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Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material

Print version ISSN 0101-4714

An. mus. paul. vol.19 no.2 São Paulo July/Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47142011000200001 

APRESENTAÇÃO FOREWORD

 

 

Cecilia Helena de Salles Oliveira
Diretora do Museu Paulista da USP

 

 

Os artigos reunidos neste número espelham a vocação dos Anais do Museu Paulista para acolher contribuições multidisciplinares em torno de temas e problemas de interesse para os estudos em história social, história política, cultura material, cultura visual e história dos museus. Além disso, são trabalhos que se originaram de pesquisas em curso em várias regiões do Brasil, e fora dele, destacando a aproximação com colegas do México, da Argentina e da Espanha.

Predominam questionamentos relacionados às formas e significados de representações e imagens em diferentes períodos históricos. Assim, o trabalho de Elaine Dias dedica-se a investigar retratos de princesas, filhas de Carlota Joaquina e D. João VI, confeccionados por Nicolau-Antoine Taunay, na Rio de Janeiro do início do século XIX. Em que medida poder-se-ia compreender a arte de Taunay como expressão singular de traços e repertório que circulavam nas sociedades coloniais americanas e nas sociedades europeias? O que teriam representado esses retratos do ponto de vista da consolidação de enlaces matrimoniais e relações diplomáticas entre a casa real portuguesa e a casa real espanhola, no momento em que novos arranjos políticos e de poder se projetavam após um longo tempo de guerras na Europa?

Por outro lado, Jefferson Queler também se deteve nos retratos, mas para problematizar a imagem pública de Jânio Quadros durante a construção de sua polêmica trajetória política até tornar-se presidente da República, em 1960. Não se trata aqui, porém, da pintura do retrato, mas, sobretudo, do retrato fotográfico, capturado e estampado em inúmeras edições de duas das mais importantes e influentes revistas da época: O Cruzeiro e Manchete. O que podem evidenciar essas imagens quando se indaga sobre os fundamentos políticos e imagéticos da memória com a qual a figura de Jânio Quadros chegou até nós?

Distanciando-se do retrato, sem deixar de prender-se à fotografia, o artigo de Lourdes Roca debruça-se sobre as peculiaridades e implicações para a história urbana da utilização de registros aéreos, constantemente identificados a instantâneos capazes de flagrar os espaços citadinos em todos os seus detalhes. O foco central está na análise e confrontação de imagens aéreas que, entre os anos de 1930 e 1970, acompanharam os debates e intervenções envolvendo o lugar que deveria ser ocupado pela estátua equestre de Carlos IV e pela encruzilhada de El Caballito, no centro histórico da capital mexicana.

Já o estudo de Jussara Derenji privilegia desenhos recentemente encontrados  na Catedral de Belém, erguida no século XVIII e restaurada há pouco mais de dois anos. Buscando compreendê-los em suas relações com a obra do arquiteto italiano Antonio José Landi nessa igreja do Pará, a autora revela, também, a possibilidade de reconstituir o esforço anônimo de artífices locais, especialmente descendentes de índios e africanos, nem sempre reconhecidos e admirados.

Ao lado desses, dois outros artigos compõem o volume. O texto de Tiago Kramer de Oliveira discute a impossibilidade de dissolver as relações entre mineração e organização de produção agrícola durante a ocupação da região do atual Mato Grosso no século XVIII, articulando essas questões com o debate historiográfico acerca do peso da administração metropolitana em áreas limítrofes do império português. Finalmente, o artigo elaborado por Marisa González de Oleaga e Ernesto Bohoslavsky apresenta reflexões sobre o papel político e cultural de museus históricos comunitários, tomando como parâmetro dois museus pouco conhecidos no Brasil: o museu fundado pelos galeses que imigraram para a Patagônia Argentina, em fins do século XIX; e o museu criado pela colônia menonita, em meados do século XX, no Chaco paraguaio.

É possível perceber que um ponto comum a todos esses trabalhos está no recorte e valorização de fragmentos – sejam temas ou fontes – sem os quais a abordagem de processos históricos e culturais mais amplos ficaria prejudicada. Superar as clivagens entre múltiplas particularidades e as circunstâncias universais que as articulam é descoberta que os leitores irão certamente compartilhar com os autores aqui reunidos.