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Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material

Print version ISSN 0101-4714On-line version ISSN 1982-0267

An. mus. paul. vol.24 no.2 São Paulo May./Aug. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02672016v24n02ap 

APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO

Maria Aparecida de Menezes Borrego

Paulo César Garcez Marins

Neste fascículo, Anais do Museu Paulista trazem ao público seis artigos e uma resenha que ora abordam, ora tangenciam a temática da circulação de saberes e artefatos no âmbito brasileiro e nos espaços a ele articulados em diferentes contextos. Embora tenham propósitos bastante singulares, os estudos muito contribuem para adensar o conjunto de trabalhos desenvolvidos no campo da cultura material que se tem dedicado a considerar as ideias e os objetos mobilizados pelas ações humanas como perspectivas analíticas para o enfrentamento de problemas históricos, definidos de forma clara e certeira por Ulpiano Bezerra de Meneses como aqueles que dizem respeito à dinâmica da vida das sociedades.

Os dois artigos que abrem o número trazem a paisagem das fazendas de café da região de Campinas, no oeste paulista, seus proprietários, escravos e frequentadores durante o século XIX, por vezes, contemplando os mesmos atores sociais.

Rafael Marquese dedica-se a analisar a trajetória de Hercule Florence, dividindo-a em duas etapas - a primeira, marcada pelas múltiplas atividades como artista, inventor, proprietário de loja de fazenda e botica e, a segunda, caracterizada por sua atuação como cafeicultor à frente da fazenda Soledade, herdada da família de sua esposa. A unir esses dois momentos de uma mesma vida, que teve início em Nice, na França, estão suas experiências numa sociedade escravista de fronteira, captadas pelo historiador por meio das mudanças no sentimento de exílio que transparecem em seus desenhos, aquarelas, correspondências. A inédita documentação da administração da fazenda e de seus escravos traz novas perspectivas para a trajetória de Florence, recorrentemente lembrado como inventor da fotografia, e que aqui é inovadoramente analisado enquanto um senhor diante de seus dilemas e de suas ambições em meio ao sistema escravista.

Florence também é mencionado no artigo de Maria Alice Rosa Ribeiro e Lenita Waldige Mendes Nogueira. Porém, nesse trabalho, privilegiou-se seu desempenho como artista que representou o engenho Cachoeira, pertencente a Francisco Teixeira Vilela, igualmente proprietário das fazendas Santa Maria, Morro Alto e Saltinho. O artigo aponta como o nome dessas fazendas foram imortalizados nas contradanças da Quadriglia, composta em Milão pelo maestro campineiro Carlos Gomes. Por meio da elucidação das relações sociais entre esses três personagens e seus familiares, as autoras habilmente jogam luz sobre a realidade artística e socioeconômica oitocentista de Campinas.

Cybelle Salvador Miranda e Fernando Jorge Artur Grilo, por sua vez, analisam os projetos de Frederico José Branco e de Manuel de Almeida Ribeiro para a construção de dois edifícios ligados à saúde - o Hospital D. Luiz I, da Real Sociedade Beneficente Portuguesa em Belém, Pará, e o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto. Uma vez comparados, as biografias socioprofissionais dos projetistas e os próprios hospitais revelam o trânsito dos conteúdos ensinados nas cadeiras de Arquitetura das Academias de Belas-Artes de Lisboa e do Porto e as relações luso-brasileiras na segunda metade do século XIX. Abrem-se, assim, novas perspectivas para que se compreenda a permanência das relações culturais e artísticas entre as cidades brasileiras e Portugal, matizando uma frequente alusão à França como referencial fundamental, senão único, para a produção arquitetônica em nosso país já durante o Império.

No artigo de autoria de Wiara Alcântara, temos oportunidade de acompanhar os percursos dos modelos de carteiras e bancos da França e Estados Unidos para o Brasil, num contexto de veiculação das ideias políticas em favor da escola pública e obrigatória. Ao analisar catálogos de indústrias de mobiliário escolar e o relatório do júri da Exposição Pedagógica de 1883, no Rio de Janeiro, a autora desnuda o complexo jogo entre o discurso de modernização pedagógica, a indústria voltada à produção de materiais escolares e as exposições universais, que extrapolava as fronteiras nacionais.

Os autores do quinto e sexto artigos se debruçam sobre o movimento de ideias de intelectuais que refletiram sobre a sociedade e a cultura brasileiras em suas obras ao longo do século XX. No caso de Mario de Andrade, Caion Meneguello Natal perpassa sua diversificada produção, apontando para a reincidência de interpretações pautadas na conjugação de pressupostos estéticos, apropriados de teorias vanguardistas europeias, e concepções próprias sobre a formação histórica e étnica nacional. Já Aline Coelho Corato toma as obras de italianos imigrados no Brasil após a Segunda Guerra Mundial - Lina Bo Bardi, Giancarlo Palanti, Roberto Sambonet, Bramante Buffoni e Pietro Maria Bardi -, com a intenção de nelas visualizar a materialização de suas leituras díspares sobre o país, a um só tempo estrangeiras e ambientadas à nova realidade.

Uma resenha sobre a tese de doutorado de Mariana de Campos Françozo transformada em livro em 2014, sob o título De Olinda a Holanda, fecha o presente volume. Luis Felipe Sobral se vale da discussão sobre os itinerários sociais de dois artefatos pertencentes ao Museu Etnográfico do Trocadéro, em Paris, para introduzir a obra de Françozo e sua problemática central - as trajetórias percorridas pelas peças da coleção de Maurício de Nassau, por ele dispersadas paulatinamente pelo após sua saída do governo holandês nas terras coloniais sul-americanas e de seu retorno aos Países Baixos. O antropólogo destaca o mérito da autora que, ao identificar a intrincada e extensa rede sociopolítica envolvida com os objetos nassovianos, descortinou as dinâmicas da construção do saber na época moderna. E, conclui, afirmando com propriedade que a obra já se torna referência para os estudos sobre a circulação de homens e artefatos nos mais variados contextos históricos.

Anais do Museu Paulista assim cumpre, mais uma vez, sua intenção de divulgar trabalhos de largo empenho em pesquisa documental e estruturados a partir de perspectivas analíticas inovadoras, capazes de alimentar temáticas ainda pouco exploradas na historiografia da cultura material como mediadora da sociedade brasileira e de suas conexões com os fluxos culturais internacionais.

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