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Novos Estudos - CEBRAP

Print version ISSN 0101-3300

Novos estud. - CEBRAP  no.92 São Paulo Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002012000100001 

MEMÓRIA: GUILLERMO O'DONNELL (1936-2011)

 

Guillermo: uma nota pessoal

 

 

Adam Przeworski

Tradução de Joaquim Toledo Jr

 

 

Muitos anos atrás, em meados dos anos 1980, Guillermo e eu ministramos juntos um seminário sobre democracia que alternava, a cada duas semanas, entre Notre Dame e a Universidade de Chicago. Discutíamos muito, acompanhados pelas intervenções animadas dos estudantes, e eu vencia a maioria das discussões. Mas quase invariavelmente eu saía da sala de aula convencido de que ele estava certo.

Guillermo possuía uma habilidade irreal de enxergar grandes fenômenos escondidos no horizonte da história. Ele simplesmente tinha a intuição, o olfato, de dar sentido aos perigos iminentes. Mas era também capaz de ver as pequenas brechas que podiam criar aberturas para a ação. Ele era dotado de um senso profundo da tragédia da história - Guillermo não era um otimista -, mas também de uma determinação implacável de seguir lutando, mesmo nas situações mais desesperadas. Foi ele quem nos fez entender a barbárie iminente da nova forma de ditadura na Argentina. Com Phillipe Schmitter, foi ele quem nos levou a conceber as estratégias para livrar o mundo do autoritarismo1. Jamais foi seduzido pelas celebrações da democracia: Guillermo via o fim das ditaduras apenas como uma chance para lutarmos pela realização de nossos ideais, e via muitos problemas nas novas democracias. Era exemplo do postulado de Gramsci: "pessimismo do intelecto, otimismo da vontade".

Guillermo era um líder. Seu impacto pessoal e intelectual era enorme. Estudantes coreanos escreviam teses sobre o "autoritarismo burocrático" em seu país, acadêmicos russos discutiam "democracia delegativa", e "accountability horizontal" se tornou a linguagem na qual intelectuais pensavam a separação dos poderes. O projeto Woodrow Wilson sobre transição de regimes, que ele coorganizou e codirigiu definiu a agenda de mais de uma geração de pesquisadores no mundo todo.

Conheci Guillermo em 1975, e logo nos tornamos amigos. O que talvez tenha mantido para a amizade seguir viva é que amiúde discordávamos. Com frequência eu pensava que o que ele considerava deficiências especificamente latino-americanas eram apenas problemas genéricos da democracia, e que sua visão da América Latina era injustificadamente pessimista. Ele dizia que eu confundia aparência com realidade. Como éramos, ambos, geniosos, por vezes nossas discordâncias eram exacerbadas. Mas compartilhávamos dos mesmos ideais e ambos sabíamos que, para defendê-los e promovê-los, precisávamos compreender as coisas corretamente. Era possível discordar de Guillermo, mas sua força intelectual era irresistível, e eu nunca saí ileso desses debates. Uma garrafa de vinho curava todas as feridas.

Quem leu apenas alguns trabalhos de Guillermo não consegue apreciar sua incrível persistência. Certa vez, por razões administrativas, tive de ler quase tudo que ele havia escrito, desde o começo de sua carreira até aquele momento. Vi ideias que apareciam como vislumbres em uma nota de rodapé digressiva a outra coisa, e que reapareceriam mais tarde em um working paper, seriam revisadas em um artigo e afiadas e polidas em outro. Guillermo queria entender, e insistia com uma ideia até que julgasse que a tinha entendido por completo, independente do esforço que isso exigisse.

Reconsiderando esses anos, vejo Guillermo acima de tudo como alguém que se importava. Sua paixão pelas ideias, sua determinação de persegui-las, sua força intelectual eram efeito de um compromisso constante com os ideais de liberdade, igualdade e justiça. Ele estava sempre de prontidão: chocado, indignado sempre que via o menor exemplo de repressão ou injustiça. E, para terminar com uma nota pessoal, era um amigo maravilhoso: sempre pronto para oferecer um abraço, consolar, condoer-se ou apenas aproveitar momentos de lazer. Vou sentir sua falta.

 

 

Recebido para publicação em 8 de dezembro de 2011.

 

 

ADAM PRZEWORSKI, cientista político, é professor da Universidade de Nova York e membro do conselho editorial de Novos Estudos.

 

 

[1] Confira, nesta edição, o artigo "Diálogos com Guillermo O'Donnell", de Fábio Wanderley Reis.