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Estudos Afro-Asiáticos

versão impressa ISSN 0101-546X

Estud. afro-asiát. v.25 n.3 Rio de Janeiro  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0101-546X2003000300001 

Editorial

 

 

É com satisfação que apresentamos aos nossos assinantes e leitores mais um número da revista Estudos Afro-Asiáticos, editada conjuntamente pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos e pelo Centro de Estudos Afro-Brasileiros, da Universidade Candido Mendes.

No ano em que completou 25 anos de existência, nossa revista se orgulha de continuar a desempenhar um importante papel na divulgação de trabalhos científicos de qualidade, voltados para o estudo das relações raciais no Brasil, da diáspora africana e de aspectos históricos e socioculturais da Ásia e África.

Este número marca uma nova fase de nossa publicação, após o trabalho desempenhado por vários anos pelo Prof. Livio Sansone à frente da revista. Ao assumirmos em conjunto esta editoria, pretendemos continuar realizando, de forma responsável e competente, o trabalho de prospecção e seleção de artigos, sempre privilegiando trabalhos inéditos, frutos de pesquisas acadêmicas, que possam lançar novas luzes e ângulos de compreensão sobre tantos dilemas e impasses que permanecem presentes em nossos campos de pesquisa.

Este momento é particularmente relevante para a divulgação de trabalhos no campo dos estudos afro-asiáticos e das relações raciais no Brasil. O atual governo brasileiro, a partir de 2003, tem intensificado suas relações de aproximação com países da Ásia e da África, realizando, ao longo de seus primeiros dezoito meses, viagens a diferentes países da região, entre eles a África do Sul, a Índia e a China. Esta aproximação política e comercial tende a suscitar novas questões e temas de debate para os estudiosos de relações internacionais e particularmente das articulações entre estas nações que hoje lideram o bloco dos países em desenvolvimento.

Da mesma forma, a conjuntura política e social é oportuna em relação ao debate sobre relações raciais no Brasil. Vivemos, a partir de 2001 – tendo como ponto de referência a realização da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, África do Sul – um momento de grandes mudanças em relação às políticas de promoção da igualdade racial no Brasil. Diversas iniciativas têm sido desenvolvidas tanto por órgãos públicos quanto pelo setor privado, e também por organizações da sociedade civil, demarcando uma conjuntura nova e em permanente transformação. Notadamente, destacamos o debate e as iniciativas em torno dos programas de ampliação do acesso ao ensino superior, que têm mobilizado corações e mentes de diferentes setores da sociedade brasileira no período recente.

Procurando refletir sobre alguns dos desafios apresentados por esta conjuntura nacional e internacional, este número da revista traz sete artigos e uma resenha que cobrem diferentes aspectos históricos e contemporâneos sobre os temas em questão. Inicialmente, o antropólogo Richard Price, co-autor do já clássico trabalho O Nascimento da Cultura Afro-Americana – publicado pelo CEAB e pela editora Pallas em 2003 – brinda-nos com mais uma reflexão criativa e oportuna sobre diferentes nuances da presença dos africanos e seus descendentes nas Américas, demonstrando aspectos sociais e culturais que se manifestam a partir destes diferentes tipos de encontro. Price aborda este debate retomando questões teóricas levantadas em seus trabalhos anteriores, inclusive dialogando com seus críticos.

Em seguida, apresentamos o trabalho de Anderson Ribeiro Oliva, professor, em Brasília, de História da África, uma contribuição sobre tema extremamente oportuno na atual conjuntura sobre a luta contra o racismo no Brasil. Oliva reflete sobre as representações vigentes no material didático utilizado para o ensino de História da África no Brasil. Esta abordagem é particularmente oportuna neste momento em que diversos setores do governo, principalmente o Ministério da Educação e a Fundação Cultural Palmares, se mobilizam para colocar em prática as diretrizes e a definição do conteúdo para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras no país, em cumprimento à legislação vigente a partir de 2003.

Amauri Mendes Pereira nos oferece uma reflexão, também inédita e ousada, na qual desenvolve uma reflexão a respeito do atual debate sobre ação afirmativa e política de cotas no Brasil, para, a partir do mesmo, avançar numa análise mais abrangente sobre como o pensamento social brasileiro vem historicamente enfrentando os dilemas do racismo e das desigualdades raciais.

Aaron Myers, mestre em Relações Internacionais e pesquisador visitante do Centro de Estudos Afro-Brasileiros no período de setembro de 2003 a março de 2004, apresenta-nos um quadro atualizado e inédito das ações em curso voltadas para a promoção da diversidade no ambiente corporativo, em estudo elaborado a partir de uma pesquisa de campo realizada junto a empresas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O trabalho de Ivo de Santana, que atua na área financeira, aborda, por sua vez, o tema da intermediação de negócios no mercado africano, a partir da análise da atuação da Câmara de Comércio Afro-Brasileira.

Refletindo sobre a produção acadêmica voltada para as relações raciais no Brasil, Érika Mesquita nos traz uma contribuição original a partir da sua dissertação de mestrado em Sociologia que abordou a contribuição de Clóvis Moura para a Sociologia brasileira e para o estudo sobre relações raciais em particular. Ao publicar este artigo, aproveitamos também para prestar uma homenagem a este incansável intelectual e ativista contra o racismo, falecido recentemente.

Para completar, José Carlos dos Anjos examina dois processos correlacionados à constituição de elites intelectuais em Cabo Verde, enfocando a disputa das várias versões sobre a identidade cultural das ilhas e a problemática da mediação política e cultural, isto é, de como diferentes lógicas (política, literárias) se articulam na relação entre a posição de produtor cultural e a condição de mediação cultural e política.

Temos, ainda, na seção Resenhas, os comentários sobre o livro Álcool e escravos, do autor português José C. Curto, que sistematiza as implicações de uma atividade comercial que marcou as economias da África, do Brasil e de Portugal.

Esperamos que a edição de mais este número propicie uma ampliação e diversificação das perspectivas no campo dos estudos afro-asiáticos e das relações raciais no Brasil. Agradecemos a colaboração de todos os autores, pareceristas e das equipes do CEAA e do CEAB, que tornaram possível a elaboração deste número que agora chega às mãos dos leitores. Em particular, agradecemos o apoio permanente da Universidade Candido Mendes e do CNPq, que tornam possível a continuidade deste projeto.

Tenham uma boa leitura!

 

Milton Guran e Rosana Heringer
Editores