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Estudos Econômicos (São Paulo)

versão impressa ISSN 0101-4161

Estud. Econ. vol.41 no.2 São Paulo abr./jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-41612011000200001 

MENSAGEM AOS LEITORES

 

 

Foi com imensa honra e enorme gratidão que recebi o convite para ser patrono da nossa revista "Estudos Econômicos", que completa o seu 41º ano. É sucessora de publicação mais antiga, a Revista de Teoria e Pesquisa Econômica.

Este é um momento particularmente interessante para a nossa profissão. A crise de 2007/09 que atingiu o sistema financeiro, interrompeu o "circuito econômico" e já custou mais de 5% do PIB mundial e deixou desempregados mais de 30 milhões de honestos trabalhadores. Ela mostrou as limitações dos nossos conhecimentos de como funciona, de fato, o sistema econômico. Mostrou mais: a precariedade do que parecia uma revolução científica, a Economia Financeira, construída por pequenos economistas, supostos grandes matemáticos!

O economista é um cientista social que tenta entender como funciona o mundo real (e não impor-lhe o que gostaria que ele fosse), que tenta encontrar algumas regularidades e organizar estórias plausíveis sobre elas. O resultado do seu trabalho deve ajudar a lubrificar o funcionamento das instituições que levam ao desenvolvimento sustentável com justiça social. Nem toda atividade social é de interesse da economia, mas toda atividade econômica é de interesse social. O agente econômico é um animal mais complicado do que supúnhamos: aprende com uma racionalidade limitada inserido num universo de incertezas.

O individualismo metodológico e os agentes representativos, que estão na base das nossas construções teóricas são insuficientes para entender o fenômeno social das redes que dominam o universo social, da tendência à imitação dos agentes e da segurança que a norma dá ao cidadão. Este, seguramente, move-se por estímulos e interesses, mas se move num espaço social, numa rede da qual é só um elemento, mas condiciona as suas escolhas.

A pobre discussão, que envolveu a ideia de "Estado Mínimo" era apenas uma ação diversionista. Na verdade, não existe "mercado" sem um Estado capaz de garantir as condições de seu funcionamento. Numa larga medida a forma de organização do sistema produtivo é ditada pelos que detém o poder político e formula a política econômica que serve aos seus interesses. A sua justificativa teórica e a formalização para justificá-la é um produto ideológico. Para entender isso basta ver como a tomada do poder pelas finanças nos EUA levou a uma política econômica que lentamente erodiu a legislação que regulava suas atividades e fora produzida após a Grande Depressão. Muito rapidamente os "cientistas" produziram a "ciência" que justificava a total desregulamentação da atividade financeira em nome da "eficiência" e da descoberta de "inovações" capazes de medir os "riscos" de forma que nunca mais se voltaria a 1929!

É preciso incorporar no DNA dos economistas a autonomia do político. Nas situações de conflitos irreconciliáveis, só o poder político pode arbitrar. Ainda que possamos ter, por exemplo, sugestões interessantes sobre a flexibilidade do mercado de trabalho (o que não é muito seguro do ponto de vista empírico), elas são, claramente, propostas "normativas" que produzem, inevitavelmente, "vencedores" e "perdedores". É um pouco ridículo sugerir aos últimos que devem sacrificar-se em nome de um "valor maior" construído sobre bases teóricas discutíveis.

A minha esperança é que "Estudos Econômicos" continue a abrigar contribuições de todos os matizes, teóricos e ideológicos, porque aqui, como na biologia, só a diversidade é fértil. Essa, aliás, é uma velha tradição da FEA/USP. Apenas para dar um exemplo. Nos idos de 1947, o ilustre Prof.Paul Hugon nos ensinava – na cadeira de Economia Política – que a moeda era "qualquer coisa" aceita pela sociedade com as qualidades de ser uma unidade de conta, de resgatar compromissos e capaz de ser reserva de valor. Era apenas um véu que escondia a economia real. Logo em seguida, o não menos ilustre Prof.Heraldo Barbuy – na cadeira de Sociologia – vinha nos "enriquecer" inspirado em George Simmel, que não era tão simples: a moeda era produto de uma convenção social que tinha profunda influência no comportamento humano, como a cupidez, a avareza e a prodigalidade e exercia profunda influência sobre a economia real.

Estamos diante de um novo e excitante momento. Sinto não ser mais jovem para aproveitar as oportunidades que se abrem à nossa profissão para prosseguir no trabalho de oferecer instrumentos para a boa governança dos Estados.

 

Boa sorte a todos.

Antonio Delfim Netto