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Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo)

versão impressa ISSN 0101-6083versão On-line ISSN 1806-938X

Rev. psiquiatr. clín. v.32  supl.1 São Paulo  2005

https://doi.org/10.1590/S0101-60832005000700001 

EDITORIAL

 

 

Vinte e um anos depois do I Simpósio Brasileiro sobre Lítio, realizado em São Paulo1, quando se discutiu a insuficiência da assistência e do investimento acadêmico nos portadores de transtorno afetivo bipolar, condição médica para a qual já se dispunha de possibilidades eficazes de prevenção, é gratificante saber que o país conta hoje com um significativo contingente de psiquiatras com experiência clínica e competência científica específicas na área. Em parte, essa transformação se deveu aos programas de capacitação e atendimento especializado que emergiram em diferentes regiões do país, graças a iniciativas espontâneas de grupos de profissionais interessados em aplicar, na prática, aquilo que as pesquisas demonstravam ser eficaz para a promoção e manutenção da saúde desses indivíduos.

Infelizmente, ainda hoje, milhares de brasileiros com transtorno bipolar, geralmente aptos e criativos quando bem atendidos e em seu melhor estado de saúde mental, encontram-se desnecessariamente incapacitados pela falta de acesso ao que a moderna psiquiatria tem a oferecer. De fato, anualmente, mais de dez mil autorizações de internação hospitalar (AIHs) para mania e depressão bipolar, somente no Estado de São Paulo, atestam a ineficiência da política de saúde mental adotada no Brasil nas últimas décadas. Diferentemente do que ocorre na clínica privada e em vários dos nossos centros mais desenvolvidos, o Sistema Único de Saúde desvaloriza o atendimento psiquiátrico especializado e não fomenta programas eficazes de prevenção, que reduziriam drasticamente a demanda por leitos hospitalares, a morbidade, o sofrimento e os demais custos econômicos e sociais decorrentes dessa doença médica clássica.

Para reverter a atual situação e otimizar o atendimento a essa grande demanda reprimida, será importante selecionar prioridades e intervenções eficientes, tanto em termos de recursos terapêuticos quanto de objetos de investigação, além de informações válidas e relevantes para o treinamento e a educação continuada de técnicos e dos próprios pacientes e seus circunstantes.

Nesse sentido, tenho o prazer de apresentar este fruto do trabalho concebido e coordenado por Flávio Kapczinski, patrocinado pela Eli Lilly do Brasil e editado pela Velhos Guerreiros Editores. Ele contém uma síntese das evidências disponíveis na literatura especializada, referendada pela experiência clínica de um painel de profissionais de reconhecida competência em nosso país. Espero que esta publicação ajude aos responsáveis pelo atendimento aos pacientes que ainda acorrerão aos prontos-socorros enquanto os programas efetivos de detecção precoce e prevenção de recaída não estiverem amplamente implementados; aos colegas de outras especialidades e demais profissões de saúde que poderão encontrar aqui um guia para atualizar e complementar seus conhecimentos, em um tópico pouco enfatizado na formação profissional geral e aos colegas psiquiatras que não tenham mantido contato mais íntimo com esta que é uma das áreas clínicas com maior desenvolvimento científico nas últimas décadas (por exemplo, a Bipolar Disorders, em seu sexto ano de existência, está em 15º lugar entre as 88 revistas psiquiátricas indexadas no ISI).

Espero, também, que ela seja útil para os portadores de transtorno afetivo bipolar e seus familiares e amigos, que poderão verificar que tratamos de uma condição médica bem estabelecida e sobre a qual dispomos de conhecimentos sólidos, com pouca controvérsia diagnóstica ou conceitual, apesar das nossas dificuldades com a nomenclatura (algum dia nós vamos ter que escolher entre transtorno afetivo bipolar, transtorno do humor bipolar, transtorno bipolar do humor, transtorno bipolar, psicose maníaco-depressiva, doença maníaco-depressiva, transtorno bipolar maníaco-depressivo, com suas respectivas siglas, para denominar essa entidade identificável já no Velho Testamento).

Finalmente, espero que esta publicação ajude a quem, de fato, pretenda melhorar a saúde mental da população, pois investir em boa prevenção é melhor e mais barato do que remediar as seqüelas decorrentes da falta de atendimento competente e eficaz.

 

Valentim Gentil

Professor Titular de Psiquiatria da FMUSP, Presidente do Conselho Diretor do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP

 

 

1 GENTIL FILHO, V. Simpósio Brasileiro sobre Lítio (editorial). Jorn Bras Psiquiatria 33(4): 290, 1984.

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