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Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material

versão impressa ISSN 0101-4714versão On-line ISSN 1982-0267

An. mus. paul. vol.25 no.1 São Paulo jan./abr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02672017v25n01ap 

EDITORIAL

APRESENTAÇÃO

Maria Aparecida de Menezes Borrego, Editor

Paulo César Garcez Marins, Editor

Neste número, abrem os Anais do Museu Paulista nove artigos reunidos no dossiê Cultura material no universo dos Impérios europeus modernos, organizado por Maria Aparecida de Menezes Borrego, docente do Departamento de Acervo e Curadoria do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, e José Newton Coelho Meneses, professor associado do Departamento de História, da Universidade Federal de Minas Gerais. A partir de debates ocorridos desde 2012 nos Encontros Internacionais de História Colonial, nos Seminários Internacionais de História da Alimentação e Cultura Material e nos encontros do grupo de pesquisa Elementos Materiais da Cultura e Patrimônio (UFMG/CNPq), formulou-se a ideia deste dossiê que conta a participação de Leila Mezan Algranti, Isabel dos Guimarães Sá, Mariza de Carvalho Soares, Gregório Saldarriaga e José Carlos Vilardaga, todos integrantes desses encontros. O conjunto está enriquecido com a incorporação dos textos de Dante Martins Teixeira, Angela Brandão, Rodrigo da Silva e Carlos Eduardo França de Oliveira. E nova edição de dossiê com a mesma temática e organizadores já está em andamento com publicação prevista para 2018.

A circulação de homens e de artefatos nos Impérios europeus são os pontos centrais dos seis primeiros artigos. Leila Algranti se concentra no serviço de mesa que viajou com a Família Real para o Rio de Janeiro em 1808 e com ela retornou para Lisboa em 1821, para analisar o funcionamento e a representação da Corte joanina nos dois lados do Atlântico e questionar certas visões de pobreza e acanhamento a ela associadas. A partir de bens doados à Misericórdia do Porto, Isabel dos Guimarães Sá mapeia uma constelação de objetos suntuários e comuns que chegava à metrópole, procedentes dos mais diversos espaços coloniais nos séculos XVI e XVII, e se espalhava por cidades do reino, em mãos de proprietários de vários segmentos sociais, não restritos às elites socioeconomicas. Mariza Soares aponta para a importância do comércio do marfim nos portos da costa do Congo e Loango, de 1490 a 1620, antes do crescimento do comércio de escravos africanos, e traça sua trajetória aos centros europeus. Dante Teixeira parte do tráfico de papagaios da América tropical para a Europa e da associação das aves com seres demoníacos, em razão da capacidade de fala dos animais, para discutir as relações intrincadas entre o homem e o mundo natural, que por vezes tornavam tênues a compreensão dos limites entre as espécies. José Carlos Vilardaga, por sua vez, desloca o olhar para o trânsito das mercadorias entre as Américas lusitana e espanhola por meio do sequestro de bens de comerciantes detidos nos caminhos entre São Paulo e Peru no contexto da União Ibérica, revelando a fluidez das fronteiras para os negócios coloniais no âmbito das fronteiras da capitania de São Vicente. É também sobre os domínios castelhanos na América que Gregorio Saldarriaga se debruça, mas sob sua lente estão os indígenas empregados nos trapiches e engenhos de açúcar do Novo Reino de Granada, com especial a atenção a sua vida comunitária e aos hábitos de consumo.

Práticas sociais e peças de mobiliário são objetos de abordagens bastante distintas por parte de Angela Brandão e de Maria Aparecida Borrego. A primeira ilumina o universo das miniaturas de móveis, destacando suas funções ritualísticas, lúdicas e de uso e dedicando-se a refletir sobre o saber fazer dos artífices reinóis e americanos, sob um duplo aspecto: o das provas de exame e o da estatuária sacra colonial de reduzidas dimensões que informavam não só sobre as habilidades como as devoções envolvidas na reprodução de originais de tamanho natural. Já Borrego vale-se da catalogação de acervos museológicos para móveis de conter e guardar para discutir situações de aproximação e incompatibilidade entre os termos utilizados pelos coevos para designar determinadas peças nos séculos XVIII e XIX e a classificação das peças em museus. A importância do diálogo crítico entre fontes de natureza diversa também se faz presente no último artigo do dossiê, de Rodrigo da Silva e Carlos Eduardo França. Ao problematizarem o tombamento de Pilar de Goiás calcado em seu suposto perfil exclusivamente minerador, os autores propõem uma nova interpretação a respeito da cidade confrontando as múltiplas e díspares memórias sobre o passado colonial do lugar com documentos históricos e produção historiográfica a fim de dar visibilidade a uma sociedade multifacetada.

A Seção de Estudos de Cultura Material ainda conta com o instigante e sensível artigo de Annateresa Fabris sobre as estratégias adotadas por grupos de resistência à ditadura argentina de Jorge Rafael Videla em ações públicas e instalações artísticas para reforçar a identidade e dar visibilidade aos desaparecidos políticos considerados não entidades pelo regime. Aloísio Schmid, Juarez Bergmann Filho e Rodrigo Mateus Pereira analisam a utilização de instrumentos musicais na poesia popular nordestina e a literatura de cordel. Felipe Landim revisita a fazenda Ibicaba, pioneira na utilização do trabalho livre no estado de São Paulo no século XIX, jogando luzes sobre as tensões criadas na propriedade em meio aos protocolos espaciais de controle de mão-de-obra e os mecanismos usados por cativos e livres para fugirem à vigilância. Por fim, Eduardo Luís Araújo de Oliveira Batista estuda a representação visual da natureza tropical na arte sacra colonial, sobretudo de frutas nativas registradas na decoração das igrejas da América portuguesa, como elemento auxiliar na estratégia de conversão católica por meio da alegorização moral e religiosa do mundo natural local.

Integram a Seção Museus dois artigos de natureza e perspectivas analíticas completamente diferentes, mostrando a pluralidade de abordagens que a área comporta. Bruno Brulon realiza uma revisão conceitual da obra do museólogo tcheco Zbyněk Zbyslav Stránský e a Escola de Brno, apresentando o contexto de sua produção, principais interlocutores e con-tribuições, dando subsídios para o adensamento das discussões sobre teoria museológica no Brasil. Encerra o fascículo o artigo de Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes e Gina Esther Issberner que focaliza a construção e atuação do Memorial da Imigração Polonesa de Curitiba, discutindo o conceito de museu memorial no Brasil e em outros contextos, dimensão raramente trabalhada pela literatura que trata do patrimônio cultural, finalizando-se assim, mais uma contribuição que Anais do Museu Paulista, por meio desse instigante conjunto de artigos, fornece à renovação dos estudos de cultura material no Brasil.

Maria Aparecida de Menezes Borrego Paulo César Garcez Marins Editores

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