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Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material

versão impressa ISSN 0101-4714versão On-line ISSN 1982-0267

An. mus. paul. vol.25 no.3 São Paulo set./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02672017v25n03ap 

EDITORIAL

APRESENTAÇÃO

Maria Aparecida De Menezes Borrego

Paulo César Garcez Marins

Este número de Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material contém uma inovação editorial na já longa trajetória desta revista fundada em 1923. Pela primeira vez, realizamos uma edição em parceria internacional relativa ao dossiê “Parques e jardins”, inserido na seção Estudos de Cultura Material. Organizado por Mônica Raisa Schpun e por Paulo César Garcez Marins, os artigos que compõem esse dossiê são publicados simultaneamente por este periódico e pela revista Brésil(s) - Sciences Humaines et Sociales, editada pelo Centre de Recherches sur le Brésil Colonial et Contemporain (CRBC-Mondes Américains), órgão da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e publicada pelas Éditions de la Maison des Sciences de l’Homme. Um dos resultados do projeto de pesquisa internacional “Du Monde en miniature au jardin planétaire: imaginer, vivre e (re)rcréer le jardin de mondes anciens à nos jours”, sediado na Université Sorbonne Paris Cité sob coordenação de Anna Caiozzo, o dossiê reúne artigos de pesquisadores brasileiros sobre parques e jardins brasileiros, realizados por Cristiane Maria de Magalhães, Aline Figuerôa Silva, Vera Beatriz Siqueira, Fernanda Araujo Curi e Márcia Regina Romeiro Chuva. Distantes de uma abordagem tradicionalmente formalista com que se abordam tais espaços, as autoras privilegiam a compreensão de parques e jardins públicos e privados localizados no Sudeste e Nordeste do Brasil a partir dos agentes que os constituíram, das dificuldades de sua implantação e preservação e das soluções técnicas que os caracterizam.

A sessão prossegue com um artigo de Ana Cláudia Castilho Barone que, por feliz coincidência, conecta-se com o dossiê que lhe antecede ao problematizar as ideias e as práticas em torno da constituição do Parque Ibirapuera, localizado em São Paulo. Inaugurado para as comemorações do quarto centenário da cidade, em 1954, o parque foi, entretanto, imaginado já desde a década de 1920, sofrendo várias alterações em sua concepção e espacialidade. Utilizando fontes diversificadas, a autora reconstitui os interesses em torno da implantação e dos limites do parque, tomando-o como um caso revelador das disputas que caracterizam tais espaços urbanos, como também destacam os textos de Márcia Chuva e de Fernanda Curi.

Telma de Barros Correia novamente agracia este periódico com um artigo inovador, em que dá prosseguimento aos seus estudos sobre as formas de habitação ligadas ao universo fabril brasileiro. Focalizando desta vez a construção de edifícios de apartamentos para operários, a autora não apenas lança luz sobre as características de tais imóveis, destinados especialmente a solteiros, e sobre as motivações das empresas em construí-los, mas alarga a compreensão da própria tipologia arquitetônica. Estudados recorrentemente no enfoque que privilegia os prédios implantados nos bairros e destinados às classes médias ou às elites, ou aos grandes conjuntos habitacionais iniciados a partir das décadas de 1930 e 1940, os apartamentos ganham, neste artigo, uma perspectiva que os enriquece como experiência espacial, social e também política.

A sessão Museus publica o artigo de Aline Montenegro Magalhães sobre as atividades da Inspetoria de Monumentos Nacionais, órgão do Museu Histórico Nacional criado sob o estímulo de seu diretor, Gustavo Barroso, na preservação de Ouro Preto. O órgão iniciou nessa cidade, no âmbito nacional, as ações de preservação patrimonial, por meio da restauração de 20 imóveis e equipamentos urbanos, como igrejas, fontes e chafarizes. Esvaziada de suas funções a partir de 1937, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), a Inspetoria guarda com esse órgão inúmeras afinidades temáticas e conceituais sobre a ideia de identidade nacional brasileira, sendo-lhe concorrente política e tecnicamente. Com este artigo, Anais do Museu Paulista integram-se, portanto, às comemorações de 80 anos de criação do atual Iphan, que por este viés, é também a celebração do encerramento das atividades da Inspetoria de Monumentos Nacionais e da intenção de Gustavo Barroso de integrar a preservação arquitetônica às atribuições museais da instituição que dirigiu até 1959.

O artigo de Andrea Cavicchioli, Priscila Leitão Denardi Alegre e Ariel Guilger Simões Martins abre a sessão Conservação e Restauração com um cuidadoso exame das possibilidades de aplicação dos conceitos de microclima e microambiente e suas implicações para a análise de procedimentos de conservação preventiva em espaços fechados (ou indoor), a partir do estudo de caso da sede do Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo, a chamada Casa de Dona Yayá. Inserida em um bairro central paulistano, a construção situa-se ao lado de um dos principais corredores de tráfego da capital - a ligação Leste-Oeste - estando exposta continuamente a altos índices de sujidades e poluentes gasosos. O artigo explora a necessidade de atentar-se às variáveis impostas pelo espaço e às escolhas realizadas pela pesquisa de campo, de modo a que a apuração de índices clássicos de temperatura, umidade e luz, bem como o de infestações biológicas e de gases como o ozônio, sejam associadas ao estudo do próprio espaço e de sua inserção urbana, gerando uma compreensão mais integrada e crítica dos próprios procedimentos de análise.

Tainá Chermont Arruda e Thais Alessandra Bastos Caminha Sanjad estudam, na sequência da sessão Conservação e Restauração, a degradação de ornamentos arquitetônicos localizados em platibandas do centro histórico de Belém, no Pará. Importados de Portugal ou já fabricados no Brasil, tais artefatos generalizaram-se a partir da difusão da arquitetura neoclássica e eclética e estão presentes em incontáveis edificações espalhadas de norte a sul do país desde o século XIX. Por sua composição, exposição contínua a intemperismos, vandalismos ou procedimentos inadequados de conservação, esses ornamentos são muito vulneráveis, especialmente em ambientes de alta temperatura, umidade e poluição atmosférica, o que tornam urgentes medidas de inventário e preservação de um dos mais característicos traços da arquitetura imperial e da Primeira República brasileira.

Por fim, Heliana Angotti-Salgueiro realiza a resenha de um novo periódico francês dedicado à fotografia, denominado Transbordeur - Photographie, Histoire, Société. Com título retirado da ponte metálica de transbordo do porto de Marselha (destruída em 1944, mas com um similar muito próximo de nós, sobre o Riachuelo de Buenos Aires), o periódico lança mão desta metáfora para enfatizar sua característica de conexão e transposição disciplinar. Tal intenção é evidenciada pela resenha por meio do exame da multiplicidade de abordagens que superam a dimensão meramente técnica, formal ou autoral das fotografias, em direção a estudos que privilegiam as dimensões de seu circuito, com ênfase na produção, circulação, usos e práticas sociais das imagens, bem como de seu arquivamento e institucionalização, aspectos esses que certamente também interessam fundamentalmente a Anais do Museu Paulista e a seus leitores.

Maria Aparecida De Menezes Borrego Paulo César Garcez Marins Editores

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