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Novos estudos CEBRAP

Print version ISSN 0101-3300On-line version ISSN 1980-5403

Novos estud. - CEBRAP  no.100 São Paulo Nov. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002014000300009 

Artigos

Dança de parâmetros1

Roberto Schwarz1 

1Roberto Schwarz é crítico literário e professor aposentado da Unicamp

RESUMO

A abertura de Esaú e Jacó é um dos grandes momentos da narrativa brasileira. Subjacente ao seu andamento errático, há um sistema engenhoso de tópicos e pontos de vista, em que está configurada a experiência histórica de uma ex-colônia.

Palavras-Chave: Machado de Assis; Esaú e Jacó; romance brasileiro; romance moderno

ABSTRACT

The opening of Esau and Jacob is one of the great moments of Brazilian narrative. Underlying its erratic progress, there is an ingenious system of topics and viewpoints, in which is set the historical experience of a former colony.

Key words: Machado de Assis; Esau and Jacob; Brazilian novel; modern novel

Entra cantando, Apolo, entra cantando.

Machado de Assis

A poesia das páginas iniciais de Esaú e Jacó (1904) é especial. O segredo, até onde vejo, está no andamento digressivo da prosa, que sujeita um episódio trivial, impregnado da atmosfera brasileira de ex-colônia, a uma inesperada sucessão de contiguidades. Como quem não quer nada, à maneira solta da crônica de jornal, o narrador vai e vem entre uma cena da vida privada fluminense, os hábitos de passeio dos demais moradores da cidade, algo da vida inglesa do tempo, um pouco de Grécia antiga e outro tanto de escravidão negra e mestiçagem. Surgidas ao acaso da narrativa, é claro que estas vizinhanças em aparência disparatadas não têm nada de casual. O seu conjunto forma uma trama de referências bem calculada, a cuja luz a vida dos brasileiros civilizados parece encontrar a sua medida.

O romance começa com duas mulheres subindo o morro do Castelo. Mal começaram a subida, entretanto, já na terceira frase, antes ainda que elas tenham feito o que quer que seja, o narrador as deixa de lado e observa que "[m]uita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi [ao morro], muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés". Através da digressão, que interrompe o fio incipiente da intriga, as duas anônimas se veem contrastadas com um sem-número de conterrâneos, passados, presentes e futuros. Quem são eles? Qual o sentido da comparação? Será favorável? Desfavorável? Por um lado, como sabiam os leitores, o morro não era frequentado por todo mundo e menos ainda pela gente bem-posta. Por outro, ter ido a um lugar que muita gente ignora ou evita não deixa de contar como uma superioridade, pois "[n]em todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira". Embora não esteja dito que as anônimas conhecessem o Rio de Janeiro de fio a pavio, é certo que elas se aventuraram onde muita gente nunca esteve e que, em plano rarefeito, o cotejo as mergulhava em cheio na efervescência urbana - discretamente configurando uma situação de simultaneidade moderna. Assim, entre as donas, a muita gente "que nunca lá foi" e os raros que conhecem tudo da cidade, se é que estes existem, se estabelece um jogo virtual, ligeiramente cômico, da ordem do diz que diz, do comentário mútuo, da discriminação e da competição, que é ele mesmo um achado. Com risco de exagerar, digamos que no plano dos pronomes há uma dança abstrata das mais sutis, um cotejo entre as duas, a muita gente e os nem todos, apontando para o caráter fluido e dividido da cidade, para a indiferença, os vetos e o interesse recíprocos. Em chave implícita, além de minimalista, são frações da capital do país que rivalizam a propósito de um bairro habitado pelo povo pobre, o qual faz parte íntima do conjunto, a despeito da separação2.

Antes ainda que termine o parágrafo, o episódio - quase inexistente - adquire um raio maior, para não dizer planetário, por efeito de uma intercalação intempestiva: "Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo"3. A que vem aqui este inglês de anedota, que torce o nariz para o planeta, não sem antes percorrê-lo todo, e que além do mais não reaparecerá ao longo do livro? Ele seria um símile amplificado das donas audaciosas, que vão aonde outros não foram? Ou seria do outro partido, para o qual as "terras e terras" não valem o clube do costume? Impossível saber. Perto de suas andanças, em que vagamente ecoam a superioridade e as dimensões do Império Britânico, e, por tabela, a posição secundária do Brasil, a ida das duas mulheres ao morro é pouca coisa. É claro que a comparação, meio humorística, não teria ocorrido a elas. É mais outra digressão do narrador, o conselheiro Aires, que por sua vez é um diplomata viajado, dono de uma prosa ultrarrefinada, além de afetada, que na ocasião nos faz saber que frequenta ambientes exclusivos em Londres. Seja como for, embora o paralelo faça sorrir, a comparação está feita. Curiosamente, a despeito da ironia, ela não desqualifica a aventura fluminense das duas senhoras, a qual sai de seu enquadramento brasileiro e é erguida ao mesmo mundo e tempo do inglês globetrotter - a cena contemporânea -, sem prejuízo da grande distância geográfica e social. Embora não pareça, o mundo é um só e pode despertar curiosidade em todos os seus pontos, mesmo os remotos. O morro do Castelo, a cidade inteira do Rio de Janeiro e a ordem internacional cuja metrópole é Londres são cenários imbricados, o que literariamente era e é uma proeza.

Natividade e Perpétua - assim se chamam as senhoras, aliás irmãs - sobem o morro para consultar uma vidente. Meio às escondidas, com o véu baixado sobre o rosto, elas procuram a casa da cabocla do Castelo, cujos poderes sobrenaturais naquele momento davam o que falar na cidade. Desejam conhecer o futuro presumivelmente grande dos gêmeos de Natividade, nascidos há pouco mais de um ano. - Depois do parágrafo algo impalpável que já comentamos, mais de sugestões que de figuras, que evitava denominar a matéria das tensões sociais, entram em cena os contrastes de raça, cultura, religião e classe, além do nome próprio das personagens. As cores agora são francas, por oposição à tenuidade e à abstração eufemística que dominavam nas linhas iniciais. Sem meias palavras, o povo do morro é pobre, composto de crianças, lavadeiras, crioulos, soldados, padres, lojistas etc., ao passo que as freguesas da adivinha, que preferem não ser identificadas, pertencem à chamada boa sociedade do Rio de Janeiro. Diante da diversidade tensionada do real, os pronomes indefinidos - os alguns, nem todos, a muita gente - funcionam como paráfrase discreta, ligeiramente irônica, ou como álibi para a desigualdade. Generalizando, digamos que esse vaivém entre os registros abstrato e concreto, entre o pronome e a coisa, entre a impessoalidade e a pessoa física, a que se prende um humorismo próprio, é um procedimento constante da prosa machadiana, em que ressoa uma experiência histórica. O seu suporte de fundo é a discrepância entre a paisagem social da ex-colônia, marcada pelo colorido pré-burguês, retardatário a seu modo, além de exótico, e a idealização engomada da civilização europeia moderna.

Tratando-se de gente fina, que se queria superior à ignorância popular, a visita à cabocla podia ser um passo em falso. Natividade e Perpétua sabiam disso e consideravam que estariam "perdidas" se fossem descobertas - "embora muita gente boa lá fosse"4. Esta última ressalva, que para as duas senhoras significava uma atenuante, para o leitor avisado funciona como uma piscadela do conselheiro Aires, que faz saber aos atentos que a sociedade carioca era menos esclarecida do que pretendia. Veja-se neste sentido o marido de Natividade, um banqueiro que escarnece das "crendices da gente reles" ao mesmo tempo que ele próprio faz uma consulta espírita, naturalmente autorizada por leis científicas5. Com a arrogância de menos, a posição das irmãs é igualmente representativa: "Tinham fé [na cabocla], mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas"6. De passagem, note-se a malícia com que a prosa do conselheiro mescla a terminologia católica da fé, da devoção e da bênção à esfera da religiosidade afro-brasileira. Em suma, as duas senhoras precisavam passar despercebidas, a) para não se verem misturadas ao povo do morro, já que pertenciam às classes distintas da sociedade, e b) para não serem malvistas em sua própria classe social, que entretanto era menos evoluída do que se dizia. Diferentemente da consulta espírita do banqueiro, a visita à cabocla deixava transparecer afinidades com o fundo popular do país, cuja composição cultural e social miscigenada, herdada da Colônia, era justamente o que interessava à classe alta esconder. Completando a desfeita aos esquemas aprovados, observe-se ainda que nas circunstâncias o objeto da curiosidade não era o mundo popular, com sua gente mestiça e religião bárbara, mas sim as duas senhoras, que faziam figura exótica no ambiente. "Uma crioula perguntou a um sargento: 'Você quer ver que elas vão à cabocla?' E ambos pararam à distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana"7. Sem alarde, o deslocamento da iniciativa, ou melhor, do "invencível desejo de conhecer a vida alheia", faz diferença, contrariando as precedências de classe implícitas, por exemplo, no enfoque naturalista da época. Por um momento, a narrativa adota a ótica dos de baixo, ao passo que a marca do exotismo se aplica aos de cima. O procedimento desautomatiza a hierarquia corrente e torna mais arejado o quadro, ao qual confere a dimensão policêntrica do conflito social. Graças a transformações pequenas mas decisivas, o que pode parecer uma simples crônica da periferia pobre da cidade, com seu pitoresco unilateral e sem surpresa, ganha a liberdade da verdadeira literatura.

No mesmo espírito de impertinência velada, a narrativa anota que a sala da adivinha é simples, com paredes nuas, sem nada que sugira o sobrenatural - "nenhum bicho empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões" -, salvo "um registo da Conceição colado à parede", que entretanto não assusta. Rindo para dentro, com isenção esclarecida, de livre-pensador, o conselheiro não faz diferença entre a imagem da Virgem Imaculada e os demais "petrechos simbólicos" da superstição. Em seguida, depois de relativizar o mistério cristão, alinhando-o entre outras formas populares de credulidade, o narrador troca o rumo das comparações e enaltece a religiosidade do povo, agora posta em paralelo com os costumes da Grécia antiga. "Relê Ésquilo, meu amigo, relê as Eumênides, lá verás a Pítia chamando os que iam à consulta [...]"8. Também aqui o propósito é de confundir o leitor bem-pensante, que olha de cima a sacerdotisa do morro. Não há dúvida que o conselheiro estava sugerindo que o Rio de Janeiro da cabocla - um caso de polícia, segundo certo desembargador9 - poderia ter algo em comum com a Atenas de Ésquilo. Nesse caso, o nosso vergonhoso atraso popular teria virtualidades clássicas, e chegaria talvez a ser o berço de uma civilização? É uma sugestão lisonjeira, que se opõe ao pessimismo pseudocientífico das teorias naturalistas, da raça e do meio, que condenavam o nosso povo à inferioridade. Dito isso, a comparação tem também um ponto de fuga oculto, menos favorável, que num livro tão maquinado precisa ser levado em conta. Nas Eumênides, os augúrios horrendos da Pítia precedem uma viravolta triunfal, a instituição da justiça propriamente humana na cidade; interrompe-se o ciclo bárbaro e interminável das vinganças de sangue e abre-se uma nova era. Ao passo que as palavras da cabocla anunciam o contrário: os gêmeos de Natividade, que mal ou bem alegorizam a vida política do país, brigarão por toda a eternidade, a propósito de tudo e de nada, numa rivalidade de classe alta, sem sentido e medíocre. Cabe ao bom leitor, que segundo Aires é dotado de vários estômagos, como os ruminantes10, decidir se a aproximação com a Grécia clássica é um gesto de reivindicação nacional, um sarcasmo dirigido ao establishment ou as duas coisas.

O discernimento com que é conduzida a cena em que Natividade consulta a vidente é admirável, sem concessão ao sobrenatural nem desprezo ilustrado pela vida popular - uma posição que em cem anos não envelheceu. O transe da cabocla é descrito sobriamente, com leve estilização clássica, longe do exotismo ou sensacionalismo. "Agitava-se agora mais, respirando grosso. Toda ela, cara e braços, ombros e pernas, toda era pouca para arrancar a palavra ao Destino"11. Até onde vejo, não há aqui intenção de desmistificar, mas tampouco de fazer crer. De fato, as palavras ulteriores da adivinha não têm nada de inexplicável, uma vez que só profetizam o que a própria Natividade sugeria ou deixava entrever. Nem por isso são invencionices, pois traduzem o que os olhos da cabocla, "lúcidos e agudos", ou também "opacos", que "entravam pela gente" e "revolviam o coração", lutavam por adivinhar12. Neste sentido, a ironia que cerca o capítulo não se refere à vidente, que afinal de contas faz bem o seu ofício, mas à sua freguesa da alta roda, um tanto envergonhada de estar ali, que paga para saber de antemão o que não podia deixar de acontecer, ou seja, que os filhos dos ricos serão ricos e importantes. Avançando um passo, Natividade leva a superstição ao ponto de chamar simpática a cabocla, na esperança de captar a sua boa vontade e melhorar o destino dos gêmeos... Já de outro ângulo ela é tão bruxa quanto a vidente, de quem não tira os olhos, "como se quisesse lê-la por dentro", e com a qual luta de igual para igual13. Quer que lhe diga "tudo, sem falta", tudo, naturalmente, o que ela própria deseja ouvir14. Tomando recuo, digamos que a cabocla, o morro com seus populares, a senhora da alta-roda e o narrador cosmopolita compõem uma situação cheia de complexidade real e literária, em que as imensas distâncias que separam os polos da sociedade brasileira se relativizam, criando um espaço comum. As posições sociais afastadas, os interesses contrários e as crenças incompatíveis se determinam mutuamente, ao contrário do que supõe o dualismo ilusório, para não dizer estúpido, entre civilizados e bárbaros, que estava em voga naquele começo de século e até hoje nos persegue.

Concluída a consulta, ouve-se o pai da cabocla na peça ao lado, cantando uma toada do Norte.

Menina da saia branca

Saltadeira de riacho

Trepa-me neste coqueiro

Bota-me os cocos abaixo.

Quebra coco sinhá,

Lá no cocá

Se te dá na cabeça,

Há de rachá

Muito hei de me ri

Muito hei de gostá,

Lelê, cocô, naiá15.

Na primeira quadra, em português culto, a sinhá manda a menina - presumivelmente uma negrinha - subir no coqueiro para botar abaixo os cocos. Na sequência, em língua de preto e com sadismo alegre, a menina diz que, se acaso um coco rachar a cabeça de sinhá, muito há de rir, muito há de gostar. "Lelê, cocô, naiá".

Completa-se o desfile dos assuntos fortuitos, que entretanto dimensionam o quadro. Aí está, como um comentário oblíquo sob forma de cantiga, um ponto de vista saído da escravidão, recém-abolida no momento em que se escrevia o romance.

[1] Este artigo faz parte de um volume de homenagem aos 70 anos de Davi Arrigucci Jr., a ser publicado em 2015.

[2] Machado de Assis, Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 19.

[3] Id., ibid.

[4] Id., ibid., p. 24.

[5] Id., ibid., pp. 35 e 47.

[6] Id., ibid., p. 20.

[7] Id., ibid., pp. 19-20.

[8] Id., ibid., p. 20.

[9] Id., ibid., p. 37.

[10] Id., ibid., p. 126.

[11] Id., ibid., p. 22.

[12] Id., ibid., p. 21.

[13] Id., ibid., p. 22.

[14] Id., ibid., p. 23.

[15] Id., ibid., p. 23.

Recebido: 08 de Dezembro de 2014

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