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Novos Estudos - CEBRAP

Print version ISSN 0101-3300

Novos estud. - CEBRAP  no.93 São Paulo July 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002012000200001 

MEMÓRIA

 

Antônio Flávio Pierucci (1945-2012)

 

 

Paula Montero

 

 

Como ele mesmo disse ao comentar a morte de seu amigo e mentor Cândido Procópio Ferreira de Camargo, podemos dizer tristemente que Flávio Pierucci morreu antes de sua hora, interrompendo abruptamente uma bela carreira dedicada ao estudo das religiões no Brasil. É, pois, com grande pesar que o Cebrap se despede de um de seus mais ativos colaboradores,que aqui atuou como pesquisador (1970-1987) e como editor desta revista (2001-2004).

Nos albores da fundação do Cebrap em 1969, Cândido Procópio Ferreira de Camargo, interessado no fenômeno da "transição religiosa" brasileira organizou um grupo de pesquisa sobre o tema e convidou Flávio a integrá-lo. Desde então, Flávio tornou-se, a espelho de seu mestre, um dos principais comentadores do panorama trazido pelos censos a respeito do comportamento religioso da população brasileira. Não teve tempo de fazê-lo, infelizmente, para o Censo de 2010. Mas certamente ainda valem para esse censo os comentários que fez para o de 2000: "se desenha para nossa terra um croqui identitário 'neocristão' mais próximo do 'tipo internalizado', tal como definido por Procópio e, posto que internalizado, pós-tradicional". Se for assim, observou ele, onde estaria a propalada diversidade religiosa brasileira? El gato selacomió, conclui ele, provocativamente. Estaríamos, pois,segundo ele, assistindo ao paradoxo no qual o pluralismo evangélico mina o próprio pluralismo religioso na mesma medida em que fomenta o pluralismo cristão.

Instado por Procópio, seu então orientador no mestrado da puc (1977) a ler e estudar com afinco a obra de Max Weber, Pierucci tornou-se um weberiano convicto. Além de especialista no estudo de sua obra (dedicou ao estudo de Weber sua tese de livre-docência1), também introjetou no dna de seus próprios trabalhos duas de suas mais importantes convicções: o que interessa ao estudo das religiões não é a religião em si,mas a religião como alavanca da mudança social;e que não se pode definir a religião "em geral", em sua essência, pois ela é, apenas, um modo particular de ação social.

Desassossegado e irreverente, o pesquisador das religiões gostava de interpelar o pensamento bem-comportado e, sobretudo, criticar aqueles que sob o rótulo da ciência da religião faziam puro proselitismo religioso.

Mas Pierucci foi também, a seu modo, um combatente. Sob o pretexto de retomar analiticamente o conceito weberiano de secularização, muito maltratado segundo ele pelos sociólogos da religião, assumiu integralmente a doutrina política que lhe vem associada: a das "vantagens incomparáveis que a laicidade estatal representa para a diversidade e vitalidade da vida social"2. Há duas décadas o fundamentalismo islâmico não teria feito outra coisa senão colocar sobre a mesa global a implicação mútua entre secularização e legitimação da dominação política. Em suas conclusões o pesquisador propõe a necessidade de "não abrir mão da secularização,nem teórica,nem prática, nem terminológica, nem existencialmente". Nada pode ser mais radicalmente apaixonada do que essa declaração em um texto acadêmico. Esse era Pierucci: instigante, perturbador e apaixonado. Deixa para nós,cebrapianos,o legado de sua obra,que vem sendo discutida e retrabalhada pelas novas gerações, e também muitas saudades.

 

 

Recebido para publicação em 20 de julho de 2012.

 

 

Paula Montero é professora titular do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP e presidente do Cebrap.

 

 

[1] Pierucci, A. F. O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito de Max Weber. São Paulo: Editora 34, 2003.         [ Links ]
[2] Pierucci, A. F. "Secularização em Max Weber:da contemporânea serventia de voltarmos a acessar aquele velho sentido". Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 13, nº37,São Paulo,jun.1998.         [ Links ]