceito é uma evidência da seleção sexual, e a "verdade aceita universalmente" não tem a ver com os costumes e as preocupações das classes altas da Regência6, mas com o modo como as pessoas propagam seus genes de forma mais vantajosa para a geração seguinte. Mrs. Bennet passou da idade de ter filhos, mas está obsessivamente interessada nos pretendentes a suas filhas por causa dos genes que eles têm em comum. (Diz-se que J. B. S. Haldane foi perguntado certa vez se abriria mão da própria vida por seu irmão. "Não", disse ele, fazendo os cálculos, "mas eu salvaria dois irmãos ou oito primos.") Esqueça a idéia de universais estéticos, a invocação de contextos sociais e culturais particulares e o desconstrucionismo. Se você quer saber por que alguém faria um livro como Orgulho e preconceito, ou qualquer obra de arte, você precisa reconhecer a verdade inescapável de que o órgão responsável pela criação artística é um produto da evolução, e portanto deve haver uma vantagem seletiva em escrever Orgulho e preconceito, ou algo do tipo — no fundo tanto faz. Darwin na verdade dizia que a linguagem devia ser pensada em parte como "tendência instintiva", mas ele sabia por experiência própria que escrever era uma arte e que escrever tão bem como ele esperava ser capaz era uma questão de trabalho, disciplina, competência e paixão.

O darwinismo literário extrai muito de sua força da Psicologia Evolucionista (PE), e importantes praticantes dessa área estiveram em evidência neste último ano. Se a mente é evoluída, todos os produtos da mente também devem ser, junto com todos os arranjos sociais estabelecidos pelo coletivo de mentes evoluídas. As tendências naturais vencem as adquiridas o tempo todo. Dê uma olhada fria e rigorosa em qualquer arranjo social ou produção cultural institucionalizados, ou modo de pensar amplamente difundido, e há uma história evolucionária que explica por que eles são como são. Há, infelizmente, aquelas pessoas que o Thought Leader7 da PE, Steven Pinker, chama de "os intelectuais" — em particular o tipo desconstrucionista e pós-modernista —, que se recusam a encarar fatos darwinianos. De forma intrigante, a explicação dada para as visões deles não é evolução, mas erro. Mas não se pode, como observou Louis Menand, identificar um "fundamento biológico" para um conjunto de disposições intelectuais — digamos, aquelas que você aprova — e negá-lo para outras: digamos, aquelas que você gostaria que a evolução fizesse desaparecer mas que ela ainda não encontrou tempo para eliminar.

De forma mais difusa, as comemorações do aniversário destacaram Darwin como Herói Verde. Origem encerra-se com Darwin evocando de forma lírica "uma ribanceira emaranhada, coberta por muitas plantas de muitos tipos, com pássaros cantando nos arbustos, com vários insetos esvoaçando e com vermes rastejando pela terra úmida". O editorial da edição da Nature sobre "Biodiversidade em crise", publicado na semana do 150º aniversário de Origem, argumentou que

[...] se vivesse hoje, Darwin teria motivos para ser menos rapsódico. A versão moderna de sua ribanceira bem poderia estar dominada por arbustos invasores, tendo sido desnudada da maioria das plantas nativas pelo desmatamento, e os riachos próximos provavelmente estariam poluídos e cheios de sedimentos trazidos pelo excesso de despejos [...]. O magnífico desfile de vida, que inspirou Darwin e sua obra, hoje está sofrendo.

A BBC abriu sua temporada sobre Darwin com Charles Darwin and the tree of life [Charles Darwin e a árvore da vida], e o que David Attenborough queria que entendêssemos era que "Darwin mostrou que não estamos apartados do mundo natural — não temos domínio sobre ele. Estamos sujeitos a suas leis e processos, como estão todos os outros animais na Terra aos quais estamos de fato relacionados". A meta é a defesa do meio ambiente e da biodiversidade; a celebração de Darwin é um dos meios de fazer isso: "Alcançamos um estágio na história humana em que somos confrontados com a necessidade de reagir a essas proposições específicas. Antes, era possível desviar o olhar, mas agora realmente não podemos fugir do problema. Temos que lidar com essas coisas". Darwin foi arregimentado de forma semelhante na série de Andrew Marr para a BBC, Darwin's dangerous idea [A idéia perigosa de Darwin]. Marr descobriu que "as idéias de Darwin estão ajudando a nos salvar e a salvarmos da extinção toda a vida na Terra [...]. Charles é o pai da ecologia. O movimento ambientalista moderno se baseou em sua percepção de que toda a vida na Terra está ligada por uma delicada teia de conexões". Foi de fato "uma delicada teia de conexões" que nos trouxe do matador de pombos e outros animais pequenos do século XIX ao precursor da salvação da vida no planeta no século XXI.

É mais fácil fazer essas conexões porque Darwin era um cara tão bacana. Na comemoração de seu nascimento, o New York Times disse que ele "é facilmente transformado em herói". Ele era "um homem gentil, humano e decente, um marido e pai amoroso, e um amigo fiel [...]. Ele era, em outras palavras, um desses seres raros, tão agradável quanto impressionante". Para Janet Browne, biógrafa de Darwin, ele era "basicamente um homem bom, humilde e gentil, e sempre fazia o possível para agir de acordo com os valores tradicionais que aprendera quando criança". "Era sua própria normalidade", escreve ela, "que cativava as pessoas que esperavam conhecer um sábio." Ele levava, na medida do possível, uma vida tranqüila e estava contente com sua situação. Era generoso não só com os aliados, mas também com os inimigos; era bondoso com os empregados; amava sua mulher; tinha um profundo cuidado com as sensibilidades religiosas dela e temia que sua obra criasse uma desavença no casamento deles; sofreu com a perda de uma filha de um modo que poucos vitorianos igualaram. Ele se esquivava da controvérsia; fazia tudo que podia para evitá-la. Preparar Origem para impressão e pensar sobre como o livro seria recebido o deixou fisicamente doente: o livro foi publicado enquanto ele se tratava em uma estação de águas em Ilkey, com o rosto coberto de eczemas. (De fato, Origem foi, no geral, bem recebido. Em sua Autobiografia, Darwin escreveu que tinha "quase sempre sido tratado honestamente por meus resenhadores", e que mesmo aqueles que haviam apresentado de forma errônea suas visões o fizeram, "creio, de boa fé".) Darwin sabia da importância do que realizara, mas enfrentava sua tarefa com modéstia e aceitava a celebridade com humildade. Para Dawkins, "Darwin era não apenas um cavalheiro, mas um homem imensamente gentil", e podemos inferir que para Dawkins isso é uma coisa boa.

Darwin insistia em sua normalidade intelectual. Ele queria que fosse entendido publicamente que seus dotes naturais não estavam além da média, que ele tivera de superar uma tendência de juventude à preguiça e à boa vida, que desperdiçara seu tempo na universidade, que ter-se tornado um naturalista sério devia muito à boa sorte, que ele alcançara o que fizera principalmente por meio de observação atenta, disciplina, trabalho intenso e uma paixão genuína pela ciência. A publicação de Origem e de Self-help, de Samuel Smile, no mesmo dia e pela mesma editora era adequada: a noção de gênio ainda circulava na cultura, mas as sensibilidades dos vitorianos estavam passando a aceitar como plausível a idéia de que o que antes se atribuía ao gênio fosse creditado ao esforço e à disciplina. As virtudes burguesas que antes eram associadas à vida doméstica e aos negócios agora passavam a ser reconhecidas no estudo do acadêmico, na mansarda do artista e no laboratório do cientista. Ainda em vida, Darwin já era elevado à condição de santo secular, com reputação de "integridade e franqueza inatacáveis". Mas ele anunciava publicamente as deficiências de seu caráter e lamentava a decadência de suas sensibilidades estéticas, que o haviam transformado em alguém que ficava "nauseado" ao ler Shakespeare. "Tenho", disse ele, "uma dose razoável de criatividade, e de bom senso e juízo, como todo advogado ou médico bem-sucedido deve ter, mas não, creio, em nenhum grau elevado." Sua enorme inteligência era real, mas numa escala humana, contida numa estrutura humana. (Uma das produções mais interessantes deste ano é a publicação de Mrs Charles Darwin recipe book [O livro de receitas da sra. Charles Darwin]. O marido dela gostava de doces: o pudim de araruta parece sem graça mesmo para o gosto de Darwin, mas o creme de groselha parece ótimo.) Ele tinha falhas; preocupava-se com seu entusiasmo na juventude por matar animais inocentes; fumava cigarros.

Darwin era tão independente quanto era agradável, e as duas coisas estavam ligadas. Resumindo suas circunstâncias de vida, ele notou a importância de ter tido "amplo tempo disponível por não ter precisado ganhar meu próprio pão". O maior cientista do século XIX era um amador — um dos últimos grandes cientistas amadores. Agia por amor, não por dinheiro. Os recursos que Darwin herdou do pai (acumulados basicamente em corretagem de hipotecas), aumentados pelos ativos de sua mulher, eram mais que suficientes. Ele adquiriu fazendas e depois investiu fortemente nas novas ferrovias. Estabelecidos na Down House, em Kent, ele e a mulher controlavam ativos no valor de no mínimo 80 mil libras esterlinas, com renda anual de mais de 3 mil libras, e tanto o capital como a renda de aluguéis cresciam constantemente. Pouco antes de sua morte, ele admitiu que valia mais de um quarto de milhão de libras, talvez uns 13 milhões de libras em dinheiro de hoje. Era, como disse de forma precisa a biografia escrita por Adrian Desmond e James Moore, de 19918, "um cavalheiro com capital". Darwin monitorava detalhadamente as vendas de seus livros, entendidas como um sinal de aceitação e estima, mas, dada a escala de seus investimentos, sua renda advinda da ciência era modesta. (Os resultados apurados na venda no primeiro dia de toda a tiragem inicial da Origem foram 180 libras, e os da segunda chegaram a pouco menos de seiscentas libras. No fim da vida, Darwin estimava que havia ganhado cerca de 10 mil libras com todos os seus livros — para pôr isso em perspectiva, Trollope ganhara 70 mil libras.) Embora não ostentasse sua riqueza, Darwin estava mais que confortável: pronto para a vida e para a ciência. Só isso já o torna uma figura fascinante para nós, em uma época de ciência empresarial, cada vez mais comercializada e politizada, uma época em que a investigação científica está há muito tempo identificada com a carreira remunerada, na qual o "amador" é igualado ao incompetente. Mas também nos preocupamos cada vez mais com a perda de integridade que acompanha uma indução monetária a produzir formas específicas de conhecimento científico, e a vida científica de Darwin torna-se para nós um objeto de nostalgia, em parte admirável, mas na maior parte inconcebível.

Pense em alguns gênios científicos. Meu palpite é que a lista de muitas pessoas incluiria Galileu, Newton e Einstein. Esses são os nomes familiares a todas as ciências, à história, à filosofia e ao panteão da cultura geral. Há outros cujas reputações são nacionais — Pasteur na França, por exemplo —, e outros ainda cuja fama se disseminou pouco além de sua disciplina específica, como talvez seja o caso, na física moderna, de Paul Dirac e Richard Feynman. Darwin ocupa um lugar à parte, não pelo tamanho de seu intelecto ou pelo efeito do que ele realizou — quem pode avaliar de forma confiável qualquer um deles? —, mas porque para nós só ele parece ser uma figura histórica ao mesmo tempo na escala humana e inequivocamente simpática. Nas biografias de cientistas escritas hoje, as características pessoais desagradáveis raramente são ignoradas: Newton parece ser "inteiramente outro", propenso a destruir intelectualmente seus concorrentes; Galileu era um oportunista, propenso a talhar seu trabalho científico em função de sua carreira; Einstein era um homem que amava a humanidade em geral, mas tratava suas mulheres e sua filha como apêndices descartáveis; Pasteur era um político da ciência maquiavélico; Dirac era simplesmente "o mais estranho dos homens"; Feynman era um filisteu, um predador sexual, um eterno adolescente exibicionista. É isso o que acontece agora com os gênios superiores, aqueles que descobrem os segredos da natureza. Primeiro os transformamos em ícones, depois vemos quão iconoclastas podemos ser. Só Darwin escapa do açoite.

A virtude de Darwin, diz-se agora, era tanto política como pessoal. Desmond e Moore argumentam vigorosamente em favor da importância biográfica da conhecida repulsa de Darwin pela escravidão. O abolicionismo era uma herança de família, e o ódio de Darwin pela instituição foi reforçado pelo que ele viu durante a viagem no Beagle. No Brasil, ele viveu perto de uma velha senhora que mantinha instrumentos de tortura para esmagar os dedos de suas escravas.

Fiquei em uma casa onde um jovem mulato doméstico, dia a dia e hora a hora, era insultado, surrado e perseguido o suficiente para quebrar o espírito até do animal mais inferior [...]. Isso faz nosso sangue ferver, embora o coração estremeça de pensar que nós ingleses e nossos descendentes americanos, com seu jactante grito de liberdade, fomos e somos tão culpados.

Como alguém poderia fazer isso a um ser humano igual, a um membro de sua própria espécie? O slogan abolicionista dos quacres no século XVIII era "Não sou um homem e um irmão?" — e ele foi inscrito no famoso camafeu de jaspe do avô de Darwin, Josiah Wedgwood.

Darwin não só detestava a escravidão, mas — como Desmond e Moore argumentam9 — o sentimento abolicionista era nele um "fogo moral" que moldou sua ciência de forma completa e profunda. Darwin's sacred cause é um livro magistral. Ele estabelece a gama e o alcance das preocupações científicas de meados do século XIX com a escravidão e as raças do homem. Argumenta não só que a aversão de Darwin pela escravidão informou sua insistência na ascendência comum das raças humanas, mas também que esse raciocínio passou da preocupação com a ascendência comum de formas de nossa espécie para a idéia de ascendência comum de todas as espécies. Trata-se de uma afirmação explosiva, que torna a teoria geral da evolução uma conseqüência não só de uma teoria da evolução humana, mas também de sensibilidades morais e de uma agenda política. E dilacera a idéia de um domínio apolítico e amoral protegido que seria habitado pela ciência de Darwin. A primeira questão suscitada pelo provocativo exercício de Desmond e Moore é se ele é, ou pode ser, correto; a segunda é por que a resposta deve importar tanto.

O argumento causal que leva do abolicionismo firmemente estabelecido à teoria geral da evolução é um passo imenso. Há problemas relacionados com evidências e inferências. Não há intenções declaradas. Nos cadernos de anotações as datas não batem: o aparente reconhecimento por Darwin da ascendência orgânica comum aconteceu antes de qualquer analogia entre "semelhança de família" nos seres humanos e "a classificação dos animais". Há pouco suporte — se é que há algum — para a idéia de que Darwin pensava que a ascendência comum fosse uma tática abolicionista decisiva ou que a instituição da escravidão dependesse de uma crença em que as raças humanas tinham ancestrais diferentes. Darwin sabia que havia uma "escala de civilização" e que os nativos da Terra do Fogo, por exemplo, estavam mais perto da base. Ele sentiu "aversão pelo próprio som das vozes desses selvagens infelizes". Darwin sabia que indivíduos fueguianos podiam ser levados rapidamente a uma condição inglesa civilizada, mas sabia também que "as mais civilizadas entre as chamadas raças caucasianas derrotaram totalmente [outras raças] na luta pela existência. Olhando para o mundo em uma data não muito distante, que número infinito de raças inferiores não terá sido eliminado pelas raças mais civilizadas no mundo inteiro". A idéia de ascendência separada é necessária para justificar escravidão, genocídio e limpeza racial? Talvez ela ajude, mas as pessoas têm feito coisas horríveis àqueles considerados pertencentes à sua própria espécie, até a sua própria nação e sua raça.

Supõe-se que tudo isso não importe. Entre a morte de Darwin, em 1882, e a conferência de Max Weber em 1917 sobre "Ciência como vocação", tornou-se lugar comum a idéia de que não devemos esperar que as percepções intelectuais sejam acompanhadas por virtude moral. Os filósofos morais afirmaram que era um erro lógico passar de um "é" para um "deve ser"; os naturalistas, seguindo o pensamento evolucionista do próprio Darwin, criaram o "mundo desencantado" que Weber pôde tomar como dado; e os próprios cientistas concordaram amplamente que seria errado esperar que o conhecimento natural fosse produzido por pessoas que possuíssem uma virtude especial, ou que a ciência pudesse fornecer receitas para a virtude pessoal ou política. Portanto, nem a pessoa de Darwin nem seu programa político deveriam — desse ponto de vista — importar para o status e o valor de sua ciência. No entanto uma das lições do Ano Darwin é que isso ainda parece importar muito. Pregaram-se sermões amorais e impessoais, mas evidentemente estávamos dormindo nos bancos da igreja. O anúncio da Morte do Autor Cientista foi prematuro. O Ano Darwin deixou claro quão estreitamente nossa cultura ainda liga o homem ao tema, e quais virtudes admiramos naqueles que nos contam as verdades sobre a natureza. O "homem que criou o mundo moderno" tinha uma fibra convencional; o homem cujas obras foram usadas para justificar a competição implacável era retraído, reticente e generoso; um dos livros mais grandiosos da história foi escrito por alguém que insistia em que suas capacidades mentais eram apenas medianas. Cuidando calmamente das plantas em seu jardim, Darwin nos tirou do Éden pela segunda vez.

 

 

Recebido para publicação em 15 de março de 2010.

 

 

STEVE SHAPIN, professor da cátedra Franklin L. Ford de História da Ciência da Universidade de Harvard (EUA).

 

 

[*] Artigo publicado originalmente na London Review of Books, 2010, vol. 32, nº 1, jan. Disponível em <http://www.lrb.co.uk/v32/n01/steven-shapin/the-darwin-show>         [ Links ].
[1] Ed. bras.: A causa sagrada de Darwin. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. Rio de Janeiro, Record, 2009 [         [ Links ]N. T.].
[2] Werth, Barry. Banquet at Delmonico's: great minds, the Gilded age, and the triumph of evolution in America. Londres: Random House, 2009.         [ Links ]
[3] No original: "attendant lords [...] to swell a progress, start a scene or two [...] Deferential, glad to be of use". Trecho, modificado para o plural, de "A canção de amor de Alfred J. Prufrock", de T. S. Eliot. A tradução para o português é de Ivan Junqueira [N. T.].
[4] Ed. bras.: Deus, um delírio. Trad. Fernanda Ravagnani. São Paulo, Companhia das Letras, 2007 [         [ Links ]N. T.].
[5] Documentário televisivo em três partes, escrito e apresentado por Richard Dawkins. Exibido pela primeira vez em agosto de 2008 no Channel 4 britânico. Em janeiro de 2009 ganhou o British Broadcast Award de melhor série documental para televisão [N. T.].
[6] Período da história inglesa entre 1811 e 1820, entre a invalidez do rei George III e a coroação de George IV
[N.E.].
[7] Em tradução livre, Líder Pensante. A expressão surgiu em 1994 na revista norte-americana Strategy & Business para designar os entrevistados que tinham idéias dignas de atenção. Seu uso se disseminou para outras áreas, com o significado de alguém que apresenta idéias viáveis para reanimar antigos processos [N. T.].
[8] Desmond, Adrian e Moore, James. Darwin: the life of a tormented evolutionist. Nova York: W. W. Norton & Company, 1991.         [ Links ]
[9] Ibidem. Darwin's sacred cause: how a hatred of slavery shaped Darwin's view on human evolution. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2009.         [ Links ]

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